I

 

Porto Oriental por Bonaventura Peeters (1614-1652)

 


 O Fim de uma Aventura

Holandeses

 

1

10 de Dezembro de 1631

 

– Graças a Deus, está vivo, Richie. Parece que sua cabeça é mais dura do que pensávamos.

A dor lancinante na fronte era impossível de suportar. O sangue em abundância cobria todo rosto do soldado Richshoffer. Embaçava seus olhos com tons rubros e escorria por seu corpo. Os sons de tiros de mosquete, estrondos de canhões e gritos do campo de batalha retornavam ao seu ouvido, sobrepujando o zumbido que antes silenciava tudo. Sentia-se tão fraco que o pescoço mal conseguia segurar a própria cabeça.

O soldado não soube quanto tempo esteve desacordado. Apenas lembrava de ouvir, primeiramente, a voz do amigo Spiessen. Este, que estava mais à frente do campo de batalha, retornou à posição do amigo quando soube que fora atingido na cabeça.

– Tenta não fazer esforço, Strasburguês – Toulon intercedeu. – Só aumenta o sangramento. Guarde as forças para se manter vivo.

Este logo se voltou para o outro amigo.

– Vá na frente, Spiessen. Deixe que eu carrego Richie até o acampamento, só me proteja no percurso.

Richshoffer sentiu seu corpo se elevar-se chão, erguido e colocado no ombro do franco-holandês. O sangue ainda lhe embaçava os olhos, mas ele sabia que o amigo Spiessen estava logo atrás lhe protegendo. No caminho quase acontece a este amigo uma grande desgraça, pois uma bala rasa de canhão, atirada pelo artilheiro espanhol, veio bater à distância de apenas um passo de Spiessen, lhe voando a areia por cima da cabeça. Não obstante, ele conduziu Richshoffer com outros feridos para um dos navios.

Este não demorou muito tempo a bordo, voltando logo para terra, com seu chapéu sobre o lado esquerdo para esconder a ferida. Tirou a atadura e deu graças e louvores ao Altíssimo por não haver logo ali posto fim à sua vida.

 

***

 

A batalha continuou neste terrível dia. Ao fim, houve muito o que fazer de ambos os lados com o enterrar dos mortos. Eram tantos, que quase se suspenderam o canhoneio e as escaramuças. Os holandeses, nestes cinco dias de batalha contra o Forte Cabedelo haviam perdido mais de quinhentos homens. Quatro vezes mais que os espanhóis. Por esta razão, os senhores oficiais compreenderam que, com tão pouca gente, nada mais de importância conseguiriam. O Conselho de Guerra, principalmente o tenente-coronel Steyn-Callenfels, comandante maior desta expedição, tomou um deliberação.

– Ao anoitecer, jogaremos fortemente de novo a artilharia contra a trincheira e faremos rebate falso como se outra vez a quiséssemos acometer. Assim, enquanto os espanhóis tomam a defesa, levantaremos o acampamento e retornaremos a Pernambuco. Esta desastrada expedição chegou ao fim.

Quando a escuridão se tornou completa, os holandeses untaram bem os reparos das peças com azeite que foram de novo transportadas para os navios. Em seguida os senhores oficiais jogaram os dados para dar a ordem na qual as companhias deveriam ser conduzidas a bordo. Como sempre, o Major Berstedt foi infeliz no sorteio. Coube à sua companhia ser a última e portanto a que ficava exposta ao maior perigo.

Antes da retirada, até a meia-noite, foi utilizada de toda a sorte de estratagemas e se tocou vários rebates falsos. Enfim, colocaram muitos morrões e tochas acesas em paus fendidos nos parapeitos, nas baterias e no acampamento, como se toda a tropa estivesse em armas. No entretanto, apressaram por embarcar nos navios.

Durante esta noite, os soldados holandeses dormiram melhor, seguros, sobre as tábuas do convés que nas barracas em terra. E, ao amanhecer do dia seguinte, o inimigo começou a fazer fogo com as peças da trincheira. No entanto, como os holandeses responderam dos navios e não da bateria, alguns temerários espanhóis se apresentaram diante das trincheiras e se atiraram para dentro delas. Não vendo sentinela alguma, transpuseram as mesmas e vieram aos magotes do acampamento que incendiaram. Ao perceberem que foram enganados, se puseram a gritar com todas as forças aos navios holandeses:

– Flamminco Cornudo!

Ao que, dos navios, os holandeses  responderam:

– Spaniola Cornudo!

Assim, amavelmente uns dos outros, os holandeses se despediram dos paraibanos. Fizeram vela. E chegaram ao porto do Recife e aos antigos quartéis dois dias depois.

O ataque à Paraíba terminou no mais completo fracasso.

 

***

 

Poucos dias depois, o major Berstedt chamou Richshoffer ao seu gabinete.

– Boa tarde, Richshoffer – disse o major.

– Boa tarde, senhor – o soldado respondeu. – Mandou me chamar?

– Sim, primeiro, para me certificar que está bem. Creio que o ferimento lhe não causou alguma seqüela ou dano permanente.

– Não precisa se preocupar, senhor, eu estou bem – o soldado respondeu. – O ferimento não foi profundo, apenas me deixou uma cicatriz de recordação.

– Ótimo. Segundo, gostaria de lhe dizer que antes mesmo de embarcarmos para Paraíba entreguei uma nota ao coronel Waerdenburch sobre o valor com que tem me servido. Recebi a resposta dele hoje. Fico feliz em lhe informar que foi promovido à patente de Sargento. Meus parabéns, garoto.

– Não tenho palavras para agradecer, senhor.

Richshoffer pensou que este dia, cujo reconhecimento lhe daria uma promoção, seria o dia mais feliz de sua vida. No entanto, ele não se sentia assim. Verdade seja dita, o vazio no peito era maior que seu orgulho.

Ele assim deixou o gabinete do major Berstedt.

 

***

 

Se não sentiu-se orgulhoso neste dia, no dia seguinte, foi acometido por uma grande tristeza. O mesmo mau sentimento que sofria toda vez que visitava o amigo Haus nas enfermarias do Porto do Recife, pois lá estava o rapaz de largas bochechas e sorriso bobo, como sempre, encolhido em seu leito, recostado na parede, olhando para o vazio, repetindo sem parar as mesmas palavras cheias de insanidade.

– Amie voltará para mim, eu a amo. Ela voltará para mim.

O rapaz não comia. Nem bebia. Nem sequer conseguia se vestir sozinho. Era um resquício do homem que fora um dia. Por um segundo, Richshoffer lembrou do dia feliz numa taverna de Amsterdã, em que estavam bebendo uma boa cerveja e degustando um delicioso arenque, enquanto discutiam alegremente coisas sem valor algum.

De quem foi a idéia de vir a Zuikerland?, a resposta já não importava mais. A única certeza era de que foi uma péssima idéia. Imerso neste pensamento, e na triste visão do amigo, nem percebeu a chegada de alguém no local.

– Dizem que a mente de um homem é como uma corda. Ela só agüenta ser esticada até certo ponto – era Charles de Toulon.

A resposta de Richshoffer foi imediata.

– Infelizmente, a corda de Haus se rompeu há muito tempo.

– Certamente, não é o primeiro soldado a chegar em tal estado, nem será o último. Na verdade, é mais freqüente do que nossos oficiais nos permitem revelar.

Richshoffer suspirou um amargo arrempendimento.

– Então creio que não preciso lhe explicar porque eu e Spiessen decidimos entregar nossa carta de resignação – então falou. – Partiremos de volta a Holanda, antes que nossa corda se arrebente também.

Toulon se manteve taciturno. Compreendeu bem a razão do Strasburguês, mas não pôde deixar de se surpreender.

– Tem certeza disto, Richshoffer? Soube que foi promovido a Sargento. Também recebi a mesma promoção.

– Hoje, o major Berstedt entregou minha promoção. Amanhã assinará meu passaporte de retorno. E, se Deus for realmente bom, nunca mais, nem eu, nem Spiessen, retornaremos aqui ao Novo Mundo.

– Fico triste em ouvir isso – o franco holandês murmurou. – Apesar de tudo o que aconteceu entre nós, sentirei a sua falta.

O Strasburguês, por sua vez, mantinha a voz firme.

– Devo dizer, Toulon, que sou eu quem estou surpreso em lhe ver ficar aqui. Tem mais ódio por este lugar do que qualquer outro. Porque não retorna conosco? – ele questionou, completando em seguida. – Não precisa provar nada. Nem a seu pai. Nem a ninguém.

O franco-holandês respondeu:

– Não espero que entenda, Strasburguês, mas é exatamente, por odiar tudo isto aqui, que eu quero ficar. Não me imagino em outro lugar.

Richshoffer olhou Toulon. Percebeu que em sua mão direita estava uma garrafa cheia de uma bebida transparente, produzida nesta terra. Era chamada de cachaça, a forte bebida alcoólica destilada da cana de açúcar.

Então comentou:

– Ainda é manhã, não acha que está um pouco cedo para beber?

– De forma alguma – disse Toulon já abrindo um tímido sorriso. – Na verdade, esta tem sido minha melhor companhia nos últimos meses. A única em quem pude confiar. Mesmo porque, o vinho de Espanha, que dizem ser tão forte, já não estava mais fazendo o efeito desejado.

– E acredita prudente, como sargento, beber de tal forma?

– Aqui, em Zuikerland, em meio a essa guerra, balbúrdia e completo inferno? Não apenas acredito ser prudente, como necessário – o sorriso se alargou. – Até mesmo um pré-requisito para poder entrar em batalha.

Richshoffer não pôde deixar de rir do comentário. E concordar. Em seguida, bateu nos ombros do antigo desafeto.

– Adeus, meu amigo. Quem sabe nos encontramos um dia.

O punho de Toulon bateu no peito de Richshoffer, o impedindo de deixar o local.

– Antes de partir, tem algo que desejo lhe revelar. – falou Toulon enquanto retirava algo do seu casaco.

Ele retirou o diário de Richshoffer. O mesmo que havia desaparecido, tantos meses atrás, roubado junto com suas roupas e pertences do baú.

– Meu diário? – O Strasburguês exclamou. – Não acredito que era o ladrão esse tempo todo, Toulon!

– O que posso dizer? Estava com muita raiva na época.

– Retiro o que disse antes, Toulon – Um meio sorriso surgiu na face de Richshoffer. – Espero nunca mais lhe reencontrar na minha vida. E, certamente, se isto acontecer, que não seja como um inimigo.

– Adeus, Strasburguês – disse um.

– Adeus, Toulon – o outro respondeu.

Ambos sabiam que nunca mais se encontrariam novamente.

 

***

 

Os dias passaram. Após o fracasso da campanha na Paraíba, veio o anúncio que o tenente-coronel Steyn-Callenfels também retornaria à Holanda. Se foi decisão sua ou do coronel, nunca se saberá. Sabe-se apenas que, dez dias depois, o coronel Waerdenburch, se sentindo estimulado pelo mau resultado na Paraíba, organizou uma nova expedição. Desta vez, para a capitania do Rio Grande. Foi um fracasso ainda maior, pois pensando o coronel Waerdenburch que com esta viagem ressarciria o que seu tenente-coronel perdera na Paraíba, no Rio Grande fez ainda menos, nem conseguiu avançar contra a fortaleza dos Reis Magos que a denfendia.

Richshoffer e Spiessen ainda fizeram uma última expedição a Serinhaém, no sul de Zuikerland, onde conseguiram pilhar mais algum alimento dos engenhos da região às margens do Rio Formoso. No retorno, logo estavam com os passaportes escritos pelo major Berstedt, embarcando numa pequena esquadra com quatro galeões de guerra e dez embarcações de transporte com parte da pilhagem que conseguiram. O almirante desta pequena armada, tendo ao lado o tenente-coronel Steyn-Callenfels, fez içar a bandeira indo a bordo com os capitães e alguns soldados veteranos, cujo tempo de serviço havia expirado.

Em seguida, o senhor Steyn-Callenfels, junto com os patrões dos quatro navios, se despediram amavelmente. Foram saudados, com salvas de canhões e mosquetes, por todas as outras embarcações que estavam ali ancoradas no Porto do Recife. Enfim, ambos Richshoffer e Spiessen acenaram para toda aquela costa em despedida com a total certeza que nunca mais a veria novamente.

E assim todos tomaram o caminho de volta à Holanda.

 

 

 

 

As Cores da Resistência

Brasilianos

 

1

10 de Dezembro de 1631

 

Nos limites sulistas da capitania de Pernambuco, já na comarca de Alagoas, um jovem negro com não mais que vinte anos de idade se mantinha em pé. Ao seu redor, a floresta de palmeirais fazia sombra sobre sua cabeça assim como um povoado com habitações de madeira e palha se entranhava na mata. O negro era filho de ex-escravos angolanos, se chamava Lázaro. O povoado era o já temido Quilombo dos Palmares, que cresceu enormemente nos últimos anos.

Lázaro aguardava uma importante pessoa no local quando uma criança de pele bem escura e com pouco mais de cinco anos de idade se aproximou. Ela brincava com uma pequena bola, feita de um entrelaçado das folhas de palmeira, que acabou correndo aos pés do homem.

Lázaro se ajoelhou e perguntou com um sorriso.

– Como é seu nome, criança?

– Ganga – o pequenino falou, ainda hesitante enquanto olhava com curiosidade a roupa do homem. Chamou-lhe a atenção o bordado em improviso no seu gibão, com a cruz que simbolizava o Reino Ibérico.

Reconhecendo a imagem, o pequenino continuou com mais perguntas.

– Moço, por que com essa roupa?

– Porque eu sou um soldado que luta para ajudar as pessoas – o soldado de negra tez respondeu com todo orgulho na sua voz.

A resposta da criança veio quase de imediato.

– Mas mamãe falou que essa roupa é de homem mau!

A criança mostrava um semblante confuso, com sua bola na mão. Não tirou seus brancos olhos do soldado. Antes que Lázaro pudesse responder, a voz feminina da mãe do infante lhe chamou o nome.

– Ganga Zumba, vá já para casa.

Ao ouvir estas palavras, o soldado negro levantou a cabeça. Percebeu que a mãe da criança estava acompanhada. Eram dois homens negros que empunhavam seus mosquetes contra Lázaro. Atrás deles, a mulher cobria sua negra tez com um belo couro de onça pintada sobre um vestido roxo de algodão. Em sua cabeça estava um belo chapéu feito do talhe de palmeiras.

Era a mulher que Lázaro estava aguardando.

– Rainha Aqualtune – ele se ajoelhou frente à mulher. – Soberana do povo que vive entre os nove rios de Palmares!

– Lázaro – a mulher desabafou uma notória decepção quando seus olhos atingiram o brasão bordado no gibão. – Vejo que voltou a usar seu velho fardamento.

Muitos foram os meses passados desde que Lázaro chegara no Quilombo dos Palmares. Ele foi um dos milicianos que tentaram impedir o desembarque holandês sob as ordens de Matias de Albuquerque. Com o fracasso da missão, o negro deixou para trás as terras onde nasceu e chegou ao Palmares como tantos outros.

Durante todo este tempo, ele se alimentou da boa comida temperada com o azeite da palmeira Pindoba e a manteiga produzida da raspa do coco. Participou das festas em homenagem aos deuses africanos em sincretismo com a fé cristã. Aprendeu a luta marcial utilizada pelos guerreiros na defesa do povoado. Fez muitos amigos desta raça da qual compartilhava os mesmos antepassados. Viveu muitos felizes momentos. A idéia de viver entre esse povo dominava sua cabeça. Ele já havia aprendido a viver sem o símbolo ibérico nas suas vestimentas e no seu peito.

No fim, tomou uma dura decisão.

– Tenho notícia de um capitão negro, chamado Henrique Dias, que está reunindo homens da nossa raça para lutar contra os holandeses. Sinto que é meu dever ajudá-lo,

O desdém se desenhou na face da rainha negra. Ela o questionou de forma desafiadora.

– Eu lhe dei uma nova vida, aqui, entre seus iguais, irmãos e parentes. Ainda assim deseja partir? Deseja partir para lutar ao lado daqueles que aqui trouxeram à força seus avós e acorrentaram seus pais?

Lázaro estava irredutível.

– Eu quem pergunto, minha Rainha, porque não faz o mesmo? Tenho certeza que receberá a gratidão de Pernambuco se vier comigo. Afinal, não tardará ao inimigo invasor chegar aqui.

– É ingenuidade pensar assim, Lázaro – a Rainha Aqualtune respondeu com firme voz. – Nunca conseguiremos a gratidão dos líderes pernambucanos. E, mesmo que fosse possível, a guerra é algo que não mais me interessa. Já comandei mais de dez mil guerreiros nas batalhas no continente africano. Já fui uma princesa. Já fui uma escrava. Hoje, liberta novamente, não desejo mais participar da arte violenta. Desejo apenas cuidar da minha família e do meu povo nestas terras que o destino me trouxe!

– Eu entendo – Lázaro enfim desistiu. – Mas espero que entenda porque tenho que partir, minha Rainha.

– Posso não entender, mas aceito – disse a Rainha. – No entanto, enquanto ainda estiver aqui, lhe ordeno que retire este seu fardamento. Essa insígnia não possui nenhuma importância aqui, só traz más lembranças ao nosso povo.

– Sim. Rainha.

Com estas palavras, Aqualtune deu as costas para o miliciano negro e partiu ao encontro do seu filho Ganga Zumba. Lázaro retirou o gibão do fardamento, mantendo apenas sua calça azulada e a camisa branca com botões semi-abertos pois, embora uma brisa refrescante atingisse seu corpo, o calor do local ainda o incomodava.

Dias depois, ele deixou seu lar em Palmares para trás.

 

***

 

Nos limites nortistas da capitania de Pernambuco, sete léguas distantes de Olinda, nos arredores da vila de Igarassu, a alma do negro Simão era tomada por um sentimento obscuro. Os olhos umedecidos fitavam o túmulo improvisado na sua frente. Era um túmulo que o próprio negro cavou. Era o túmulo do senhor de engenho a quem pertencia. Foi o homem que comprara seus pais antes mesmo dele nascer. Foi o homem que lhe deu o alimento desde seu nascimento, que lhe deu abrigo por toda vida e lhe ensinou o duro trabalho nos canaviais.

O velho senhor de engenho era duro e disciplinador. Marcas de chibatadas enveredavam o dorso nu do negro Simão, mas o negro apenas enxergava nele uma figura paterna. Era a única figura paterna que tinha desde a morte do pai, que caiu pelos mesmos duros trabalhos no campo.

– E agora, Simão? O que faremos? – Perguntou o outro negro que estava ao seu lado. Era outro escravo da senzala do finado senhor. – O que faremos agora que os holandeses mataram o velho?

Estas perguntas reacenderam no negro Simão a triste lembrança de como a vila de Igarassu estava em festa no dia anterior. Todos comemoravam dias santos quando os holandeses chegaram, ao meio-dia, sem serem descobertos. O coronel Waerdenburch atacou a cidade de surpresa. Disparou seus mosquetes sem dar qualquer aviso. Matou quem quer que estivesse na frente.

Foi um ataque bem planejado. Os holandeses atravessaram caminhos tortuosos e pedregosos por altos montes e estreitas veredas, não para matar soldados da Resistência pois sabiam não haver nenhum ali. Eles tinham um único objetivo: matar a população civil. Desejavam aterrorizar o povo ibérico para que não mais ajudassem o capitão-mor Matias de Albuquerque. O resultado foi um massacre de cem pessoas no vil ataque, incluindo trinta brancos, entre eles o velho senhor escravista. A cidade foi saqueada pelas tropas e o fogo foi ateado em algumas casas. Depois, o coronel holandês se pôs em marcha para o Forte Orange na ilha de Itamaracá.

Com esta lembrança, o negro respondeu a pergunta do companheiro.

– Continuarei servindo ao nosso velho senhor assim como Deus me destinou desde o meu nascimento.

– Do que está falando, Simão? – O outro negro argumentou: – O velho era viúvo e não tinha filhos, nem herdeiros. Seu engenho foi incendiado. Por acaso, se entregará como escravo a qualquer pessoa?

– Se não posso servir meu senhor no trabalho do campo, lhe servirei através da vingança.

– Nós deveríamos ir para Palmares. Tenho certeza que receberemos abrigo lá. Onde mais deseja ir?

O negro Simão tinha apenas uma resposta para essa pergunta.

– Irei até Henrique Dias.

 

***

 

Além de Lázaro e Simão, muitos negros ainda se uniram à causa de Henrique Dias. E assim, no dia 14 de maio de 1633, uma tropa de soldados negros apresentou suas armas em Bom Jesus. O líder negro miliciano chegou nos portões do forte pernambucano, não como simples soldado, mas como capitão de uma companhia de emboscadas. Era uma companhia de gente preta. Não eram mais que algumas dúzias de soldados, mas a determinação e habilidade compensava pelos números. Eles se tornariam uma das mais efetivas companhias da resistência pernambucana contra os holandeses.

Neste dia, Henrique Dias encontrou Matias de Albuquerque em frente aos portões de Bom Jesus.

– Entrem todos! Tomarei as providências para acomodá-los.

O capitão-mor estendeu a mão na direção dos portões de Bom Jesus. Eles se abriram para o exército de negros para que fosse mostrado todo um povoado com quase cinco mil pessoas convivendo juntas com um único objetivo: libertar Pernambuco do jugo holandês. Mostrou as habitações e as defesas, protegidas por sentinelas que vigiavam o perímetro sem descanso, pelas altas muralhas de pedras, armadas com canhões e circundadas por um grande fosso.

Matias apresentou Henrique Dias ao seu irmão, o Senhor de Pernambuco, Duarte de Albuquerque Coelho, e também ao renomado líder Felipe Camarão. Era uma grande honra, afinal, o capitão dos negros já ouvira falar da fama do líder indígena, antes chamado Poti e irmão de honra do grande capitão-mor Martim Soares Moreno. E foi o próprio capitão-mor Martim Soares Moreno quem chamou Henrique para sentar na mesa dos líderes da Resistência. Era uma honra sem precedentes deste grande veterano de guerra.

Infelizmente, a calma destes eventos logo terminou. Não demorou para os inimigos holandeses surgirem no horizonte. Três meses depois da chegada de Henrique Dias e seus exércitos negros, um exército de três mil holandeses cercou a serra onde foi construído o povoado de Bom Jesus. Era mais uma tentativa de deter a Resistência.

Henrique Dias entrou nos aposentos de Matias de Albuquerque, como sempre, mantendo a postura e etiqueta perfeita.

– Capitão-mor, meus exércitos estão preparados para o combate.

– Essa não é a primeira vez que os inimigos lançam um ataque de larga escala contra nós – o capitão-mor respondeu. – E todos foram rechaçados, como também serão dessa vez.

Por fim, este mostrou um sorriso no rosto enquanto relembrava das investidas holandesas anteriores. Tentou disfarçar sua preocupação enquanto completava a afirmação:

– Como pode notar, tem perdido toda a diversão.

A resposta do líder negro foi igualmente espirituosa. Era algo difícil de ouvir de Henrique dias, quem sempre manteve sua seriedade:

– Então, vamos lutar! Tenho que recuperar o tempo perdido!

Neste mesmo dia, contra esta grande força holandesa, Matias comandou os soldados brancos da Resistência. Felipe Camarão, ao seu lado, preparou os seus índios potiguares. E Henrique Dias levou os negros do seu exército. A força inimiga era poderosa. Eram três mil homens contra algumas centenas que defendiam Bom Jesus. A preocupação e a dúvida permearam suas mentes com o soar dos canhões que anunciaram o começo da batalha.

Felizmente, esta era uma guerra em que os Brancos, Indígenas e Negros estavam juntos num objetivo comum.

 

 

 

 

 

 

Sebastián Morra, Anão Bobo da Corte, por Diego Velazquez (1599-1660)

 

Os Loucos e Bufões

Nobreza

 

1

6 de Novembro de 1631

 

Já tarde da noite, em El Alcázar, o Conde-Duque de Olivares abria a porta de seu escritório percebendo que todos seus assessores já haviam partido. Assim, este obeso homem caminhou sozinho pelos corredores de sua ante-sala com um aperto insuportável na cabeça e uma sensação sufocante no peito. Mesmo sendo seu escritório bem amplo, o Conde-Duque o sentiu claustrofóbico demais. Nem conseguiu ir além de sua entrada, pois algo impediu seus passos.

O próprio Conde-Duque ornamentou este seu corredor com imagens de loucos e bufões desenhados pelos melhores pintores do Reino. Era um percurso que realizava diariamente. Neste dia, no entanto, havia algo estranho nos olhares das pinturas. O Conde-Duque os sentiu acusatórios. Ameaçadores. Aterrorizantes. Ele foi tomado por um grande terror. O coração palpitou. Pareceu que seu peito explodiria. Uma tontura súbita quase derrubou, mas ele conseguiu se apoiar na parede ao lado. Só então fechou fortemente os olhos. Esfregou-os para aliviar a ardência, visto que nem se lembrava de sua última boa noite de sono.

Ao levantar as pálpebras outra vez, seu olhar atingiu a pintura do bobo-da-corte de El Rey: Sebastián Morra. Era um anão, que o próprio Conde-Duque considerava pequeno e irrelevante frente ao mundo de gigantes ao seu redor. Considerava um ser insignificante cuja única função era fazer os outros rirem. As feições na pintura, no entanto, não eram mais as do anão. Eram as do próprio Conde-Duque de Olivares em seu lugar.

Ele esfregou os olhos outra vez, antes de uma voz misteriosa ecoar.

– O que houve de errado, Olivares?

As palavras bambearam as pernas do Conde-Duque por acreditar que a voz era do próprio anão na pintura. Graças a um esforço hercúleo, conseguiu se manter de pé. Apertou os olhos mais fortes. Desejava acordar de um pesadelo.

Quando os abriu outra vez, deu graças a Deus. Ele enxergou seu bom general Manuel de Gusmão, que lhe segurou o braço. Ajudou-o a levantar seu pesado e trêmulo corpo. Enfim respirou aliviado ao perceber que não estava louco. Então o respondeu.

– Não estou me sentindo muito bem, Dom Manuel. A cabeça está doendo. Estou com um pouco de tontura. Estou sob grande pressão ultimamente.

– Venha comigo, Olivares, que eu o levarei para casa.

– Não, não posso – o Valido tartamudeou. – Rumores estão rondando o palácio, dizendo que perdi a graça de El Rey, que deixarei meu cargo, que outro será escolhido em meu lugar.

A mão fria e suada do Conde-Duque já soltava o braço do general. Mesmo com dificuldade, conseguiu se equilibrar sozinho.

– Sua esposa me pediu para vir aqui – a cena calejada fez o general Gusmão retomar o seu pedido. – Disse que tem trabalhado até esta hora quase todos os dias e que mal tem lhe visto ultimamente.

O Conde-Duque manteve o silêncio. Nem mesmo prestou atenção nas palavras do general. Mantinha-se observando o quadro do bobo-da-corte, afinal, continuava a enxergar suas feições desenhadas ali.

– Algo de errado com aquela pintura? – o general perguntou.

– Não, a pintura está totalmente perfeita – o Conde-Duque respondeu.

A sua mão então tocou a maçaneta do escritório, fazendo a porta ranger ao se abrir. Ele enfim a adentrou. Proferiu novas palavras ao mesmo tempo que segurou uma taça de vinho que estava sobre a mesa.

– Sabe por que anos atrás eu coloquei as pinturas de bufões e loucos nos corredores, Dom Manuel?

O general caminhou direto à pequena adega na lateral do aposento, junto ao tabuleiro de xadrez de peças espalhadas e estante de livros do aposento. Abriu-a e tomou nas mãos um dos bons vinhos que estavam ali guardados. Nada respondeu, mas o gesto mostrou que estava disposto a conversar.

– Somos todos loucos e bufões – então, continuou. – Isso inclui todos os poderosos. Todos os políticos. Toda a corte. Todos!

O general mantinha o silêncio ao tomar para si uma outra taça, escutava seu amigo lhe falar.

– Eu estou incluído também, Manuel. Ah, sim. Eu também! Coloquei essas imagens para constantemente me lembrar disso.

Ele respirou mais profundamente.

– No fim, acabei me esquecendo.

Manuel encheu ambas as taças com o vinho.

– Mas ainda não sei se sou apenas um bufão, que finge ser mais poderoso do realmente é. Ou se sou um louco, que realmente acredita ter todo esse poder.

O Conde-Duque virou a taça, encharcando a boca com o vinho. Bebeu todo o conteúdo num único gole.

– Um palco ou um manicômio?, ainda não sei dizer em que mundo estou vivendo – o valido desabafou.

O próprio Conde-Duque agarrou a garrafa de vinho com os dedos. Encheu sua taça outra vez. O general Manuel de Gusmão aproveitou o silêncio do momento para o interromper.

– Precisa ocupar sua mente com outras coisas. Não pode deixar o trabalho o consumir. Não conseguirá fazer das pedras o pão, meu amigo!

O valido logo respondeu:

– Também não posso desapontar El Rey.

– Precisa ocupar a mente com qualquer outra coisa. Descanso. MúsicaLeitura. Caça. Cartas. Xadrez.

A última palavra de Juan Manuel fez o Conde-Duque levantar a cabeça num movimento brusco.

– Já estou num jogo de xadrez.

Ele apontou para o tabuleiro na lateral do aposento. O general analisou suas peças antes de falar.

– Com quem está jogando?

A questão fez um sorriso surgir na face do valido do rei espanhol.

– Com o cardeal Richelieu!

– O valido do rei francês?

O Conde-Duque formou um meio-sorriso.

– Ele gosta de ser chamado de primeiro-ministro – por fim, respondeu.

O general analisou ainda mais as peças no jogo.

– Espero que suas peças sejam aquelas do outro lado do tabuleiro – só então falou – Pois este lado já perdeu muitas. Maior parte dos peões. As duas torres. A rainha. Um cavaleiro e um bispo. Restam-lhe bem poucas.

O Conde-Duque nada falou. Apenas segurou, com a ponta dos dedos, o único bispo que restava deste lado do tabuleiro. Colocou-o bem próximo de seus olhos. Passou um longo tempo o observando.

– Infelizmente, este é o meu lado – por fim, desabafou.

 

***

 

Em portugal, dois corpos suados se entrelaçavam um com o outro, liberando a pressão exercida pelos hormônios lascivos em suas cabeças. A nudez dos seus corpos estava por completo à mostra. Seus rostos, no entanto, estavam ocultos por máscaras venezianas. A luxúria carnavalesca permitia suas fantasias se libertarem. Entre quatro paredes, atos antes subjugados pelo pudor, eram desemparedados. De bruços numa macia cama, a mulher sentia a tez do homem mascarado sobre seu dorso. Sentia-o puxar seus cabelos loiros para trás. Sentia o respirar masculino abrasando-lhe a nuca. Sentia o forte bater contra seus glúteos.

O suor gotejava de seus corpos. Os sons eróticos mudavam o ritmo de acordo com as posições. Deixou-os frenéticos e incontroláveis, até enfim o homem gritar como um animal no clímax de seu desejo. Expurgos de luxúria extravasaram sobre o dorso feminino. A mulher abraçou o homem por longos minutos. Beijou-o, até que ambos sentiram o cansaço evoluir ao sono. Dos braços de Afrodite, caíram nos de Morfeu.

Em meio a sua inconsciência, o homem acordou com o toque dos macios dedos femininos lhe removendo a máscara.

– Parece que fui a grande sorteada.

Disse a mulher, ao desmascarar seu amante. Reconheceu a face do Duque João de Bragança, o recém intitulado senhor destes domínios.

– Espero que tenha gostado do seu prêmio.

João respondeu com um sorriso. Em seguida, deslizou os dedos nas delicadas feições da mulher até encostar os dedos na máscara que escondia sua identidade. O seu primeiro impulso foi removê-la para descobrir quem era a mulher que lhe deu prazeres tão intensos como poucas vezes sentira antes.

No entanto, ele interrompeu a ação. Preferiu manter a identidade da mulher oculta. Retraiu sua mão.

– Pois eu adorei o meu – João continuou, retirando sorrisos de orgulho malicioso na moça mascarada. – Não lembro de uma melhor noite de prazer em toda minha vida.

As palavras denotavam a mais pura verdade. Esta havia sido sim uma das melhores noite de prazer da sua vida. No entanto, nem ele soube responder por que desistir de saber quem estava por debaixo da máscara.

– Desculpe-me ter que deixar estes aposentos, minha dama – o duque respondeu ao estender a mão até suas roupas no chão. – Ainda sou o anfitrião da festa que ocorre nos salões. Preciso retornar a ela.

Se foi tão bom, porque não saber seu nome? Porque não se permitir contatá-la novamente? Porque não repetir tão prazeroso ato no futuro? O duque se questionava. O que mais poderia desejar numa mulher além de uma boa noite de sexo?

Esta última pergunta o deixou ainda mais intrigado.

 

***

 

O abrir da porta fez o som da música ali orquestrada atingir seus ouvidos. Uma centena de pessoas ressurgiram aos seus olhos, ocultos por máscaras carnavalescas e dançando músicas instrumentais sob a meia-luz dos candelabros. A festa continuava, regada a muita bebida e comida. No entanto, um pessoa específica na multidão o surpreendeu. Alguém sem máscara, sem trajes de gala e sem encontrar o lugar certo no festejo. Era um primo distante que há muito tempo não encontrara. Um homem da alta nobre sangue português que passou seus últimos anos vivendo em Madrid.

– Dom Francisco de Melo! – João falou já sem a máscara. – Querido primo, que grande surpresa. O que faz por aqui?

O Duque o abraçava calorosamente.

– Eu vim congratular sua pessoa pelo novo título de Duque de Bragança.

– Agradeço enormemente sua atenção – João respondeu. – Chegou a tempo de aproveitar os festejos desta noite.

O jovem Duque já conduzia seu parente até os barris de vinho, mas Dom Francisco de Melo não era capaz de esconder seu desconforto com o ambiente ao redor.

– Por que não me avisou que vinha – o Duque perguntou ao lhe entregar uma taça de vinho. – Eu teria lhe preparado a devida recepção.

A resposta de Dom Francisco veio em seguida.

– Na verdade, desejava conversar com Vossa Excelência sobre as mudanças instituídas neste ducado desde sua elevação.

– Com prazer, Dom Francisco. Diga-me o que tanto lhe preocupa – o jovem Duque falou após tomar um bom gole do mesmo vinho

– Não poderia ser em particular?

– Olha ao redor, Dom Francisco – o Duque de Bragança estendeu os braços para evidenciar toda a festa. – Ninguém aqui está preocupado em ouvir os entediantes assuntos de governo e administração.

– Só peço discrição por que venho contar maledicências que algums pessoas espalham aos quatro ventos.

– Isso é sobre as fornalhas de vidro que mandei comprar? – o timbre de voz de João já repudiava um possível comentário negativo. – Maldição, estou tentando diversificar a produção de minhas propriedades, mas tudo que escuto são críticas!

– Não, senhor – Dom Francisco rebateu – Considero a iniciativa da fábrica de vidro bastante louvável.

João deu um novo gole na taça de vinho em suas mãos. Inicialmente, não demonstrou preocupação, mas as palavras seguintes do primo o surpreenderam.

– Na verdade, pessoas têm me reclamado dos comportamentos lascivos que sua corte ducal adquiriu desde sua elevação a Duque de Bragança. Festas. Bebida. Mulheres. E coisas do tipo.

Dom João não se conteve. Uma gargalhada ecoou alta e escandalosa. Afinal, havia toda a homérica festa ao seu redor com mulheres dançando, homens bebendo e casais correndo para os quartos do palácio ducal.

– Como deve ter percebido, não guardo nenhum segredo quanto a forma como aproveito os prazeres da vida.

– Vossa Excelência tem que entender que por décadas seu pai e sua avó governaram este ducado com uma natureza recatada e serena. Tem que entender que a criadagem e muitos dos fidalgos não estão acostumados com esse seu comportamento mais… mais…

Francisco de Melo gaguejava na escolha de suas palavras. Afinal, não desejava desagradar o novo Duque. Ele quis dizer inconseqüente, pecaminoso ou mesmo arruaceiro. Felizmente, outras palavras chegaram em seus lábios.

– … Mais festivo e expansivo!

– Ora, Dom Francisco, houve quem dissesse que o temperamento rígido e intransigente do meu pai beirava a descortesia. Como pode perceber, é impossível agradar a todos.

Dom João acirrou o olhar no primo.

– Os senhores desta casa agora são jovens solteiros. O que poderiam esperar, pelo amor de Deus? Que eu me torne um celibatário?

– Pelo contrário – Dom Francisco o interrompeu. – Vossa Excelência está com trinta anos. É um Duque agora. O que todos esperam de sua pessoa é que se casar com uma boa esposa, capaz de engrandecer o seu ducado.

– Uma esposa? – João respondeu esnobando da possibilidade.

– Nada mais natural para um Duque do seu nível.

A réplica de João, com igual seriedade, veio em seguida.

– Meu bom pai, Dom Teodósio, que Deus o tenha, passou a última meia década de sua vida procurando uma esposa para mim, sem sucesso na missão. Porque acredita que terá uma melhor sorte?

– Ora, se esta procura pode demorar anos, porque Vossa Excelência não começa agora?

João coçou o cavanhaque. O silêncio entre os dois permaneceu por algum tempo enquanto o duque se mantinha introspectivo.

Este enfim respondeu.

– Tudo bem.

Os olhos de Dom Francisco se alegraram. Dom João emborcou o vinho que tinha nas mãos num único e longo gole. Então continuou:

– Autorizo Vossa Senhoria, Dom Francisco, a procurar uma esposa para mim. Se a escolha me agradar, considerarei a opção.

– Sim, senhor – o primo respondeu. – Não hei de desapontar a Vossa Excelência.

Então deixou o ambiente com um sorriso no rosto.

 

 

 

 

Plattegrond do Cabo de Santo Agostinho por Johannes Vingboons (1617-1670)

Barreira de Arrecifes
Forte Nazaré

O Tempo de Novos Começos

Holandeses

 

2

13 de Abril de 1632

 

Os amigos Richshoffer e Spiessen contemplaram Zuikerland desaparecer no horizonte. Era o fim desta longa aventura. Em maio, já haviam atravessado a linha equatorial e aportaram na ilha de Santa Lúcia. Enquanto o capitão foi a terra encher barris de água, selvagens nus vieram de canoa ao seu navio com galinhas e toda a sorte de magníficas frutas para trocar por bugigangas e mercadorias velhas. Trinta pregos compraram sessenta bananas pequenas. Uma faca comprou quarenta bananas grandes. Um pente valia onze abacaxis. Um machado era trocado por três papagaios. Tudo era negociável. O mesmo comércio ocorreu na ilha de Martinica, São Domingos, Guadalupe e São Martim.

Em julho, foram recebidos em São Cristovão pelo governador inglês e bordejaram as ilhas de Santa Catarina e Hispaniola. Em agosto, sofreram borrascas no mar de Cuba e calmarias nas ilhas Cayman. E, em setembro, avistaram a terra firme da Flórida fazendo proa, através do oceano atlântico, direto para a Holanda. Atravessaram o grande mar Oceano. No entanto, antes de avistar a Inglaterra, ainda enfrentaram uma tormenta tão terrível que pôs a pique um dos navio e fez pensar que levaria todos os outros, principalmente, o navio dos dois amigos, que já era bastante velho e fazia tanta água, sendo preciso tocar ininterruptamente as bombas. Depois foram atacados por piratas de Dunquerque que se apoderaram de outro dos seus navio.

Em novembro, após atravessarem o estreito de Dover e Calais, chegaram em mares holandeses, pela primeira vez em três anos. Desembarcaram no porto de Texel, onde depuseram os mosquetes e receberam seus soldos. Depois de passar uma noite mal hospedada em Wesel, sofrer uma madrugada gélida em Ruthrot e duelar com franceses em Koblenz, os dois amigos se apartaram. O bom amigo Spiessen seguiu o rio Reno enquanto Richshoffer tomou percurso à Strasburgo, sua cidade de natal.

Richshoffer, após passar por Gutersblum, encontrou dois soldados a cavalo que, com carabinas a tiracolo, saíram do povoado em seu encalço. O jovem e experiente Richshoffer, percebendo a ação, os aguardou se manifestarem.

– Qual seu nome, ó viajante? Onde vai com esta bela espada?

Esta pergunta veio de um dos soldados enquanto descia da sua montaria. O olhar estava fixo na espada na bainha de Richshoffer de forma que, ouvindo essas perguntas, este apenas deu as costas enquanto lhes falava:

– Do que lhes interessa isso?

No entanto, enquanto caminhava para longe, sentiu o soldado colocar a mão em sua cintura, desembainhar e lhe roubar a espada.

– Ora, seu… Devolve minha espada agora.

O sargento Richshoffer bradou ao estender o mão na direção deste insolente homem. O soldado apenas puxou a espada para perto de si, a distanciando do dono e pôs-se a examinar a lâmina.

– É uma bela arma  – disse o soldado. – Apenas a entrego se provar que é digno dela vindo conosco se alistar na Companhia das Índias Ocidentais para combater nossos inimigos no Novo Mundo.

O sargento Richshoffer, veterano nas guerras pernambucanas, não conseguiu conter a risada. Apenas colocou a mão no bolso de seu casaco já alcançando o documento escrito por seu major. O documento revelava sua patente e experiência de guerra. Era algo que obrigaria estes dois soldados a mostrar respeito e subordinação à sua pessoa. No entanto, não continuou sua ação. Hesitou por um segundo, imerso em todas as lembranças dos três últimos anos de guerra. Não inverno tão frio em que os lobos não se devorem uns aos outros!, Richshoffer lembrou do ditado do seu comandante. Soltou o documento, deixando-o em seu casaco. Só levantou as mãos vazias para lhes falar.

– Quer saber? Pode ficar com a espada, pois desejo nunca mais precisar dela novamente.

Richshoffer deixou os soldados para trás. Prosseguiu o caminho desarmado. E, já perto de Landau, encontrou diversas carretas no mesmo percurso a Strasburgo, junto com mercadores de Luttich, com os quais seguiu viagem. Enfim, às vésperas dos festejos natalinos, chegou em sua cidade natal e bateu à porta de uma humilde casa. A senhora de grisalhos cabelos que o recebeu, ao reconhecer a face de Richshoffer, caiu em prantos. Chorou copiosamente. Abraçou-o. E o beijou. Foi quando o soldado, com iguais lágrimas nos olhos, falou:

– Mãe… Não imagina o quanto senti a sua falta!

 

***

 

Em Zuikerland, antes mesmo da chegada de Richshoffer ao lar, a situação do sargento Charles de Toulon era bem diferente. Ele estava no Cabo de Santo Agostinho. E, embora o céu estivesse bem azulado, caía uma chuva de mosquetadas e trovejava canhonaços desde os altos morros até as praias sob as quais faziam sombras. A areia sobrevoava sua cabeça. Mais reluzente que o prateado dos cristais arenosos na praia, era o rubro sangue que os tingia. Mais obstáculo que os arrecifes desta costa marinha, eram os corpos caídos por todos os lados.

– Recuar! – Os oficiais holandeses gritavam desesperados.

O sargento Toulon se apressava em correr de volta aos barcos. Tinha sobre seus ombros um destes oficiais feridos que gritava de dor. Era o capitão de sua companhia. Desde o princípio, esta expedição holandesa contra a fortaleza no Cabo de Santo Agostinho estava fadada ao fracasso. Logo que chegaram perceberam uma barreira de arrecifes aonde havia grande rebentação. As chalupas de transportes, com mil e quinhentos homens de onze companhias, tiveram que mudar o rumo. Buscar outro local para colocá-los em terra enquanto a fortaleza inimiga lhes cobria com o fogo de sua artilharia.

A situação já se mostrava terrível o bastante para constatarem que o único local da costa, capaz de possibilitar o desembarque, era uma pequena calheta de terra que avançava sobre o mar. Era tão pequena que era incapaz de comportar mais que cinco chalupas dispostas lado à lado. Não obstante disso e sem perceber a presença inimiga, o coronel Waerdenburch enviou as ordens para continuar o ataque. Foi um grande erro.

A emboscada estava armada. O inimigo surgiu da mata ao pé da praia e sobre os montes que a circundavam. A mosquetaria caiu pesada sob as companhias que primeiro tentaram desembarcar. Entre elas, a companhia do sargento Toulon.

– Esperem! Esperem! – Toulon gritava ao perceber as chalupas retirando suas âncoras e voltando ao mar.

– Vamos logo, rapaz! – O major Von Sckoppe, sobre uma das chalupas, lhe respondia em retorno.

Não havia como se apressar mais. Enquanto o sangue do capitão ferido encharcava a roupa do sargento Toulon e a areia fofa lhe esquentava os pés, o cansaço já fazia o peso sobre seus ombros aumentar. Apenas as ronqueiras das armas inimigas e os gritos dos homens ao seu redor lhe davam forças para continuar.

Enfim Toulon alcançou a chalupa. Alguns homens agarraram o homem moribundo em suas costas enquanto outros estendiam suas mãos em auxílio à subida do sargento na embarcação, puxando sua roupa empapada de sangue. O sargento Toulon respirou aliviado ao sentir suas costas tocarem a madeira molhada da embarcação.

Enquanto isso, o major Von Sckoppe observava tudo ao seu redor. Não haviam mais que duzentos espanhóis sobre aquela colina. No entanto, a vantagem do terreno os fez pensarem haver centenas mais.

– Como está o capitão? – Von Sckoppe perguntou ao ver a patente do homem ferido que fora carregado até ali.

O homem já estava sem vida. O soldado que cuidava dele apenas balançou a cabeça negativamente, entregando sua insígnia de capitão ao major Von Sckoppe. Um pesado semblante esmoreceu sua face. Houveram muitas perdas neste ataque, num momento em que o exército holandês mais sofria a falta de soldados.

– É uma pena – o major Von Sckoppe lamentou. – Infelizmente, sargento, carregou seu capitão nas costas em vão.

– Eu fiz o melhor que pude – o sargento respondeu.

– Eu sei. Fez bem. – Neste momento, Von Sckoppe reconheceu a face do sargento. – Mas corrija se eu estiver errado. És o filho do capitão Toulon, não é?

– Sim, senhor.

– Toulon Junior, se bem me lembro?

– Sim. Charles de Toulon Junior, senhor.

– Ótimo – o major proferiu. – Esta é a sua chance de provar que é melhor do que seu pai.

Ao fim destas palavras, o major Von Sckoppe arremessou a insígnia do capitão morto. Esta caiu a poucos palmos do jovem sargento.

– Acaba de ser promovido – Von Sckoppe continuou. – Agora é o comandante do que restou de sua companhia. Parabéns, capitão Toulon Junior

 

***

 

No outro dia, os dezoitos navios desta fracassada empresa já haviam percorrido toda a costa entre o Cabo de Santo Agostinho e o Porto de Recife. Os soldados holandeses, outra vez, desembarcavam com o mormaço da derrota. Depois das derrotas em Afogados, na Paraíba e no Rio Grande, tiveram o mesmo fim no Cabo de Santo Agostinho.

Para os holandeses, não havia muito o que celebrar embora com a promoção o jovem Charles de Toulon era uma das raras exceções. O franco-holandês cruzou as ruas do Recife, encoberto pela penumbra da noite, com uma garrafa de vinho na mão e um sorriso no rosto. Estava pronto para comemorar seu novo cargo de capitão. E sabia bem como e com quem fazê-lo. Logo chegou numa das maiores casas de alvenaria de Nova Holanda. Bateu algumas vezes numa de suas janelas.

– Quem está aí? – Uma voz feminina logo perguntou através da janela.

– O seu fiel amante, é claro – o recém-promovido capitão respondeu.

– Charles?

– Claro que sim. Ou esperava outro?

A porta da casa se abriu revelando a presença feminina de alva tez, louros cabelos, delicadas feições e olhos azuis, que lhe respondeu a pergunta.

– Meu marido, talvez.

Toulon esboçou um sorriso cheio de malícia e segundas intenções.

– Acabei de encontrar seu marido entrando na casa do coronel Waerdenburch. Ambos passarão toda noite discutindo os planos para o próximo ataque.

Esta foi a vez da jovem moça esboçar seu sorriso ainda mais repleto de malícias e segundas intenções.

– Ótimo.

O jovem capitão entrou na bela casa de alvas paredes, conduzido pela moça até seus aposentos. A comemoração pelo novo cargo do amante começaria regada a um bom vinho e terminaria debaixo de seus lençóis. O jovem franco-holandês iniciava esta celebração dizendo-lhe:

– A falta de Serooskerken foi realmente providencial, pois hoje este seu corpo é todo meu, senhorita Amália Strausskicher.

 

***

 

Nesta noite, e muitas outras depois, Toulon e Amália se deitaram às escondidas enquanto o esposo estava decidindo os destinos de Nova Holanda. Na verdade, mais que reuniões, nestes dias, Serooskerken e os outros conselheiros fuzilavam o coronel Waerdenburch pelas tantas derrotas sofridas nesta guerra.

– Chegaram notícias da Europa, coronel – disse um dos conselheiros. – E os Dezenove Diretores não estão nada felizes!

– Três anos se passaram e ainda estamos amargando terríveis prejuízos – disse outro. – Sem falar que ainda não engoliram bem a destruição de Olinda

– Estamos todos consados de sermos derrotados em todos os campos de batalha – um terceiro completou.

O fuzilamento de palavras recomeçara como usual. A resposta de Waerdenburch aos homens que chamava de ratos veio em seguida.

– Por acaso, Vossas Senhorias informaram aos Dezenove Diretores que conseguimos mais de cem mil moedas de ouro com as vitórias obtidas em Igarassu e em Barra Grande. E que talvez pagaremos os prejuízos deste ano!

Os conselheiros logo trataram de treplicar.

– Chama estas duas barbaridades de vitórias? – o primeiro conselheiro começou. – Pelo amor de Deus, deixamos de atacar o inimigo para pilhar civis!

– Então matará toda população deste continente? – outro questionou. – Que grande plano é esse?

O coronel logo interrompeu.

– O plano é mostrar à população que ela não está segura sob a proteção dos espanhóis. Atacá-los em suas próprias casas. Matar. Pilhar. Destruir. E, quando perceberem que os holandeses são os verdadeiros senhores do campo, lhes estenderemos nossa mão para que aceitem a nossa proteção.

Os olhos dos conselheiros rolavam ao alto. Um deles, bradou.

– Os Diretores demandam um ataque direto ao Forte de Bom Jesus!

A pálpebra do coronel começou a tremer ao sentir a contrariedade.

– Não atacaremos o Forte de Bom Jesus – ele lançou brados inconformados. – Continuaremos com as pilhagens! Mostraremos aos habitantes deste continente que, se não ficarem do nosso lado, todos vão se arrepender!

O conselheiro Serooskerken respondeu à bravata do coronel.

– Fará tudo o que os Dezenove Diretores mandarem, coronel!

– Enquanto eu estiver no comando, faremos as coisas do meu jeito – o coronel gritou de volta. – Se os Diretores não estiverem felizes com minhas estratégias, que me tirem do comando.

– Não se preocupe quanto a isto, coronel – conselheiro Serooskerken retomou a palavra. – É algo que já está sendo arranjado!

Era assim revelado que os Dezenove Diretores não estavam dispostos a renovar o contrato com o coronel Waerdenburch. No entanto, este não teve muito tempo para pensar sobre sua futura demissão. Uma voz logo surgiu, interrompendo a conversa.

– Os conselheiros estão certos, Waerdenburch.

Todos na reunião lançaram o olhar para este homem que falava com um forte sotaque espanhol. Era uma imagem que surpreendeu a todos.

– A melhor forma de mostrar aos habitantes de Pernambuco que o capitão-mor Matias de Albuquerque não é capaz de protegê-los é atacar o inimigo onde mais dói. É conquistar suas principais praças.

Ao reconhecerem a face do espanhol, muitos dos oficiais tomaram suas armas na mão e as apontaram contra o sujeito.

Os conselheiros, assustados, começaram a bradar.

– Este homem é quem eu estou pensando?

– Sim, é um dos principais capitães espanhóis!

– É o braço direito do governador Albuquerque!

– Deus, o que ele faz aqui?

Outro grupo de oficiais no entanto mantiveram a calma. Conheciam bem as recentes ações deste homem. Foi este o traidor dentre os espanhóis que guiou o ataque à Igarassu, depois à Barra Grande. Estes oficiais ficaram felizes ao vê-lo ali, tendo este espanhol já  mostrado seu valor e suas intenções à causa holandesa. Ainda mais felizes ficaram quando ouviram suas palavras seguintes.

– É verdade – este traidor das forças espanholas começou a falar. – Matias de Albuquerque me confiou todos os segredos de sua Resistência.

Por fim, completou.

– E será com esse conhecimento que eu levarei os holandeses à vitória.

 

 

 

O Bom Selvagem

Brasilianos

 

2

31 de Abril de 1632

 

A capitania do Rio Grande sempre teve um crescimento modesto desde que foi conquistada. A sua pouco habitada capital, a cidade de Natal, recebeu este nome quando o exército ibérico entrou com toda a prosperidade pela barra do Rio Potengi no dia de Natal de 1597, em que se começava o de 1598. Mais de vinte anos após sua fundação, a cidade não conseguira reunir sequer vinte residências e a capitania toda, não mais que duzentos moradores. Em número de engenhos, tinha apenas dois, porque a terra era muito escalvada e arenosa, sendo a criação de gado sua principal atividade econômica.

Era uma capitania pequena cujo único expoente era a bela Fortaleza dos Reis Magos, que ficava a uma légua da cidade. Ela foi considerada pelo finado espião holandês Adriaen Verdonck como a melhor que existe em toda esta costa. Era muito sólida e bela, construída no formato estrelado com dois baluartes de artilharia voltados para a terra. Tinha uma praça central quadrangular, onde no centro dela estava a capela onde os soldados tinham missa.

Ao redor da praça central, estavam doze alojamentos. Cada um desses alojamentos tinham sua função. Havia o aposento do capitão-mor, seis aposentos destinados aos soldados, e cinco alojamentos funcionais: o armazém de armas, a casa de pólvora, o paiol de alimentos, a cisterna de água e o calabouço. Exatamento neste último alojamento um distinto indígena visitava um dos prisioneiros. Era um índio potiguar vestido com um casaco de couro e placas metálicas de um soldado Europeu. Estava armado com mosquete e espada.

Era o grande líder Felipe Camarão.

– Ainda me dói quando o vejo aqui, tio Jaguarari.

O líder Felipe Camarão murmurou para o outro índio, este, com roupas rasgadas e grilhões nos punhos. Estava ali aprisionado havia oito anos. Fora condenado por traição contra o Rei Ibérico durante a primeira invasão holandesa.

– Cometi um crime, Felipe – o prisioneiro desabafou. – Preciso pagar pelo meu erro!

A paz entre potiguares e portugueses começou na capitania do Rio Grande quando pai de Felipe Camarão, o Camarão Grande, ergueu uma cruz nas praias da capitania junto com padres jesuítas. Enfim, para essas pazes ficarem mais firmadas, enviou um irmão como embaixador à Pernambuco com muita gente dos potiguares. Lá, eles fundaram a Vila de Miritibi juntos aos padres jesuítas.

Nesta recém-fundada vila pernambucana, o pequeno Felipe Camarão foi enviado para ser criado e educado pelos jesuítas. Ele aprendeu a fé cristã, os bons costumes, o português, o espanhol e o latim. Só retornou à sua terra-natal uma década após a morte do seu pai, já em idade adulta, no contexto da primeira invasão holandesa. Retornou para combater um grupo de potiguares revoltosos, que haviam quebrado a aliança que seu pai firmara. Estes foram enfeitiçados pelas promessas dos invasores e tomaram armas contra o Rei Ibérico.

– Estou aqui há oito anos, desde que me colocaram estas correntes – o índio prisioneiro retomou a palavra. – Por que motivo vem até mim depois de tanto tempo?

O grupo de revoltosos era liderado por dois irmãos de Camarão-Grande, tios deste Felipe Camarão. Um deles, era este índio aprisionado, Jaguarari, que sempre foi mais hesitante de sua decisão. O outro, se chamava Tiguaruçu, que empunhou as armas contra a Coroa Ibérica sem pestanejar. Eles foram derrotados pelas forças de Felipe Camarão naquela ocasião. A vitória elevou o status do jovem guerreiro a líder máximo dos índios potiguares. Quanto ao destino dos revoltosos tios, o primeiro foi aprisionado nesta fortaleza enquanto o segundo foi morto pelo próprio Felipe Camarão sob o crime de traição.

Nem todos os índios revoltosos tomaram o mesmo destino de Jaguarari e de Tiguaraçu. Alguns foram salvos pelos holandeses ao embarcar nos navios invasores. Cerca de vinte indígenas foram levados para a Europa para nunca mais serem vistos. Pelos menos, até essa nova invasão.

Nesse momento, um nome proferido ressonou como nenhum outro.

– Pedro Poti voltou! – Felipe Camarão respondeu ao tio.

De todos os revoltosos, nenhum desejava mais o sangue português que o filho de Tiguaruçu: o tal Pedro Poti. Ele conduziu os holandeses em sanguinários ataques. Matou dezoito portugueses em povoados vizinhos. Escravizou seis moças brancas e alguns meninos.

– Ele esteve entre os holandeses durante esses anos todos – o jovem líder potiguar continuou. – Aprendeu o idioma, os costumes e a religião dos hereges. Agora retornou. Entrou em contato comigo esta manhã. Deseja conversar comigo sobre a situação dos potiguares na guerra.

O índio Jaguarari tomou um passo a frente. Avançou sobre as grades da cela. As correntes que prendiam seus punhos tilintaram ao bater na porta metálica. Suas mãos se cerraram nela. Seus olhos se encheram de ódio.

Por fim proferiu.

– Não o deixe Pedro Poti escapar dessa vez, Felipe!

Era notória a culpa que o prisioneiro carregava sobre o índio Pedro Poti. Afinal, suas palavras fizeram Jaguarari levar sua própria esposa e filho aos líderes holandeses para o convencer da traição contra a Coroa Ibérica.

Com essa lembrança em mente, o prisioneiro incitou:

– Mate-o antes que ele cause mais desunião entre o nosso povo!

 

***

 

O encontro de Felipe Camarão e Pedro Poti foi marcado nas terras da Baía da Traição. Era uma região que, iniciando nesta baía e indo terra adentro, era conhecida pelos indígenas como Capaoba. Ficava exatamente na fronteira entre a capitania do Rio Grande e da Paraíba.

Ao chegar no local, os olhos de Felipe Camarão encontraram uma figura solitária, sentado sobre as areias daquela costa amrinha. A pele cor de cobre, os cabelos negros lisos que recaíam sob a testa e o rosto imberbe não escondiam sua origem indígena. As roupas se misturavam. Tinham vestimentas colonizadoras cobrindo todo o corpo e penugens ornando os braços, orelhas e pescoço. Era uma mistura cultural tão visível quanto a do próprio Felipe Camarão. Era o guerreiro Potiguar que passou oito anos desaparecido.

O ranhido dos cristais de areias sob as botas de Felipe Camarão denunciaram sua chegada, de forma que o tal Pedro Poti nem precisou se virar.

– Olá, Felipe – ele falou num tom exclamativo, ainda sem se mover. – Já havia me esquecido como é boa a sensação de um mar de águas quentes.

– Oi, Pedro – a resposta veio num tom mais grave – Sim, oito anos é realmente muito tempo.

O idioma falado era o Tupi, mas este já não era tão fluente em Pedro Poti.

– Pode relaxar o punho desta espada – este falou, sem precisar se certificar que o atual líder Potiguar apertava o cabo da arma na cintura. – Não estou armado, nem esqueci nossos costumes. Mantenho minha honra quanto a este encontro, assim como sei que manterá a sua.

A mão de Felipe Camarão relaxou. Soltou a espada. Aproximou-se do primo que o confrontou há oito anos. Pareceu-lhe ter ocorrido em outra vida. Em seguida, se sentou ao lado dele. Ambos contemplaram o quebrar das ondas juntos quando a voz de Pedro Poti continuou:

– Também já lhe perdoei por ter assassinado meu pai, por ter derramado seu sangue sobre essas mesmas areias!

– Seu pai cometeu um crime – Camarão retrucou. – Cumpri o meu dever, pois a traição dele causou grande penúria ao nosso povo.

– Não vim fazer acusações, Felipe – Poti continuou. – Vim lhe estender a mão, pois quero que tome o lado certo dessa vez.

– E eu vim fazer o mesmo por Poti – o líder Potiguar respondeu. – Não posso deixar de cumprir as promessas e deveres contraídos com nossos antepassados, isso é, de guardar a todos os da nossa raça. Vim, portanto, de Pernambuco, a fim de lhe zelar e garantir. Ainda que antes tenha procedido mal, vim lhe tirar das garras dos inimigos. Desejo que se afaste dele, pois este país nos pertence e, caso se conserve do lado holandês, será por fim atacado e aniquilado. Os Holandeses hão de lhe abandonar e partir nos navios para a sua pátria outra vez.

Ao fim destas palavras, pela primeira vez, Pedro Poti volveu sua cabeça. Encarou os olhos de Felipe Camarão. Falou num tom grave, cheio de soberba.

– Então essa é a mentira que conta aos nossos irmãos?

O embate de pupilas se iniciou. As pálpebras se contraíram quando Felipe Camarão retomou a palavra.

–  Sabe perfeitamente bem como os Portugueses são ricos em todas as praças até o Rio de Janeiro, São Paulo, Maranhão e tantas outras onde eles tem inestimavel riqueza para poder fazer bem ao nosso povo. Verá isso. É preciso apenas que passe para o nosso lado. Os holandeses, pelo contrário, são pobres e fracos, como sempre os deve ter visto e achado até hoje. Nada possuem além da lingueta de terra onde está o Porto do Recife.

O sorriso de Pedro Poti se alargou.

– Ah, Felipe – o sorriso se tornou irônico. – Nem mesmo conhece essas cidades a que faz citação. Sua experiência de vida nunca extrapolou as fronteiras entre Pernambuco e o Ceará! Eu por outro lado já estive do outro lado do Mundo. Conheci a Holanda e tantos outros países europeus. Não imagina o quanto está errado!

Felipe Camarão percebendo não convencer seu primo, tentou o seu último argumento.

–  Pelo menos, pensa na sua salvação, Pedro. Como verdadeiro cristão, tem não somente de cuidar da vida mas também da alma. Deve saber que somos todos súditos de Sua Majestade Católica. Que Deus o inspire e faça reconhecer os erros para que consiga ao menos a salvação divina.

– Sou Cristão também, Felipe: um Cristão Protestante! – Em tons mais sérios, o primo contestou as palavras do líder potiguar. – Creio só em Cristo, sem macular a religião com idolatria de imagens e santos, como se faz na prática católica! Não se preocupe. Minha salvação está garantida!

O olhar de ambos se encheram de gravidade. O silêncio persistiu.

– Essa discussão é inútil – o líder Camarão desabafou num tom mais grave. – Nós sabemos como esta conversa terminará.

– Infelizmente, terminará nos campos de batalha.

Pedro Poti expirou decepção. Deu as costas para o primo. Caminhou para a mata costeira. Enfim, completou.

– Assim como começou.

 

***

 

Felipe Camarão não sabia, no entanto, que dias antes, o capitão-mor Matias de Albuquerque estava em seus aposentos. Tentava analisar os mapas da capitania, entender como impedir os possíveis ataques inimigos. Infelizmente, os inimigos tinham muitas embarcações ao seu dispor. Eram capazes de saltar em qualquer ponto da costa.

Infelizmente, por mais que tentasse analisar aqueles mapas, algo o impedia. A cabeça lhe doía. O corpo mal se sustentava de tão cansado e dolorido. O suor lhe descia a fronte. As mãos tremiam. Era uma situação que vinha o acometendo com certa nos últimos dois anos. Era uma das descomodidades de lutar num continente tão selvagem e rústico, no meio do matagal, em meio aos mosquitosque proliferavam na região.

O estado fraquejante foi logo percebido pela bela mulher que adentrou o local. Era a jovem senhora de engenho chamada Ana Paes, que deteve o passo e arregalou os olhos com a visão do corpo adoentado do capitão-mor.

– Está acontecendo novamente?

Ele apenas balançou a cabeça em afirmação. Ana Paes testemunhara situação semelhante antes. Era chamada de uma Febre Terçã.

– Vá para sua cama, Dom Matias, pois está suando de Febre! – Ana Paes exclamou. –Vou pedir para a escrava trazer um lenço molhado.

A moça sabia que os sintomas se repetiriam em ciclos de três dias, sendo o primeiro com febre e os dois seguintes sem febre, até o fim da crise que poderia durar semanas. Eram crises às quais o capitão-mor se submeteria uma ou duas vezes ao ano pelo resto da vida.

– Eu estou bem – por fim, a mão trêmula do capitão-mor afastou Ana Paes. – Esta crise não está tão intensa – então olhou para a moça, questionando o motivo de sua visita. – Diga-me o que a trouxe aqui hoje. O que lhe aflige?

A moça se sentou na cadeira ao lado, para expor os motivos de sua vinda.

– Propostas holandesas chegaram ao meu engenho para que eu tome o lado deles – Ela falou.

– Não seria a primeira vez – o capitão-mor respondeu.

– Desta vez, me preocupou pelo conteúdo. Eles falam em amor Cristão. Falam em reduzir os impostos. Falam em livre-comércio com outras nações. Estão com um discurso muito mais conciliador que das outras vezes.

Quando Ana Paes terminou de falar, Matias se levantou apesar do corpo visivelmente combalido. Apertou o ombro dela com suas mãos trêmulas. Tentou confortá-la de suas preocupações. Tentou mostrar um sorriso, embora bem limitado pela doença.

– Os hereges não vão conseguir comprar os nossos homens – o capitão-mor falou com toda a certeza de seu âmago.

Ana Paes respirou profundamente outra vez.

– Infelizmente, Dom Matias, acredito que eles já fizeram isso – ela desabafou. – Igarassu não foi um caso isolado.

Essas palavras causaram mais calafrios no capitão-mor que os causados pela doença. O ataque a Igarassu foi liderado pelo próprio Waerdenburch. Ele conseguiu driblar todos os pontos de defesa até a cidade marchando quinhentos homens por altos montes pedregosos e depois por uma passagem estreita por onde só podia passar um homem de cada vez. Assim, conseguiu saquear a cidade e conquistar riquíssimos despojos.

Todos se perguntaram como os holandeses conheciam tão bem o terreno, por isso, as palavras de Ana Paes eram tão preocupantes.

– O novo ataque ocorreu agora na Barra Grande, na comarca de Alagoas. As semelhanças são notórias. Um grande número de soldados enveredou dali para o interior, obra de quatro léguas, em direção sul por estradas muito fatigantes e perigosas por cima de altos montes pedregosos. Saquearam muitos engenhos e casas, desviando de todas as estância de defesa.

Ela moça primeiro suspirou.

– Infelizmente, acredito que um dos nossos passou para o lado inimigo e é alguém com grande conhecimento de nossas estratégias! – por fim, completou.

– Não tenho mais dúvidas que temos um traidor em nossas fileiras!

 

 

A Esposa para o Duque

Nobreza

 

2

13 de Abril de 16 j,32

 

Após horas no interior dos verdejantes bosques de Vila Viçosa, junto com seus sonoros cães e obedientes monteiros, o Duque João de Bragança e seu irmão Eduardo atravessaram, triunfantes, os portões de sua propriedade. Uma corça acastanhada e um pequeno javali, mortos por seus mosquetes, eram carregados por criados que os acompanharam na caçada.

Orgulhosos, ambos poderiam aproveitar o resto da tarde de domingo para descansar. Dom João já tomava caminho da sala de música. Era a atividade que lhe agraciava momentos tão bons quantos os de uma boa caçada. Ao atravessar os luxuosos corredores de mármore do seu palácio ducal, seu estribeiro-mor se aproximou para relatar sobre o coche que chegara pela manhã.

Contou que o primo Francisco de Melo retornou mais cedo do que João esperava. Mais cedo do que desejava. Ainda assim, curiosidade e excitação tomaram conta de sua mente para ver os frutos da missão a ele confiada. Era a missão de lhe encontrar uma noiva que fosse à altura da Casa de Bragança.

– Não esperava encontrar Vossa Senhoria tão cedo, Dom Francisco.

– Trago notícias da missão que Vossa Excelência me incumbiu.

O duque não demonstrou delongas ao tocar no cerimonioso assunto.

– Então? Escolheu uma mulher digna de ser minha esposa.

– Posso dizer que trago uma opção que acredito lhe agradará.

O Duque caminhou na direção da janela do aposento.

– Por anos, meu pai, Dom Teodósio, antigo senhor desta casa, tentou negociar o meu casamento com Casas Ducais italianas. Parma, Modena e Mantova. Pergunto se Vossa Senhoria seguiu a mesma linha de pensamento.

Balançando a cabeça negativamente, Dom Francisco de Melo claramente repudiava tais escolhas do velho Duque Teodósio.

– De forma alguma, Excelência. Em minha humilde opinião, as uniões propostas por seu pai eram verdadeiras quimeras. As diferenças de língua, geografia e ambições são enormes. Não é a toa que o velho Duque não obteve sucesso.

– E o que sugere?

– Em Portugal, as opções são escassas. Além de Vossa Excelência, há apenas dois outros Duques. O Duque de Terras Novas possui apenas uma filha de dois anos de idade. O Duque de Caminha, com apenas dezoito anos de idade, não possui descendência ainda. E casar-se com a filha de um Marquês ou Conde está muito abaixo de sua posição.

Dom Francisco encheu o peito de ar.

– Casar-se na Espanha é a melhor opção – então, concluiu.

– E o que a Espanha me oferece? – o Duque o questionou.

Dom Francisco caminhou dois passos para frente. Aproximou-se do Duque. Olhou-o bem nos olhos para analisar sua reação.

– Há duas possíveis pretendentes. A primeira é Mariana, filha do Conde de Oropesa. Apesar do título inferior, é capaz de oferecer um grande dote para aumentar sua fazenda.

– E qual é a segunda opção?

– A Casa de Medina-Sidônia. Com o prestígio deste Ducado, esta é uma excelente oportunidade para consolidar sua posição de maior fidalgo da Espanha.

– Entendo.

– Por isso lhe digo com toda a certeza que, se Vossa Excelência houver de casar na Espanha, só o poderá fazer na Casa de Medina-Sidônia!

O primeiro pensamento de João foi nas palavras do pai em seu leito de morte. A má lembrança do velho Teodósio descrevendo como fora aprisionado nesta casa pelo duque predecessor. O segundo pensamento foi a boa lembrança no amigo Gusmão, o herdeiro sucessor. O vácuo de palavras ocasionadas pela imersão de João nestes pensamentos foi logo preenchido pela descrição de Dom Francisco sobre esta Casa Ducal espanhola.

– A Casa de Medina-Sidônia, mantida pela família Gusmão, é a principal casa de Andaluzia. É poderosa, rica e tradicional. O atual Duque é um dos maiores generais de El Rey. Além disso, está avizinhada com as terras portuguesas a apenas cinqüenta léguas de distância.

Dom Francisco não segurava o entusiasmo.

– A pretendente tem dezessete para dezoito anos. É morena e formosa. Olhos negros grandes. Dizem-me que possui extremadas partes, mas não se preocupe que já estou a negociar um retrato.

– Luísa é o nome dela, estou certo? – O Duque mostrava deter maior conhecimento da casa do que Dom Francisco esperava.

– Exatamente, Excelência. Luísa Maria de Gusmão.

Os olhos de Dom Francisco de Melo estavam ainda mais analíticos sobre a face do Duque, principalmente, ao proferir a pergunta da qual tanto desejava escutar a resposta.

– O que o Duque de Bragança pensa desta noiva?

Quando Dom Francisco percebeu o sorriso de contentamento no rosto de João, soube neste instante que sua busca havia terminado. Verbalizar uma resposta era certamente desnecessário.

O jovem Duque ficou contentíssimo com a opção!

 

***

 

Meses depois, um rapazote realizava um elogio ao obeso Conde-Duque de Olivares, que se sentava na sua frente. Era o jovem Gusmão, nobre rapaz de trinta anos e herdeiro de Medina-Sidônia. Ambos estavam no escritório do Valido de El Rey na Torre Dourada de El Alcázar, pois, para que o casamento do Duque de Bragança e sua irmão ocorresse, era necessária aaprovação de Sua Majestade. Era exatamente sobre esse assunto que ambos conversavam.

– Admiro Vossa Excelência – ele começou. – Com as recentes derrotas contra a Holanda e a Suécia, me admira estar lidando tão particularmente em assuntos tão banais.

O Conde-Duque assinava o documento trazido pelo jovem rapaz. E, ao finalizar essa assinatura, já encostava seu dorso no acolchoado da poltrona. O seu ar cansado revelava que as tensões inerentes à sua posição já atingiam tanto seu corpo quanto seu espírito. Era um esforço imenso, na sua atual condição, sequer dizer uma simples frase.

– A preocupação é justificada quando vemos os noivos envolvidos – o Valido enfim reuniu as forças necessárias. – São os casamentos que ditam o comportamento dos nobres e os objetivos de cada casa familiar. Todo o poder de El Rey está exatamente no controle dos nobres e das famílias da corte.

As suas palavras seguintes eram mais desabafo que resposta.

– Veja, por exemplo, o casamento que acabei de negociar entre o filho do Imperador e a irmã de El Rey. O casamento ocorrerá daqui a três dias e funcionará como um acordo de paz mútua entre nossos reinos. Por outro lado, veja o que ocorreu depois do casamento da herdeira de Mantova com um duque francês. Assim como o de Victor Amadeus e a infanta francesa Christine Marie. Se não fosse por eles, talvez não tivéssemos perdido os ducados de Mantova e Sabóia.

– Devo apontar que estas são negociações entre diferentes reinos.

O Conde-Duque desencostou de sua poltrona, se aproximando do rapaz.

– Não se engane, meu rapaz. Cinqüenta anos atrás Portugal era um Reino independente, mas perdeu essa independência em razão de acordos matrimoniais que colocaram em dúvida sua sucessão. Agora cabe a mim que sua soberania continue como está, nas mãos de El Rey Filipe da Espanha e de sua família.

Por fim, o Valido concluiu.

– É preciso realizar uma política de casamentos, para mesclar o sangue nobre de Portugal e de Espanha, confundindo suas origens.

O jovem então concluiu o pensamento.

– Então, esta união entre minha irmã Luísa e o Duque João de Bragança cabe perfeitamente nos planos de Vossa Excelência.

Era a primeira vez na conversa que os músculos fatigados da face do Conde-Duque esboçavam algo próximo de um sorriso. Com voz maliciosa, proferiu a frase que encerrou a discussão deste dia.

– Sim, pois quanto mais a herança portuguesa estiver diluída na Espanha, maior será o poder de El Rey sobre ela.

 

***

 

O jovem Gusmão retornou ao seus domínios em Andaluzia, na poderosa Casa Ducal de Medina-Sidônia. Primeiro surgiu o Castelo de Santiago, com suaestrutura se destacando nos horizontes urbanos da cidade de Sanlúcar de Barrameda. Foi construído numa fundação quadrangular em torno de um pátio central e defendido por duas muralhas paralelas, uma principal e a segunda menor anteposta em barbacã. Ambas eram feitas de tijolo amarelados em alvenaria. Tinha cinco mil metros quadrados, com destaque para a impressionante Torre de Menagem, num dos vértices da sua muralha.

O herdeiro cruzou ao seu lado, continuando seu percurso, pois se o castelo era o expoente militar, seu destino era a própria sede da Casa Ducal. O Palácio de Medina-Sidônia detinha dois andares de altura e mostrava cores alvas numa arquitetura dos tempos da reconquista ibérica. Seus traços árabes foram suavizados por muitos artistas renascentistas ao longo dos séculos, terminando num belo jardim murado e num gigantesco bosque como quintal.

Ali, estava o velho general Juan Manuel de Gusmão, atual Duque de Medina-Sidônia, progenitor do jovem rapaz.

– Conte, meu filho, como foi a reunião com o Conde-Duque de Olivares?

– Tranquila, pai. Ele não estava de mau humor como o senhor tanto se preocupava, só um tanto lúgrube.

– Dos males, o menor. Só Deus sabe como este seu humor pode mudar tão rapidamente quanto o vento.

Ouvindo esta frase de seu pai, o filho não pôde deixar de dar seu próprio diagnóstico sobre sua figura.

– Imagino que, num cargo como o de Valido de El Rey, o humor pode variar conforme a situação do Reino.

No entanto, o diagnóstico do pai era outro.

– Tem dias que me pergunto se não é a situação do Reino que varia conforme o humor do Conde-Duque.

Apesar do comentário o fazer divagar, o general Gusmão logo voltou ao assunto que realmente importava.

– Ele aprovou a negociação?

– Sim, meu pai.

– Foi tão simples e rápido como eu previ?

– Com certeza.

O pai se aproximou, lhe tocando o ombro. Então, lançou a nova pergunta.

– E quanto à sua opinião, meu filho? Tem certeza que o Duque de Bragança é o melhor pretendente para sua irmã?

O jovem herdeiro respondeu sem hesitar.

– A idade é perfeita. As riquezas são superiores às nossas. E o prestígio se aproximava da Casa de Medina-Sidônia na Espanha e é bem superior em Portugal. Não há um melhor pretendente para Luísa em todo o Reino.

O velho Duque caminhou alguns passos à uma mesa. Lá, estavam alguns papéis que ele tomou com os dedos.

– Hoje pela manhã chegou o representante da Casa de Bragança, camareiro-mor de seu Duque, com a proposta para o acordo matrimonial.

Ao entregar o documento ao filho, este começou folhear os papéis. A medida que a leitura prosseguia, mais evidente era o espanto do jovem rapaz. Lá estava descrito o valor de 150 mil ducados de ouro, somado ao equivalente a vinte mil em jóias. Era a cláusula dotal do acordo. Era o equivalente a um ano inteiro de rendimentos colhidos por todas as propriedades da nossa Casa de Medina-Sidônia.

– E esse valor não engloba o enxoval e séquito que enviaremos com Luísa – completou o velho Duque.

O jovem herdeiro coçou a cabeça.

– É um valor realmente alto – disse o rapaz. –  E quanto à sua opinião, meu pai? O que pensa disto tudo?

Esta foi a vez do pai responder sem hesitar.

– Apenas desejo o melhor para minha filha. Não farei conta ou medirei esforços para dar tudo o que estiver ao meu alcance para Luísa.

O filho suspirou.

– Certamente, com novos empréstimos, poderemos pagar este dote ao longo dos próximos anos.

– Deixarei que finalize os acertos finais então.

O filho se curvou em reverência ao pai para confirmar seu dever. Antes do velho Duque deixar o aposento, por fim determinou .

– Tudo bem. Acredito que já podemos avisar à Luísa que ela está noiva.

 

***

 

Mais alguns dias depois, a mesma notícia chegava à Casa de Bragança em Portugal. O camareiro-mor do Duque atravessou as ruas de Vila Viçosa com o séquito de doze pessoas, que levou consigo a Andaluzia. Não demorou para cruzar o largo terreiro, a bem guardada porta de entrada e os luxuosos salões principais do palácio. Chegou em frente ao quarto do Duque. No entanto, quando pensou em bater em sua porta, sua guarda pessoal colocou as armas na sua frente para lhe impedir a passagem.

– O Duque pediu para não ser perturbado, Dom Antônio – disse o guarda.

– Tenho certeza que Sua Excelência gostará de saber das notícias que lhe trago de Andaluzia – o camareiro-mor respondeu.

A tréplica do guarda foi imediata.

– O Duque não está sozinho agora.

O camareiro-mor nada falou. Hesitou em seus pensamentos. Respondeu depois de alguns segundos.

– Tudo bem. Avise-o que quando terminar, estarei o aguardando na entrada do palácio.

O guarda acenou em afirmação.

O camareiro-mor retomou seus passos de volta ao salão principal. E ali esperou. Só depois de algumas horas, uma voz ressonava radiante neste salão.

– Dom Antônio!

Era o Duque com um largo sorriso.

–  Meu fiel vassalo, diga-me por favor como foram as negociações em Andaluzia. Estou de casamento marcado?

O camareiro-mor se levantou da mobília onde descansava. Proferiu a aguardada resposta.

– O senhor está oficialmente noivo!

Mal Dom Antônio proferiu as notícias, duas mulheres surgiam por trás do Duque, vindas do interior de seu quarto.

– Parabéns, meu Duque – uma disse enquanto atava os laços do vestido.

– Mal posso esperar para conhecer a futura duquesa – completou a outra.

O camareiro-mor não ficou nem um pouco surpreso com a cena. Afinal, a presença de mulheres se tornara algo costumeiro do paço de Bragança neste último ano. E foi abraçando estas duas mulheres que Dom João proferiu palavras de grande entusiasmo.

– Espalhe as boas notícias por toda Vila Viçosa. Diga-lhes que darei uma grande festa hoje. Diga-lhes que todos  celebrarão o noivado de seu Duque!

 

 

 

 

 

 

Vila Formosa de Serinhaém por Frans Post (1612-1680)

 

Os Vinte de Formoso

Brasilianos

 

3

7 de Fevereiro de 1633

 

Antes mesmo da chegada de Henrique Dias e da grande batalha em defesa de Bom Jesus, tantas outras batalhas ocorreram nesta guerra até chegar aqui. Muitas foram vitórias do exército pernambucano, mas também tantas perdas do lado aliado. Amigos que caíram em batalha. Companheiros que doaram suas vidas. Soldados que combateram em nome da Resistência. Pessoas que se sacrificaram por seus ideais. Muitos nomes percorriam a mente do capitão-mor neste dia específico.

João Quintela, que emboscado inimigo, recebeu vinte e duas feridas, e ainda sobreviveu para contar a história. Francisco Mota que teve seu corpo varado por nove mosquetaços ao longo guerra mas ainda continuou a lutar. O capitão Francisco Monteiro, cujo pai morreu em ação na Várzea e seus cinco filhos seguiram a tradição de guerra, tendo já morrido dois em batalha. Os filhos de Maria Barroso e Francisco Barros Rêgo, cuja propriedade de Salinas se transformou em fortificação e teve um dos seus cinco filhos capturado e enforcado pelos holandeses. Antônio Barbosa Valente que, fazendo jus ao sobrenome, continuou a atacar depois de levar o primeiro tiro na perna, continuou mesmo com o segundo tiro no braço, até que o terceiro na cabeça o fez cair morto. Também aos sacrifícios de Ribeiro Lacerda, Francisco Tavares, Peres Landim, Francisco de Carvalho e de muitos outros que morreram em batalha. A lista de heróis nesta guerra era enorme.

Não foi por menos que o próprio El Rey Filipe escreveu uma carta para congratular esses heróis. Uma carta que se iniciava com um tratamento muito mais cordial do que Matias de Albuquerque jamais esperava receber de Sua Majestade.

 

Matias, amigo. Eu, El Rey, lhe envio muitos cumprimentos.

Por uma caravela, que em 26 de outubro passado chegou a Peniche, recebeu-se a primeira via de suas cartas nas quais me deste conta das coisas desta guerra. Por razão dos procedimentos que nestas ocasiões teve e do valor com que resolveu sustentar o Real, fico muito satisfeito de sua pessoa e dos serviços que nessa guerra me tem feito, os quais são mui presentes. Pareceu-me significar-lhe isto por esta carta para que o tenha entendido.

Aos capitães que na sua carta refere terem se assinalado nessa ocasião e aos demais que diz, farei relação à parte. E, aos soldados e pessoas particulares que nela houverem procedido e a todos que nessa guerra me servem como espero, agradeça de minha parte o que nela fizeram. Significando-lhe que me são mui presentes os seus serviços em geral e em particular. Faço deles muita estimação para mandar-lhes fazer honra e mercê.

Assinado, Sua Majestade, El Rey Filipe

 

As palavras de El Rey causaram em Matias muita comoção em especial ao relembrar dos tantos heróis que se sacrificaram nesta guerra. Exatamente por um destes heróis, o capitão-mor estava tomado com enorme pesar, maior do que qualquer outro, pois acabara de escrever uma carta para um diferente remetente. Era sua obrigação enviá-la à família de um grande um homem. Esta seguiria para a agora viúva, dona Camela, e para suas duas filhas. Precisava avisá-la da perda do seu melhor soldado.

Era uma carta que descrevia o triste fim de seu primo Pedro de Albuquerque Melo.

 

***

 

Como os holandeses tinham o controle do mar, os soldados do Rio Formoso nunca poderiam imaginar a força inimiga que desembarcou no extremo sul da capitania. Eram as tropas do Von Sckoppe que chegaram sem aviso no povoado de Porto de Pedras, além da localização do seu reduto, já na comarca de Alagoas. Os habitantes do povoado fugiram apavorados incendiando os seus carregamentos, assim como o capitão Pedro de Albuquerque e seus homens haviam orientado todas as populações locais.

Estes habitantes procuraram no Reduto de Formoso o socorro por suas vidas. Infelizmente, haviam apenas vinte homens e dois canhões de artilharia sob seu comando na defesa do local. Embora soldados da Resistência tenham se acostumado a lutar em desvantagem numérica, a chegada deste inimigo, tantas dezenas de vezes superior em números, sobre este reduto de madeira improvisada, fez o medo tomar conta de todos os habitantes locais. E logo um deles perguntou ao capitão do reduto.

– Comandante, o que faremos?

– Há algo mais a fazer? Vamos lutar, ora! – Pedro respondeu sem mostrar nenhuma dúvida em seus olhos.

– Mas, senhor, são muitos inimigos. Nem mesmo foi possível contar os seus números. Eles podem facilmente atingir mil soldados bem armados.

O civil balbuciou sem entender como era possível que um número tão pequeno de homens, tão fracamente armados, pudesse tentar confrontar um exército inimigo tão superior em soldados e armamentos. No entanto, Pedro o respondeu ao relatar a importância de manter esta praça o maior tempo possível.

– O comandante Bento Parente e o sargento-mor Gama não esperam a chegada deste inimigo. Caso deixemos este local, o exército inimigo marchará facilmente sobre sua praça no Cabo de Santo Agostinho. Não podemos deixar que isto aconteça!

– Mas não vai solicitar voluntários entre o povoado para esta batalha?

– Anos atrás, eu levei cinqüenta civis, desacostumados com a guerra, para defender a vila de Olinda. No entanto, quando a batalha iniciou, apenas três ficaram ao meu lado. Não cometerei o mesmo erro desta vez. Prefiro saber que tenho vinte homens ao meu lado do que me enganar, pensando que tenho mais.

O civil se exaltou.

– Meu deus! Isso é loucura. São vinte homens contra mil!

Em resposta, o capitão do reduto deu uma grande demonstração de sua renomada bravura.

– Então quando voltarem aqui, após o fim desta batalha, poderão encontrar duas situações. Ou mil holandeses derrotados ao redor deste reduto. Ou vinte bravos soldados que doaram a vida para proteger as terras de Sua Majestade!

 

***

 

Horas depois, não tardou para as fileiras holandesas começarem a surgir no horizonte. Eles desciam as serras alagoanas em direção ao Rio Formoso tal qual as formigas que deixam todas juntas o formigueiro, escurecendo o verde da grama, em busca de algum doce odor. No entanto, não era o doce açúcar que eles buscavam em Rio Formoso. E sim o sangue dos soldados da Resistência.

O terror subiu através das espinhas da população civil, que observava a chegada dos inimigos. O suor já molhava suas mãos e suas frontes. Mas esta visão não foi capaz de causar nenhuma quantidade de medo na alma dos vinte soldados do capitão Pedro de Albuquerque. Estes apenas seguravam suas espadas e mosquetes com mais força, se preparando para a guerra.

– Está louco, Pedro. Há apenas duas opções para esta batalha: Fugir ou morrer – exclamou o mesmo civil.

Pedro o respondeu sem hesitar:

– Desta forma, deixa-se a escolha muito fácil, cidadão, pois fugir nunca foi nem nunca será uma opção para mim e para meus bons homens!

– Meu Deus – exclamou o cidadão.

Pedro continuou.

– Deixem estas terras agora, cidadãos, pois a batalha está para começar! As forças de Bento Parente e do velho Gama no Cabo de Santo Agostinho lhes darão abrigo. Apenas solicito que levem esta carta escrita com meu punho avisando-os da chegada destes holandeses vindos do sul para que preparem suas defesas. Eu e meus homens impediremos o inimigo de avançar por quanto tempo formos capazes.

– Considere realizado, capitão Pedro. Que Deus os proteja!

E assim todos os cidadãos dessa comunidade deixaram o reduto pelos fundos em direção ao Cabo de Santo Agostinho.

 

***

 

Os vinte soldados de Pedro de Albuquerque observavam, em frente de suas muralhas, os soldados inimigos se amontoarem em formação de batalha. Eles chegavam por dois lados, na tentativa de cercar a fortificação e impedir a fuga dos seus defensores. O comandante Von Sckoppe era facilmente visível com um corpo largo sobre seu imponente cavalo dourado. Também era possível vê-lo enviando um de seus emissários em direção ao Reduto de Formoso. E, quando este mensageiro chegou nos portões desta fortificação, logo expôs a mensagem de seu comandante.

– O major Von Sckoppe solicita a rendição desta fortaleza. Ele diz não haver a necessidade de derramamento de sangue.

O capitão Pedro de Albuquerque Melo o respondeu.

– Pois diga ao seu comandante que ele aprenderá que a liberdade não vem de graça. Ela possui um alto preço. E este preço deve ser pago com sangue!

Os vinte soldados lançaram um corajoso brado conjunto quando Pedro de Albuquerque gritou as ordens aos seus homens.

– Disparar canhões!

As balas de canhões sobrevoaram os céus caindo em meio aos homens de Von Sckoppe que foram arremessados às dezenas para os lados. O mensageiro correu apavorado pela violenta resposta de Pedro de Albuquerque. E, quando os soldados holandeses avançaram para a batalha, os soldados de Formoso empunhavam seus mosquetes sobre as plataformas elevadas da paliçada.

Estava assim iniciada a batalha em Rio Formoso!

 

***

 

As tropas holandesas tentavam se aproximar das defesas do reduto, mas eram derrubados no percurso pelos mosquetes e canhões disparados pelos homens de Pedro de Albuquerque. Os poucos que conseguiam chegar nas paliçadas eram apunhalados através das frestas entre as estacas que tentavam escalar. Por estas estacas estarem inclinadas para frente com formato pontiagudo para o alto, eram de difícil escalada. Deixando tempo o bastante para cada um dos inimigos que tentou tal feito ser morto antes de atingir o seu ponto mais alto. Isso fez dezenas de corpos se amontoarem em frente ao reduto no primeiro dia de batalha.

– Mostrem o alto valor do sangue do nosso povo! E quão pouco vale o sangue holandês que serve apenas para molhar nossa grama!

Pedro bradou ao alto tanto para inflar a moral dos seus soldados quanto para ser escutado pelos holandeses em fuga.

No segundo dia, a carnificina persistiu. Os tiros de ambos os canhões do reduto continuaram em altos disparos. A colina foi tomada pelo grito de guerra holandês. Os exércitos inimigos voltaram a avançar. Foi quando os mosquetes dos soldados pernambucanos voltaram a atirar, fazendo corpos holandeses empilharem, mais alto, em frente a esta fortificação. Agora, os holandeses empunhavam toras de madeira, batendo-as fortemente nas estruturas desta paliçada, que apesar das avarias, as estacas de madeira resistiram por todo o dia.

No terceiro dia, tantos foram os tiros de mosquetes e canhões de ambos os lados, que a fumaça cobriu as águas de Formoso. O avanço inimigo foi ainda maior. Os invasores já conseguiam escalar as estacas de madeiras e adentrar o reduto, sendo logo assassinados após saltar no interior da fortificação. Já haviam quase uma centena de corpos holandeses amontoados dentro e fora de suas trincheiras.

No quarto dia, as estruturas da paliçada estavam tão destruídas que estas mal se erguiam em pé. E assim os exércitos inimigos se aproximaram para o novo ataque. Foi quando Pedro de Albuquerque soltou as amarras e alavancas que prendiam a estrutura. Quando o exército holandês se aproximou, ele ordenou aos seus homens que empurrassem a paliçada para frente. Esta caiu num arco mortal com as afiadas estacas inclinadas sobre a linha de frente inimiga e causando mais mortes holandesas com tal ação.

O exército holandês se afastou dos destroços da paliçada que retirou a vida de tantos de seus soldados. Foi quando surgiu Von Sckoppe dentre seus homens, galopando em seu cavalo e fitando Pedro de Albuquerque.

– Estou impressionado com sua coragem, mas agora não há mais muralhas entre nós – falou comandante holandês que parece ter aprendido perfeitamente o idioma ibérico. – O seu fim chegou!

Pedro respondeu com um brado aos seus homens.

– Por estas terras, eu nasci. Por estas terras, eu combato. E, por estas terras, eu morrerei! Ao Combate!

Com estas palavras, os vinte homens de Formoso se lançaram num ataque contra as centenas de soldados inimigos na sua frente. Eles possuíam apenas as espadas no punho e a coragem no coração.

Os soldados de Pedro enfrentaram o inimigo sem hesitar. Mesmo cercados, mantinham o ataque com uma bravura sem igual. Mesmo sendo repetidamente atingidos pelas armas inimigas, suas espadas continuavam inabaláveis desferindo golpes mortais.

A carnificina foi total e durou um longo tempo. Até o momento em que o inimigo, que cercava Pedro de todos os lados, começou a abrir uma clareira ao seu redor. Sob os pés do comandante de Formoso, estavam todos os vinte soldados que o acompanharam nesta aventura. Todos mortos em meio a outros tantos holandeses caídos nesta última luta. A tristeza fez Pedro de Albuquerque baixar sua espada e dobrar os seus joelhos. O cansaço físico chegara ao extremo,

– É o único que ainda resta agora! – Von Sckoppe bradou. – Caso se renda agora, eu hei de poupar a sua vida, pois alguém com tamanha bravura não merece morrer!

O líder do Reduto de Formoso levantou sua cabeça. Olhou o homem que acabara de solicitar sua rendição. Empunhou sua arma ao alto na tentativa de desferir um golpe final contra Von Sckoppe. Antes que pudesse dar um novo passo, uma arma de fogo holandesa foi disparada contra seu flanco, o fazendo cair de joelhos. Uma mancha rubra transbordou das roupas do corajoso capitão, derramando sangue no solo sob seus pés.

Ele ainda se manteve de joelhos quando viu uma silhueta surgir detrás de Von Sckoppe. Os seus olhos embaçados pela dor demoraram a reconhecer o rosto de um homem que estava entre os holandeses. Fechou-os com mais força para limpar as lágrimas que deixou cair por seus soldados e o sangue inimigo que respingou em sua face. Quando os abriu novamente,reconheceu um dos líderes da Resistência. Era o traidor!

Logo compreendeu que este homem era a razão deste vil ataque que atingiu de surpresa sua praça em Rio Formoso. Era uma pessoa que conhecia todos os planos da Resistência e agora levava os inimigos para um ataque em suas costas, onde menos poderiam esperar. Pedro precisava contar a Matias de Albuquerque o nome deste traidor, mas, cercado por tantos inimigos, sabia que seria impossível deixar o local com vida.

Não havia o que fazer. O ódio o fez se levantar e gritar como um animal raivoso. A única vontade em sua mente era matar o vil traidor. Ele percorreu mais dois passos antes de ser novamente alvejado nas costas por uma lança, que perfurou seu corpo até surgir no abdômen, fazendo assim sua marcha ser detida.

Mesmo com todas as forças por completo exauridas, por ambas feridas mortais que acabara de sofrer, ele ainda manteve o olhar destemido por um longo tempo contra o vil traidor.

Até enfim cair ainda com sua espada na mão!

 

 

 

 

 

 

 

 

Duque João de Bragança por Peter Paul Rubens (1577-1640)

 

 

 

 

O Casamento dos Bragança

Nobreza

 

3

12 de Janeiro de 1633

 

O Duque de Medina-Sidônia estava na cidade-sede de seu ducado, em Sanlúcar de Barrameda. Lá, toda sua corte ducal estava em festa. Todos se preparavam para o casamento de Luísa de Gusmão. Espadeiros, ferreiros, sapateiros, alfaiates e joalheiros apressavam seus aprestos, desde as panelas da cozinha até os mais esplendorosos vestidos e ricas jóias.

Por procuração, Luísa já estava casada na Igreja de Nossa Senhora mesmo sem nunca ter realmente conhecido seu esposo. Era o virar do novo ano quando Luísa estava pronta para partir às serranias portuguesas. Era uma região desconhecida para ela. Cocheiros e dezenas de animais deram movimento às várias carruagens onde se distribuíam as damas e fidalgos que participariam da cerimônia matrimonial. E, atrás destas carruagens, vinha uma fileira de setenta e duas cargas com uma fortuna em aprestos. Era o dote que esta jovem donzela de dezenove anos de idade levaria à Bragança.

Ao lado da carruagem da consorte, estava a família de Medina-Sidônia. O jovem Gusmão, herdeiro da casa, olhava o amado pai se despedir da irmã.

– Vai, filha, vai feliz.

O mais poderoso duque de Andaluzia estava aos prantos. Lágrimas lhe corriam a face, mostrando a vulnerabilidade de seu coração.

– Ó, pai, sentirei tanto a sua falta.

Soluços chorosos e doloridos mal deixavam Luísa continuar suas palavras. O pai quem primeiro falou, interrompido por iguais suspiros de tristeza.

– Minha princesa, depois que seu irmão se casou e Deus chamou sua mãe, era tudo o que eu tinha. Não sei como suportarei o vazio de nossa casa.

O pai abraçou fortemente a querida filha. A lembrança da morte da mãe, Joana, quando Luísa tinha onze anos de idade, fez as lágrimas descerem ainda mais abundantes.

– Seu irmão lhe arranjou um bom casamento – o pai continuou. – Ele a levará ao seu marido. Por isso, vai, filha, muito feliz, pois será a Duquesa de Bragança.

Um último abraço. Um último beijo na testa fez ambos pai e filha se separarem. O irmão conduziu a irmã, recostada em seu ombro, molhando a camisa com lágrimas na busca do alento fraterno.

– Irmão? – Luísa perguntou ao entrar em seu coche. – O que será de mim longe dos cheiros marítimos de Andaluzia? Longe do lar onde vivi minha vida toda? Longe de ti? Longe de nosso pai? Longe de tudo o que conheço?

O irmão segurou sua mão. Apertou-a de forma acalentadora. E respondeu profeticamente, ao alterar as palavras de seu pai, de acordo com seus futuros planos.

– Vai, Luíza, muito feliz. Não para ser Duquesa, mas para ser Rainha!

 

***

 

Um mensageiro num veloz galope chegou em Vila Viçosa às onze da noite anunciando que Dona Luísa de Gusmão partira pela manhã da cidade de Sanlúcar de Barrameda. Vinha ao encontro do esposo na cidade fronteiriça de Elvas. O irmão do Duque de Bragança, Eduardo, foi o encarregado de ir ao ponto de encontro, aguardar a cunhada. Logo, retornou com o anúncio da chegada de Luísa em Portugal.

Eduardo voltou com o irmão da noiva ao seu lado.

– Gusmão, há quanto tempo não nos vemos, meu bom amigo? – O Duque de Bragança saudava o cunhado.

– É verdade, Dom João, mas nossos caminhos sempre se cruzam.

Em seguida, João retomou a conversa que os trouxe a este encontro.

– E minha futura esposa, Luísa, já está em Elvas?

– Está descansando da cansativa viagem. Está acertando os preparativos para o tão esperado encontro amanhã.

– Ótimo, então venha comigo, Gusmão, para que eu possa lhe mostrar o Palácio dos Bragança que lhe hospedará nos próximos dias. Fizemos algumas modificações especialmente para a chegada de Luísa. As salas receberam novos tapetes e cortinas. As câmaras foram adornadas de nova roupagem. Espaços foram preparados para exibição de cristais. E as paredes reabilitadas. Quero que me diga se tudo está ao seu gosto.

O jovem Gusmão sorriu

– Tenho certeza que minha irmã ficará maravilhada.

 

***

 

No dia seguinte, pela manhã, o jovem Gusmão teve uma bela demonstração da riqueza e poder da Casa de Bragança. O duque português vestia em seda grossa de cor madeira, bordado com ouro tão puro quanto o ouro dos mais de cem botões que lhe fechavam. Os detalhes eram em diamantes e rubis incrustados. E ao pescoço um colar contas peroladas completava sua imponente figura.

Juntos, os cunhados caminharam ao paço de Vila Viçosa, onde o próprio Dom João organizou um desfile acompanhado de um batalhão de infantaria em que se vislumbrou as armas de Bragança. Atrás, um séquito, ricamente vestido em roupas de gala, os seguiam. Eram músicos, cocheiros, porteiros, criados da câmara, de guarda-roupa e da guarda pessoal que se juntavam aos vassalos da Casa de Bragança. Eram cerca de duzentas pessoas que, junto com seu Duque, caminharam em direção a Elvas, ao encontro de Luísa.

Na tarde deste mesmo dia, em Portugal, o Duque de Bragança já havia percorrido as poucas léguas que separavam Vila Viçosa das terras fronteiriças de Elvas. Era notável como seu séquito aumentava ao longo do percurso. A notícia do casamento se tornou um evento anunciado em todas as cidades da região. Assim, a adesão tanto de populares festivos quanto de fidalgos e nobres convidados fizeram o já grandioso cortejo engrossar a medida que se aproximava de Elvas. Chegaram à cidade mais de oitocentas perssoas.

Era uma multidão que festejou alegremente ao avistar numa ponte sobre o Rio Caia, a Carruagem de Roma, especialmente construída pelo marido e enviada no dia anterior para receber a esposa. Sobre esta carruagem, estava a noiva com vestido a castelhana, bordado com laços de flores e ramos de pratas tão intensos que mal se percebia o verde-claro na base do tecido de seda. Ao pescoço, ostentava um colar de diamantes e, na cabeça, os cabelos iam toucados de rosas sob um chapéu branco de rendas em ouro branco e plumas claras.

Não houve palavras para descrever encontro de João e Luísa. Juntos, os noivos foram transportados lado a lado. Ambas as cortes regozijaram veementemente por todo caminho até a catedral de Elvas.

– Seja bem-vinda a Portugal, minha esposa – disse João quando enfim conheceu Luísa.

– Obrigado, meu esposo. A entrada foi deveras esplendorosa – Luísa o respondeu.

O Duque sorriu.

– A tradição e fama Bragantina em seus matrimônios atravessa as geraç;ões. Quero que o nosso exceda todos os demais.

João tocou a mão de sua esposa com um sorriso no rosto. Em seguida, completou as palavras.

– E isto tudo é em sua homenagem, Luísa.

 

***

 

Os cânticos já ecoavam a medida que o casal chegou à igreja sob as bênçãos do bispo da região. Luísa retornou ao seu coche. Todos os convidados sentaram em seus lugares para a cerimônia. Aguardavam a entrada dos cônjuges. Só não se sabia onde estava João até que perceberam o caminhar em passos apressados do irmão Eduardo.

Ele chegou ao irmão caçula.

– Onde está João? – logo perguntou. – Luísa já está pronta para entrar na igreja com o irmão.

A face de Alexandre se encheu de preocupação.

– João está na sacristia – este respondeu. – Foi reclamar com o bispo por ter vetado alguns de seus pedidos para esta cerimônia.

Nem parou para ouvir o fim da frase, Eduardo já corria para sacristia em busca de seu outro irmão dizendo:

– Avisa a Gusmão para esperar mais um pouco.

Eduardo atravessou o altar em passos apressados. Nem chegou ao seu destino, os brados raivosos do Duque de Bragança já ecoavam pelos corredores internos do templo. A outra voz era do clérigo responsável por realizar a cerimônia. Era um senhor calvo de barba branca em vestes sacerdotais conhecido como Sebastião Matos de Noronha, o bispo de Évora.

– Eu não posso fazer isso, senhor Duque – o bispo lhe respondia.

– O que lhe custa abrir uma exceção, Bispo? – João continuou a gritar. – Desejo apenas que realize o sacramento matrimonial, isto não deveria ser um problema!

– Vossa excelência e Dona Luísa já são casados!

– Por procuração, Bispo! Apenas para selar o acordo! Esta cerimônia, hoje, agora, é meu verdadeiro casamento!

– Ainda poderá realizar seus votos, senhor Duque!

– E porque não a cerimônia completa? Porque não todo o sacramento?

– Vossa excelência já está casado!

A arrogância do Duque já irritava o bispo. Certamente, o Duque de Bragança se exaltava mais do que lhe era permitido.Felizmente, Eduardo chegou a tempo de segurar seu braço para que se acalmasse..

– João!

O grito de Eduardo ecoou na sacristia.

– Todos estão lhe esperando – ele continuou. – Temos que começar a cerimônia agora.

O Duque de Bragança encheu o peito ao perceber o quanto sua reação extrapolara os limites da prudência. Era algo que poderia ter estragado este momento. Felizmente, tentando manter sua cólera comedida, deixou o local em silêncio, apenas não total pelo bufar raivoso de sua respiração.

A cerimônia foi realizada. Houve a troca dos votos. As alianças foram abençoadas. Depois, colocada nos dedos dos cônjuges, mas o conhecido sacramento não foi realizado como João de Bragança desejava.

A cerimônia terminou com o cônjuge se sentindo afrontado.

 

 

 

Batalha Naval por Bonaventura Peeters

(1614-1652)

As Trincheiras de Salinas

Brasilianos

 

4

8 de Março de 1632

 

Os ventos sopravam no rosto do capitão Luís Barbalho através de seu longo bigode e curto cabelo negro. Mesmo com um corpo que já começava a sofrer as limitações de seus mais de quarenta anos de idade, ele estava no alto de uma construção localizada nos arredores de Nova Holanda. Era a antiga salinas de Francisco Rêgo, que foi transformada em fortificação de guerra pelas forças pernambucanas. Do seu ponto mais alto, observava a cidade erguida pelos invasores no porto do Recife e observava também as ruínas da vila de Olinda, destruída por estes mesmos inimigos. Este fora o local onde ele nasceu e viveu por toda sua vida. Eram quatro décadas de memórias felizes enterradas sob os escombros.

A memória percorria também os acontecimentos das últimas semanas. Chegou a notícia que o inimigo armou uma emboscada ao grupamento de Francisco Rebelo que patrulhava suas fronteiras. Luís Barbalho lembrava dos relatos, surpreso com a ação dos inimigos, pois estes surgiram do denso matagal sobre os homens de Rebelinho numa engenhosa armadilha. O inimigo parecia mudar o modo de fazer guerra, muito diferente daquele que até então havia feito.

O capitão Barbalho conduziu o socorro na intenção de resgatar o amigo, mas já era tarde demais. Rebelinho foi capturado pelo inimigo e levado às prisões holandesas. Encontraram ali oitocentos soldados holandeses se preparando para atacar o posto das Salinas. E assim o fizeram nesta manhã. Luís Barbalho, com apenas cento e cinquenta homens, perpetrou mais massacre nas forças invasoras, como antes fizera no Forte Ernesto e no Buraco de Santiago. Neste dia, jaziam cinquenta holadeses mortos no chão. O resto das forças holandesas podia ser visto correndo assustados em busca dos limites fortificados de sua cidade.

Infelizmente, lembrando o companheiro capturado, o valoroso capitão Barbalho nâo pôde comemorar sua vitória. No entanto, trouxe algo em suas mãos, que encontrou em algum local secreto nas imediações de Nova Holanda.

Era uma carta.

 

***

 

Horas depois, Luís Barbalho já caminhava na clareia aberta onde se localizava sua fortificação. Observava o recanto que defendeu nos últimos dois anos de guerra. Não era mais que um entricheiramento ao redor da casa-grande da salina, cuja vegetação densa ao redor servia de melhor proteção do que as próprias trincheiras, feitas de cestões de madeira cheios de areia.

Alguns homens muito trabalhavam para terminar uma cobertura de madeira sobre suas cabeças. Outros estavam em seu momento de folga. A maioria descansava em suas tendas improvisadas sob a copa das árvores ou onde antes era o estábulo da propriedade. No entanto, lhe chamou mais a atenção aqueles que se sentavam ao redor de uma fogueira, assando alguns animais silvestres como capivaras e peixes para comer com a farinha e a mandioca que lhes era enviada toda semana de Bom Jesus. Entre estes homens, estavam três jovens rapazes que eram sua  maior razão de orgulho. Eram seus filhos primogênitos: Guilherme, Jerônimo e Agostinho.

O mais velho não tinha mais que vinte anos de idade, pois Barbalho se casou jovem. Teve dez filhos no total, seis homens e quatro mulheres, que ficavam em Bom Jesus com sua esposa Maria Furtado, longe da guerra que se desenrolava nas fronteiras com o inimigo.

O pai já imaginava estes três filhos mais velhos com suas próprias companhias de soldados para combaterem suas próprias batalhas. A ideía lhe roubou um sorriso, ao mesmo tempo que lhe faz crescer sentimentos de preocupação. Neste mesmo momento, os três jovens rapazes perceberam o pai lhes olhando.

Eles acenaram ao patriarca da família, fazendo o sorriso paterno se alargar imensamente.

 

***

 

Enfim Barbalho chegou ao seus aposentos. Lá, o capitão retirou a carta ainda lacrada do bolso. A mesma carta que trouxe da incursão desta manhã. Não possuía remetente ou assinatura, mas Barbalho sabia ter sido escrita por Antônio Cavalcanti, o seu contato entre os holandeses. Um valoroso homem que sempre vinha lhe trazendo importantes informações estratégicas como algumas que percorriam sua lembrança neste momento.

Há dois meses, este espião informou de pequenas lanchas holandesas carregadas com artilharia pesada no rio Capibaribe destinadas a um ataque em Bom Jesus. Os homens de Luís Barbalho foram capazes de interceptar essas furtivas lanchas e não apenas as incendiaram como também conseguiram onze peças de artilharia holandesa para integrar as defesas de Bom Jesus e os três canhões desta sua fortificação nas Salinas.

Poucas semanas atrás, Antônio Cavalcanti descreveu o avanço holandês pelas tropas de Von Sckoppe vindas do sul, chegando na região da Muribeca. Os habitantes da região foram obrigados a fugir antes da chegada dos invasores, se escondendo num engenho da região. Por essa razão, Luís Barbalho enviou alguns homens em socorro. Era sobre essas novas notícias que Antônio Cavalcanti lhe informava

 

Luís Barbalho,

Gostaria de lhe parabenizar pelo sucesso na Muribeca. As tropas holandesas recuaram graças às emboscadas na região. Mas envio esta carta para relatar a minha preocupação com tudo que vem ocorrendo aqui no interior das linhas inimigas. Pois um traidor vem revelando, aos inimigos, informações privilegiadas sobre nossas forças. Graças a este traidor, Rio formoso foi conquistado. E, quando imaginei que atacariam o Forte de Santo Agostinho, pasmem, eles desviaram seu alvo. Estão marchando diretamente para Afogados e Bom Jesus. Infelizmente, ainda não fui capaz de descobrir quem está entregando os segredos da Resistência e planejando tão ardiloso plano. Por esta razão, lhe peço cuidado nas suas próximas ações para assim evitar o pior.

 

Ao terminar de ler esta carta, Luís barbalho a queimou no fogo da vela que iluminava sua leitura. Chamou seu soldado de maior confiança, Antônio Dias Cardoso, que estava do lado de fora de seus aposentos.

– Capitão Barbalho? Mandou me chamar?

– Sim, Cardoso – disse Luís Barbalho ao soldado enquanto esfregava os seus olhos cansados e pensativos. – Gostaria de saber como estão os homens?

– Não podiam estar melhores com a vitória de hoje.

– E os nossos feridos? Como estão?

– Foram apenas três, senhor. Logo estarão todos recuperados – O soldado Dias Cardoso respondeu.

 

– Também gostaria de saber como estão as preparações das paliçadas de madeira da nossa fortificação nas Salinas?

– Estão quase prontas, incluindo também a cobertura contra artilharia.

– E o estoque de pólvora, munição e balas de canhão?

– Estão completamente cheios, senhor!

– E o estoque de água e alimentos?

– Também, senhor!

Neste momento, Luís Barbalho se levantou para ficar de frente a este fiel soldado pondo a mão em seu ombro enquanto suspirava em preocupação. Ele tomou um novo fôlego antes de continuar a descrever as suas novas ordens.

– Então avisa aos outros homens que um traidor vem revelando nossas posições aos inimigos e planeja um grande ataque contra Bom Jesus. Começaremos a colocar mais trincheiras em frente a esta salina o mais rápido possível. Todos devem estar preparados para resistir!

– Capitão, devemos diminuir temporariamente as nossas emboscadas para conservar nossos homens? – A situação citada preocupou o soldado Dias Cardoso.

No entanto, a resposta do seu capitão o encheu de coragem.

– Muito pelo contrário, o capitão-mor necessita que continuemos. Então nós vamos intensificá-las!

 

***

 

Longe dali, dentro das linhas inimigas, algo diferente do usual ocorria no Porto do Recife. Dezenas de homens, sujos e maltrapilhos eram empurrados ao interior de uma embarcação. Estes homens eram prisioneiros desta guerra. Soldados da Resistência que foram capturados pelos holandeses. E, entre eles, lá estava outro dos mais habilidosos comandantes da Resistência: o capitão Rebelinho. Ao seu lado estava Francisco Viana, outro grande caomandante, que mostrava sinais de febre pelo ferimento infeccionado em seu braço causado por um mosquete inimigo. No entanto, mesmo com seu semblante pálido, passos trôpegos e corpo moribundo, os inimigos não o tratavam melhor, empurrando-o com violência extrema.

– Mostrem respeito, seus malditos! Não percebem que este homem está doente – Rebelinho gritava inconformado enquanto subia a ponte que levava a uma das embarcações. – Todos ainda se arrependerão por isso.

Nem terminou sua frase, foi punido pelo insolente brado. Uma coronhada com o cabo do mosquete jogou o jovem herói no chão da embarcação. O sangue desceu de sua boca e um zunido apertou seus ouvidos. Rebelinho ainda estava atordoado por este golpe. recobrando os seus sentidos. Foi quando ouviu o bater de botas inimigas se aproximando e escutou uma voz bem conhecida.

– Olá, Rebelinho. Como andam as coisas em Bom Jesus? – A voz que proferia estas palavras era muito mais familiar do que Rebelinho gostaria. – Há meses não tenho notícias suas ou dos amigos que lá deixei, pois tenho que dizer: os holandeses têm sido bastante hospitaleiros. É realmente uma pena que não poderá usufruir desta mesma hospitalidade nos seus calabouços.

Os olhos ainda enevoados pela pancada, começaram a enxergar algo entre os cintilantes brilhos da desorientação. Rebelinho acreditou estar alucinando pois estava vendo um de seus bons companheiros ao lado do major Von Sckoppe. Ele não conseguia entender o que este homem fazia entre os inimigos.

– O que está fazendo aqui? Também foi aprisionado?

Rebelinho procurava uma explicação, mas a resposta veio do amigo Viana, ainda com sua voz adoentada.

– Ele não é um prisioneiro, Rebelinho. Ele está do lado do inimigo.

– Eu não entendo –  Mesmo ouvindo tais palavras, Rebelinho continuava a olhar incrédulo o companheiro em frente.

Ele procurou grilhões aprisionando suas mãos, armas apontadas contra sua cabeça ou qualquer outra coisa que explicasse a presença desse homem ao lado do major Von Sckoppe. Infelizmente, a dura realidade era que este companheiro estava ali de livre vontade.

– Nunca esperei que entendesse, Rebelinho – o traidor falou. – Felizmente, é algo que posso admirar em sua pessoa e do nosso capitão-mor, mas quem sabe um dia consigam pelo menos aceitar as boas intenções pelas quais farei os holandeses conquistarem o posto de Afogados e em seguida o Real de Bom Jesus.

Mesmo ouvindo estas palavras, ainda demorou para Rebelinho aceitar a verdade, mas estava claro.

O traidor na sua frente era seu bom amigo Domingos Calabar.

 

 

Engenho de Açúcar por Frans Post (1612-1680)

Sob Nova Liderança

Holandeses

 

3

8 de Março de 1633

 

Numa das casas do povoado do Recife, os lençóis de uma larga cama eram repuxados de um lado para o outro. Os travesseiros amassavam pelo rolar de corpos sobre o aconchegante leito. Duas pessoas, que tanto dividiram prazeres durante a noite, realizavam jogos libidinosos pela manhã. A mulher não continha as risadas perpetuadas pelas leves cócegas do amante escondido sob as cobertas.

– Já está bom, Charles – o pedido era constantemente interrompido por mais risadas involuntárias. – Por favor, pára. Não agüento mais.

As risadas se perpetuavam. Os movimentos sob os lençóis persistiam. A mulher colocava as mãos para impedir o homem de continuar. Este sabia que, apesar dos protestos, a bela Amália Strausskicher adorava quando ele fazia isto. Eram como crianças cúmplices num jogo de brincadeiras adultas. Enfim o homem deixou seus punhos serem agarrados pelos dedos da mulher. A face de Charles de Toulon surgiu debaixo dos lençóis.

– Tem certeza que deseja que eu pare? – Em seguida ele falou.

– Tenho sim, seu bobo. Por hoje é só.

– Nem mais uma vez?

– Nem pensar. Já foram três vezes essa noite, não agüento outra.

Disse a moça jogando um dos macios travesseiros na face do amante enquanto repuxava mais os lençóis para esconder suas partes mais íntimas. Tentava fugir do seu súbito apetite incontrolável.

– Posso saber o que lhe deixou tão animado? – Ela o questionou.

Toulon apenas sorriu.

– Pergunta boba essa – logo exclamou. – Não deveríamos aproveitar que seu esposo e os outros conselheiros estão muito ocupados demitindo o coronel Waerdenburch do cargo de governador de Zuikerland?

– Eles não estão demitindo o coronel, mas o deixando renunciar honrosamente do cargo para que não sofra a vergonha da demissão.

– Política, apenas – o capitão franco-holandês falou, se deitando ao lado da moça. – A verdade é que o coronel levou um chute na bunda dos conselheiros.

O sorriso não deixava a face do capitão. Era notável sua felicidade ao proferir tal frase. A moça logo inquiriu.

– Por acaso, foi a satisfação de tal notícia que lhe deixou tão excitado?

– Certamente é algo que me dá vontade de comemorar. E não tente me enganar. Sei bem que a notícia a deixou animada também, Amália. Sei que odeia Nova Holanda! E deseja ver este lugar implodir tanto quanto eu!

– Não coloca palavras em minha boca, Charles – a moça tentou protestar.

No entanto, o rapaz a conhecia bem demais.

– Não me venha com conversa fiada. Afinal, ambos sabemos que estas nossas noitadas nada tem haver com amor ou paixão. A razão que realmente nos une é o ódio por tudo isso. É a vontade de punir seu esposo, seu pai, o coronel e todos que perpetuam este inferno de lugar!

Cada frase de Charles de Toulon tornava o ressentimento mais visível na face da jovem Amália. Mas nenhuma deixou este sentimento tão à mostra quanto sua frase final.

– Por isso está traindo o pai de seu filho.

– Serooskerken não é o pai de meu filho – Amália gritou – Ele é apenas meu marido e também homem que mais odeio neste mundo!

Frente à toda raiva, Toulon friamente lhe retrucou.

– Deveria ter revelado isso a Haus, antes dele ter colocado uma bala na própria cabeça.

Percebia-se ali que talvez Serooskerken e o senhor Strausskicher não eram os únicos que Amália desejava punir. Ela também tomava tais ações para punir a si mesmo. Afinal, não era só o ódio por Nova Holanda que unia este improvável casal, mas também o ódio de um pelo outro. Nem por isso deixariam de se encontrar. E assim, ignorando qualquer sentimento da moça por suas palavras, Toulon vestiu suas roupas e se despediu.

– Agora se me dá licença, minha querida Serooskerken, eu tenho uma despedida a qual desejo assistir.

 

***

 

No Porto do Recife, o governador e coronel Waerdenburch, obtendo a seus instantes pedidos licença dos Dezenove Diretores, se aprontou para partir, junto com os tenentes-coronéis Engelbert Schutte e Foucques Honcx, os majores Redichoven e Berstedt, assim como o conselheiro Walbeck e outros oficiais de menor patente. Os soldados rasos, que terminaram o prazo de três anos, também mostravam muito pouca disposição de ficar, de forma que, no dia 8 de março de 1633, partiu para a República, o coronel Waerdenburch.

Os senhores conselheiros, havendo pesado bem as qualidades e méritos de todos os oficiais superiores, nomearam como novo Coronel e Comandante de toda Nova Holanda o então major Laurentz Rembac. A razão dessa escolha logo se tornou clara numa reunião do Conselho de Guerra para decidir os novos rumos a serem tomados nesta guerra.

– Não é a toa que os conselheiros lhe nomearam como novo comandante, coronel Rembac.

O homem quem proferia estas palavras era o espanhol que passara para o lado holandês. Era o antigo homem de confiança do governador Albuquerque, um mulato de negra tez e fortes feições chamado Domingos Calabar.

– Não faz coisa alguma diferente do que resolve os da Companhia – ele complementou.

O coronel Rembac logo o respondeu.

– Fala isso como se isso fosse uma coisa ruim, espanhol, mas esse foi o erro do meu predecessor. Tenho certeza que, se Waerdenburch escutasse mais este Conselho e a opinião dos Dezenove Diretores, esta guerra já estaria acabada. Por isso, se eles assentarem que eu faça algo, assim o executarei.

O burburinho dos conselheiros ao fundo da sala começou.

– Muito bem.

– Escolhemos certo.

– Ótimo.

– Agora venceremos esta guerra.

No entanto, mesmo escutando ao fundo a opinião desses conselheiros, Calabar detinha ímpeto o bastante para questioná-lo.

– Desta vez, coronel, os Dezenove Diretores estão errados, afinal, se estão do outro lado do grande Oceano, como podem saber o que é melhor para a Nova Holanda? – Calabar com voz firme interrompeu.

Foram palavras que fizeram os conselheiros se agitarem.

– Espanhol insolente!

– Quem ele pensa que é para nos dizer o que fazer?

A resposta de Rembac ao brado de Calabar veio em seguida.

– Cuidado para o orgulho não interferir seu julgamento, espanhol. Os senhores Diretores são homens práticos e experimentados na guerra. Além disso, às vezes, aqueles que estão de fora tem uma melhor visão de tudo.

– Apenas quando são os cegos que lhes pedem opinião – Calabar o respondeu de forma audaciosa.

Não sem escutar a resposta inflamada do coronel Rembac.

– Cuidado com as palavras, espanhol. Posso lhe matar por menos que isso – o novo coronel lançou um olhar ameaçador. – Apenas desta vez fingirei que não escutei nada e deixarei que conte o que tem em mente e que tente me convencer do contrário.

Calabar percebeu a oportunidade de expor seus pensamentos.

– Minha opinião é que devemos atacar como os leões dos brasões holandeses, minando, aos poucos, a força do inimigo. Aproveitar que há quase dois anos Matias de Albuquerque não recebe qualquer ajuda de seu Reino. Estão muito desprovidos de artigos bélicos. Os soldados sem roupa e descalços. E os pobres habitantes completamente desanimados e muito descontentes. Assim, conquistemos, primeiro, a capitânia de Itamaracá, a mais pobremente defendida. Depois partimos para o próximo alvo, até o Forte Bom Jesus estar cercado.

– Não – o coronel Rembac respondeu sem hesitar. – Se a Resistência do governador Albuquerque está em seu pior momento, aproveitemos isso para lançar um ataque com toda nossa força, diretamente contra Bom Jesus. Da sua boca mesmo, foi proferido que a vitória é possível!

– Possível, sim, mas extremamente arriscado. Atacar Bom Jesus agora será como jogar uma moeda ao alto.

– É uma aposta que eu estou disposto a tomar – o coronel respondeu.

Calabar recostou no assento. Suspirou desapontado. Então perguntou:

– Tem certeza disso, coronel?

– Com o seu plano, Calabar, demorará pelo menos dois anos até finalmente derrotarmos o governador Albuquerque e sua maldita resistência. Por mais que o ataque a Bom Jesus seja arriscado, os senhores Diretores preferem ver isto acabar o quanto antes.

– Tudo bem, coronel, faremos como deseja – Calabar falou a contra-gosto. – Mas antes lhe peço algo. Algo, sobre a forma como me trata, e que vem me aborrecendo a algum tempo. Peço que não me chame de espanhol pois esta não é a minha terra natal.

– Espanhol. Português. Qualquer que seja, é tudo a mesma coisa. É tudo domínio do Rei Filipe da Espanha – Rembac respondeu sem pudor.

No entanto, Calabar continuou seu protesto.

– Nem português, nem espanhol. Muito menos holandês agora que estou do seu lado. Eu nasci nas terras deste continente. Peço que se refira a mim por este lugar ou pelo meu nome de batismo.

O coronel balançou a cabeça afirmativa com fisionomia despida de qualquer emoção ou mesmo de respeito.

Aceitava assim a tal solicitação.

 

***

 

Pouco depois, quando todos os conselheiros já deixavam o local, este orgulhoso homem que guiaria os holandeses no ataque à Bom Jesus foi abordado por um dos oficiais que também fora promovido com a saída de Waerdenburch.

– Calabar – este oficial o chamava. – Preciso falar contigo.

– Von Sckoppe – o primeiro respondeu. – Devo lhe congratular por sua promoção a tenente-coronel e segundo em comando de Nova Holanda.

O novo tenente-coronel inclinou a cabeça em agradecimento.

– E como posso lhe ajudar, senhor?

Assim, enquanto ambos caminhavam, Von Sckoppe logo retomou o assunto que o levou ali.

– Apenas quero que saiba que nem todos concordam com os riscos envolvidos. Embora todos torçam pelo sucesso da expedição do coronel Rembac, se algo der errado, saiba que tanto eu quanto alguns conselheiros como Servatius Carpentier e Jacob Stachouwer lhe darão total apoio nos próximos Conselhos de Guerra.

– Agradeço a confiança, tenente-coronel – continuou Calabar. – Fico feliz que tenha me procurado, pois não confio em Rembac e preciso saber mais sobre os recursos que vossas forças dispõem para concluir um plano de ataque.

– Pode contar com a minha ajuda –Von Sckoppe respondeu. – Pressinto que este será o inicio de uma grande parceria.

 

***

 

Dias depois, enquanto Von Sckoppe e Calabar discutiam o plano de ataque contra Bom Jesus, o capitão Charles de Toulon ainda comemorava a partida do coronel Waerdenburch numa taverna na beira-mar do Porto do Recife. Ele se esbanjava exaltadamente sobre uma garrafa da forte cachaça.

– Taverneiro, a próxima rodada é por minha conta! – O capitão Toulon gritou ao mesmo tempo que elevava seu copo ao alto.

Os soldados inebriados e bebuns de toda qualidade no salão comemoravam suas palavras com brados de alegria e palmas prazenteiras. Elevavam suas vozes para bajular seu oficial superior.

– Salve Toulon!

– Nosso bom companheiro!

– Vivas ao capitão!

Toulon os respondeu arremessando sua mão trêmula para frente para que toda essa lisonja interesseira acabasse. Em seguida, emborcou o copo de cachaça goela abaixo sem que o forte ardor da bebida causasse qualquer mudança no seu semblante.

Mais feliz que todos, estava o taverneiro ao distribuir copos de cachaça no salão e encher o copo de Toulon outra vez. Já perfaziam dias que gastava ali todo seu primeiro soldo como capitão. Verdade seja dita, perto de completar quatro anos desde que se alistou no serviço militar holandês, todo o dinheiro que Toulon recebera se transformou em noites de bebida e manhãs de ressaca.

– Meu querido Toulon, acredito que há formas melhores de gastar seu ouro do que com um bando de marmanjos.

As pálpebras de Toulon fizeram um monumental esforço para se abrirem alguns milímetros mais. Seus olhos azuis puderam examinar a mulher de pele negra, cor de ébano, e detentora de largos seios, grandes glúteos e pernas tão grossas quanto o mastro de um navio. Uma silhueta escultural que o olhar de Toulon desvendava até chegar em seu rosto de feições fortes e cabelos crespos.

Era alguém que Toulon logo reconheceu.

– Preta! Ah, minha Preta! Já estava com saudade!

A mulher sentou no colo do capitão Toulon, imediatamente aumentando o volume sob sua calça e fazendo sua cabeça se encher de desejo.

– É a minha favorita dentre todas as bem-dadas mulheres deste recinto!

A mulher com voz impúdica logo o respondeu

– Então me mostre as provas disso!

Os dedos de Toulon desceram pelas monumentais coxas até tocar a negra na umidade entre as coxas enquanto com os dentes lhe descobriam o farto seio.

– Agora mesmo – proferiu com malícia no olhar.

No entanto, antes de continuar com as tais provas, alguém que adentrou a taverna gritou interrompendo os seus atos.

– Capitão Toulon.

Era um jovem recruta de sua companhia gritava.

– Estou aqui, rapaz. Por que tanta gritaria?

– O coronel Rembac mandou entregar isso a todos os capitães de companhia. Disse que é urgente.

O capitão Toulon tomou o documento em suas mãos e vencendo a embriaguez se colocou a ler o que estava escrito ali. Quando enfim conseguiu completar a leitura, afastou a corpulenta negra, a retirando de seu colo.

– Sinto muito, Preta, mas tenho que ir agora.

– É preciso mesmo?

– Não se preocupe. Logo estarei de volta, mas antes deixa eu provar o quanto aprecio os seus dotes femininos.

Toulon colocou a mão em seu bolso. Retirou um saco de moedas. Arremessou-as ao taverneiro. Então falou:

– Nenhum outro homem deverá tocar nesta negra até eu voltar. Está ouvindo, taverneiro? Quero que a guarde bem para mim durante essa semana.

Ao fim das palavras, Toulon deu um leve tapa na bunda da negra para que esta voltasse aos seus aposentos.

Enquanto a negra caminhava lançando olhares maliciosos pelas costas ao franco-holandês, o taverneiro segurou o saco de moedas para sentir bem seu peso. A experiência no seu ofício já o tornava capaz de reconhecer a quantidade de moedas sem sequer precisar abri-lo.

– Apenas guarde a negra até eu voltar, taverneiro – disse o capitão.

O taverneiro assentiu com a cabeça e tomou o caminho da saída através da mesma porta velha e carcomida da taverna. Antes de atravessá-la por completo, voltou o olhar sobre seu interior. Revelou as ordens do coronel Rembac.

– A todos os soldados da minha companhia, ordeno que retornem para seus aposentos, pois amanhã atacaremos ao Forte de Bom Jesus!

 

 

 

 

Dona Luísa de Gusmão por José de Avelar Rebelo (1600-1657)

A Noite de Núpcias

Nobreza

 

4

12 de Janeiro de 1633

 

A cerimônia de casamento entre João de Bragança e Luísa de Medina-Sidônia concluiu sem os votos entre os casais, mas isso não atrapalhou a programação. Logo iniciaram as festividades com touradas e comédias públicas, na qual o duque, sua esposa e suas comitivas assistiram a tudo da residência episcopal.

Elas duraram até a noite e foram apenas interrompidas para os felizes discursos dos recém-casados à celebrante população e a troca de presentes entre as duas famílias. O Duque quem primeiro falava.

– Ao meu bom amigo e cunhado Gaspar de Gusmão, gostaria de lhe agradecer por este feliz dia. Sem sua atuação, esta união nunca teria acontecido.

O jovem Gusmão, negociador da união com os procuradores, abriu um sorriso. O duque estendeu seus braços. Seguravam uma caixa de madeira.

– Espero que goste de uma pequena lembrança para um dia tão feliz.

Sobre o interior acolchoado da caixa, estavam ali várias jóias em rubis, pérolas e diamantes. Um belo presente ao custo de uma grande fortuna.

Ele então se sentou ao lado da esposa Luísa e lhe segurou a mão. Neste momento, seu irmão Alexandre, sentado logo atrás, lhe tocou o ombro.

– Tem que agradecer o celebrante da missa também, como foi previamente acordado – disse Alexandre quando seu irmão se virou.

A resposta que recebeu foi um retorcer desgostoso dos seus lábios.

– Não seja orgulhoso – Alexandre reiterou sua opinião. – Ainda ficaremos pelo menos dois dias aqui em Elvas, hospedados no convento sob a chefia do bispo Sebastião. Não queremos criar desentendimentos.

A cólera ainda era percebida na face do Duque de Bragança.

– Sei muito bem o que direi ao bispo!

A resposta causou temor tanto em Alexandre quanto em Eduardo. Os irmãos sabiam que João era reconhecidamente calmo. No entanto, nas raras ocasiões em que perdeu a cabeça, era incapaz de medir suas palavras.

João se levantou. Tomou o outro presente que os criados seguravam. Era um colar de ouro e peças preciosas no valor de vinte mil moedas de ouro. Com esta pequena fortuna nas mãos, o Duque se aproximou do bispo.

– Também tenho algo a falar sobre a cerimônia celebrada pelo bispo Sebastião Matos de Noronha – João falou em voz alta.

Em seguida, pressionou a caixa de madeira acolchoada onde repousava a jóia contra o peito do bispo. Impunhou força o bastante para lhe causar desconforto. A tensão aumentou quando o Duque voltou a falar.

– Entrego essa jóia para agradecer ao Bispo Sebastião por sua bela cerimônia. Pela forma como atendeu meus pedidos e me tratou nesta ocasião, posso apenas prolongar a minha tão boa estada na bela cidade de Elvas.

Os irmãos respiraram aliviados pela forma como João conteve seu rancor. A valiosa jóia foi recebida pelo bispo. No entanto, mesmo oculto em belas palavras, o bispo percebeu bem a ironia no discurso do Duque de Bragança.

A ironia foi confirmada quando o Duque convocou comitivas e convidados para partir, abruptamente, de volta à cidade de Vila Viçosa.

 

***

 

Em Portugal, o regresso dos recém-casados Duques de Bragança, com suas comitivas e convidados, foi lenta. Um cavalo em galope lento conseguiria facilmente percorrer uma légua em uma única hora. Desta forma, as cinco léguas entre Elvas e Vila Viçosa deveriam passar velozes. No entanto, uma chuva torrencial sobre suas cabeças e as estradas lamacentas tornaram o caminho moroso. Muitos pensaram em retornar a Elvas. Esperar a chuva terminar, mas o Duque de Bragança estava obstinado a deixar a cidade o mais rápido possível.

Quando enfim chegaram na sede do Ducado de Bragança, o céu abriu seu azulado mais forte para contemplar a chegada do casal. As nuvens se afastaram ao horizonte. O arco-íris anunciou à população as boas novas. Toda Vila Viçosa aguardava seus suseranos nos portões. Todos se acotovelavam para ver o cortejo ducal. Centenas de tochas iluminavam o terreiro do Paço de Bragança. A multidão se alegrava e os sinos repicavam na igreja.

– Seja bem vinda, Duquesa – a camareira designida para cuidar dos seus assuntos foi a primeira em Vila Viçosa a beijar sua mão.

As demais saudações vieram em seguida, sendo respondidos pela nova Duquesa com igual simpatia. Os festejos assim recomeçaram. Corridas de touros serviam de entretenimento a todos. A demonstração de corcéis Andaluzes maravilhavam os visitantes. Comédias publicas eram apresentadas para a recreação popular. E o banquete entre os convidados celebrava a tão desejada união.

Iguarias gastronômicas de aves e peixes, acompanhadas pelos melhores vinhos, foram servidas à medida que o Castelo de Bragança dava salvas de artilharia. Dom João comeu em público acompanhado por seu cunhado. Os irmãos Alexandre e Eduardo já caçavam cortesãs andaluzas em seu próprio território. As atividades prosseguiriam até o fim da semana.

Enfim, o casal se recolheu aos seus aposentos no Palácio Ducal.

– Enfim sós!

Dom João vestiu um fina seda vermelha e dourada, ao entrar nos aposentos da esposa para selar definitivamente o matrimônio.

Luísa, ainda oculta pelas sombras das lânguidas e tremulantes velas, nada falou. Apenas caminhou para porções mais bem iluminadas do aposento. Deixou-se mostrar o corpo encoberto por uma fina bata branca de seda. Aberta na frente, a bata mostrava a tez entre os seios e os pelos púbicos entre as pernas. O tecido, de tão fino, exaltava todas as tímidas curvas do seu corpo.

A duquesa proferiu as palavras que lhe eram esperadas nesta noite.

– Chegou o dia em que toda mulher se prepara desde seu nascimento. Chegou o meu momento de servir e satisfazer o meu marido, assim como todas as mulheres que me antecederam nesta Casa o fizeram.

Luísa dobrou os joelhos em reverência ao marido.

– João de Bragança, agora, eu sou sua esposa. Sou toda sua!

A bata escorregou por suas costas. Tocou o chão. Toda a nudez de Luísa se expôs. Dom João antes avistara a nudez de dezenas de mulheres. Nenhuma tão delicada quanto da sua esposa. Já ouviu muitas clamarem virgindade. Nenhuma tão intocada quanto a jovem de dezenove anos à sua frente.

– É meu tesouro mais precioso agora, Luísa – Dom João se aproximou e a Beijou nos ombros. – Agora, e para todo o sempre.

Ele subiu a boca lentamente pelo pescoço até seus lábios. Era notório o nervosismo da nova Duquesa. Era a primeira vez que sentia o toque de um homem, mas o jovem duque esperava o nervosismo. Repensou muitas vezes como realizar suas obrigações matrimoniais da forma mais confortável para a jovem donzela.

No entanto, em seu sutil e vagaroso beijo, não esperava sentir o gosto salgado das lágrimas da esposa.

– Luísa, alguma coisa de errado?

Mais lágrimas desciam através de sua ruborizada face. A sua voz estava embargada.

– Não, foi tudo perfeito. Está tudo perfeito. Pode continuar.

– Por favor, diga-me o que a aflige? – disse João. – Sou o seu esposo. É permitido que me conte seus pensamentos.

A beleza nua de Luísa, antes angelical, agora parecia trágica.

– Não é nada – ela hesitou. – Meu irmão me contou hoje que partirá mais cedo para Andaluzia. Eu esperava que ele fosse ficar mais alguns dias.

João manteve o silêncio. Não entendeu como esta notícia poderia causar tantas lágrimas. Só após um longo tempo analisando a resposta, retomou suas palavras.

– Seu irmão teria que partir mais cedo ou mais tarde.

– Eu sei.

– Então por que chora?

Com esta pergunta, a jovem moça sorveu as lágrimas que umedeciam seu nariz. Respondeu ao marido:

– Tudo é tão diferente de Andaluzia. As pessoas que conheci aqui. Este palácio que agora devo chamar de lar. A cidade que em nada parece Sanlúcar. A falta de meu pai. Meus novos deveres. Nem consigo acreditar que estou casada. É meu marido agora, João, e nem lhe conheço…

Seu olhar caiu ao chão.

– A presença de meu irmão aqui era meu último laço com o lar que deixei em Andaluzia. Agora, ele vai embora.

Luísa encostou a cabeça sobre o peito de João. As lágrimas molharam a seda vermelha que vestia.

Não obstante, Luísa continuou.

– Meu lar. Minha vida. Parecem tão longe de mim. Sinto-a escapar de minhas mãos, ficando para trás.

– Seu lar agora é Vila Viçosa, Luísa.

As palavras do Duque fez as lágrimas se intensificarem.

João se abaixou. Pegou do chão a bata que antes cobria o corpo da donzela. Colocou-a de volta, ocultando a nudez de seu corpo vulnerável. Compreendeu o quanto a vida da esposa se transformara numa questão de horas. A consumação física do casamento não parecia tão importante agora.

Por fim, falou.

– Vem, Luísa, vem deitar. Não precisamos fazer nada hoje. Faremos nossas obrigações matrimoniais quando se sentir preparada.

 

 

 

 

 

 

Batalha dos Montes por Vitor Meireles (1832-1903)

 

O Tiro Certeiro

Brasilianos

 

5

18 de Março de 1633

 

– Antônio. Manuel. Estou tão feliz em lhes encontrar novamente, meus irmãos, senti tanto a sua falta – o som destas palavras ecoava em volta do claustrofóbico compartimento de carga de um navio holandês. O homem quem proferia estas palavras era o soldado Francisco Viana, que junto com seu irmão Antônio lideraram duas companhias de emboscada no dia do desembarque invasor em Olinda. Logo, os atos deste dois bravos homens inspiraram outros três irmãos nesta luta. Eram cinco irmãos, todos os filhos de dona Sebastiana, que lutavam nesta guerra contra os holandeses.

Apesar do clamor deste soldado por seus irmãos, Francisco Viana estendia a mão ao vazio. A verdade é que seus irmãos Antônio e Manuel morreram meses atrás. Morreram combatendo o inimigo na desastrosa batalha do forte Waerdenburch.

A face de Francisco Viana suava pelo calor que emanava de seu corpo. Os tremores nas mãos revelavam o frio que lhe acometia internamente. E a coloração pálida de sua pele mostrava o estado de seu corpo adoentado. Francisco Viana queimava em febre. E a razão disto estava ali no seu braço, onde o sangue escuro e secreções amareladas escorriam de um ferimento infeccionado, ocasionado por um mosquete holandês. A visão de seus finados irmãos, que Francisco Viana observava com tanta vividez, era uma alucinação febril.

O único ao seu lado era o capitão Rebelinho que tentava manter o amigo Viana acordado e lúcido.

– Agüenta firme, Viana. Estou quase conseguindo me livrar das amarras.

– Lourenço, está aí? Saudade também, meu irmão.

Francisco Viana desorientava com a febre que borbulhava alucinações em sua mente. Pois seu terceiro irmão Lourenço também falecera, há poucas semanas, defendendo a região das Salinas, sob o comando de Luís Barbalho. Três heróicos irmãos mortos na mesma guerra, restando vivos apenas o próprio Francisco e o quinto irmão Cosme. Foi, sobre este último irmão ainda vivo, que Francisco dirigiu a palavra a Rebelinho.

– Rebelinho, fala para Cosme cuidar bem de nossa mãe, pois ficarei aqui com meus outros irmãos.

– Não – Rebelinho bradou enquanto mordia as cordas, que lhe prendiam, com seus próprios dentes. – Eu o levarei de volta à sua mãe para que cuide dela, Viana. Agüenta firme! Resiste!

– Não posso, meu bom amigo – Viana murmurou. – Tenho que ir.

Seus olhos perderam o brilho em meio a face suada e contemplar perdido. E assim se deitou sobre o piso de madeira da embarcação.

– Acorda, Viana! Não me abandona! Juntos avisaremos o capitão-mor Matias sobre o plano do traidor Calabar! Eles precisam estar preparados para o ataque ao posto de Afogados. Acorda, meu amigo!

Francisco Viana já não respondia mais. A voz de Rebelinho ressonava solitária pelo galpão do navio.

Horas depois, Rebelinho conseguiu aquilo que intentava. Ele rompeu as cordas que imobilizavam suas mãos e em seguida desamarrou as que prendiam seus pés. A sua primeira ação foi chamar o amigo que repousava inerte. Tocou-lhe o ombro mas apenas sentiu seu corpo gélido como o metal de uma espada. Foi quando percebeu sua face mais pálida que nunca. Os olhos fundos, enegrecidos já não moviam mais. Estes apenas fitavam o vazio, inertes.

Agora, eram quatro dos cinco irmãos Viana que morreram nesta guerra.

– Descanse em paz, meu bom amigo. Fique certo que levarei este último pedido ao seu irmão Cosme.

Com estas palavras, Rebelinho colocou a mão sobre a face de Viana e baixou suas pálpebras para lhe fechar os olhos. Uma hora depois, já haviam dois holandeses desacordados no mesmo galpão. Mais alguns no deque da embarcação. E o jovem Rebelo saltando mar adentro.

Desapareceu em meio às ondas revoltas.

 

***

 

Apenas dois dias depois, no amanhecer da Quinta-Feira Santa deste novo ano, a voz de Rebelinho foi ouvida outra vez no Forte Real de Bom Jesus:

– Capitão-mor!

– Rebelinho? – Matias de Albuquerque exclamou ao ver o jovem de roupas rasgadas, sujo, cansado e maltrapilho que se aproximava.

Ao seu lado, estavam Duarte de Albuquerque e o Conde de Bagnuolo, mas o bom capitão-mor logo os deixou para se encontrar seu capitão.

– Ao que parece, não foi apenas o nosso Senhor que ressuscitou nesta semana santa – Duarte de Albuquerque abriu um sorriso ao ver Rebelinho, relembrando assim da chegada da páscoa.

– Certamente – complementou Matias. – Pensávamos que tínhamos lhe perdido como perdemos Pedro e Calabar.

– Não, capitão-mor, Calabar não está morto como pensávamos. Ele está vivo! – Rebelinho assim revelava o que viu nas prisões holandesas.

– Calabar está vivo? Há meses não temos noticias dele! – Os olhos de Matias de Albuquerque se arregalaram. Um bombardeio de perguntas começou.– Onde o viu? Onde está ele agora? Esteve aprisionado contigo? Ele está bem?

– Eu vi ele sim, capitão-mor, mas não como prisioneiro.

Rebelinho puxou um fôlego seco do fundo da garganta antes de proferir suas seguintes palavras.

– Eu vi Calabar ao lado de Von Sckoppe, auxiliando o inimigo num ataque contra nós.

–  Isso é impossível – Matias abriu os olhos ainda mais largamente. –  Calabar lutou do meu lado, levou um tiro por mim. É a pessoa em quem mais confio neste mundo!

– Eu sinto muito ser aquele a lhe contar, mas vi com meu próprios olhos. O nosso amigo Calabar agora é o traidor e eu mesmo escutei seu plano para conquistar o posto de Afogados.

Com estas palavras de Rebelinho, o silêncio tomou conta. E, quando os cochichos começaram e a incredulidade transparecia naquelas faces, logo tratou de se defender.

– Eu estou falando a verdade. Acreditem se quiser, mas digo que reforcemos imediatamente o Forte de Afogados.

– Não é isso Rebelinho – o capitão-mor Matias retomou a palavra. – A questão é que o posto de Afogados foi conquistado cinco dias atrás. Eles aproveitaram que as primeiras trincheiras, junto aos rios, estavam enfraquecidas pelo contínuo ataque daquelas violentas águas. Mataram o capitão Francisco Monteiro e feriram gravemente Francisco Duarte. Quase capturaram o Frei Belchior, mas agora com o posto de Afogados conquistado, perdemos nossa principal linha de defesa. Não há mais nada entre as forças holandesas e o nosso Forte Bom Jesus.

– Cheguei tarde demais – Rebelinho concluiu.

– Desde então, eles mataram os capitães Braz Soares e Manuel de Sá. Capturaram o comandante do terço português: Antônio de Ortiz. E ainda atravessaram as posições fortificadas de Martim Soares Moreno e de Luís Barbalho.

Dom Matias elevou uma voz exclamativa ao ditar as forças derrotadas. Em seguida continuou a relatar os tristes eventos dos dias anteriores.

– Estávamos até agora surpresos, tentando entender como os holandeses mudaram tanto a forma de se guerrear para conseguirem derrotar os nossos dois melhores capitães e tornarem senhores do campo desta forma.

– Certamente não conheço ninguém melhor do que Calabar para suceder em tal feito – um cabisbaixo Rebelinho respondeu, antes de lançar uma nova pergunta. – E o que faremos agora?

O capitão-mor lhe tocou o ombro para dar mais coragem. Em seguida, lançou palavras que renovaram o ímpeto do seu capitão.

– Esta não seria uma Quinta-feira Santa sem um Judas, não é verdade?

 

***

 

Não demorou para os tiros de mosquetes na primeira trincheira de Bom Jesus começarem a ecoar pelas matas pernambucanas. Eram três mil soldados holandeses sob o comando do novo coronel Rembac, que substituiu o coronel Waerdenburch. Eles surgiam do leste marchando em três grandes grupos. O próprio Rembac comandava a vanguarda, o major Von Sckoppe, comandava o Corpo, e atrás estava a Retaguarda com o traidor Calabar. Foi em meio a esta balbúrdia que Rebelinho tomou a palavra.

– Capitão-mor, peço apenas que me diga onde está Cosme Viana, pois tenho que contar que seu último irmão Francisco morreu no cativeiro holandês. Não podemos deixar que uma mãe perca todos os seus cinco filhos na guerra.

Matias abriu os olhos surpreso e condoído com a situação. Então, falou:

– Mandarei imediatamente alguém chamá-lo aqui.

– Deixe-me ir, capitão-mor! Eu estava com Francisco Viana quando ele faleceu por isso eu mesmo quero dar a Cosme as más notícias.

Matias assentiu. E logo Rebelinho já atravessava as forças aliadas em meio aos clarões dos mosquetes e canhões bem visíveis nos céus enegrecidos, pois os tímido raios da alvorada por trás dos montes só permitiam visualizar os primeiros homens encobertos de sangue e com suas feridas expostas sendo levados às enfermarias de Bom Jesus.

Os homens bradavam seus gritos de guerra enquanto revezavam nos disparos e na recarga de suas armas. O inimigo avançou com seus três grupos tentando cercar a primeira linha de defesa de Bom Jesus, exatamente onde estava Cosme Viana, no fronte de batalha, com sua espada na cintura e mosquete na mão, disparando contra os holandeses que avançavam.

– Cosme, graças a Deus eu o encontrei! – Rebelinho disse em meio a toda balburdia da batalha.

– Rebelinho? O que faz aqui? – Perguntou Cosme Viana que, sendo o mais jovem dos cinco irmãos, não deveria ter mais de vinte anos.

– Vim chamá-lo. Deve deixar o campo de batalha agora!

– Deixar o campo de batalha? Agora? Nunca! – O jovem Viana bradou.

– Prometi ao seu irmão Francisco que vossa mercê voltaria à sua mãe.

As suas palavras apenas atiçaram uma falsa esperança em Cosme ao dizer o nome do irmão desaparecido.

– Esteve com Francisco, meu irmão? Como ele está? Soube que estava vivo quando foi levado pelos holandeses.

– Eu sinto muito, Cosme – o olhar de Rebelinho caiu ao chão. – Francisco morreu durante o cativeiro. O ferimento em seu braço lhe causou a febre. Ele ainda resistiu bravamente mas faleceu semanas depois.

Lágrimas deixaram seus olhos.

– Eu estava lá, eu o vi morrer – Rebelinho continuou, segurando seu braço e puxando o último Viana na direção de saída. – Vamos! Nós temos que ir agora. Francisco pediu para que cuide de sua mãe.

A frase de Rebelinho foi interrompida por um grito em meio a multidão. Era Luís Barbalho que comandava a defesa na linha de frente.

– Os fossos foram entulhados! Os Inimigos estão avançando!

Ignorando a batalha que exasperava ao seu redor, Rebelinho repetiu a solicitação.

– Vamos, Cosme. Está na hora de irmos embora!

O jovem Viana olhou, com seus olhos avermelhados de tristeza, a batalha a sua frente. As lágrimas, que desciam por seu rosto, embaçavam sua visão, mas não o impediam de ver o exército holandês sob o comando do coronel Rembac marchando através do fosso entulhado. Eles logo colidiriam com a linha de defesa aliada. Foi quando seus sentimentos se expressaram como um relâmpago.

– Não – respondeu com firmeza na voz. – O que quer que eu diga à minha mãe? Que eu fugi como um coelho assustado enquanto meus irmãos morreram bravamente? Que abandonei meus companheiros no momento que mais precisavam? Eu digo não! Eu digo que isto tudo é culpa do traidor Calabar!

Em seguida, veio o brado como um forte grito de guerra.

– Eu digo: Vamos enforcar o Judas!

 

***

 

Cosme Viana avançou contra o inimigo que vinha contra o forte Bom Jesus. Neste momento, os inimigos já atravessavam os fossos entulhados e saltavam contra a primeira trincheira de Bom Jesus. A espada de Cosme foi uma das primeiras a se chocar com as lâminas inimigas, seguido de muitos outros sons numa sangrenta sinfonia, que incluía os gritos de guerra de Martim Soares Moreno, com sua companhia de índios selvagens, atravessando os portões de Bom Jesus na direção da batalha.

Centenas de mortos holandeses já se amontoavam no centro da batalha. Os outros milhares continuavam a avançar. A batalha inesperadamente atingiu seu momento crítico. Tudo ocorreu rápido demais. Cenas saltavam aos olhos dos combatentes de ambos os lados. O coronel Rembac bradava ordens de ataque. Cosme continuou em fúria na linha de frente inimiga. Retirou o mosquete de sua cintura. Rebelinho o protegia dos invasores. Martim, Barbalho e Figueroa mantinham o choque de seus homens contra o inimigo.

Um tiro ecoou. A fumaça saltou da arma de Cosme. Rembac urrou de dor. Duarte de Albuquerque sobre a muralha proferiu um grito de exclamação. Matias ao seu lado arregalou os olhos. A surpresa tomou conta de todos.

O coronel Rembac caiu no chão com um buraco fumegante no peito!

 

***

 

– O líder holandês foi atingido! – Gritou um dos soldados no campo de batalha. Naquele momento, com cair do seu líder, os três batalhões holandeses se desordenaram. A Vanguarda manteve a linha de frente. A Retaguarda, aconselhada por Calabar, recuou. E o Corpo, sob o comando de Von Sckoppe, desviou seu ataque em pequenas fortificações no exterior de Bom Jesus na busca por cobertura, mas, ao contrário do que intentavam, acabaram se expondo mais.

O capitão-mor Matias de Albuquerque viu essa malfadada ação do Corpo do exército e ordenou André Marim, o capitão de artilharia de Bom Jesus, concentrar todo fogo naquela direção. Este grupo foi massacrado.

Era espantoso como uma única bala de mosquete decidiu a batalha. Até o momento, várias centenas de holandeses morreram para atingir a praça de Bom Jesus, além dos fossos e das trincheiras. Se continuassem avançando com seus mais de dois mil homens restantes teriam conseguido conquistar o centro da Resistência. No entanto, a morte do líder holandês dispersou o exército.

– Homens avançar! Vamos reconquistar o posto de Afogados! Vamos matar o traidor!

O grito veio de Matias, ensandecido, desejando o sangue de Calabar.

– Matias, não!

O veterano Martim Soares Moreno gritou para o impedir nesta ação cega pelo ódio. Também no alto das muralhas, o Conde de Bagnuolo tentava convencê-lo a não continuar enquanto seu irmão Duarte o aconselhava manter o ataque. Todos divergiam entre si. Não obstante, o capitão-mor avançou com seus exércitos contra o inimigo em fuga. Rebelinho, não acatando de imediato estas ordens, se aproximou do veterano Martim Soares Moreno para lhe perguntar:

– Devemos aguardar o retorno do capitão-mor?

Martim Soares Moreno percebeu que sua companhia foi a única que ficou nas trincheiras de Bom Jesus. Ele observava o próprio Matias de Albuquerque, Luís Barbalho e muitos outros capitães marchando com suas forças na direção do forte inimigo construído em Afogados.

– Não há o que fazer, Rebelinho. Temos que auxiliar nossos companheiros que agora avançam. Eles necessitarão de toda a ajuda possível. Parece que Matias esqueceu quem é Domingos Calabar e do que ele é capaz no comando de um exército.

 

***

 

O prenúncio deste veterano de guerra não poderia ser mais verdadeiro. Mesmo em fuga, Calabar tinha as barcaças prontas no rio Capibaribe. Quando as forças da Resistência chegaram nestas margens, o traidor mostrou seu talento de montar uma defesa como nenhum outro. Tendo os holandeses já atravessado o Rio Capibaribe com suas embarcações, quando a Resistência tentou realizar a mesma ação, sem os mesmos recursos, trezentos mosqueteiros escondidos surgiram na margem oposta. A astúcia de Calabar transformou o rio Capibaribe numa trincheira natural.

Perdeu-se mais homens nessa ação movida pelo ódio do que no confronto nas trincheiras de Bom Jesus. O veterano Martim Soares Moreno, que chegou logo depois, com seus mosqueteiros e índios flecheiros, tentou proteger os companheiros que eram massacrados no rio Capibaribe. Ainda salvou muitos, mas acabou atingido na perna por um tiro de mosquete.

Neste dia, as perdas da resistência foram de vinte e cinco mortos e quarenta feridos, entre estes, o capitão-mor Martim Soares Moreno. Bem inferior às perdas holandesas de centenas de homens, que incluíam o coronel Rembac.

No entanto, apesar destes bons números e pela graça de Deus em manter vivo o capitão-mor do Ceará, o sentimento de derrota acometia todos, principalmente, após o traidor Calabar gritar na margem oposta do rio Capibaribe.

– A sorte estava do seu lado hoje, Matias, mas a sua resistência há de cair, pois Pernambuco é território holandês! Agora e sempre!

Matias escutou. Eram palavras que derrubaram seu ímpeto em lutar. E muito ele se martirizou para entender o porquê da traição do seu bom amigo.

Algo até então não explicado.

 

 

 

Batalha dos Montes por Vitor Meireles (1832-1903)

 

 

A Ferida Dentro do Peito

Holandeses

 

4

24 de Março de 1633

 

Menos de dez dias depois de assumir o comando do exército holandês no Novo Mundo, o novo coronel Rembac organizou todas as suas tropas para o ataque direto contra o forte Real de Bom Jesus. Ele mobilizou quase três mil homens em quinze companhias. Era a maior campanha militar holandesa dos últimos dois anos. No entanto, a campanha foi um fracasso de grandes proporções.

– Chamem o cirurgião rápido! Chamem o cirurgião!

O grito de seu subcomandante, Von Sckoppe, ecoou na entrada do Porto do Recife enquanto seu braço sangrava pelo ferimento causado por um mosquetaço inimigo. Não era para si que o tenente-coronel chamava os médicos. Era para o homem que vinha carregado pelos soldados enquanto um bala alojada em seu peito lhe irrompia o sangue e minguava os últimos resquícios de vida. Este homem, ferido mortalmente acima do mamilo, era o próprio coronel Rembac.

A primeira parte da campanha, que era a conquista da praça de Afogados, prosseguiu conforme planejado. O tenente-coronel Von Sckoppe liderou dez companhias de soldados passando todos para o outro lado do rio, antes que o inimigo percebesse. As forças do governador Albuquerque tinham ali pouco mais que cem homens, que foram facilmente repelidos das trincheiras e recuaram para uma vasta planície, através da qual estavam as principais estradas para Santo Agostinho, Bom Jesus e outros lugares. Tendo se apossado da praça de Afogados, os marinheiros e trabalhadores trazidos começaram a montar um forte de quatro baluartes para firmar o domínio da região.

A segunda a parte da campanha era o próprio ataque ao governador Albuquerque no Forte Real de Bom Jesus, de forma que, deixando três companhias nas defesa de Afogados, sete dias depois, o próprio coronel Rembac avançou com outras doze até seu alvo.

– O que houve lá, Toulon?

A pessoa quem realizava esta pergunta era a voluptuosa negra que cuidava dos ferimentos do capitão Toulon num dos leitos da sua taverna preferida. A resposta não poderia ser mais simplória.

– Foi um desastre!

A negra continuou a limpar seus ferimentos, que eram leves quando comparados aos de tantos outros soldados. Afinal, foram quase trezentos mortos do lado holandês e muitos gravemente feridos.

– O inimigo atirou tão valente com mosquetes e canhões que, mal começou a batalha, tanto Rembac quanto o major Padburgh que lideravam a vanguarda, foram atingidos. E, sem seus líderes, as quatro companhias da Vanguarda fugiram desesperadas.

– E como o senhor foi ferido então?

– Mesmo com a vanguarda desbaratada, o tenente-coronel Von Sckoppe, que liderava outras quatro companhias no centro do exército, incluindo a minha, mandou avançar. Atacamos um pequeno reduto no lado norte da fortaleza inimiga, o qual matamos todos que nele estavam. No entanto, ficamos expostos aos canhões do inimigo.

Os dedos da negra tocaram a alva face de Toulon.

– Deus seja louvado! Ainda bem que o senhor voltou todo inteirinho para mim – ela falou enquanto o acariciava.

– Isso porque no fim, vendo que nada mais se podia fazer, o tenente-coronel deu o sinal de retirada.

Toulon se levantou. Tomava o caminho do banho.  Não sem antes contar o fim de sua história.

– Não pudemos nem carregar os feridos – disse ao chegar ao banho. – O corpo do major Padburgh ficou lá, morto, estendido no chão. Foi graças ao guia espanhol, o tal mulato chamado Calabar, que o inimigo foi repelido na passagem do rio Capibaribe antes de chegar em Afogados. Se não fosse por ele talvez eu não estivesse aqui.

O capitão molhou o rosto na água morna que a negra lhe preparou. O som de sua voz atravessava o aposento. Banhou seu corpo na mesma água morna.

– Obrigado por ter aquecido a água para mim. Depois desta batalha, eu precisava mesmo de um bom banho.

Logo que terminou de se enxugar, Toulon já colocava sua roupa. E, como esperado, também já escutava os protestos da negra.

– Já vai embora, meu senhor? Pensei que, depois do quanto pagou ao taverneiro para me guardar, passaria a noite toda aqui.

– Infelizmente, tenho muita coisa por fazer. Deixemos para amanhã.

– Devo supor que encontrará com aquela branquela da senhora Serooskerken, com a maluca da Amália – o tom de ciúme era claramente percebido na voz da negra.

Algo que o capitão fez questão de inibir.

– Não é da sua conta, Preta. Agora, me dê licença que eu preciso que ir.

 

***

 

Noutra parte do Recife, na enfermaria holandesa, o coronel Rembac agonizava entre a vida e a morte. A bala, que o atingiu no peito direito acima do mamilo, ficou encaixada atrás da axila, abaixo da espádua. O cirurgião tentava retirá-la dali com a mesma dificuldade quanto o coronel tinha para conseguir respirar. Muitos oficiais e conselheiros aguardavam o resultado do procedimento embora poucos acreditassem num final feliz para o coronel.

– Chegou um mensageiro do governador Albuquerque

Era o tenente-coronel Von Sckoppe quem falava.

– E o que ele deseja? – O conselheiro Carpentier perguntou.

– Ele veio encarregado de comunicar o desejo de fazer a guerra regularmente, mais civilizada, aos moldes europeus, concedendo-se mutuamente quartel aos prisioneiros. Referiu também que os prisioneiros que nos tomou estão bem tratados e nos serão mandados quando estiverem mais fortes.

– Ótimo – disse o conselheiro Stachouwer. – Já tivemos perdas demais por hoje

– Como gesto de boa vontade, libertemos alguns dos deles também – completou Serooskerken. – Manda também aquele alto comandante que aprisionamos semanas atrás, o tal Ortiz Mendonça, como nossa resposta.

Os outros conselheiros consentiram. Estando muito abatidos para fazer qualquer novo comentário, nada mais falaram. O tenente-coronel quem retomou.

– E há algo mais.

Todos olharam para sua pessoa, para escutar o que mais Von Sckoppe tinha a dizer. Este continuou:

– Albuquerque também enviou para o coronel Rembac o melhor cirurgião de seus exércitos. Um médico da Europa trazido pelo próprio Conde de Bagnuolo assim como o óleo chamado Aurij que dizem fazer milagres.

– Aurij? Que diabos é isso? – O conselheiro Serooskerken questionou.

– Podemos confiar nesse médico e também nesse óleo? – O conselheiro Stachouwer completou.

Foi quando Von Sckoppe interrompeu a discussão para perguntar ao único homem do recinto capaz de responder estas perguntas.

– O que diz sobre disso, Calabar? Sabe que óleo é esse?

– Sim – este respondeu. – O Aurij é um óleo extraído pelos indígenas para colocar nos curativos. Basta estendê-lo com um grande pincel ao redor do orifício do tiro, por uns três dedos de largura na sua circunferência. Serve para facilitar a extração da bala e evitar que a ferida fique purulenta.

– E isso funciona? – Um dos conselheiros questionou.

– E se Albuquerque tiver colocado veneno nisso? – Perguntou outro.

A ação de Calabar foi repreendê-los.

– Matias de Albuquerque não faria isso. Eu o conheço bem. É demasiadamente honrado para mentir assim. No entanto, apesar de eu já ter visto o Aurij fazer milagres, não acredito que nem ele, nem o melhor cirurgião do mundo, farão alguma diferença num ferimento tão profundo quanto o do coronel,

Em seguida, o espanhol deixou as enfermarias, dizendo as palavras que ninguém desejava ouvir.

– Eu sinto muito, senhores conselheiros, mas acredito que todos aqui já sabem disso tanto quanto eu.

Como descrito por Calabar, tanto o cirurgião do Conde de Bagnuolo quanto o uso do óleo, não foram capazes de salvar o coronel Rembac. Ainda o mantiveram vivo por quase quarenta dias. Infelizmente, no primeiro de maio deste ano, à noite, o coronel faleceu em conseqüência deste ferimento. No dia seguinte, foi sepultado no Forte Ernesto com grandes honras.

Só depois de vago há algum tempo o posto de coronel, os senhores delegados resolveram preenchê-lo.

Nomearam para o posto o bravo Von Sckoppe.

 

***

 

Neste mesmo dia, Calabar entrou em sua morada para descansar. Era uma humilde casa no Porto do Recife, onde sua esposa Bárbara realizava os afazeres domésticos na cozinha. Ela parou sua ação quando ouviu a porta se abrir. Embora não tenha firmado sua união matrimonial na Santa Igreja, o homem a quem chamava de esposo e com quem viveu os últimos três anos de sua vida, surgiu na sala principal da casa. Ele tomou caminho de sua poltrona preferida. Desabou seu corpo no assento com todo o peso que carregava em seus ombros.

– Está se sentindo melhor, meu amor?

Desde que essa pergunta deixou os lábios de Bárbara, a face contraída e melancólica de Calabar não deixava dúvidas quanto à sua resposta. Era um mau semblante que se tornou uma constante desde que o esposo retornou do fracassado ataque ao Forte Bom Jesus.

– Não, Bárbara. Nem um pouco.

Embora a razão do vil sentimento na mente do esposo nunca lhe tenha sido revelada, a esposa sabia bem a sua origem.

A tentativa de confortá-lo veio em seguida.

– Não imaginei que fosse ficar tão abalado depois de todo esse tempo, depois de quase um ano.

Um silêncio persistiu. Ela sentou em seu colo e o beijou carinhosamente. Alisou o grosso e crespo cabelo do homem. Tocou-lhe a escura face suavemente, com os dedos passeando pelas fortes feições negróides do esposo. Ele deixou o conforto da esposa atingir seu peito. Abriu seus sentimentos com as razões que lhe afligiam no dolorido coração.

– Encontrar Matias novamente trouxe todos os sentimentos de volta, ainda mais o vendo com tamanho ódio no olhar.

Bárbara sentiu a dor do esposo. Estava bem visível em sua face. Estava bem perceptível em sua voz. Por isso, ela perguntou.

– Pensa em desisitir então?

O novo suspirar do esposo foi ainda mais insuportável. Havia uma tonelada sobre seu peito, o impedindo de respirar. As palavras seguintes quase não saíram por sua boca.

– Matias me mandou outra carta – enfim desabafou. – Aumentou a oferta outra vez. Além do perdão pelos meu atos, oferece agora cinquenta mil moedas de ouro para que eu volte. Ele implorou para me ter ao seu lado novamente.

Bárbara afastou o rosto para que seus olhos pudessem ver melhor o esposo, para que pudessem analisá-lo mais certeiramente.

– Matias é um irmão para mim – o mulato continuou. – Estimo os meus antigos companheiros de batalha mais do que tudo no mundo. Gostaria que eles pudessem enxergar essa luta da mesma forma que eu enxergo.

– O que fará então?

Os olhos da esposa se encheram de dúvida. O mesmo pesar parecia lhe acometer. Ela sabia que as ponderações do esposo significam duros e cruéis momentos pela frente.

Calabar beijou os lábios da esposa. Acolheu-a em seus braços, apertando carinhosamente seu corpo, dando-lhe uma boa sensação de segurança. O silêncio persistiu por mais longos momentos enquanto ambos permaneceram bem aconchegados nessa mesma posição. Esse silêncio apenas se encerrou com as palavras finais do audaz mulato.

– Não posso fugir do meu dever! Tenho que fazer os holandeses vencerem essa guerra!

 

***

 

Quando a notícia de que Von Sckoppe fora promovido se tornou oficial e foi anunciada para todos os soldados no Porto do Recife, Calabar surgiu na morada deste novo Coronel e Comandante Geral de Nova Holanda com uma garrafa de vinho na mão. Ele estava pronto para comemorar.

– Parabéns ao novo Coronel! – Calabar disse assim que o avistou. – Será Sigismund Von Sckoppe o homem quem trará a glória à Companhia das Índias Ocidentais e à empresa na Terra do Açúcar.

No entanto, embora Calabar mostrasse grande entusiasmo, o semblante de Von Sckoppe era bem diferente.

– Por mais que eu queira me alegrar, não sei se estou disposto a comemorações – o novo coronel respondeu. – o coronel Rembac era alguém a quem eu estimava muito.

– Então celebremos esse seu predecessor – Calabar logo mudou o discurso. – Por mais que eu e Rembac tivéssemos divergências, não posso negar que o homem tinha coragem.

– Em apenas dez dias na liderança de Nova Holanda, Rembac conquistou a praça de Afogados – o coronel ponderou sobre seu antecessor. – A primeira grande conquista de nossas forças desde a construção do Forte Waerdenburch. Depois de dois anos estagnados, enfim progredimos.

– E cabe a nós continuarmos seu trabalho – Calabar continuou.

– E cabe a nós continuarmos seu trabalho – Von Sckoppe repetiu.

As taças de vinho já começavam a se encher.

– A ilha de Itamaracá será o nosso próximo alvo então? – Von Sckoppe perguntou, já tendo tomado o primeiro gole de seu vinho.

A confirmação de Calabar veio em seguida.

– Sim. A ilha de Itamaracá.

 

 

 

 

 

Vitórias holandesas e suecas entre 1627 e 1634

 

A pessoa Quem Manda

Nobreza

 

5

20 de Maio de 1633

 

Quatro meses se passaram desde o casamento entre o Duque João de Bragança e sua noiva Luísa de Gusmão. Neste tempo, a nova Duquesa fez tudo para alegrar seu marido. Tomou parte de seus deveres domiciliares. Partilhou dos prazeres da cama nupcial. Evitou discussões e atitudes que poderiam desagradá-lo. E consentiu e relevou muita coisa que considerava insuportável. Agora, tendo terminada a transição de se sentir uma convidada no lar de terceiros para seu verdadeiro status de senhora da casa, Luísa não estava disposta relevar mais nada.

– Eu não agüento mais, João!

O seu grito atravessou os corredores. O jovem Duque guardava seus adorados instrumentos musicais e partituras que ele próprio compôs nos teclados de seu cravo. Teve que deixá-los de lado. Sabia que, para sua esposa o interromper enquanto estava na sala de música, algo muito sério havia ocorrido. Logo a indagou antes que os maus sentimentos já à flor da pele resvalassem em sua pessoa.

– O que causa tamanha fúria em minha esposa para me interromper no meu momento de maior prazer?

– São seus irmãos! – A Duquesa bradou.

– O que há de errado neles? – O Duque acirrou seu olhar.

– Tenho tentado fazer desta Casa um exemplo de moralidade e dignidade. Trazer a esta corte os preceitos de Deus que me foram ensinados por minha finada mãe e continuados por meu pai, mas não posso fazer isso com seus irmãos Eduardo e Alexandre tentando levar para cama todas as damas de nossa corte.

– Está exagerando, Luísa.

– Não estou, João! Seu irmão Eduardo tem desrespeitado minha mais confiável criada, Consuelo, que eu trouxe de Andaluzia comigo. Ele tem a cortejado descaradamente na frente de todos.

– Entenda, Luísa, que por três anos, desde a morte de meu pai, não houve ninguém para impor regras a mim e aos meus irmãos. Não esconderei que nós, jovens, nobres e com nossos recursos, estávamos levando uma vida de princípios um tanto duvidosos.

Nem deixou João terminou, Luísa desaprovou suas palavras.

– Esses princípios morais duvidosos que ainda regem esta Casa não estão agradando nem um pouco a mim e nem aos meus fidalgos andaluzes.

João logo percebeu que esta era sua primeira grande briga conjugal.

– Não pode querer que tudo mude da noite para o dia, Luísa!

– Quando eu tinha nove anos de idade, meu irmão já era casado e mesmo depois que meu pai enviuvou nunca mostrou tais indiscrições. Nunca vivi num ambiente assim e me recuso a viver agora.

O tom de voz dela se elevou entre.

– Quero que parem com tão terrível comportamento! Quero Eduardo longe de Consuelo!

– Consuelo é uma adulta e meu irmão não fará nada sem seu consentimento. Não lhe cabe ser a defensora da dignidade dela – o Duque respondeu.

Não sem ser logo retrucado.

– Consuelo manterá sua virtude para o casamento que eu a arranjarei.

O Duque não se controlou ao ouvir estas palavras. Riu alto e largo.

– Sinto muito informar, mas digo por fontes seguras que todas as virtudes de Consuelo já se perderam.

Era um riso contrastante com o ódio que crescia nos olhos de Luísa.

– E digo mais. Um passarinho me contou que outro chegou na virtude de Consuelo bem antes de Eduardo.

Os risos voltaram a ecoar na sala de música. Estes só cessaram quando Luísa gritou furiosa.

– Estou falando sério, João!

Como a cólera não era o bastante para calar o marido, Luísa lhe tocou as mãos. Retomou a palavra baixando a intensidade de sua voz.

– Por favor, João, é neste tipo de lar que criaremos nossos filhos e filhas?

João tentou soltar as mãos de sua esposa para encerrar esta conversa, mas Luísa as manteve firmemente sob seus dedos. As palavras seguintes incapacitaram João de qualquer resposta. Veio a surpresa da qual João não poderia esperar.

– É este o lar que educaremos a criança que agora carrego em meu ventre?

– Em seu ventre? – João tartamudeou. – Está grávida?

– Sim, João. Estou grávida.

Na cabeça de João, tudo pareceu uma alucinação. As suas mãos tocaram a delgada barriga da esposa enquanto a olhava fixamente, sem acreditar.

– Foi mais rápido do que eu esperava – a incredulidade resplandecia.

– Está feliz? – Luísa perguntou.

O Duque respondeu com um sorriso.

– Sim, claro. Estou me sentindo o homem mais feliz do mundo.

A face do Duque se levantou. Os seus olhos azuis fitaram as pupilas negras da esposa. Os braços se estenderam para abraçá-la. Atônito, era apenas capaz de ouvir as demandas de sua esposa outra vez.

– Entende agora a razão da minha insatisfação. Se queremos criar um lar cristão, onde iremos educar nossos filhos, não podemos permitir tais atitudes, sobretudo por nossos familiares mais íntimos e dentro de nosso próprio lar.

O Duque a respondeu agora com ares bem diferentes.

– Eu entendo sim, Luísa. Está mais do que certa. Não conseguirei alterar as atitudes e a forma de agir de meus irmãos apenas com palavras, mas nós temos muitas propriedades em Vila Viçosa. São locais onde poderão viver da forma como quiserem.

O futuro da Casa de Bragança veio na mente do Duque. A sua família começava a tomar forma. A possibilidade de um herdeiro alegrava seu coração. Respondeu bem mais comprometido e honesto.

– Dadas as circunstâncias, tenho certeza que Alexandre e Eduardo entenderão e aceitarão deixar o palácio.

 

***

 

Na Torre Dourada de El Alcázar, mesmo com a aurora do novo dia tendo surgido há apenas algumas poucas horas, o Conde-Duque de Olivares já estava em seu escritório estudando os mapas germânicos. Chegou bem antes do primeiro compromisso do dia. Desejava revisar as questões externas quando foi interrompido pela chegada de um jovem rapaz com menos de trinta anos de idade.

O rapaz se vestia numa opulência impar com seu manto vermelho de detalhes brancos e dourados. Não era belo. Tinha um rosto retangular, com a fronte alta e o queixo proeminente. Era notória sua cabeça plana, cujos cabelos longos não conseguiam esconder o formato quadrado. Ainda assim, a erguia de tal maneira que não conseguia esconder a sua majestade. Era o soberano das terras ibéricas: o Rei Filipe da Espanha.

– Olivares, eu preciso falar com Vossa Excelência.

Imediatamente, o Conde-Duque deixou sua larga poltrona. Ajoelhou-se frente ao soberano que lhe instituiu poder absoluto sobre o Reino. Mesmo com as pernas quase incapazes de segurar seu obeso corpo em posição, este se manteve firme. Afinal, era o único homem em todo o mundo para quem precisava se ajoelhar.

– Vossa Majestade muito honra o seu mais fiel servo com esta visita. Diga-me o que devo fazer para ser digno de sua presença.

– Pode voltar à poltrona – respondeu o soberano.

A presença de El Rey Filipe, ali, em seu escritório, fez o sangue do Conde-Duque gelar. Poderia ser convocado na sala do trono ou nos aposentos reais como era habitual.

Reuniões entre ambos se tornaram cada vez mais raras ao longo dos últimos doze anos desde a coroação. Nos primeiros anos, o Conde-Duque costumava se encontrar com Sua Majestade pelo menos três vezes ao dia para discutir as questões reais. A medida que o Valido se mostrou particularmente eficaz, os encontros passaram a ser diários. Enfim, depois da reconquista de São Salvador, da tomada de Breda e da vitória em Cádiz os encontros foram se espaçando. Agora, se encontravam apenas nas celebrações e festejos de El Alcázar.

O Conde Duque se preocupou enormemente ao vê-lo no seu escritório, principalmente, ao trazer perguntas que tanto lhe assustavam.

– Como andam as dificuldades do meu Reino, Olivares?

– Como sempre, serei honesto com Vossa Majestade. Os últimos quatro anos foram os mais difíceis de todo o seu reinado. Felizmente, prevejo que a apertada situação está perto de terminar.

A perna inquieta do Conde-Duque balançava nervosamente. El Rey perguntar sobre seu reino era algo extremamente raro. Enquanto houvessem amantes em sua cama e festas nos salões de palácio, o Valido até então não precisava se preocupar.

El Rey Filipe caminhou pelo escritório proferindo palavras que fizeram a perna do Conde-Duque tremer mais intensamente.

– Tenho escutado muitas reclamações e acusações ultimamente, maior parte delas relacionadas à sua pessoa.

– Como eu disse, foram anos difíceis, Majestade. A captura da Frota da Prata, o período de péssimas colheitas e a conspiração entre a França e a Suécia nos deixaram numa situação delicada. É natural que falem.

El Rey parou em frente ao tabuleiro de xadrez. Tocou suas peças. Analisou o jogo. Então respondeu ao valido:

– Escolhi a Vossa Excelência, há doze anos, exatamente com o objetivo de resolver os problemas e não para me trazer desculpas – a frase seguinte de El Rey fez o suor brotar na sua testa. – Então, por que meu Reino quer sua cabeça?

O rei estendeu o braço na direção do Conde-Duque. Em sua mão estava um documento oficial com várias assinaturas.

A gota de suor desceu através de sua fronte.

– Minha própria esposa quem me entregou este édito com palavras ainda mais duras sobre Vossa Excelência.

A leitura extraiu ainda mais gotículas de suor do Conde-Duque. Não sem depois ele proferir mais palavras em sua defesa

– Eu vivo apenas para servir e agradar a Vossa Majestade. Se Vossa Majestade acredita que não estou à altura do serviço que me confiou, deixo meu cargo, minha honra e minha vida à sua disposição, meu senhor.

O Rei Filipe, desapontado, baixou a cabeça. O Valido percebeu que suas próximas palavras definiriam o seu futuro.

– Mas, se o senhor me permite comentar, devo lembrar que a rainha me odeia por algo que eu fiz pela honra de Vossa Majestade e com sua aprovação. É algo apenas conhecido por nós três. Nem a minha própria esposa sabe disto.

– Sim – o rei interrompeu. – E sempre serei grato por sua eficácia e discrição neste assunto.

– Quantos aos nobres que aí assinaram, explico que tomei medidas duras nos últimos anos, bem impopulares. Fiz tudo isso sem que elas atingissem a Vossa Majestade. Reitiro dizendo que o tempo das vacas magras está acabando. A recuperação das colheitas. A morte do Rei Gustav Adolph. As alianças refeitas com os reinos germânicos. Tudo está caminhando para a recuperação.

O documento deixado na mesa pelo Conde-Duque foi tomado pelas mãos de Sua Majestade. Este o revisou com olhos mais inquisitórios. El Rey, que escutava em silêncio, então proferiu palavras que fizeram seu Valido respirar mais aliviado.

– Acredita ser capaz de reverter a situação contra os holandeses?

– Perdemos Grol, Den Bosch e Maastricht nesses últimos anos, mas um novo exército com vinte e quatro mil homens sob o comando do irmão de Vossa Majestade, o Cardeal-Infante, já está pronto para partir para a Holanda. Ele se encontrará com as novas forças do Império sob o comando do filho do Imperador, seu cunhado, Ferdinando.

– E a capitania de Pernambuco? – El Rey perguntou com especial cuidado. Lembrava que não longe dali, graças às vitórias na capitania da Bahia, conseguiu recuperar sua reputação em tempos igualmente difíceis.

– Estou preparando o socorro para auxiliar o capitão-mor Matias de Albuquerque e o Conde de Bagnulo.

O Conde-Duque, com um lenço, enxugou o suor em sua fronte.

Neste momento, o Rei Filipe colocou seus olhos sobre o documento. Proferiu as palavras que selaram o destino do seu Valido.

– Tenho confiança em sua pessoa, Olivares. Vossa Excelência cuidou de meus interesses antes mesmo de eu me tornar rei. Estou disposto a continuar com esta confiança apesar dos recentes acontecimentos.

El Rey rasgou o tal documento.

– Sou indigno de tamanha compaixão, Majestade.

– É digno sim, Olivares. O único que consigo encontrar ainda digno em todo meu reino – El Rey fitou seu Valido mais acirradamente. – Apenas solicito que continue a manter-se digno de mim!

– Sim, Majestade.

Em seguida, El-Rei deixou o escritório. O fechar da porta trouxe grande alívio ao obeso Valido, mas a tensão logo voltou a consumi-lo quando a porta se abriu outra vez.

– E Olivares?

– Sim, Majestade? – O Conde-Duque proferiu ao colocar seu pesado corpo de joelhos outra vez.

– Quase me esqueci… – o rei retornava. – O que houve com Fadrique de Toledo? Num momento, ele era um dos meus melhores generais e, no outro, se tornou um condenado? Sua esposa Elvira é próxima da Rainha e a alertou da situação.

– Tudo volta a Pernambuco, senhor. Eu lhe ordenei que libertasse esta capitania em honra de Vossa Majestade assim como antes libertou Salvador. Ele desobedeceu a minha ordem. Acabou punido pela corte militar.

El Rey se colocou a pensar na situação, mas não demorou muito para dar uma resposta.

– Restitua-o. Aborte a decisão do Conselho de Guerra.

– Mas, Majestade…

– O bom Fadrique me trouxe mais vitórias do que qualquer outro general. E que rei seria eu se não enaltecesse meus heróis?

O Conde-Duque baixou a cabeça frente ao pedido de seu Rei. Este nem percebia o quanto tomar tal decisão era uma desmoralização para seu Valido. Era como uma faca entrando em seu estômago. Afinal, ordens proferidas devem ser cumpridas. Voltar atrás sempre é uma vergonha.

Ele só pode engolir seu orgulho goela abaixo, arrepender-se de não ter o enforcado ou envenenado o general quando teve a chance. Pensou que seria bem mais eficaz e menos revoltoso aos seus familiares do que a pesada multa que aplicou. Lembrou de seu filósofo preferido: Os homens esquecem mais depressa a morte do pai que a perda de um patrimônio. Quanto mais uma esposa para esquecer um marido, continuou o pensamento.

– Estou aqui apenas para fazer a sua vontade, Majestade – enfim respondeu, escondendo seu desgosto.

El Rey Filipe deixou novamente os aposentos. O Valido o observou atravessar os corredores com todos ao seu redor aw curvando em reverência à sua Majestade. Só quando longe o bastante fechou a porta. Recostou seu pesado corpo sobre a mesma, Esfregou os olhos enquanto suspirava aliviado. Seguiram-se lágrimas de nervosismo. Era a primeira vez que escutava uma crítica tão dura de Sua Majestade. Se é que houve alguma outra crítica antes. Um pesado desabafo foi proferido ao vazio.

– Meu Deus! Esta foi por pouco!

 

 

 

 

II

 

 

 

Forte Orange
Vila Conceição
Igarassu
 

Ilha de Itamaracá por Johannes Vingboons (1617-1670)

 

Uma Parceria de Sucesso

Holandeses

 

1

20 de Junho de 1633

 

Nove dias depois de Von Sckoppe ter assumido a liderança das forças de Nova Holanda, dois mil soldados holandeses desembarcaram na ilha de Itamaracá sob seu direto comando. Levaram consigo Domingos Calabar, ou melhor, este quem os levou como tão prático no conhecimento da região. Mesmo porque há dias Calabar quem os persuadiu a esta facção pela facilidade com que podiam conseguir se dirigindo à Vila Conceição que estava no alto da ilha.

Logo, se reuniram todos com o major d’Artischau, defensor no Forte Orange. Este forte, quadrangular com baluartes de artilharia em cada vértice, encontrava-se numa angra logo na entrada sul do canal, que é o principal porto da ilha. Desta forma, os seus doze canhões impediam a chegada de qualquer navio espanhol de socorro à ilha. No entanto, os holandeses tinham este forte já há dois anos sem conseguir avançar além desta posição, pois logo em frente, sobre um monte, estava a Vila Conceição defendida pela fortificação do governador Salvador Pinheiro.

Todo avanço holandês ao interior da ilha era logo repelido pelas forças da Resistência de Albuquerque. Nem conseguiam alcançar as cidades. Nem conseguiam se aproximar dos ricos e numerosos engenhos que haviam nas dez légua de extensão insular. No entanto, os holandeses estavam confiantes que este dia seria diferente e assim as ordens do coronel Von Sckoppe já ecoavam por todo seu exército.

– Ocupem o monte em frente à fortificação inimiga.

– Desembarquem a artilharia para bater o inimigo.

– Quero também duas companhias de soldados vasculhando os arredores.

– Outra examinará a vila espanhola com batedores guiados por Calabar.

– Todas as outras companhias deverão me acompanhar.

As forças holandesas começaram suas mobilizações. O líder do seu exército marchou suas tropas até o forte espanhol. Fez alto frente ao mesmo, ainda fora do alcance de sua artilharia. Em seguida enviou um mensageiro ao local.

Este mensageiro, com seu tambor, anunciou o desejo de tratar os termos de uma negociação. O governador espanhol da ilha, Salvador Pinheiro, surgiu sobre a muralha. Perguntou que mensagem o líder holandês lhe enviava, mas este apenas tinha para lhe oferecer termos de capitulação.

– O coronel Von Sckoppe, novo líder das forças holandesas, sabe da situação deste forte, que está precário e mal provido de víveres. Ele assim exige sua rendição imediata e, em sua magnânima generosidade, permitirá que saiam todos com honras militares e que possam voltar às suas terras caso aceitem os passaportes holandeses.

O tambor aguardou a resposta do governador do forte.

 

***

 

Enquanto isso, estando Von Sckoppe ainda esperando a resposta de Salvador Pinheiro, os batedores guiados por Calabar retornaram do reconhecimento através dos ocultos caminhos da mata desde Vila Conceição, mas o coronel logo percebeu que o guia não estava com eles. Era um dos suboficiais da companhia quem tomava a palavra.

– Senhor Coronel.

– Qual a situação de Vila Conceição, soldado?

– A vila foi abandonada, senhor. Não há ninguém lá e tudo que tinham de valor assim como seus víveres foram retirados.

Os olhos do coronel se estreitaram. Encheram-se de dúvidas.

– Estranho – o coronel falou. – Porque abandonar tão importante praça se Calabar disse que era tão bem defensável?

Era uma pergunta retórica, mas o coronel não era o único a fazê-la como constatou este mesmo suboficial.

– O capitão Calabar fez a mesma pergunta coronel.

– E onde está Calabar? Porque não veio junto com a companhia? – O coronel retomou.

E o suboficial respondeu.

– Também estranhando o abandono da vila, disse que investigaria a razão disso, por isso, foi ao encontro das companhias de busca no interior da ilha.

– Entendo – o coronel coçou a barbicha. – Apenas me avise quando ele chegar aqui.

– Sim, senhor.

O suboficial, realizando a reverência militar, deixou o local. O coronel colocou-se a pensar no que estava ocorrendo, não sem antes ouvir o comentário do major d’Artischau, que estava ao seu lado, sobre algo que já lhe causava muitas preocupações.

– Essas são revelações preocupantes – o major proferiu. – Se o governador Salvador Pinheiro teve tempo de evacuar Vila Conceição, certamente houve tempo de mandar um pedido de socorro ao governador Albuquerque em Bom Jesus.

A resposta do coronel ao comentário não trouxe grandes esperanças.

– Temos que conquistar o forte inimigo logo, antes de Albuquerque chegar ou a situação ficará bem feia por aqui.

Se a fisionomia de ambos já não estava nada boa, a chegada do tambor mensageiro com a réplica ao pedido de rendição não os deixou nada melhor.

– Senhor coronel – disse o mensageiro. – O capitão-mor Salvador Pinheiro respondeu desdenhosamente que: Tem meios suficientes para defender a praça e que não estava tão mal providos de mantimentos como os nossos julgavam!

A face do coronel, ao mostrar claros sinais de desapontamento e vendo as coisas não saírem como planejado, fez o mensageiro hesitar na sua mensagem, mas este a retomou para causar ainda mais infelicidade ao coronel.

– E disse mais. Falou que: Mesmo que estivessem tão desprovidos quanto nós acreditávamos, ainda combateriam pelo tempo que pudessem e bem poderiam roer as solas dos sapatos se o serviço do rei assim exigisse!

 

***

 

Nos centro do Porto do Recife, mais precisamente numa das melhores casas da povoação construída ali pelos holandeses, um outro brado ecoava por suas ruas. Era o brado de uma mulher furiosa e tomada pelo ódio. Era Amália Strausskicher quem gritava para seu amante Charles de Toulon, ignorando tudo ao seu redor.

– Saia daqui!

A raiva transbordava de sua garganta.

– Some da minha frente!

– De novo não, Amália – Toulon mostrava sua face mais aborrecida.

Era uma cena que se repetia novamente. Era a terceira vez esta semana. Toulon nem se importava mais em saber qual era a razão da irritação desta mulher. Bastava uma palavra errada para ela se sentir ofendida ou culpada. Não era preciso motivo algum para descontar tudo no capitão franco-holandês.

– E não volte mais aqui! – Ela continuou.

Toulon ainda desviou de algum objeto arremessado por ela que se estilhaçou alguns metros à sua frente.

Ele nem se dignou a responder. De costas para a mulher, enquanto caminhava para longe dali, apenas levantou a mão ao alto, jogando-a para trás, para denotar que desejava mais do que tudo sair dali. Desejava se fastar da desvairada mulher e de sua exaltada sensibilidade. Sabia que suas palavras diziam algo, mas daqui a poucos dias já as desmentiria, desejando encontrar o amante novamente.

Ele nem se importava. Era tudo muito repetitivo. Cada vez se afastando mais dali, não mais que alguns minutos depois, seu passo enfim chegou ao destino desejado. Seu caminhar o levou à taverna do porto, até os aposentos da sua negra preferida.

– Senhor Toulon – a escrava abriu um sorriso ao ver o holandês de traços franceses, já se aninhando em seus braços.

– Venha minha, Preta. Estava à sua procura – disse o capitão Toulon enquanto a recebia nos braços e lhe beijava o pescoço.

A negra lhe beijou o peito em retorno, subindo à face em seguida. Os olhos negros da mulher acertaram os olhos azuis do homem.

– Pensei que estava com a senhora Serooskersken?

O tom de voz da negra ao falar o nome da outra mulher era de notório desprezo, mas não era muito diferente do tom de voz do próprio Toulon.

– Amália está cada dia mais doida. Deus me livre!

– Devia ter vindo mais cedo, pois fico muito feliz quando vem aqui.

Ao ouvir estas palavras da negra, Toulon colocou sua face mais aborrecida. A razão disso logo foi expressa.

– Eu vim, negra, mas havia outra pessoa aqui – ele falou. – Outro cliente estava em seus aposentos.

– Eu sinto muito por isso, senhor – a negra sentiu vergonha pelo ocorrido. Sentia vergonha do ofício que lhe era imposto. Não queria desagradar o homem, mas essas palavras não aborreciam o capitão tanto quanto a ela.

– Eu sinto muito – ela repetiu mais cabisbaixa. – Mas, se o perturba, há uma forma de evitar que isso aconteça novamente.

Um aborrecimento cresceu no franco-holandês.

– Só não me venha com a mesma história de lhe comprar de novo.

Era exatamente neste assunto que a negra tentava chegar.

– Eu não quis lhe aborrecer, senhor. Desculpe-me, por favor.

Não havia a menor pretensão da negra em deixar sua condição de escrava, muito menos de buscar algum sentimento no capitão Toulon. Essa foi a condição que Deus lhe colocou, não lhe cabia nada mais, assim era o pensamento corrente. No entanto, ser a escrava deste homem era um sonho que cada vez mais  acometia anegra. Era tudo que mais desejava para se livrar dessa vida de prostituição. No entanto, para Toulon, a insistência da negra era entediante. Ele não quis nem sequer pensar no assunto. Desejava algo bem diferente.

– Tudo bem, mas deverá me compensar por isso hoje – disse com sorriso malicioso enquanto deitava sobre ela no colchão velho do aposento.

 

***

 

Na ilha de Itamaracá, enquanto o coronel Von Sckoppe proferia as ordens para começar o bombardeio ao inimigo, Calabar mantinha as buscas no interior da ilha. Julgava que algo estava muito estranho naquilo tudo e desejava descobrir a razão disso, seguindo pegadas e rastros deixados pela população desaparecida de Vila Conceição por toda aquela mata.

– Está vendo esses rastros. Alguém passou por aqui há pouco tempo – Calabar falou para um dos conselheiros que o acompanhava.

– Será que os inimigos possuem grupos de emboscada dentro dessa mata? – Vendo o solo apontado por Calabar, este conselheiro questionou com notório temor na voz.

– Com certeza não, Van Keulen! Os grupos de emboscada treinados por Albuquerque não seriam tão descuidados.

– Então de quem são estes rastros?

Calabar levantou a mão. Encerrou abruptamente a conversa.

– Espere! Não faça barulho!

Em seguida, levantou mais alto a mão para que o conselheiro mantivesse o silêncio. Colocou-se a observar os entremeados de galhos na densa mata ao seu redor. Foram segundos de tensão para o conselheiro Mathijs van Keulen. Momentos que terminaram com uma única palavras de Calabar.

– Daar! Bem Ali!

Todos os soldados observaram na direção onde o espanhol apontava. Nada parecia errado na mata. Nenhum movimento. Nenhum barulho. Nada fora de lugar. Ainda assim o guia já proferiu novas ordens aos soldados holandeses.

– Venham, homens. E preparem suas armas.

Minutos depois, a mata era cortada. Os galhos arrebentados. E todos os possíveis refúgios tomados. Os soldados holandeses estavam preparados para tudo. No entanto, encontraram ali algo da qual nunca esperavam encontrar. Eram duas mulheres brancas. Duas senhoras, donas de casa, enrugadas pelos seus cinqüenta anos de idades e enroupadas em longos vestidos.

– Por favor, não nos machuquem – uma gritou.

– Tenham piedade, por favor – suplicou a outra.

Ambas as mulheres arrastavam seus corpos para longe dos holandeses, procurando inutilmente alguma proteção no refúgio de terra onde estavam escondidas. Sujavam assim seus vestidos com a lama amarronzada, cheia de lodo.

– Olá, minhas senhoras – Calabar proferiu no idioma ibérico.

– Domingos Calabar? – uma das senhoras logo o reconheceu.

A constatação lhes causou ainda mais pavor, pois depois de Barra Grande, Igarassu, Rio Formoso e Afogados, a sua infame traição já havia se espalhado entre as populações locais.

Calabar continuou a falar com voz calma e serena.

– Posso saber o que as senhoras, tão delicadas madames, estão fazendo sozinhas e no meio desta perigosa mata? Não sabem que podem encontrar todo o tipo de pessoa num lugar assim?

– Por favor, não nos machuque – elas imploravam.

Calabar se aproximou mais. Levantou a arcabuz em sua mão. Pressionou-a no rosto de uma delas, revelando agora um tom da voz mais ameaçador.

– Eu fiz uma pergunta, minha senhora.

Cada palavra de Calabar extraía mais lágrimas dos olhos da mulher. Ele não precisou perguntar outra vez. A outra senhora, vendo o sofrimento da primeira, confessou tudo o que Calabar desejava ouvir.

– O capitão-mor Salvador Pinheiro estava com tão pouca gente e tão mal provido de tudo que não tinha como defender a vila. Decidiu abandoná-la e colocar toda a defesa na sua fortaleza.

Percebendo-se próxima da perdição, a outra logo complementou.

– Os homens ficaram para defender o forte enquanto as mulheres seriam enviadas fora da ilha, mas não houve tempo para isso e nem todas conseguiram sair. Nós tivemos que nos esconder na mata.

Calabar ainda não estava satisfeito.

– E onde estão as outras mulheres que não conseguiram sair da ilha?

O choro das mulheres acrescia. Calabar nem precisou perguntar novamente. A força de vontade despedaçada delas já não suportava mais.

– Estão escondidas na mata mais adiante.

Um sorriso surgiu na face de Domingos Calabar. Ele guardou a arma. Levantou a cabeça e virou o rosto pra os lados, ainda em meio ao choro das mulheres, olhando para a mata ao seu redor e mantendo o belo sorriso.

– Que ótima notícia – então falou. – Parece que conquistaremos a ilha bem mais cedo do que imaginávamos.

 

***

 

Horas depois, o mensageiro holandês tocou novamente o tambor em frente a fortaleza de Salvador Pinheiro. A sua silhueta surgiu outra vez sobre as muralhas para escutar a mensagem de Von Sckoppe. E, para a decepção do capitão-mor da ilha, era outra solicitação de rendição.

– O coronel Von Sckoppe generosamente lhes oferece uma nova oportunidade de rendição e com todas as honras militares – disse o mensageiro holandês. – Deixem o forte agora ou sofrerão as conseqüências.

Mal terminou de falar, dentre as forças holandesas postadas frente a fortaleza, surgiu o traidor Domingos Calabar. Ele caminhou tranquilamente na direção de Salvador Pinheiro adentrando os limites alcançados pelos canhões espanhóis. Assim o fazia, se sentindo totalmente seguro de qualquer ataque, por estarem logo atrás dele dezenas de mulheres amarradas.

A mulheres protestavam pelo tratamento a que eram submetidas, recebendo assim empurrões dos soldados holandeses para continuar o passo. Eram as esposas e filhas dos defensores desta fortaleza. Fez o governador Salvador Pinheiro bradar de cima da muralha ao reconhecer as familiares faces femininas na sua frente.

– Isso é jogo sujo, maldito!

Calabar continuou a caminhar calmamente até ficar a poucos a passos da muralha, frente a frente, com seu governador.

– Meu bom amigo Salvador Pinheiro, fico feliz em lhe reencontrar tão bem depois de todos esses anos – Calabar falou com a maior cara lavada. – Se vossa senhoria entregar o forte, hei de ficar ainda mais feliz em entregar suas esposas e filhas sãs e salvas aos seus braços.

O sorriso resplandeceu ainda mais.

– No entanto, se vossas senhorias não abrirem os portões desta fortaleza, seremos obrigados a enviá-las ao Porto do Recife para viver entre os holandeses. Assim elas estarão seguras e nossos homens ficarão felizes em ter a companhia de algumas mulheres, já tão em falta por lá. Quem sabe, vossas senhorias podem até se tornar sogros de alguns bons fidalgos holandeses.

O governador espanhol não conteve o praguejar enquanto Calabar, junto com as mulheres, se postou ao lado do coronel Von Sckoppe novamente. Aguardou a resposta do governador espanhol.

Não demorou para Salvador Pinheiro enviar um capitão para conferenciar com os holandeses. No mesmo dia, as portas da fortaleza se abriram e o major d’Artischau, marchou pessoalmente com duas companhias, sem qualquer resistência do inimigo. E assim se apoderou das suas duas portas. No dia seguinte, o governador e os habitantes saíram rendidos contando sessenta homens.

Depois disso, os holandeses fizeram um Te-Deum em ação de graças na igreja da cidade, cantando: – Santo, Santo, Santo é o Senhor Deus dos Exércitos! Os Céus e a Terra estão cheios da vossa glória e da vossa majestade.

À tarde, deram salvas de canhão e mosquetaria em regozijo pela fácil vitória. E, em homenagem ao seu coronel, rebatizaram o povoado principal da ilha. De Vila Conceição, agora se chamava: – Vila Sckoppe.

Souberam depois que o governador Matias de Albuquerque foi visto se aproximando da ilha no dia seguinte, mas, recebendo a notícia de como os holandeses já tinham rendido a ilha toda, retornaram pelo mesmo caminho. Os vencedores brindaram a virória, principalmente, quando Calabar tomou a palavra para revelar seus planos futuros.

– Agora é a vez do Rio Grande! Tem um outro Pinheiro lá que, diferente deste, facilitará as coisas para nós.

 

Plattegrond do Rio Grande por Johannes Vingboons (1616-1670)

Reis Magos
Entrada do Porto
Arrecifes
Águas Rasas

 

O Ardil nos Reis Magos

Holandeses

 

2

12 de Dezembro de 1633

 

– Recebi o forte de Sua Majestade, El Rey Filipe da Espanha, meu senhor e soberano, e mil vezes prefiro morrer do que entregá-lo a outrem! – Assim gritou o capitão-mor Gouveia, comandante da fortaleza dos Reis Magos e governador da capitania do Rio Grande, quando os holandeses solicitaram sua rendição. Ele tinha consigo pouco mais de vinte canhões e oitenta homens dos moradores, dos quais poucos eram soldados.

Era uma bravura imensa tentar resistir a onze companhias holandesas com dois mil homens que vieram do Recife em dezoito navios holandeses que desembarcaram na Ponta Negra. Este era o porto mais seguro para o desembarque a cerca de duas léguas fatigantes através de arenosas dunas. Um percurso que exauriu as forças holandesas no primeiro dia de batalha. No entanto, estes logo retomaram seu objetivo construindo uma bateria num monte indicado por Calabar, local onde fizeram esplanada se cobrindo com cestões de madeira e colocando três meios canhões.

Nesta esplanada, sob o escaldante sol do meio-dia, o major d’Artischau ouviu a resposta do capitão-mor Gouveia e o respondeu através de artilheiros.

– Podem começar a bater o forte.

Os canhonaços começaram de ambos os lados. O capitão-mor Gouveia era corajoso, mas não era louco. A fortaleza era seu próprio trunfo nesta batalha. Afinal, houve uma boa razão para o Coronel Waerdenburch nem sequer ter se arriscado atacá-la quando esteve nesta capitania dois anos atrás.

– Não temos como resistir, capitão-mor – o segundo em comando da fortaleza protestava ao seu superior. – Eles são muitos!

Este não compartilhava do mesmo covarde pensamento.

– Não fale bobagens, sargento Pinheiro. Só precisamos esperar a chegada do socorro de Bom Jesus, que não deve demorar muito tempo.

A Fortaleza dos Reis Magos era a melhor já construída nesta costa do continente, já chamando a atenção com seu peculiar formato pentagonal estrelado cuja ponta principal abicava para a barra enquanto as duas pontas viradas para a terra terminavam em baluartes artilhados. Ela detinha a altura de quatro homens e muralhas de dez palmos de espessura. Além disso, foi construída sobre um promontório de areia que na maré cheia fica ilhado pelo mar apenas permitindo qualquer tentativa de invasão durante as poucas horas da maré baixa.

Os canhonaços continuaram afiados por dois dias seguidos, com os dois lados se digladiando. Felizmente, os artilheiros holandeses foram mais certeiros, começando a causar grande dano nos parapeitos dos baluartes que faziam cobertura aos canhões.

No terceiro dia, não fugindo de suas obrigações, o capitão-mor Gouveia continuava a exortar seus soldados ao ataque. Foi quando uma poderosa e certeira bala de canhão holandesa atingiu fortemente os já moribundos parapeitos. Os tijolos ruíram com o impacto. Os artilheiros foram jogados ao chão. A poeira subiu tomando todo o baluarte.

A voz do sargento Pinheiro foi a primeira a ser ouvida.

– O capitão-mor está ferido! O capitão-mor está ferido!

Em meio aos canhões da fortaleza descobertos e ao baluarte principal em ruínas, com a guarnição ficando exposta, lá estava capitão-mor caído e inconsciente nos braços do sargento. A grave pancada em sua cabeça, causada por um estilhaço, lhe cortou a fronte e lhe tomou a consciência.

– Levem o capitão-mor Gouveia para seus aposentos – o sargento gritou. – E digam que para Simão Ortigueira cuidar dele lá!

Os soldados da fortaleza obedeceram imediatamente, descendo o capitão-mor ainda inconsciente para a enfermaria. Os outros feridos foram imediatamente removidos também. Os canhões rio-grandenses que se arrebentaram com o impacto eram remontados e as balas de canhão que rolavam para todos os lados eram reposicionadas. Um dos valentes soldados que ali estava, vendo a situação tumultuosa do forte, logo solicitou novas ordens para o sargento. Estava preparado para continuar o combate.

– Senhor sargento, solicito permissão para pegar os cestões de madeira para colocar no baluarte e trazer mais balas para os canhões.

– Permissão negada, soldado – foi a inesperada resposta do sargento.

A verdade é que o novo comandante da fortaleza dos Reis Magos não tinha nada do ímpeto do capitão-mor Gouveia, nem deste corajoso soldado, como se pode constatar com suas palavras seguintes.

– Apenas traga aqui a bandeira branca. Esta batalha chegou ao fim!

 

***

 

O ferido capitão-mor Gouveia acordou de sua inconsciência no dia seguinte. O ferimento latejava em sua cabeça, mas pela graças a Deus não lhe roubou a vida. Infelizmente, na sua concepção, a morte teria sido um melhor destino, principalmente, ao ter como primeira visão o sargento Pinheiro.

– Capitão-mor Gouveia – este retomou. – Que bom lhe ver desperto, pois ficamos muito preocupados quando o estilhaço da bala atingiu sua cabeça.

– Mentiroso! Desonrado!

A face do capitão-mor transbordou ódio ao escutar aquilo.

– Não foi a bala que colocou este estilhaço em mim, pois eu estava muito bem acordado quando lhe vi me golpear com ele! A sua mão traidora quem me causou este ferimento!

O sargento apenas fez uma face de desdém para seu superior.

– Será condenado no tribunal militar – o capitão-mor falou, já se levantando. – Hei de lidar com sua falta de honra depois, antes, tenho que retomar meu posto e dar cabo destes malditos holandeses

Neste momento, o capitão-mor percebeu que não era possível se levantar, pois suas mãos estavam acorrentadas no leito.

– Os holandeses já estão em nossas portas – o sargento retomou. – Entregarei agora a rendição de nossa fortaleza para eles.

– Pagará caro por isso, Pinheiro – o capitão-mor Gouveia bradou.

O sargento abriu um largo e desafiador sorriso.

– Não, capitão-mor. Os holandeses quem vão me pagar muito ouro por esta fácil conquista.

 

***

 

Os insultos continuaram até o sargento Pinheiro desaparecer da visão do capitão-mor Gouveia pela pequena porta deste aposento. E assim a cena que surgiu defronte ao sargento foi a do major d’Artischau, tendo de um lado o capitão Calabar e do outro o conselheiro Van Keulen.

– Demorou mais do que imaginei, Pinheiro – Calabar primeiro tomou a palavra.

– Infelizmente, tive que ser mais persuasivo para convencer o capitão-mor Gouveia a me entregar o que desejava.

– E onde estão elas?

– Como eu prometi, aqui estão – falou o sargento ao estender a mão.

E entre seus dedos estavam as chaves da Fortaleza dos Reis Magos.

 

***

 

Bem longe dali, o capitão Charles de Toulon entrava na sua taverna preferida no Porto do Recife. Ele retornava de uma missão nos Apipucos, região de engenhos próxima de Bom Jesus. Era uma missão em que não obteve o sucesso esperado. Quatrocentos homens foram enviados e outra vez foram repelidos destas paragens pelas forças do governador Albuquerque.

Em razão da derrota, o capitão Toulon chegou na taverna em busca de conforto e nada o confortava mais do que os braços de sua negra favorita. O simples olhar naquelas grossas coxas, cujos trapos que a vestiam nada escondiam, o deixava louco, assim como seus glúteos avantajados.

– Tenho que dizer, Preta, que o vigor e constituição da gente de sua raça são surpreendentes – Toulon falou ao entrar nos aposentos da negra.

Ela estava, ali, deitada na cama, de bruços, realçando os encantadores quadris cor de ônix.

– Porque diz isso, meu senhor? – Ela perguntou.

– Tem um negro entre os capitães do governador Albuquerque, um tal de Henrique Dias, que este ano já o acertaram quatro mosquetaços e o maldito parece nunca morrer. Pior. O seu grupo de negros nos atacou no Apipucos esta semana e mais incrível ainda foi este capitão ter matado, com sua própria mão, cinco dos nossos nesta ocasião!

Enquanto Toulon falava, a negra se levantou da cama onde repousava. Os braços envolveram os ombros do capitão franco-holandês. As musculosas pernas escuras fizeram o mesmo em volta de sua cintura.

– E agora, quando chego aqui, vejo toda essa sua corpulência.

O capitão já desatava as amarras de sua calça.

– Quero mostrar que sou mais que atributos físicos, meu senhor – a negra interrompeu – Sei que veio direto da batalha para cá, por isso, quando vossa senhoria chegar na sua casa, perceberá que lhe fiz uma surpresa. Eu a arrumei toda e cuidei para deixá-la limpa para quando retornasse.

Bem diferente do que a negra esperava, Toulon lhe respondeu com uma seriedade gélida.

– Porque fez isso? – Ele falou com voz enervada.

A negra estremeceu.

– Desejei fazer algo pelo senhor, pois quis mostrar o quanto posso lhe ser útil também nos afazeres domésticos.

– Maldição, Preta – Toulon logo percebeu a intenção da negra. – Eu já disse que não vou lhe comprar para ser minha escrava!

Toulon esmurrou a parede. Os olhos azuis, se escureceram. A negra nunca o vira tão nervoso antes. Embora a negra pensasse que podia convencer o capitão franco-holandês a lhe tirar desta vida odiosa a que era imposta, logo saberia que escravos não tem direito a opinião, muito menos buscar alguma forma de respeito.

– Senhor, eu pensei… – ela tentou falar.

– Não tem o direito de pensar – Toulon a interrompeu. – É uma escrava. Uma puta!

O tom de voz do capitão era de enfado. Ele tomou a negra pela cintura. Usou uma força da qual ela estava acostumada com este homem. Rispidamente, ele a colocou de costas. Levantou os trapos que a vestiam, revelando as partes intimas que antes estes mal conseguiam esconder.

– Não faça issp, meu senhor – ela pediu com comiseração nos olhos.

Ele nem os viu. Apenas a penetrou brutalmente. A negra sentiu a dor entre as pernas, mas eram os gritos do capitão que realmente lhe machucavam.

– Não tem o direito de me solicitar nada. Muito menos me sugerir coisa alguma. Não passa de uma diversão. Nada mais que um passatempo!

Esta não era a primeira vez que a negra era estuprada. Ser violentada, na verdade, era parte do ofício que lhe era imposto pelo taverneiro. Era assim que os escravos eram tratados. No entanto, nunca antes este ato fora tão doloroso para a negra. Desta vez, era realizado por um homem que tanto ela prezava e que continuava a vociferar ao seu ouvido.

– Ponha-se no seu devido lugar, sua negra!

 

***

 

Retornando a capitania do Rio Grande, depois da conquista da fortaleza dos Reis Magos, Calabar explorava a capitania conquistada com duas companhias holandesas a cargo do capitão Garstman. Eles caminharam cinquentas léguas da costa através de planícies verdejantes até o cenário se tornar mais amarelado e árido. Eles chegavam assim nos limites das terras Seridoenses, já próximos dos desertos montanhosos do semi-árido Apodi.

O capitão Garstman mal conseguia suportar o calor escaldante destas terras. A caminhada de longos dias era penosa, com o suor lhe descendo a testa e as axilas. Este capitão percebeu que o calor do Recife não era nada comparável ao que encontrava nestas paragens.

– Que calor infernal é este? – Garstman praguejou.

– Infernal? – Calabar riu com o comentário. – Isso não é nada, depois das montanhas do Apodi começa a capitania do Ceará. Ali sim o calor é infernal e a falta de água angustiante.

As palavras de Calabar causaram espanto no capitão holandês.

– Meu Deus, Calabar! E quem diabos conseguiria viver aqui?

Nem foi preciso Calabar responder. Surpreendendo a todos, a resposta surgiu aos olhos de Garstman. Centenas de selvagens deixaram seus esconderijos sob os montes arenosos da região apontando suas flechas contra os dois homens e bradando seus tacapes ao alto. Um dos selvagens gritou na sua língua mãe.

– Mamo sui pereyu? Maã perese-kar?

Estes selvagens, habitantes dos confins mais internos do Novo Mundo, eram bem diferentes dos que os holandeses estavam acostumados. Eram maiores em altura e tinham corpois mais escuros, atrigueirados. No entanto, o que neles mais impressionava era o olhar, que exalava uma brutalidade e selvageria difícil de pôr em palavras. Não havia dúvidas de que se tratava de uma raça totalmente diferente. O líder, que proferia este estranho idioma, andava a revelia e pintado para guerra com as cores negras de Jenipapo. Estava ornado com ossos humanos e espirais de folha enrolada que lhe perfuravam as narinas, o lábio inferior e os lóbulos das orelhas.

A voz de Calabar seguiu.

– Ereicobépe, janduí-iara – ele saudou o líder selvagem no idioma nativo.

– Ereicobépe, abaité – o líder da tribo selvagem saudou-o de volta, balançando a cabeça afirmativamente.

Em seguida o selvagem repetiu as perguntas que primeiro fez, questionando quem eram e o que desejavam.

– Mamo sui pere-yu? Maã perese-kar?

O mulato Calabar respondeu ainda proferindo palavras no idioma nativo que se traduziam como:

– Venho em paz, Principal dos Janduís. Venho em nome dos povos holandeses a quem enviaste um mensageiro anos atrás. Viemos para dizer que somos os donos desta terra agora. Que expulsamos os espanhóis e portugueses do Rio Grande. E que desejamos a aliança com o vosso povo.

Ao fim destas palavras, não demorou para o Principal dos Janduís chamar os outros anciões da sua tribo para discutir. Entender e confirmar o que estava acontecendo. Enquanto isso, o capitão Garstman, bem confuso com o idioma nativo, também tentava fazer o mesmo com Calabar.

– Então estes são os selvagens chamados Tapuias?

– Sim, meu caro Garstman – Calabar respondeu. – Os Tapuias são a raça de índios mais brutal já vista nesse continente. São os povos que mais odeiam colonizadores do Reino Ibérico. Este, em especial, é o povo tapuia da tribo Janduí. Nenhum outro odeia tanto os espanhóis e portugueses quantos eles.

– E eles são confiáveis?

– Já diz o ditado que: inimigo do meu inimigo é meu amigo. Enquanto estivermos atirando nos espanhóis e portugueses, eles serão confiáveis, principalmente, no ataque ao nosso próximo alvo: a Paraíba.

– E qual o plano para a conquista dessa capitania? – Garstman perguntou. – Que tramóias planeja agora?

– Na Paraíba, não haverá de tramóia alguma. Será uma disputa no braço, na estratégia e na coragem. E vossa mercê, Garstman, como novo comandante da Fortaleza dos Reis Magos, terá os Janduís combatendo ao seu lado.

Mal Calabar terminou estas palavras, os anciões da tribo selvagem se afastaram do Principal dos Janduís. Este líder levantou os braços ao alto, fazendo seus guerreiros baixarem as armas e em seguida proferiu bem alto para que todos pudessem ouvir.

– Tereguahê porãke, holandeses-rê! – Eram palavras que significavam: – Sejam bem-vindos, meus amigos holandeses!

 

Rei da Espanha Concedendo Título por  Jean-August Dominique (1800-1867)

 

O Nascimento de Nobres

Nobreza

 

1

14 de Janeiro de 1634

 

A voz de Duque João de Bragança percorreu os corredores do paço de Vila Viçosa. Tinha olhos esbugalhados. Suor frio lhe descia a fronte. A pressa acometia seus passos. A sensação de urgência apertava o peito quase lhe impedindo de gritar.

– Socorro! Ajude-me, por favor!

Com o ecoar dos gritos nos corredores, todos no palácios deixaram seus aposentos em passos apressados. Temeram pelo bem-estar de seu senhor. Os homens da guarda pessoal do Duque de Bragança foram os primeiros a chegar. No entanto, ignorando esta oferta de ajuda, Dom João atravessou por entre eles. Deixou-os para trás. Nada respondeu, só continuou o caminhar pelos corredores em estado de pânico. Enfim, chegou num dos quartos do palácio, na ala destinada aos criados, mais especificamente, no quarto da camareira-mor da Duquesa.

– Excelência? Alguma coisa errada? Que desespero é esse? – A camareira-mor perguntou através da porta entreaberta.

O Duque procurava palavras para lhe responder. Estas pareceram agrilhoadas em sua boca. Era notório que qualquer pensamento coerente se destruía numa mente desesperada. Só depois de um longo fôlego para se recompor, o jovem Duque proferiu as palavras que tanto se repetiam em sua mente.

– Tem que fazer alguma coisa, dona Filipa! A Duquesa entrou em trabalho de parto. O bebê está nascendo!

 

***

 

Muitas léguas dali, em El Alcázar, se iniciava uma celebração. Muitos nobres se aglomeravam no salão do trono de El Rey. Era o local onde um homem moribundo caminhava pelo rubro tapete que lhe direcionava à Sua Majestade. Cambaleante, por muito pouco, não conseguira chegar ao destino. Nem de perto lembrava o antigo Capitán General del Mar Oceano, o famoso Fadrique de Toledo. Sua situação era algo que causava comentários ressonantes pelo salão.

– O que houve com Fadrique?

– Coitado!

– Já vi mendigos em melhor estado!

Numa dessas conversas, era o Conde-Duque quem comentava.

– Nossos guardas deveriam, pelo menos, ter dado um banho e alimentado o coitado.

O homem do seu lado, o general Manuel de Gusmão, Duque de Medina-Sinônia, o respondeu.

– Vossa Excelência precisava ver seu estado quando o encontramos. Deplorável. Aprisionado no Forte de Santa Olalla seu estado de saúde se deteriorou completamente. Depois da sentença, foi libertado apenas para viver na total miséria. Devo dizer que nunca o imaginei nessa situação, afinal, seu cunhado é um duque e seu irmão é um marquês.

As palavras do general gusmão eram reais, mas os familiares de Fadrique não foram negligentes. Tentaram tudo o que puderam. O irmão reclamou ao chefe da família Toledo, o Duque de Alba, que fez uma grande balbúrdia no palácio. Seu cunhado, o Duque de Arcos, pelo menos garantiu o sustento de sua esposa e filhas. Infelizmente, em nada puderam ajudar o próprio Fadrique com tamanha pena e pesada dívida que carregava.

Eram penas e dívidas causadas pela condenação por desobediência que o Conde-Duque lhe acusou. Condenou-o a pagar dez mil ducados de ouro, junto com a perda de todos os títulos, rendas e mercês já recebidas. Mesmo assim, ouvindo essas palavras e vendo a tão lastimável cena, seu algoz não mostrava qualquer sinal de arrependimento.

– Fadrique tem apenas a si próprio para se culpar – o Conde-Duque falou. – Se tivesse feito o que lhe ordenei, nada disso teria acontecido!

Neste momento, no longo carpete vermelho que levava a El Rey, o cambaleante Fadrique de Toledo se desequilibrou. Só não caiu porque sua esposa Elvira correu para ajudá-lo.

A esposa deu apoio ao marido, até este ficar de frente ao Rei Filipe. Apartou dele para se postar à lateral da cerimônia. O Conde-Duque percebeu que esta era uma boa oportunidade. Com sua reputação pormenorizada pelo perdão de El Rey, continuar contra Fadrique só pioraria a situação. Era melhor fazer as pazes com seu antigo general para sair melhor dela e não havia melhor forma de fazê-lo do que conseguindo a amizade de sua esposa. Afinal, ela quem manteve Fadrique vivo nestes dois anos de miséria, graças às migalhas que conseguia através do Duque de Arcos, seu irmão.

Olivares caminhou até Elvira enquanto Fadrique, ainda de joelhos, beijava a bela jóia dourada e vermelha no dedo anelar de El Rey. O símbolo de seu poder. Neste momento, a Sua Majestade lhe proferiu honradas palavras.

– Fadrique de Toledo. Cavaleiro da Ordem de Santiago. Renomado Capitán General del Mar Oceano. Um homem cujo valor e honra, na defesa de meu nome, é reconhecida e invejada por todos neste reino.

El Rey retirou sua espada da cintura. Encostou seu fio na alva tez do pescoço de Fadrique. Simbolizava submissão e lealdade. Também era um lembrete que seu destino sempre esteve nas mãos do seu soberano. Um destino cujas palavras seguintes o modificariam drasticamente.

– Faço-lhe agora o primeiro Marquês de Villanueva de Valdueza e entrego também o título da Grandeza da Espanha.

Os aplausos ecoaram pelo salão. Abafaram a voz do próprio Conde-Duque de Olivares quando este falou com a esposa do homenageado.

– Parabéns, Elvira. Agora o futuro de suas duas filhas está garantido. Serão filhas de um marquês. Conseguirão bons casamentos. Fico muito feliz por isso.

Elvira nem mesmo se deu ao luxo de olhar para o Conde-Duque. A maioria das pessoas aconselharia a jovem esposa a reatar relações cordiais com o Valido. Se este fora capaz de destruir o grande herói Fadrique de Toledo, poderia também destruir o que restou de sua família, principalmente, sem um filho varão para herdar o título de nobreza que o esposo acabara de receber.

Elvira, no entanto, nunca conseguiria conter suas emoções. Respondeu com todo rancor em seu interior.

– Não graças a ti, monstro. Tenho toda a certeza que Deus te reservará um destino pior que o fogo do inferno para tua alma.

 

***

 

Na cidade de Vila Viçosa em Portugal, os sentimentos eram bem diferentes. Na pequena capela no interior de seu paço ducal, João de Bragança estava ajoelhado e com mão unidas frente à imagem do filho de Deus. Orava para um feliz desfecho, pois já perfaziam muitas horas desde que os gritos de sua esposa grávida ecoavam pelos corredores do palácio. Era uma justificada preocupação. Afinal, todo nascimento era sempre uma grande incerteza. O risco de morte, da mãe ou da criança, era alto. Diziam, os mais pessimistas, que isto chegava a ocorrer em um a cada três partos. Era assustador. A mãe do próprio Duque de Bragança morrera durante o parto de seu terceiro filho.

As orações do Duque de Bragança ficavam ainda mais fervorosas a cada lembrança desta possibilidade. Horas passavam. As informações das parteiras em nada aliviavam sua preocupação. O Duque relembrou muitos momentos passados. O dia em que seu pai Teodósio faleceu. O dia em que foi proclamado Duque de Bragança. O dia do seu casamento. O dia em que soube da gravidez da esposa. Nunca antes João ficara tão apreensivo. Eram sentimentos sufocantes. Só terminaram quando uma das parteiras abriu as portas da capela.

– Pronto, senhor Duque. Pode vir comigo.

Não mais que um minuto depois, João já entrava nos aposentos de sua esposa. Ela estava ali, cansada, abatida, mas com um sorriso que acalmou a apreensão do marido. Ao lado, havia um pequeno berço branco. Duas parteiras estavam postadas de cada lado. O coração do Duque bateu acelerado.

No primeiro passo, ele desejava se aproximar mais, mas algo o detinha. Medo? Confusão? Não poderia ser. Era um sentimento bom demais para ser uma dessas coisas. Era algo indescritível.

Enfim, veio o segundo passo. Ele respirou profundamente. Um frio lhe subiu a nuca. Ele já elevava a cabeça para visualizar dentro do berço, além das suas proteções laterais.

O novo passo que fez o interior do berço se iluminar à sua frente.

– Deus, obrigado.

Os olhos se avermelharam úmidos.

– É a coisa mais linda que já vi – o Duque sorriu. – Obrigado, meu Deus! Obrigado, Luísa!

As pernas perderam as forças ao ver o pequeno ser, tão delicado e indefeso. Os grunhidos chorosos e fortes fizeram sua mente enlouquecer. O movimento de seus bracinhos fizeram o peito emocionado explodir. Ele nunca se sentira tão preenchido de felicidade. Nunca se sentira tão completo. Era só capaz de se perguntar: – Como tão pequena criatura pode ser tão poderosa!

Do lado de fora, os habitantes de Vila Viçosa se aglomeraram em frente aos muros do grande paço de seu Duque. Todos aguardavam ansiosos por notícias de seu interior. Todos souberam que a Duquesa entrara em trabalho de parto. Há horas esperavam saber sobre sua saúde e da criança. Era difícil conter a emoção quando o jovem Duque surgiu na sacada principal. Em suas mãos, havia algo enrolado num lençol de extrema alvura. Todos, sem exceção, seguraram a respiração. Era a criança? A pergunta estava na mente de todos. A resposta veio em seguida, num único fôlego e em meio aos olhos úmidos de seu Duque.

– É um menino! – Ele gritou.

A felicidade ecoou pelo povo de Vila Viçosa. Jovens jogaram os chapéus ao alto. Mulheres rezaram por seu bom sucesso. Homens se ajoelharam em lealdade. Todos solicitavam vida longa ao futuro Duque. A multidão ficou extasiada, principalmente, com as novas palavras do amoroso pai.

– Será batizado Teodósio, como o avô, vosso antigo senhor! Será meu herdeiro! Herdeiro de Vila Viçosa! De Bragança! E de toda Portugal!

 

 

 

Frederick Stad (Paraíba) por Johannes Vingboons (1617-1670)

 

Santo Antônio

 

Restinga

 

Cabedelo

 

Frederick Stad

(João Pessoa)

Os Heróis da Paraíba

Brasilianos

 

1

09 de Dezembro de 1634

 

Chegou a notícia que a fortaleza dos Reis Magos foi conquistada pelos inimigos, por isso, o grande líder Martim Soares Moreno foi enviado ao Engenho Cunhaú, na fronteira entre o Rio Grande e a Paraíba. Desde sua chegada neste engenho, oito meses atrás, nenhum holandês vindo da primeira capitania conseguiu colocar os pés na segunda. Para este fim, o veterano de guerra tinha ao seu lado dois jovens combatentes nascidos na capitania Rio Grande e que mal atingiam a maioridade.

Os nomes destes dois jovens eram Diogo Camarão, o forte sobrinho do líder potiguar, e Rodrigo Meganha, um magro soldado de cabelos escuros.

– Maldita seja a tribo Janduí!

Era o jovem Diogo quem exaltou sua indignação ao ver o inimigo em fuga depois da vitória deste dia.

– Não acredito que estes selvagens canibais se aliaram aos holandeses – continuou. – Abandonaram os sertões para invadir as terras costeiras potiguares, onde meus ancestrais viveram por séculos!

– Todos aqui estão igualmente indignados, Diogo – o veterano Martim Soares Moreno retrucou. – Mas não há nenhuma surpresa nisto. Os Janduís sempre foram inimigos dos potiguares desde tempos imemoriais. Todos sabiam que essa paz mantida pelos brancos não duraria muito tempo. Passamos pela mesma situação com a tribo Tupinambá vinte anos atrás na guerra pelo Maranhão.

Os dois jovens ouviram atentamente.

– Na época, dois mil indígenas se uniram aos franceses que haviam construído o poderoso forte de São Luís no Maranhão. Esta certamente foi uma história que Diogo já deve ter escutado várias vezes.

– Escutei sim, capitão-mor – Diogo respondeu. – Meu tio Felipe Camarão contou nosso líder Camarão Grande, arregimentou a aliança das doze tribos contra este inimigo na jornada liderada por Jerônimo de Albuquerque.

– Muitas lutas ainda ocorreram depois daquela batalha, Diogo, pois foi lutando contra os franceses que perdi minha mão.

Martim Soares Moreno estendeu seu punho decepado, que terminava nos resquícios do que sobrou de sua mão. No entanto, foi interrompido por uma voz surgiu atrás deste grande homem.

Era p líder Felipe Camarão, que surpreendia todos com sua chegada.

– Lamento dizer, mas este não é mais o momento para histórias do passado, filho da guerra.

– Que boa surpresa o ver, irmão – disse Martim Soares Moreno com um sorriso no rosto. – Acabou de perder o combate contra os holandeses e Janduís do Rio Grande, em que os expulsamos mais uma vez

– Infelizmente, a guerra já faz seu chamado outra vez, irmão – o líder potiguar trouxe um peso no olhar. – Os holandeses lançaram um grande ataque na cidade-capital da Paraíba, estão solicitando nossa presença.

Camarão tomou um novo fôlego para falar as palavras seguintes, pois sabia que atingiriam o âmago do seu irmão de honra.

– E lamento dizer que o capitão João Matos foi seriamente ferido nos primeiros dias deste confronto.

O semblante do capitão-mor Martim Soares Moreno, que já deixara o sorriso anterior para dar lugar à preocupação, decaiu ainda mais ao ouvir tais palavras. Era um nome de uma geração anterior, que conquistou tanto o Rio Grande quanto a Paraíba anos antes do próprio Martim Soares Moreno chegar neste continente.

– Dizem que está entre a vida e a morte.

 

***

 

Martim Soares Moreno partiu para a cidade-capital da Paraíba ao lado de Felipe Camarão e dos dois jovens soldados, lembrando por todo o caminho do semblante do Capitão Matos no topo do Forte Cabedelo, com sua barba cheia e cabelos grisalhos cobrindo sua cabeça. Mesmo com seus atuais oitenta anos de idade, ainda se manteve ativo nesta nova guerra contra o inimigo holandês, no comando do Forte Cabedelo desde o dia da sua fundação cinqüenta anos atrás.

No dia seguinte, quando o sol já havia se posto há muitas horas e a escuridão tomava conta do céus, Martim Soares Moreno chegou na Paraíba logo observando as explosões ininterruptas que fulguravam os céus e bombardeavam impiedosamente a maior fortificação paraibana. O Forte Cabedelo era maravilhoso de contemplar. Construído em alvenaria nas margens do Rio Paraíba e reformado após a chegada do invasor holandês, possuía um formato quadrangular com um baluarte pentagonal em cada uma das quatro pontas. Era guarnecido com quatorze canhões e mais de duzentos homens sob o comando do Capitão Matos.

O campo de batalha ocorria na margem sul do rio Paraíba, local onde os holandeses desembarcaram e onde o Forte Cabedelo estava localizado. Desta forma, os exércitos de Von Sckoppe cercavam esta fortificação de todos os lados, mas sofriam constantes ataques de outras duas fortificações: Santo Antônio, na outra margem, e Restinga, entre as duas numa ilha do mesmo rio.

– Este é Antônio de Albuquerque Maranhão.

O veterano Martim Soares Moreno falou para ambos os jovens combatentes Diogo Camarão e Rodrigo Meganha, explicando em seguida.

– É o filho do grande Jerônimo da história que lhes contei sobre a Jornada do Maranhão e também o atual capitão-mor da Paraíba.

– Na verdade, o próprio Antônio estava na história também – Felipe Camarão complementou. – Ele lutou ao lado do pai na batalha de Guaxendubá, que nos trouxe a vitória contra os franceses, saltando de peito aberto e espada na mão na trincheira inimiga, onde levou duas mosquetadas na coxa.

Todos se encontravam no forte Santo Antônio, ainda livre da ameaça holandesa atacava o forte Cabedelo do outro lado do rio Paraíba. Eram recebido por este capitão-mor, cujos atos passados era aprazados pelos outros dois veteranos de guerra. Este, no entanto, passou a relatar de eventos mais recentes. Contou que há seis dias, o coronel Von Sckoppe trouxe quarenta naus de guerra e desembarcou três mil homens.

Foram convocadas todas as forças da capitania mas não eram mais do que quinhentos soldados no total. O próprio capitão-mor Albuquerque Maranhão ainda foi atingido no peito por um mosquete, mas felizmente a bala ricocheteou nos correames do seu uniforme. Salvou a sua vida, mas no fim os paraibanos foram obrigados a recuar

– O forte Cabedelo está cercado pelas tropas holandesas – o capitão-mor paraibano encerrou seu relato. – É impossível enviar mantimentos por terra, só conseguindo enviar algum socorro por mar através de pequenas lanchas sob o fogo da artilharia holandesa.

Essa relato era tão verdadeiro que nesta manhã os melhores navegadores paraibanos, os irmãos Calhau, tentaram furar o bloqueio. O primeiro levou um canhonaço no peito e o outro, mal assumiu seu lugar, perdeu o braço, estraçalhado por uma bala de canhão, estando ambos em estado crítico de saúde

– Nós também soubemos do Capitão Matos – o veterano Martim Soares Moreno interrompeu o capitão-mor paraibano, ansioso por outra informação. – Como ele está?

A cena tinha que ser vista com os próprios olhos, pois nas enfermarias improvisadas lá estava o Capitão Matos, deitado num leito, desorientado, e com metade do rosto desfigurado pelo tiro do mosquete. A carne viva estava à mostra e os gemidos revelavam a dor que sentia. Ao seu lado, estava o índio Pirajibe, líder da tribo Tabajara, realizando rituais de cura e lhe dando ervas medicinais.

O indígena virou seu rosto enrugado balançando seus cabelos brancos que revelavam os mesmos oitenta anos do capitão Matos, mas manteve o silêncio ao observar a chegada dos três líderes Martim Soares Moreno, Felipe Camarão e Antônio de Albuquerque Maranhão.

Todos apenas olharam para este índio, ainda mais veterano do que eles, mas não puderam lançar qualquer questão, pois foram interrompidos pelos chamados da guerra do outro lado do rio Paraíba.

– Precisam vir urgente ao campo de batalha, algo terrível aconteceu.

 

***

 

Era o padre jesuíta Manuel Moraes, que liderava seus próprios índios guerreiros nesta guerra, cuja voz ecoou atrás dos três lideres. Trouxe a notícia de que os holandeses, nem esperaram o amanhecer, já lançaram um novo ataque para aproveitar a baixa-mar. Era uma notícia era devastadora, mas a reação do capitão-mor Albuquerque Maranhão não podia ser outra além de: Atacar!

Quando os primeiros raios da alvorada atingiram suas faces, a batalha começou quando os três líderes avançaram através do rio Paraíba contra o exército do coronel Von Sckoppe. Infelizmente, a alvorada não trouxe apenas a luz da nova manhã. Ela trouxe também os gélidos ventos marítimos que neblinaram toda a costa paraibana.

Era o inicio do nevoeiro que tomou a visão dos combatentes desta batalha, ocultanto tudo que estava à sua frente. No entanto, todos foram tomados pelo pavor logo os acometeu quando perceberam que esta nuvem também trazia, ocultos em seu interior, os inimigos.

– Soldanten! Aanval!

Surpreendentemente, a beblina não deteve os exércitos invasores. Pelo contrário, o grito de guerra holandês, que ecoou por todos os lados do nevoeiro, mostrou que eles a esperavam. A voz era de Von Sckoppe, tendo no punho seu bastão de comando e bradando no idioma inimigo a ordem de ataque. Ele orquestrou, junto com Calabar, esta armadilha para derrotar os três veteranos em combate. Parecia ser capaz de prever que, neste dia, a tímida neblina que acometeu a Paraíba nos dias anteriores dariam lugar a um pesado nevoeiro neste dia.

No fim, quando o maldito nevoeiro se dissipou, ambos o reduto da Restinga e o forte Cabedelo conquistados.

 

***

 

As forças lideradas pelos três amigos veteranos recuaram, com pesadas perdas, de volta ao forte Santo Antônio. A vitória de Von Sckoppe nesta batalha selou a conquista da Paraíba. Mesmo com o aviso de Pernambuco de que o Conde de Bagnuolo vinha trazendo reforços, estes não eram mais que 250 soldados. Era tudo o que o Forte Real de Bom Jesus poderia enviar. Era muito pouco. Todos baixaram a cabeça em desesperança.

– Temos que abandonar a Paraíba.

Martim Soares Moreno retomou a palavra com a triste constatação.

– Com Itamaracá, Rio Grande e agora Paraíba, temos que reunir todas as forças em Pernambuco. Eu ficarei no forte Santo Antônio para atrasar o avanço inimigo e cobrir a retirada de todos aqui.

A situação causou furor em todos.

– Não lhe deixaremos aqui, Martim – disse o capitão-mor paraibano

– Também não permitirei isso – o líder potiguar o secundou.

Os argumentos de Martim vieram em seguida.

– Sim, deixarão – ele encerrou a discussão. – O capitão-mor Matias de Albuquerque precisará do auxílio de todos em Bom Jesus.

Ao falar tais palavras, antes continuasse a discussão, uma voz ecoou por trás dos três líderes.

– Matias de Albuquerque também precisará de ti, Martim.

Todos voltaram o olhar para o homem que proferiu estas palavras. Lá estava o grande Capitão Matos, com o ferimento ainda lhe tomando metade do rosto, mas nem um pouco abalando seu espírito. O líder da tribo tabajara e fiel amigo Pirajibe estava ao seu lado.

– Eu ficarei aqui – disse o velho capitão de oitenta anos de idade.

– Mas o senhor está ferido – o veterano de guerra o retrucou. – Não posso permitir que faça este sacrifício.

– Quem pensa que é para me impedir, Martim! – O velho comandante o silenciou, como um pai ao filho rebelde. – Quando eu assumi a defesa desta capitania, nem sequer havia nascido. São cinqüenta anos nesta praça. E, se for para morrer, que seja a defendendo.

Certamente, ninguém ousaria questionar suas ordens. O veterano Martim Soares Moreno ainda se aproximou-se, colocando sua única mão no ombro do velho capitão. Retomou a palavra para expressar a admiração pelos heróis que vieram antes dele.

– Não acredito no que estou ouvindo – por fim, falou – Com certeza, nunca haverá outros heróis como o senhor e toda a sua geração.

A resposta do velho capitão veio em tom de deboche.

– Eu disse a mesma coisa para o avô de Antônio, o grande Jerônimo de Albuquerque, o Caolho, pouco antes de assumir a liderança desta fortificação!

Em seguida, o Capitão Matos continuou suas palavras.

– O velho Jerônimo foi um dos primeiros a chegar neste continente sem conhecer nada sobre ele. Viveu um romance com Muirá Ubi, filha do líder Tabajara na época. E, em guerra com a tribo de sua amada, lutou com seu sogro perdendo um olho no combate e sendo feito prisioneiro. Felizmente, o casamento foi capaz de selar a paz com os colonizadores europeus.

O sorriso do capitão ancião transpareceu mesmo por trás de sua ferida.

– E mais – ele continuou. – Depois disso o velho Jerônimo ainda teve vinte e seis filhos! 26! Isto sim é um verdadeiro feito heróico!

As risadas de velho capitão foram seguidas por todos. E nem terminaram, o capitão Matos já relembrava que sua geração não era tão infalível quanto Martim Soares Moreno fazia transparecer.

– Os senhores dizem que não houveram heróis como na minha geração, mas sabem bem que também tivemos nossos mal momentos. Ou esquecem que eu e Frutuoso Barbosa apenas conseguimos conquistar a Paraíba após muitas mal-sucedidas tentativas? E isso depois da muita insistência de Martim Leitão em colocar a situação em ordem?

– Ou como Jerônimo de Albuquerque, filho do Caolho, foi derrotados nas primeiras batalhas pelo Rio Grande contra os franceses, só conseguindo a vitória, depois, com o reforço de Paraíba?

– Pelo amor de Deus! E vossas mercês todos estavam lá, em São Luís, quando uma rixa entre o mesmo Jerônimo de Albuquerque e Caldeira Castelo-Branco quase pois tudo a perder após a vitória sobre os franceses!

O veterano Martim Soares Moreno fitou o mais veterano capitão Matos. com admiração ainda maior para dizer:

– Obrigado, capitão, depois de tudo o que ocorreu aqui, nós precisávamos ouvir isso.

Capitão Matos fitou os olhos em cada um destes homens, apontando para os jovens Diogo Camarão e Rodrigo Meganha, mais ao longe

– E não tenham dúvida que da mesma forma que eu escutei as histórias da geração anterior, que desbravou o novo continente e vossas mercês escutaram sobre a minha geração que lutou contra os primeiros invasores, agora são estes jovens que escutam as histórias da sua atual geração.

Os três líderes olharam os dois rapazotes mais afastados enquanto o Capitão Matos proferiu as palavras que terminariam esta conversa.

– E fiquem certo que chegará o dia em que estes meninos lhes surpreenderão e vão ultrapassar seus feitos, tomando seu lugar na luta. Causarão um estranho misto de orgulho e inveja, da mesma forma que ocorreu comigo, quando suas ações ultrapassaram as minhas há muitos anos atrás.

Estas palavras os tocaram profundamente, principalmente, quando os três líderes se despediram do Capitão Matos no dia seguinte, sabendo que era última vez que estavam vendo este grande líder que tanto já lutou por esta terra.

E agora sacrificava sua vida para a nova geração.

 

 

 

Duquesa Margarida de Mantova por Frans Pourbus (1569-1622)

 

 

A Rainha de Portugal

Nobreza

 

2

16 de Julho de 1634

 

Em El Alcázar, o Conde-Duque de Olivares se sentava em sua poltrona aguardando a reunião com uma pessoa enviada pelo próprio Rei Filipe. Sua Majestade falou claramente para seu obeso Valido ter especial consideração com esta pessoa apesar de sua delicada situação. E,nquanto esta pessoa não chegava, o Valido escrevia uma carta destinada ao Novo Mundo. Desejava instigar os heróis que ali lutavam contra os invasores holandeses.

 

Caro Matias de Albuquerque,

As novas, que chegaram do bom sucesso que Deus foi servido dar a Vossa Senhoria na ocasião que teve com o inimigo, são de particular estimação e gosto. Não posso deixar de dar a Vossa Senhoria as graças tão devidas ao desafogo com que Vossa Senhoria nos tem causado com esta facção. Por tantas circunstâncias, a considero digna de toda a demonstração de vontade. Creia Vossa Senhoria que, com todo o possível, cuidarei de minha parte para que se vá socorrendo com particular cuidado pelo que importa não lhe faltar. Quando se ajuda tão bem, poderemos ter semelhantes ocasiões de gozo para dar-lhe muitos parabéns.

            Assinado, Sua Majestade, El Rey Filipe

 

Ao fim da carta, escrito de próprio punho, estavam palavras de esperança assinadas pelo Conde-Duque para os homens do Novo Mundo.

 

Dou a Vossa Senhoria os parabéns e graças do sucesso. E asseguro-lhe que hão de ser muitos e grandes os socorros que lhe chegarão em breve tempo.

            Assinado, o Conde-Duque de Olivares.

 

O Valido estava evidenciando sua presença na carta. Assim o fazia para anunciar as boas novas ao capitão-mor de Pernambuco, pois já estava lhe preparando uma Armada de socorro capaz de pôr fim nesta terrível guerra. Era algo que até o momento esteve incapacitado de fazer. Mas agora, começava a se tornar uma realidade. Ele realizava a releitura para enfim selar a carta quando algo o interrompeu. As portas de seu escritório se abriram com um dos criados anunciando a chegada do esperado convidado especial.

Era uma mulher. Estava vestida em roupa luxuosa e valiosa joalheria, entrou com empáfia nobiliárquica. Os mais de quarenta anos de idade não lhe destituíram nem um pouco a beleza. Os cabelos claros estavam presos à uma tiara de diamantes tão brilhantes quanto seus olhos azuis e tão alvos quanto sua tez. O nariz levemente adunco não conseguia retirar a delicadeza de suas feições, dva maior força à sua altiva presença.

Enquanto seus passos leves lhe aproximavam do Conde-Duque, este logo reconheceu sua convidada. Saudou-a cordialmente.

– Devo dizer que fiquei um tanto surpreso quando ouvi El Rey Filipe mencionar o nome de Vossa Alteza, Duquesa Margarida de Mantova.

A mulher sentiu uma ponta de desdém nas entrelinhas da frase.

– Surpresa é uma reação que tenho recebido constantemente nos últimos tempos – ela desbafou.

– Imagino que sim. Mesmo porque não acredito que Vossa Alteza pensou encontrar olhares receptivos aqui em Madrid depois que seu irmão Victor Amadeus e sua filha Maria de Mantova traíram nosso Reino. A aliaça que fizeram dos seus ducados de Sabóia e Mantova com nossos inimigos franceses é imperdoável.

A Duquesa de Mantova fez questão de desviar o assunrou.

– Não venho falar aqui em nome de meu irmão traidor – foi a vez dela acirrar o olhar. – Venho em meu próprio nome e em nome de minha filha.

– Se eu bem me lembro, sua filha também nos traiu. Foi quem começou todo o conflito em Mantova – o obeso Valido a alfinetou.

A duquesa logo tratou de se defender.

– A culpa foi do esposo dela. Charles de Nevers é o culpado disso, mas isso não importa mais. Ele está morto agora!

– Acredito que eu deva agradecer a Vossa Alteza por este grande favor que fez à coroa ibérica? – O Conde-Duque lançou um sorriso maléfico. – Afinal, é curioso que seu genro tenha falecido tão subitamente logo após Vossa Alteza ter sido acolhida em sua Casa Ducal.

– Já ouvi todos esses rumores que percorrem o reino. Independente disso, ninguém é capaz de negar minha fidelidade à Sua Majestade por todos esses anos. Não é por causa da morte do meu genro que estou aqui!

– Não, não – o Conde-Duque manteve uma calma contrastante com a força de suas palavras. – Vossa Alteza está aqui porque o cerco que o general Spinola e seu irmãozinho Victor Amadeus fizeram ao Ducado de Mantova o destruiu através de doença e fome. Está aqui porque Vossa Alteza e sua filha são senhoras de uma terra arrasada!

– Não é inteligente de sua parte me insultar, Olivares – a duquesa vociferou.

O Conde-Duque apenas continuou a maltratá-la com palavras maldosas em tons gentis de voz.

– Está aqui porque seu ducado foi entregue ao pai do Duque de Nevers, a única figura masculina na família até seu neto de cinco anos atingir a maioridade. Está aqui porque este título que detém de Duquesa de Mantova é meramente honorário, sem nenhum efeito prático.

– Eu não aceitarei essas palavras contra mim! – ela bradou mais alto.

Um sorriso perverso surgiu na face do Conde-Duque ao perceber que toda a empáfia e petulância da Duquesa foram esmagadas por suas palavras. O Valido enfim se levantou para desferir seu  golpe final.

– Só está aqui porque abriu as pernas para El Rey com a intenção de ser recebida de volta nesta corte.

Os olhos da Duquesa se arregalaram. Ela não acreditava no que acabara de ouvir.

– Mentiroso! caluniador! – Ela se levantou raivosa.

O Conde-Duque fez o mesmo.

– Não se insulte com estas palavras, Duquesa de lugar nenhum. Na verdade, considero sua ambição louvável e admirável.

Ela caminhou em direção à porta de saída. Os saltos de seus sapatos batiam forte contra o chão. Tocou a maçaneta da porta. Não obstante, o Conde-Duque continuou suas palavras.

– El Rey me pediu para lhe dar terras e algum título de verdade. Mas estou disposto a lhe dar algo mais.

Já com a porta entreaberta, as palavras seguintes do Valido chamaram sua atenção. Fizeram com que interrompesse sua ação.

Ele falou:

– Estou disposto a lhe dar um Reino!

A surpresa atingiu a duquesa de forma inimaginável. Seu rosto abrandou a raiva. Seus olhos se voltaram para o Conde-Duque cheios de curiosidade

– Um Reino?

– Sim. Quero fazer de Vossa Alteza uma Rainha!

– Rainha?

– Rainha de Portugal.

O sorriso perverso se expandiu na face do Conde-Duque. Alegrava-o ver a fúria da mulher ser domada.

– Vice-Rainha em realidade. Certamente, ainda deverá obediência a El Rey, mas apenas a ele.

– E por extensão ao seu Valido, acredito eu? – A Duquesa completou.

– Enquanto eu estiver na posição de olhos, ouvidos e voz de El Rey, certamente que sim – o Valido treplicou.

A surpresa ainda não havia deixado a face da Duquesa. Ela questionou a afirmação. Ainda duvidava das palavras do largo homem à sua frente.

– Porque eu? Eu nunca estive em Portugal em toda minha vida.

– Nas últimas décadas, o governo de Portugal vem sendo administrado por seus próprios naturais. Infelizmente, com as recentes revoltas populares, eu preciso de alguém confiável e de presença forte para manter os nobres sob controle. Como prima de El Rey, também é trineta do Rei Manuel de Portugal. O mesmo parentesco que entregou o reino português à dinastia filipina. É um bom parentesco para que possa representar Sua Majestade naquele reino.

– E porque tamanha generosidade comigo, Conde-Duque?

– Revoltas populares são fáceis de sufocar. Armas bastam para lhes dar fim. No entanto, entre os portugueses, há uma parcialidade infecta na qual preciso manter sempre um olho atento. E não há ninguém em quem eu possa confiar dentro das suas fronteiras.

Ao terminar de proferir a palavra confiar, a mente do Conde-Duque não pôde deixar de pensar que a palavra mais apropriada era controlar.

– Além disso, não esqueci de Mantova – ele continuou – mesmo estando estas terras arrasadas e sob o controle família de Nevers, é um questão de reputação reconquistá-las para entregar de volta a Vossa Alteza.

– Nem acredito que estou ouvindo isso – a duquesa exclamou.

– O que me diz desta proposta?

A pergunta fez a Duquesa dobrar os joelhos. Ela baixou a cabeça. Estava tão agradecida que nem conseguia olhar o Valido nos olhos. Manifestou as palavras que o obeso homem tanto desejava ouvir. Era como o diabo solicitando a alma desta mulher. E sem nenhuma hesitação ela a entregava.

– Vossa Excelência pode contar com minha total lealdade.

 

***

 

Longe dali, em Portugal, todos relaxavam numa bela tarde de domingo num dos salões do Palácio dos Bragança. O bebê Teodósio engatinhava no tapete aveludado da casa, ao lado de sua ama-de-leite. Com seus olhos grandes, cabelinhos negros e rostinho angelical, já tentava se levantar sozinho bem antes do tempo esperado. Os pais o observavam sentados na mobília do salão. Entreolhavam-se com sorrisos de orgulho pelo rápido desenvolvimento do rebento.

O Duque João de Bragança estava sentado em sua poltrona favorita, fazendo sua leitura semanal dos rendimentos do ducado. Enquanto isso, ao seu lado, estava a esposa Luísa realizando bordados. A toalha que bordava repousava sobre uma proeminente barriga. Afinal, a jovem Duquesa, não mais que alguns meses depois do nascimento do pequeno Teodósio, já estava grávida outra vez.

– Sinto que vai ser uma menina – disse a Duquesa quebrando o silêncio.

– Interessante. Por mais que eu deseje outro homem, tenho a mesma sensação – o Duque respondeu. – Sinto que será uma menina desta vez.

– Já pensou num nome?

– Se for mulher, gosto de Catarina – o Duque inferiu. – O nome da minha avó e antiga senhora deste ducado. O que pensa disso?

O balançar negativo da cabeça de Luísa mostrou não ser um nome de seu agrado.

– É a minha vez de escolher agora. Decido que se for menino será Manuel, nome do meu pai, e se for mulher escolho Ana.

– Ana era o nome da minha mãe – o Duque respondeu.

– Sim. E um belo nome também – a Duquesa abriu um sorriso.

– Sim, querida, como desejar. Ana me parece perfeito.

O silêncio retornou aos aposentos, mas não durou muito tempo. A paz foi alegremente perturbada, pouco tempo depois, pela chegada do irmão mais novo do Duque.

– Eduardo. Que feliz surpresa – o Duque o saudou.

– Já estou sabendo que Luísa está grávida novamente – o irmão o respondeu. – Vim dar as congratulações.

– Obrigado, Eduardo – Ambos o Duque e a Duquesa agradeceram.

– Além disso, estava morrendo de saudade do meu afilhado. A última vez que o vi ele não tinha nem um mês de vida – disse o tio protetor.

– Pois não se assuste com seu tamanho. É incrível como crescem rápido hoje em dia. Já está até tentando engatinhar – o pai respondeu orgulhoso.

O Duque de Bragança já apontava para o lugar onde estava a criança. Solicitava a sua ama-de-leite que trouxesse o pequenino Teodósio.

– Leonor, traz o Teodósio até aqui. Seu padrinho deseja lhe ver.

A ama-de-leite colocou o pequenino nos braços para levá-lo ao tio. No entanto, a medida que a criança se aproximava, o alegre tio Eduardo mudou completamente seu semblante. Um sentimento de assombro tomou conta. A razão deste mal sentimento foi reconhecer a ama-de-leite do pequeno Teodósio.

Era Leonor da Silveira, antiga amante de João.

– Não é incrível como ele está grande – disse João quando o bebê já estava de frente ao tio Eduardo.

Este nem conseguiu responder perplexo com a constatação anterior.

– Sim, irmão. Está enorme. – ele gaguejava ainda pasmado. – João… Posso falar um minuto em particular com vossa mercê?

Desde o primeiro momento, João soube o motivo da súbita reação do irmão. Assim, não demorou para ambos irem até um dos aposentos isolados do palácio.

O fechar da porta logo deu início às perguntas inquisitórias.

– Por favor, meu irmão. Diga-me que aquela mulher, com seu filho nos braços, não é Leonor da Silveira, sua antiga amante.

Um vergonhoso sorriso revelou a culpa no Duque de Bragança.

– Sim, é ela mesmo – ele assumia. – Contratei seu marido para ser um dos meus capitães de cavalaria e ela para cuidar do pequeno Teodósio. Estão recebendo mercês muito superiores do que mereciam para suas posições nesta corte.

– Só falta dizer que o marido dela deveria lhe agradecer – Eduardo ironizou. – Meu Deus, João! Pelo menos, diga-me que não continua se envolvendo com ela.

A culpa não abandonou a face do infiel Duque.

– Claro que estou! O que esperava? Luísa está grávida. Sabe bem que não posso ter relações com ela. Os médicos dizem que não é saudável para o bebê. Tenho que saciar minhas necessidades de alguma forma.

Eduardo colocou a mão na cabeça sem acreditar. Sendo um homem que sempre pensou bem antes de agir, se preocupou com a impulsividade e inconseqüência do irmão. O casamento não foi o bastante para colocá-lo nos eixos. E Eduardo sabia que nenhum argumento mudaria sua forma agir. Ainda assim, este não pode deixar de exclamar.

– Meu Deus, João! Não consegue enxergar que continuar nesta situação só poderá terminar de forma bem errada!

 

 

A Cartada Final

Holandeses

 

3

19 de Dezembro de 1634

 

 

– Proost! – O grito conjunto de três poderosos homens foi ouvido por toda uma taverna abandonada no centro de Paraíba.

O tilintar das taças de vinho comemorava o bom sucesso de sua empresa após quinze dias de duro confronto para o controle desta capitania. O custo foi alto aos holandeses. Quase seiscentos baixas militares. Mas enfim Nova Holanda absorvia toda Paraíba ao interior de suas fronteiras. Na taverna abandonada, eram os três grandes líderes responsáveis por esta e outras vitórias holandesas que desciam o vinho goela abaixo em comemoração.

– Um brinde à vergonha do capitão-mor Albuquerque Maranhão! Que fugiu como um cão sarnento, com o rabo entre as pernas, expulso de sua própria capitania!

Era o coronel Von Sckoppe quem bradava ao reabastecer com o vinho as taças que estavam sobre a mesa. Enquanto o fazia, escutava os comentários dos dois camaradas que lhe acompanhavam.

– Isso merece dois brindes pois nunca gostei daquele metido arrogante – o mulato Domingos Calabar levantou sua taça.

– Mereceria três brindes se nós o tivéssemos capturado – d’Artischau, recentemente promovido a patente de coronel, fez o mesmo.

Os copos tilintaram novamente. Mais vinho encheu as suas bocas.

Calabar logo comentou.

– Duarte Gomes, o senhor de engenho que entregou sua localização, disse que não passou-se nem quinze minutos desde o momento em que Albuquerque Maranhão partira até a hora que chegamos com nossas forças.

– Foi uma infelicidade – d’Artischau retomava.

Depois foi a vez do coronel Von Sckoppe.

– Mas hoje não há espaço para lamentos. A capitania da Paraíba é nossa. Isso é o que importa!

– Ah! A doce vitória! – O suspiro de Calabar veio em seguida. Uma leve risada já surgia em sua boca, que ao fim de suas palavras já terminava numa larga gargalhada. – Não paro de me lembrar do ridículo negociador, o tal Dom Gaspar, que o capitão do forte Cabedelo nos enviou.

Mas não gargalhou tão alto quando Von Sckoppe.

Todos lembraram de como esse negociador ficou zangado e malcriado depois que o coronel entregou a proposta de rendição. Ele devolveu-a imediatamente. Queria exigir a cláusula que permitiria os soldados do forte conquistado de retornar a Bom Jesus com todas as armas e canhões que ali haviam.

– Adorei a forma que o colocou em seu devido lugar – Calabar relembrava. – Como foi mesmo que disse a ele?

Von Sckoppe respondeu:

– Não pude suportar aquela arrogância. Rasguei o documento na sua frente e lhe disse: ‘com a espada, dentro de pouco tempo, o forçarei a falar em outro tom!’

Calabar já chorava de tanto rir

– Isso mesmo! Eu quase molhei as calças de tanto rir quando o ridículo abateu-se tanto que pediu, aos prantos, para escrever de novo a capitulação e perdoar sua incivilidade. Hilário!

D’Artischau não deixou de traçar comentários sobre essa mesma negociação.

– Mas ainda não entendi porque foi tão generoso com estes espanhóis, Von Sckoppe. O acordo inicial dizia que apenas cinqüenta deles ficariam neste continente e todo o resto seria levado para as plantações de açúcar que estão sendo iniciadas em nossas Antilhas Caribenhas. Depois disse que cem deles poderiam ficar. E no fim permitiu a todos.

– Sei que a Companhia quer que enviemos homens práticos na produção de açúcar para as Antilhas, mas povoar essa cidade abandonada é mais importante – Von Sckoppe respondeu.

Não sem depois ouvir novos argumentos do outro coronel.

– Deveria ter pelo menos enviados os quarenta homens da outra fortaleza, do forte Santo Antônio, para lá. Ainda mais depois do que tentaram fazer.

– Eles estavam desesperados, d’Artischau. Estavam no fim de sua munição e depois que conquistamos o Cabedelo maior parte dos soldados já havia fugido contra a vontade do seu capitão.

Calabar se inseriu na discussão dos dois coronéis.

– Bem que eu lhes disse que o capitão Matos era um osso duro de roer.

O ocorrido no forte Santo Antônio foi que um mensageiro do capitão Matos disse que haviam apenas sete homens no forte. Ele solicitou uma comitiva holandesa com no máximo dez pessoas para negociar a capitulação em seu interior. Na verdade, era uma armadilha. Ainda haviam quarenta homens lá dentro. E o commandeur Lichtaart, general do mar, quase caiu nela.

– Nunca houve perigo – Von Sckoppe, com peito estufado, mostrava fisionomia esnobe. – Percebi logo que haviam mais homens sobre aquelas muralhas e ainda preguei-lhes uma boa peça.

Os risos de Calabar voltaram a ressoar na taverna.

– Ainda lembro da cara de idiota do capitão Matos quando, ao entrar a comitiva do commandeur, irrompemos com nossas companhias pela porta adentro.

O comentário de Calabar arrancou até um sorriso do taciturno coronel d’Artischau enquanto o outro coronel, ria tão abertamente quanto o mulato.

– Ah! – Von Sckoppe suspirava. – Albuquerque Maranhão correndo com o rabo entre as pernas. Dois capitães de fortaleza feitos de idiota. E a Paraíba em nossas mãos. Este dia não podia ter acabado melhor.

– E agora está na hora da nossa cartada final – Calabar bradou.

– Sim. Está na hora de atacar o Real de Bom Jesus! – Von Sckoppe levantou a taça em sua mão.

Os outros dois homens na mesa fizeram o mesmo.

– Está na hora de colocarmos o maldito Matias de Albuquerque para correr!

O vinho encharcou suas gargantas outra vez. No entanto, antes das taças deixarem suas bocas, um outro oficial, em passos apressados, adentrava a taverna interrompendo o feliz momento. Era a figura magra e imberbe do major Picard.

– Desculpe interrompê-los, senhores coronéis.

– Pode falar, major Picard. Algo urgente? – Von Sckoppe perguntou.

– Sim, senhor. Um padre, com lenço num pau, veio render-se comigo quando eu estava na floresta.

– Um padre? Só isso? – Os olhos do coronel cerravam no major. – Todos os dias mais e mais ricos moradores e senhores de engenho da Paraíba vem a nós para receber nossos passaportes e salvos-condutos. Agora vem aqui para me falar de um padre? Pelo amor de Deus, o que há de tão importante nesse padre?

– O senhor precisa ver com seus próprios olhos, coronel – o major exclamou.

Essas palavras fizeram os três homens na mesa se levantarem. E, conduzindo-os para fora da taverna, o major disse o nome do padre.

– Ele falou que se chamava: Padre Manuel Moraes.

Os olhos de Calabar abriram-se enormes com a surpresa de ouvir este nome.

– Manuel Moraes? Meu Deus! – A exclamação de Calabar encheu sua boca. – Meu amigo Von Sckoppe, devo lhe dizer que se o dia já estava bom, agora há de ficar muito melhor!

Mal Calabar terminou de falar, o major Picard abriu as portas da taverna para que os três homens deixassem o local. Com o sol do fim de tarde iluminando as ruas desertas da cidade paraibana, surgiu uma cena aos olhos dos coronéis que não poderia ter-lhes surpreendido mais. Isso porque o tal padre Manuel Moraes não estava só. Com ele, haviam também quase dois mil indígenas. Homens, mulheres e crianças que buscavam os líderes holandeses. Calabar com ar triunfante no rosto proferiu:

– Se no Rio Grande conseguimos aliança com as tribos Tapuias, vejo que na Paraíba teremos as tribos aliadas de Matias de Albuquerque ao nosso lado.

 

***

 

Enquanto os coronéis comemoravam a vitória na taverna abandonada na Paraíba, o companhia do capitão Chales de Toulon, que tanto combateu para o sucesso desta conquista, foi enviada à frente das demais para dar a notícia dela em Nova Holanda. O capitão franco-holandês foi primeiro aos conselheiros, cujos anúncios e festejos da vitória perdurariam por toda noite. Depois, o próprio capitão foi festejar da melhor forma que conhecia, nos braços de uma bela mulher.

O bater numa porta com a mão direita, enquanto a esquerda segurava uma fina bebida, anunciava seus desejos libidinosos para esta noite. A esperada pessoa surgiu à porta, mas com uma atitude um tanto inesperada.

– O que pensa que está fazendo aqui? – Era Amália Strausskicher.

O tapa na face de Toulon ecoou pelas ruas do Porto do Recife. O cenho da mulher extravasava ódio e consternação. As rugas sulcavam. As sobrancelhas convergiam. Os dentes rangiam. Toulon nada respondeu. Soube as razões da mulher. Mas seu silêncio roubou dela mais arroubos raivosos, que emitiram mais palavras furiosas.

– Pensa que pode desaparecer sem aviso e surgir a qualquer momento em minha porta em busca de prazer?

– Prefere que eu vá embora? – Toulon falou com voz branda.

– Prefiro que suma de minha vida. Ela já está horrível o bastante sem sua presenca. Não quero que fique pior ainda com os seus joguinhos inúteis!

A vida de Amália estava em frangalhos. Ela odiava o pai. Odiava o marido. Odiava a si mesma. Mesmo seu filho não lhe foi capaz de trazer bons sentimento. Quando nasceu e ela colocou os olhos nele pela primeira vez, sentiu apenas uma tristeza lhe dominar. No lugar da felicidade da maternidade que lhe fora prometido pelas outras mães e pelas parteiras, uma sombra negra envolveu sua mente e seus sentimentos. A criança era uma constante lembrança do que ocorrera com o grande amor de sua vida, cuja vida extinguiu-se por seus atos. Era uma constante lembrança de que ela era incapaz de cuidar de outra pessoa, de que sua presença era um veneno para todos à sua volta, de que era incapaz de amar novamente, até mesmo seu filho.

O cenho de Toulon se fechou com as duras palavras de Amália. Nunca foi um segredo que o relacionamento entre os dois não era nem um pouco saudável. Era cheio de ódio e rancor. Mas também era um breve alívio em seus longos dias de sofrimento.

– Farei o que me pede – o franco-holandês falou ao volver-se de costas, deixando o local. – Tenho certeza que prefere esperar seu marido chegar embriagado, hoje, depois das comemorações da vitória na Paraíba, desejando lhe tocar com as mãos que são tão odiadas por seu corpo. Espero apenas que quando isso ocorrer hoje a noite, não pense como poderia ter se divertido comigo agora.

Toulon partiu. Mas, nem finalizou seu segundo passo, a voz de Amália o impediu de continar.

– Espere!

O sorriso de Toulon surgiu à face. Ele voltou-se para Amália, vendo as lágrimas descerem-lhe as bochechas rosadas e o queixo tremer melancolicamente. Não era a primeira vez que Toulon a vira assim, tão furiosa de si mesma. Ele aproximou-se dela com pesados passos. Segurou forçosamente sua boca com ásperas mãos. Beijou-a rispidamente. Levou-a ao interior de forma violenta, até mesmo dolorosa, maltratando-a, até mesmo a ferindo. Era exatamente assim que a mulher desejava ser tratada.

Deixou que Toulon a dominasse, lhe desse o prazer tão odioso, mesmo sabendo que no dia seguinte isso a faria sentir-se ainda pior.

 

 

 

 

Paisagem por Frans Post (1612-1680)

 

 

 

 

Os Senhores do Campo

Brasilianos

 

2

25 de dezembro de 1634

 

As vitórias holandesas em Itamaracá, Rio Grande e na Paraíba marcaram o fim da supremacia ibérica no campo de batalha. Nada mostrou tanto essa mudança de status quo quanto as negociações para a rendição do último forte paraibano, o Cabedelo. Quando o negociador do forte, chamado Dom Gaspar, se apresentou aos holandeses muito zangado e malcriado com as condições assinaladas, que os exilava nas Antilhas Holandesas do Caribe.

O coronel Von Sckoppe, vencedor da batalha pela Paraíba, não suportou aquela arrogância. Arrancou o papel das mãos do companheiro, rasgou a prosposta de rendição e, por fim, disse àquele negociador que com a espada o forçaria dentro de pouco tempo a falar em outro tom. O orgulho de Dom Gaspar abateu tanto que este pediu com lágrimas nos olhos que escrevessem de novo a capitulação e perdoassem sua incivilidade. Assim, o Forte Cabedelo caiu e os holandeses marcharam para a cidade da Paraíba, sem resistência, onde Von Sckoppe permaneceu na capitania para pôr as coisas em boa ordem, tomando diariamente os votos de obediência de seus habitantes e lhes dando passaportes.

A fuga da capitania levou o líder Felipe Camarão até a vila de Miritibi, já em Pernambuco. No local, ele teve uma surpresa.

– O que aconteceu aqui?

Felipe Camarão lançou a pergunta, que mais parecia uma exclamação. A vila de Miritibi fora fundada pelo renomado Camarão Grande, seu pai, durante as negociações de paz com os portugueses há mais de trinta anos. Era o segundo lar do líder potiguar. Era o local onde foi levado ainda pequeno, onde cresceu e foi educado por Jesuítas. Antes, havia milhares de índios de várias tribos. Agora, estava completamente abandonado.

A resposta veio numa voz que lhe era bem conhecida. Era a voz do seu tio Jaguarari, o mesmo que anos atrás traíra o rei ibérico para tomar o lado dos holandeses na Baía da Traição. Era o mesmo que permanecera oito anos aprisionado no calabouço da Fortaleza dos Reis Magos. Agora, estava ali, livre de seus grilhões, para explicar as razões do abandono do vilarejo.

– Pedro Poti esteve aqui – Jaguarari falou. – Ele apregoou em favor dos holandeses e muitos foram seduzidos por suas mentiras.

Quando o Forte dos Reis Magos foi cercado, todos os prisioneiros da fortaleza foram libertados pelo capitão-mor Gouveia. Este não poderia se preocupar em alimentar um prisioneiro na iminência de um cerco. Mandou deitar fora este índio pela muralha da parte do mar com um pau para que pudesse sair para o sul. O índio nadou por quase uma légua de distância e se encaminhou à primeira aldeia de índios para enfim chegar a Miritibi.

Felipe lembrou que seu tio Jaguarari fora tão escandalizado nos oitos anos de duras prisões na Fortaleza dos Reis Magos que bem poderia servir aos holandeses em vingança do sofrido. Por isso, lançou a pegunta.

– E por que não partiste com Pedro Poti?

Jaguarari se mostrou quase ofendido com a pergunta.

– Ah, Felipe – o índio respondeu. – Parece que não me valeu ter provado minha fidelidade nos muitos anos que servi a El-Rei e particularmente na conquista do Maranhão quando Jerônimo de Albuquerque ganhou dos franceses.

O olhar do índio se asseverou. Só então completou.

– De minha prisão me soltaram agora, por estarem os holandeses sobre o Rio Grande. Bem receava eu que nos mesmos ferros havia de morrer, porém, nada será o bastante para manchar minha fidelidade, com que sempre servi e servirei a meu rei, de forma que agora posso deixar isso bem provado.

Ele então se ajoelhou frente a Felipe Camarão.

– Rogo que as penas dos tratamentos que sofri sirva de exemplo e não de escândalos, por isso, se outro faltar à obrigação de bom e leal vassalo do nosso rei, eu mesmo lhe servirei de verdugo.

A resposta de Felipe Camarão veio ens eguida. Lançou as ordens ao tio, como que confirmando que este lutaria ao seu lado agora.

– Ponham fogo em toda a vila – ele elevou a voz. – Não deixaremos nada que os holandeses possam aproveitar. Assim que os retirantes da Paraíba chegarem aqui, partiremos para o Forte Bom Jesus.

Em seguida, mirou o olhar para a vila Miritibi, antes de completar.

– Quem ficar será considerado um traidor!

 

***

 

Bem mais ao sul da vila de Miritibi, ainda no território paraibano, o dia estava amanhecendo. O sol lançava seu explendor por trás do horizonte marítimo, reluzindo um alvo brilho sobre as ondas e recendendo a maresia na mata costeira. Seus raios alcançavam um monte sobre a planície rugosa desta capitania. Era ali onde dois homens conversavam, cada um era capitão-mor de sua capitania, pelo menos um dia o foram. Era os veteranos Antônio de Albuquerque Maranhão e Martim Soares Moreno.

O primeiro, capitão-mor da Paraíba, contemplava aquelas terras que até poucos dias atrás governava. Agora, era obrigado a se retirar para o sul em fuga das forças do coronel d’Artischau, que avaçavam metro a metro vasculhando a presença dos retirados nas matas e engenhos pelo caminho. O segundo, capitão-mor do Ceará buscou palavras de conforto ao companheiro.

– Não se culpe tanto, todo o possível foi feito.

– Ainda assim os holandeses venceram – respondeu o capitão-mor paraibano – Sou obrigado a deixar para trás as terras do meu povo.

Depois da vitória na Paraíba, os holandeses marcharam para a cidade. Chegaram ao meio-dia na vila, não encontrando ninguém lá. Todos haviam fugido e carregado tudo o que puderam. O capitão-mor Antônio de Albuquerque Maranhão partira para o mato depois de ter incendiado três navios, cujos destroços, os holandeses viram carregados com quinhentas caixas de Açúcar. Encontraram juntamente dois armazéns de açúcar, ainda fumegantes e correndo pelo rio o açúcar derretido. Alguns diziam que se queimaram neles duas mil, outros mil e quinhentas caixas de açúcar.

– Dos quinhentos habitantes da Paraíba e dos soldados que nos acompanharam, ao longo dos percursos, vemos esse número se reduzir a cada dia– capitão-mor continuou o seu lamento. – Muitos nos abandonam diariamente para retornar às suas fazendas, debaixo do salvo conduto e do passaporte holandês.

Rendidas as forças paraibanas, os holandeses espalharam algumas de suas tropas pelos engenhos da capitania. Roubaram e tomaram grande presa de dinheiro, principalmente dos moradores que iam se retirando.

– Não sei mais em quem confiar, Martim!

O outro capitão-mor continuou em seu conforto.

– Lembra da Jornada do Maranhão contra os franceses, Antônio – proferiu com grave voz. – Seu pai, Jerônimo de Albuquerque, o Maranhão, teve que enfrentar um dos seus desafetos que desejou lhe tomar a posição de comando na Jornada e lhe roubar as glórias da vitória do seu pai em Guaxendubá.

Um sorriso surgiu na face de Martim Soares.

– No fim, após disputas de entre duas facções, seu pai teve a autoridade restaurada e se tornou o capitão-mor daquela capitania. Todos aqueles que o abandoram para tomar o lado errado, no fim, tiveram que se desculpar com seu pai. O mesmo ocorrerá com vossa mercê. Tenho certeza disso!

Era a vez do sorriso do capitão-mor da Paraíba se espelhar no do capitão-mor do Ceará. Por um momento, Antônio de Albuquerque Maranhão pensou que as coisas poderiam melhorar. Infelizmente, o Conde de Bagnuolo chegou no alto daquele monte com tristes notícias sobre novos desertores.

– O padre Manuel Moraes não amanheceu no acampamento. Nem ele, nem os seus índios. Todos sumiram!

Todo e qualquer semblante de conforto surgido na face do capitão-mor paraibano despareceu por completo.

 

***

 

Os refugiados estavam acampados nas terras do Engenho de Duarte Gomes para descanso e alimentação. Eles decidiram sitiar temporariamente nesta propriedade pela confiança que tinham neste Senhor de Engenho. Afinal, seu filho se voluntariou como soldado, combateu os invasores holandeses e morreu defendendo sua capitania no desembarque holandês. Certamente, era tamanha honra e fidelidade do garoto foram herdadas pelo pai.

Nos currais destes engenhos, estavam acampados os índios do padre Manuel Moraes. Eram centenas de índios de várias tribos, com seus homens, mulheres, crianças e idosos, que foram todos arregimentados ao longo do caminho para que não caíssem mãos inimigos. Afinal, este padre tinha enorme autoridade sobre eles. Era o braço de direito de Felipe Camarão, pois coordenava o colégio jesuíta da vila de Miritibi onde o líder potiguar obteve sua educação e liderou os indígenas contra o inimigo herege por cinco anos desde o desembarque holandês.

Todos sabiam que, se os índios deixaram o acampamento, foi por ordem deste padre, mas não foi difícil para eles encontrarem um grupo de índios tão grande, com tantas mulheres, crianças e idosos, pelo matagal.

– Pare agora, padre Moraes!

A voz veio do capitão-mor Antônio de Albuquerque Maranhão quando este encontrou o padre jesuíta entre os índios, com lenço em um pau para se render ao inimigo, tão esquecido das obrigações de sua profissão.

– O que pensa que está fazendo? – continuou com as questões. – Aceitará o passaporte dos hereges? Tomará o lado deles agora?

O padre parou a marcha dos índios. O olhar se voltou para o capitão-mor da Paraíba, que vinha acompanhado de Martim Soares Moreno e mais algumas dezenas de soldados. Ele estava claramente abatido com a situação. Havia um certo arrependimento em seu semblante, um sentimento de culpa pela decisão que estava tomando. Não obstante, o jesuíra respondeu.

– Estou nessa guerra há mais de cinco anos e estou muito cansado dela – o padre respirou mais profundamente. – Estamos todos cansados – disse alargando o braço na direção daquelas centenas de índios. – O que pede a essas pessoas, é demais,  não pode esperar que esses índios deixem para trás as terras dos seus descendentes, sem ter qualquer perspectiva de quando voltar ou mesmo de para onde ir!

– É um ato de traição! – Os olhos de Antônio de Albuquerque Maranhão foram tomados pela raiva e pelo desprezo.

Um gesto de mão do capitão-mor da Paraíba fez as armas das poucas dúzias de soldados que o acompanhavam levantarem. Apontaram na direção do padre. Buscavam obrigar a tomar a decisão correta. A resposta do jesuíta era bem diferente do que esperavam.

– Um pastor só deseja o melhor para o seu rebanho.

Imediatamente, os arcos e flechas dos índios, às centenas, muito superiores em número, apontaram para aquelas dúzias de soldados. Era intimidador!

Um segundo tenso passou. Qualquer ação poderia iniciar um confronto armado. Este só não ocorreu quando a mão de Martim Soares Moreno tocou o ombro de Albuquerque Maranhão e mandou seus homens recuarem de volta ao engenho de Duarte Gomes.

– Vamos, Antônio – proferiu o sempre apaziguador capitão-mor do Ceará. – O padre tomou sua decisão, deixe com que arque as consequências.

– Sei que ainda se arrependerá dela!

 

***

 

Os soldados retornaram para o acampamento no engenho de Duarte Gomes, onde todos os demais estavam prontos para marcha. Sob o comando do Conde de Bagnuolo, só aguardavam a chegada dos líderes Albuquerque Maranhão e Martim Soares Moreno. Estes chegaram desolados pela traição do padre Manuel Moraes, mas já encontraram o dono do engenho onde assentaram.  O tal Duarte Gomes estava ao lado do Conde de Bagnuolo.

Um bom semblante surgiu na face de cada capitão-mor, principalmente, quando perceberam que o Conde de Bagnuolo mostrava um leve sorriso embora o senhor do engenho quem tomou a palavra.

– Boas notícias!

O senhor de engenho se aproximou de ambos os líderes..

– Os inimigos avançam com pouca gente – então continuou. – Um criado meu se meteu com eles e descobriu o caminho onde farão as buscas. Disse que passarão por outro engenho meu, mais ao norte. É um lugar de boa defesa. Se fortificarmos lá, poderemos deter o avanço do coronel d’Artischau!

O plano parecia plausível. Era um local de boa defesa, como ambos os capitães-mores bem sabiam.

O capitão-mor Martim Soares Moreno, no entanto, percebeu algo estranho no tal senhor de engenho. Seu sorriso e entusiasmo pareciam tentar esconder um certo nervosismo. O suor em sua testa não parecia advir do calor ou do cansaço. O constante olhar para o seu criado, que lhe trouxe esta informação, pareceu muito mais do que olhares confirmatórios. Pareceu-lhe mais olhares cúmplices. Algo está errado, logo pensou.

Para muitos, a ordem seguinte do capitão-mor do Ceará pareceu exagerada e de certa forma paranoica. A verdade [e que ao longo dos anos Martim Soares Moreno aprendeu a confiar na sua intuição.

– Prendam, Duarte Gomes!

Depois olhou para o Conde de Bagnuolo.

– Prepare os homens para marchar para Pernambuco, pois vamos direto ao encontro de Felipe Camarão na Vila de Miritibi – Em seguida, voltou o olhar para o capitão-mor da Paraíba. – Mande um soldado para o outro engenho de Duarte Gomes para  confirmar essas informações!

O senhor de engenho foi levado por alguns soldados italianos para seu cárcere privado. Ele muito protestou pelo caminho até a vila de Miritibi, muito xingou o capitão-mor do Ceará, mas estes só duraram quinze minutos depois da saída do exército paraibano do local.

Martim Soares Moreno estava certo. Não tardou um quarto de hora, sem que o inimigo chegasse na posição deles. O enviado do capitão-mor Albuquerque Maranhão veio reportar que o outro engenho de Duarte Gomes já estava defendido pelos holandeses. O senhor de engenho organizou uma armadilha para acrescentar à sua infidelidade. Desejava assim, nem mesmo querer que o seu governador se salvasse.

As traições do padre Manuel Moraes e do senhor Duarte Gomes destruíram a moral das forças paraibanas. Não ajudou nada chegar na vila de Miritibi e encontrar o local todo destruído. Um ponto do caminho estava muito trancado por árvores derrubadas. Toda a aldeia, o colégio dos jesuítas e a igreja local estavam incendiados.

Dentre os esombros do local, o líder potiguar surgiu em sua montaria.

–  Estava apenas esperando por vossas mercês. Sei que o coronel d’Artischau vem logo atrás, mas fomos abandonados pelos índios de Miritibi.

Ele lançou um olhar desapontado.

– Temos que partir imediatamente para Bom Jesus!

 

Vista de Madrid por Antoon van den Wijngaerd (1562)

A Morte Conjugal

Nobreza

 

3

25 de Dezembro de 1634

 

Era uma noite de densas nuvens que escondiam os céus e lançavam uma chuva torrencial nas edificações de Madrid. Numa das casas da cidade, as emoções acometidas por uma jovem mulher eram igualmente densas. O seus cabelos não eram tão negros quanto o sentimento em seu peito. A sua alva tez não era tão intensa quanto o vazio no coração. Nem a torrencial chuva poderia rivalizar com o jorro de suas lágrimas. Os folgos e soluços de luto que emanavam do seu interior deviam-se ao homem morto sobre o qual se ajoelhava. Este finado homem era Fadrique de Toledo, o antigo Capitán General del Mar Oceano.

Já se passavam algumas horas desde sua morte, mas a esposa Elvira não conseguia deixar o abraço envolvente no finado marido. O gélido emanar do corpo de Fadrique queimava seu coração, ardia sua alma, mas não era tão doloroso quanto o flamejar da fúria pelo homem que causou sua morte: o Conde-Duque de Olivares. Ela repetia este nome na sua mente. Embora não fora o responsável pela doença assassina, foi sua ordem que destruiu a saúde do marido com injustas condenações e terríveis prisões.

Elvira ali ficaria por muitas outras horas, velando o corpo do marido, se não ouvisse um chamado à sua porta. Era o chamado de um dos seus criados.

– Minha senhora, precisamos ir agora. Não é seguro ficar aqui.

Elvira limpou as lágrimas que lhe escorriam profusamente pela face. Levantou-se. Caminhou na direção de seu criado. Tomou a mão das duas filhas. A rechonchuda Vitória de quatro anos de idade e a pequena Elvira de dois anos apenas. Elas caminharam juntas através da forte chuva, protegendo-se com um negro xale. Todos entraram no coche onde o criado antes guardara suas coisas. E assim partiram.

Horas depois, chegaram numa maior e mais luxuosa propriedade. O seu dono, um marquês e militar espanhol, ao lado da esposa, esperava a jovem viúva. Como prometera anos antes ao finado general, proveria Elvira com tudo o que lhe fosse necessário, principalmente, agora que tanto a moça precisava de asilo.

– Seja bem vinda, Elvira, assim como suas filhas também – este homem, em seus cinquenta anos quase finados, falou. – Entrem em minha morada. Não deveriam ficar sob tão forte chuva.

– Obrigado, Dom Garcia – a viúva respondeu – não tenho palavras para agradecer à acolhida.

O nome deste homem era Garcia de Toledo, Marquês de Villafranca del Bierzo e irmão do finado Fadrique. Ao seu lado, com a mesma hospitalidade, a sua esposa, dona Maria, logo abraçou as duas crianças que ali chegavam. A mulher detinha quase a mesma idade do esposo, mas Deus nunca lhe agraciou com filhos. Trouxe alegria ao seu coração ver aquelas pequenas e belas menininhas entrarem em sua morada.

– Eu nunca poderia deixar minhas sobrinhas sem um bom teto sobre suas cabeças e comida em suas mesas – o homem retomou suas palavras. – Mas antes gostaria de saber sobre sua pessoa, Elvira. Como está se sentindo?

A jovem viúva, ainda desnorteada pelos recentes eventos, respondeu.

– Não sei, Dom Garcia. É tanta coisa acontecendo. Tanto para fazer. O corpo de Fadrique está em minha antiga casa. Não sei como proceder.

– Não se preocupe – o Marquês logo a interrompeu. – Eu prepararei dos arranjos do enterro. Tente descansar. Eu cuido de tudo.

Um novo e doloroso folgo deixou o peito da viúva com a lembrança do marido morto. Recordou a imagem de seu corpo inerte na cama. Tudo parecia um pesadelo. Parecia irreal demais. A única coisa que parecia lhe guiar, nortear seus pensamentos esparsos, era o ódio sobre um homem. Era o desejo de vingança contra o Conde-Duque de Olivares.

– Obrigado, Dom Garcia – ela agradeceu, mas endureceu a voz em seguida. – Peço apenas que eu faça o epitáfio do meu marido. Tenho a frase certa para colocar em sua lápide. Uma que fará seu algoz se morder de raiva.

O irmão de Fadrique fitou os olhos cheios de fúria da jovem viúva. Tentou censurar esse pernicioso sentimento.

– Cuidado com o que tem em mente – Dom Garcia lhe falou. – Não é prudente acirrar a ira do Conde-Duque neste delicado momento. Como Marquês de Villafranca, posso lhe proteger apenas até certo ponto. Devo lembrar que, com a morte de Fadrique, seu título não existe mais para proteger a família agora sem um varão para herdá-lo.

Ouvindo as palavras do cunhado, Elvira abriu um sorriso desafiador.

– Não se preocupe, Dom Garcia – foi sua vez de censurar. – Pois tenho a amizade da rainha ao meu lado…

Durante estas palavras, Elvira segurou a manta de lã de seu xale negro. Levantou-o, descobrindo seus ombros e torso. O casal hospitaleiro percebeu assim a razão pela qual a jovem viúva solicitava tamanho sigilo. Uma proeminente barriga revelou que Elvira estava grávida de seis para sete meses.

A mulher de cabelos negros e alva tez completou suas palavras.

– E também o futuro Marquês de Villanueva de Valdueza em meu ventre! – Ela falou acariciando a criança em seu abdômen.

 

***

 

Longe dali, sobre a Casa Ducal de Bragança em Vila Viçosa, a noite estava límpida com o luar deitando seu manto argento sobre o paço. Era quase meia-noite de um agitado dia. Os criados e fidalgos repousavam dos animados banquetes e das apresentações teatrais castelhanas promovidas pelos Duques de Bragança. Os corredores estavam escuros e silenciosos. O Duque avisara a todos do muito trabalho que teriam no amanhecer, pois uma longa comitiva à cidade fronteiriça de Elvas estava preparada para receber e acompanhar a nova governante de Portugal, a Vice-Rainha Margarida de Mantova, até a cidade de Lisboa.

O sono dominou tanto os fidalgos e residentes da Casa de Bragança que até mesmo a guarda pessoal do Duque por vezes não seguravam as próprias cabeças quando vinham os cochilos de cansaço. No entanto, esta mesma guarda, ao perceber silhuetas se esgueirando pelos corredores escuros, despertaram por completo. Eles, primeiro, tocaram a espada para defender a casa de qualquer ameaça. Logo, relaxaram. Era uma das atrizes da companhia teatral castelhana que realizou apresentações naquela tarde. Estava sendo levada ao quarto do Duque de Bragança por seu camareiro-mor.

– Senhor Duque – o camareiro-mor bateu na porta do quarto. – Eu trouxe o pedido especial de Vossa Excelência.

A porta se entreabriu. A voz do Duque soou de volta.

– Ótimo, Dom Antônio. Mande-a entrar.

Assim a bela atriz castelhana da companhia teatral adentrou. A porta se fechou atrás dela.

Quase uma hora depois, sem que o Duque estivesse esperando, a mesma porta se abriu outra vez. Uma pessoa não convidada para sua festinha particular entrou sem anúncio. Observou uma inevitável cena. Numa pequena ante-sala do luxuoso quarto, uma garrafa de vinho semi-vazia dividia a mesa com alguns queijos e uvas. As taças estavam vazias com muito do vinho derramado ao redor. Roupas estavam espalhadas pelo chão. E, na cama, sob sedosos lençóis já estavam o Duque de Bragança e a bela atriz castelhana desfrutando dos prazeres da carne.

Infelizmente, para o Duque, a pessoa quem entrou no quarto e contemplava esta visão era sua esposa Luísa de Gusmão.

– Como pôde fazer isso comigo, João!

A Duquesa transbordava raiva e indignação. Evidenciava sua barriga grávida de sete meses de gravidez.

– Luísa? O que está fazendo aqui?

O Duque se levantou, já tropeçando nos lençóis.

Antes, recebeu a resposta mais exaltado da Duquesa.

– Estou descobrindo com que tipo de marido eu me casei!

– Eu posso explicar – foi a primeira frase que veio na cabeça de João.

Não havia explicação.

A raiva da Duquesa aumentou quando percebeu o sorriso nervoso da atriz castelhana ao se esconder sob os lençóis. Realmente, não havia explicação. Luísa nem quis ouvir a voz do marido. Lágrimas fluíram dos seus olhos quando deu as costas para o casal infiel. Bateu a porta do quarto com toda sua fúria.

– Luísa, volte aqui! – O Duque chamou o nome da esposa em vão.

 

***

 

A Duquesa já havia deixado os aposentos do marido. Os guardas do Ducado a observaram traída e aos prantos, percorrendo os corredores de paço. Caminhava aos seus próprios aposentos. Os guardas, como estátuas decorativas, nada fizeram. Apenas mantiveram sua posição como se nada estivesse ocorrendo. Nada podiam fazer nada. A Duquesa só desacelerou seu passo quando encontrou Consuelo, sua dama de companhia, no caminho.

– O que Vossa Excelência está fazendo acordada tão tarde? – A dama perguntou.

– Eu descobri tudo – o choro se intesificou. – Encontrei o Duque com uma de suas meretrizes! – Os prantos impediram a Duquesa de continuar.

Havia ainda algo mais de errado. Consuelo percebeu a duquesa se curva sobre sua barriga grávida. Era notório que a Duquesa estava sentindo uma forte incômodo em seu ventre.

– Vossa Excelência está sentindo alguma coisa?

A resposta foi um terrível grito de dor. A Duquesa nem conseguiu retomar a palavra para explicar o que estava acontecendo, tal era seu sofrimento. Quando enfim conseguiu arrancar palavras de sua garganta sôfrega, as palavras contradiziam com sua situação.

– Eu estou bem – falou a Duquesa em meio à sua dor. – Mas diga-me o que está fazendo aqui, Consuelo, a esta hora da madrugada?

– Os guardas me avisaram que a senhora estava indo ao quarto do Duque.

– E lhe pediram para me impedir de ver o Duque com sua rameira castelhana – a Duquesa completou a resposta. – Deus! Todos neste paço conspiram contra mim!

A dama logo tratou de se defender.

– Todos neste palácio só desejam o melhor para seus senhores: para Vossa Excelência e para o Duque. É por isso estou aqui.

Com essas palavras, Consuelo levava a Duquesa para o quarto. Preocupava-se com seu evidente sofrimento físico.

– Agora vamos. Vossa Excelência precisa se deitar.

Não demorou muito para a Duquesa chegar em sua cama. Deitar-se e descansar do choque que sofrera minutos atrás. Consuelo cuidava dela. Cobriu-a sob lençóis. Entregou-lhe para beber a água sobre o criado-mudo.

– Consuelo, – a Duquesa reconversava – por favor, diga-me tudo o que sabe. O Duque tem muitas outras amantes?

– Saber dessas coisas só farão mal à senhora.

– Por favor, preciso saber de tudo. Preciso saber se posso confiar em ti.

– Não me obrigue a falar, Duquesa.

– Eu não estou obrigando, Consuelo. Estou lhe pedindo como amiga.

As palavras da Duquesa comoveram a fidalga. Afinal, todo desejo de uma dama de companhia é ficar próxima de sua senhora e lhe servir bem. Depois de mais alguns pedidos, a dama resolveu contar tudo o que sabia.

– Sim. Desde que Vossa Excelência engravidou, muitas mulheres dividiram a cama do Duque. Essa certamente não foi a primeira atriz de passagem pela cidade com quem o Duque se envolveu. Soube até que chegou a disputar, à ponta da espada, uma fidalga do palácio de Vila Nova de Portimão.

– Meu Deus! – novos prantos deixavam os olhos da Duquesa.

– Também há rumores de que o Duque teve um caso com Leonor da Silveira por anos antes mesmo de se casar.

– Leonor da Silveira? A ama-de-leite do pequeno Teodósio? A mulher a quem confio os cuidados do meu filho?

A dama balançou a cabeça afirmativamente. As dores no ventre da Duquesa retornavam ainda mais fortes.

– Dizem até que as duas filhas de Leonor são na verdade do Duque e não do seu marido Mendes Lobo.

Luisa ficou chocada com a revelação.

Percebendo as dores da Duquesa piorarem, a dama tratou de amenizar a situação.

– Homens são homens. As infidelidades do Duque ocorreram durante os períodos de sua gravidez, por não ser permitido a Vossas Excelências terem relações. – a dama continuou, mas foi interrompida

A porta do quarto da Duquesa se abriu. Era o Duque quem entrava interrompendo a conversa entre as duas mulheres. Sua fisionomia transbordava culpa e preocupação quando falou.

– Consuelo, – o Duque primeiro dirigiu-se à dama – eu preciso falar com a Duquesa a sós.

 

 

 

 

Paisagem de Serinhaém por Johannes Vingboons (1617-1670)

 

O Início da Fim

Brasilianos

 

3

21 de Janeiro de 1635

 

O senhor de engenho Antônio Cavalcanti proferia as terríveis noticias do norte ao capitão-mor Matias de Albuquerque. O líder da Resistência estava no Engenho Casa Forte, na secreta sala de reunião, escondida na parte mais subterrênea da Casa-Grande. Ali, as mão de Matias, escondidas sob a grande mesa central, apertavam os dedos, como que prontos para socar alguém.

Não obstante, o relato continuava.

– Capitão-mor, os coronéis Von Sckoppe e d’Artischau marcham desde a Paraíba até aqui com os três mil soldados que conquistaram esta capitania e outros dois mil homens estão de prontidão no Porto do Recife, aguardando a chegada deles. Eles preparam a união de todas essas forças para um ataque final contra Bom Jesus! Capitão-mor… – o senhor de engenho engoliu seco – A situação está ficando irremediável. Não consigo imaginar como contorná-la.

– Obrigado mais uma vez, Cavalcanti. As suas informações como sempre são vitais para a nossa causa. Mas não se preocupe. Nós pensaremos em algo – foi a resposta de Matias de Albuquerque ao senhor de engenho.

A mais pura verdade é que a calma na voz de Matias escondia o desespero na sua mente. Ele sentia que a situação tornava-se mais difícil a cada novo dia. Com a derrota de todas as fortificações da Paraíba, a população já corria para os conquistadores em busca de passaportes holandeses. O documento determinava-os como fieis à causa invasora. Aliados tornavam-se inimigos. Amigos tornavam-se traidores…

No entanto, era o pensamento num traidor mais específico que trazia uma tristeza ainda maior à Matias de Albuquerque. Isso porque, neste mesmo dia, chegava a resposta da carta que enviou a Calabar, tentando persuadi-lo a retomar para o bom lado da qual foi desvirtuado pelos hereges. Uma carta que prescrevia o seguinte enunciado:

 

Ao meu velho amigo Domingos Calabar,

É tido o seu ato como uma tentação de Satanás que protege os hereges e por isso digno de perdão. Em nome de El Rey lhe oferecemos a restituição de suas benfeitorias e bens, 150 mil moedas de ouro de compensação, a tença que em razoável peça, o posto de Dom, fidalguia só concedida aos grandes da terra, o Hábito de Cavaleiro de Cristo, a amizade de El-Rei e a nossa. E o que vossa mercê ainda quer que não vem aqui?

A sua inteligência, os seus admirados conhecimentos, o seu invejado valor, são pedidos por El Rey, nosso senhor. Sabe que os soberanos poderosos tem em suas mãos o prêmio e o castigo, que será terrível, porque havemos de vencer. Afinal, o que podem os holandeses contra o poder glorioso de El Rey? O que pode o espírito mau que protege os holandeses contra Jesus Cristo e seu Padre que nos ajudam? Lembre-se de sua gente, de seu rei e de seu Deus, porque ainda é tempo. E eles lhe querem muito e lhe receberão de braços abertos e feição alegre.

                                               Assinado, Matias de Albuquerque

 

A verdade era que Matias enviou muitas destas cartas ao longo dos últimos três anos. Cada nova carta, oferecia mais para ter Calabar de volta ao seu lado. Infelizmente, o resultado desta última tentativa não foi diferente das anteriores. A negação do ex-companheiro fez o capitão-mor rasgar a carta em vários pedaços e jogá-la no chão com toda força de sua frustração. A sua situação tornava-se desesperadora.

Esses vis sentimentos tornaram-se ainda piores com a chegada dos líderes Martim Soares Moreno, Albuquerque Maranhão e Felipe Camarão da derrota na Paraíba.

– Martim, eu tive notícias do que ocorreu na Paraíba, meu amigo – falou o capitão-mor Matias de Albuquerque.

– A perda da Paraíba foi um duro golpe sim. Mas não foi pior do que o que ocorreu no percurso até aqui – Martim Soares Moreno respondeu.

– O que aconteceu? Parece preocupado.

– Não sei nem como dizer, Matias… – Martim foi tomando um fôlego triste antes de falar. –  Mas o Padre Manuel Moraes passou para o lado inimigo.

– Isso é impossível! – Matias arregalou os olhos. – Ele me auxilia desde o início da guerra. Liderou seus índios convertidos no dia do desembarque. Combateu todos os dias dos últimos cinco anos. É o Jesuíta de mais respeitado do continente e mais fervoroso que já conheci.

– Pois agora está ao lado dos hereges protestantes! Eu também não acreditaria se não estivesse lá.

Martim Soares Moreno suspirava com tal relato.

– E não foi apenas ele – continuava. – Um senhor de engenho, Duarte Gomes, quem nos deu acolhida e cujo filho morreu como herói na luta final pela Paraíba, a última pessoa que pensávamos ser capaz de nos trair, assim o fez.

Por fim, terminou com faces de desespero.

– A questão é que estes não foram casos isolados. A população já está aceitando os passaportes holandeses. Eu soube que o mesmo está ocorrendo aqui em Pernambuco. E perder o apoio da população é perder esta guerra.

– Eu sei… – Matias de Albuquerque baixou sua voz – só que temos problemas maiores agora. Antônio Cavalcanti me contou que cinco mil holandeses estão marchando contra Bom Jesus neste segundo para nos colocar em cerco.

– Não poderia ser de outra forma. Solicitei a todos os capitães que retornassem a Bom Jesus para manter as rotas de abastecimento. Devemos nos preparar.

– Sim. Devemos nos preparar – Martim repetiu.

 

***

 

Nas semanas seguintes, o capitão-mor preparou quatro grandes companhias para confrontar o inimigo com cerca de duzentos homens cada uma. Estas companhias eram sua última esperança. As lutas ocorreram em Mussurepe e São Lourenço. Todas as companhias foram derrotadas em batalha! Esta foi a notícia trazida pelo capitão-mor Martim Soares Moreno, líder de uma dessas companhias, chegando com os outros dois líderes que o acompanhavam: Felipe Camarão e Rebelinho. Este último carregado nos braços em razão dos duros ferimentos em seu corpo. O capitão-mor do Ceará quem primeiro tomou a palavra.

– Eu sinto muito, Matias. A praça em Mussurepe, incluindo o vale do monte Miritibi, está em mãos inimigas agora. Não conseguimos deter o avanço de d’Artischau e Von Sckoppe. Eles não perderam pouca gente. No entanto, eram muito numerosos.

– Rebelinho, está bem? – Matias logo perguntou ao ver o jovem Rebelo arquejando em dor com seu grave ferimento.

– Não é nada… É só um arranhão… Dê-me uma semana e eu estarei pronto para… lutar novamente… – Rebelinho respondeu, minimizando a gravidade dos ferimentos visto que foram dois tiros de mosquete que o alvejaram.

Após Matias avaliar os ferimentos de Rebelinho, concluindo que ficaria bem, continuou a relatar o ocorrido com Luís Barbalho, que comandava outra companhia. A notícia que se teve não foi diferente. Ele avisou que estavam recuando para a praça de Santo Antônio. O inimigo estava tomando todas as nossas saídas. Logo o Forte Bom Jesus estaria cercado de todos os lados.

Matias transbordava desesperança. E, não ajudando-o na melhora deste sentimento, Martim Soares Moreno proferiu tudo o que o capitão-mor Matias não queria ouvir. No entanto, não havia outra opção a não ser aceitar a triste realidade dos fatos.

– Então sabe o que deve fazer agora, não é Matias?

– Sim… eu sei…

Matias respondeu hesitante, não por que desconhecia a resposta, mas porque ela denotava uma ação na qual nem nos seus piores pesadelos desejava realizar.

 

***

 

O capitão-mor deixou esta grande sala onde eram realizadas as reuniões estratégicas. Atravessou a Casa-Grande do engenho sem incomodar a aliada Ana Paes, que ali estava. Sentou-se em silêncio na cabeceira do primeiro assento que encontrou, totalmente imerso nos pensamentos. A angústia estava no seu rosto de tal forma que ambas se assustaram. Ana Paes nada falou. Apenas abraçou-o calorosamente com seu toque acolhedor. Exatamente o que Matias estava precisando. O silêncio foi quebrado quando a senhora de engenho fez a pergunta que tanto questionava sua mente.

– O que houve, Matias?

Ouvindo a pergunta, Matias expôs tudo aquilo que estava fazendo seu peito doer e sua cabeça pesar. A última ação da qual qualquer líder gostaria de realizar. Aquilo que confirmava sua falha na defesa desta capitania. Mas também a única ação possível neste momento.

– Temos que abandonar o Forte Bom Jesus – Matias disse num único e doloroso fôlego. – Deixar esta fortificação pois logo estará cercada pelos inimigos. E partir com meus soldados para Serinhaém, ao sul, na fronteira com a comarca de Alagoas. Lá, certamente a batalha há de continuar!

Ana Paes, escutando palavras tão fortes, sem saber o que dizer, emitiu palavras com vozes nervosas. Tentava encontrar uma solução

– Mas, Matias… talvez seja possível reorganizar as defesas em alguma outra posição… algum reduto ou colina? Não pode deixar o Forte Bom Jesus!

– Não há outra alternativa, Ana. O inimigo tomou todas as nossas praças. Estamos totalmente cercados.

– E quanto aos moradores de Bom Jesus? E os engenhos próximos?

O coração de Ana batia acelerado com estas questões doloridas.

– E quanto a mim? – Perguntou, muito temendo a resposta.

– Todos realizarão a retirada – Matias respondeu. – Todos devem vir comigo para Serinhaém. Esta será apenas uma situação temporária. Pois logo retornaremos às margens do Capibaribe para contra-atacar esses vis invasores. Juro que isso não tardará a acontecer e logo retomaremos nossas terras!

– E quanto ao meu Engenho?

Com esta nova pergunta, os olhos de Ana Paes pareciam umedecer em meio à faces cada vez mais desesperadas.

Matias proferiu acalorada resposta em frios timbres vocais.

– Quando nós retornamos aqui, após vencer esses holandeses, nós reconstruiremos tudo. Do mesmo jeito que era antes. Tome força nas das palavras que um dia me disse: para sempre enfrentar quaisquer obstáculos, sempre aceitar as perdas, sempre reerguer. Assim como eu fiz com minha luta, nós faremos o mesmo com o Engenho Casa Forte!

Matias fitou os verdes olhos de Ana Paes para tentar entender o que estava ocorrendo. Ana Paes apenas voltou o rosto para o chão, tentando fugir daquele olhar.

– Não…

Ela falou com voz baixa mas bastante segura. Em seguida continuou

– O Engenho é tudo para mim. A minha vida foi dedicada a ele. Não posso abandoná-lo.

As palpébras de Matias se alargaram com a surpresa.

– E o que planeja fazer, Ana? Viver entre os holandeses como faz Calabar? – Matias retrucou com aspereza mas recebeu uma resposta da qual não gostaria de ouvir.

– Se for preciso para manter o meu engenho…

– Não pode estar falando sério!

– Eu sinto muito. Mas não posso abandoná-lo.

– Não estou acreditando no que estou escutando – Matias ergueu a voz.

– Não torne isso mais difícil para mim do que já está sendo, Matias. Entendo que não tenha outra opção. Mas entenda que esta é a única opção para mim também.

Estas palavras eram especialmente dolorosas para Matias, pois ele se lembrava de cada palavra de Ana Paes que, anos atrás, lhe fizeram reerguer no pior momento de sua vida. Era sua grande aliada, um exemplo de força de vontade. Era o combustível que abastecia suas forças para lutar. Era uma presença que lhe acendia os desejos mais intensos. A sua musa inspiradora na arte do combate. Era alguém muito especial para ele, cuja presença estimava acima de tudo.

Era revoltante ver esta mesma mulher caminhar através do aposento até a porta de saída, deixando-o para trás.

– Mas Ana… – sua voz soou quase como uma súplica.

Ana Paes fechou a porta do quarto, com as lágrimas fluindo de ambos os olhos como os dois rios Capibaribe e Beberibe, que fluem juntos até desembocar no oceano, ao proferir suas últimas palavras para o capitão-mor.

– Eu sinto muito, Matias… Adeus…

 

 

 

Castelo de Bragança (Fotografisa)

A Confiança nos Bragança

Nobreza

 

4

21 de Janeiro de 1635

 

– Preciso falar com a Duquesa a sós, Consuelo – o Duque de Bragança repetiu a solicitação. O timbre de voz era calmo, mas em nada se assemelhava ao turbilhão em sua cabeça. Ele buscava uma desculpa. Buscava uma resposta para o que a Duquesa acabara de ver. Precisava de uma boa razão para haver uma mulher sob seus lençóis, com o corpo nu entrelaçado ao seu.

Não havia explicação. O Duque sabia disso. Mesmo assim estava ali, pela obrigação de dar uma satisfação à esposa.

Os olhos da dama fitaram os da Duquesa. Solicitavam silenciosamente a permissão para deixar o quarto. Um simples aceno foi o bastante. Quando os senhores de Bragança ficaram a sós, Luísa primeiro inquiriu.

– O que está fazendo aqui, João? Já não me envergonhou o bastante?

– Eu vim para pedir o seu perdão – o Duque respondeu. – Foi só esta vez. Prometo que não acontecerá novamente.

– Mentiroso! – A Duquesa vociferava. – Eu sempre soube de tudo. Sei que estas escapadas ocorrem desde quando estava grávida de nosso primeiro filho. Sei da sua fama. Todos dizem que seu amor pelo teatro não acaba nos palcos, atravessa os camarins. Sei de Leonor da Silveira. Eu sei de tudo!

– Eu nunca… – o Duque tentou se defender.

– Se negar é pior – a Duquesa o interrompeu. – Apenas mostrará que é um canalha ainda pior do que eu pensei.

João tentou tocar a esposa. Desejava confortá-la. Luísa o afastou. Proferiu mais palavras de raiva e frustração.

– É um egoísta, João. Não pensa na sua família.

– Não diga isso, Luísa. A sua companhia, o pequeno Teodósio e este filho em seu ventre são tudo para mim. Só desejo lhes oferecer o melhor.

– Se isto é verdade, porque me humilha dessa forma!

Mais lágrimas escorriam pela face de Luísa.

– Eu… Eu… – o Duque gaguejou.

Foi novamente interrompido.

– Se isto é verdade, porque diminui a grandeza desta casa com tais vulgaridades. Seus atos não passam despercebidos pela corte e pela população. A vergonha recai sobre sua pessoa e sobre nossa família.

– Até parece meu pai falando, Luísa.

– Seu pai, não está aqui, João – ela o interrompeu. – Só sua esposa e seus filhos. Não somos seu pai tentando lhe educar. Somos uma família que deve proteger. Nós que sofremos agora com a vergonha de seus atos.

Uma súbita dor lancinante no ventre fez Luísa se curvar e agarrar a proeminente barriga. A criança em seu interior parecia reclamar da discussão, mas tal dor, embora quase insuportável, não se mostrou na face de Luísa. Ela agüentou calada. Nada queria revelar ao esposo. Não agora.

– Basta com estas palavras, Luísa – João elevou a voz.

– Basta com as suas, João  – o brado da esposa, ainda suportando tal dor, foi mais alto. – Vive em seu mundo de prostitutas e orgias quando deveria almejar mais alto. Ser o melhor dos homens. Buscar o melhor para nós.

– Então é isso? Eu já não sou bom bastante?

Iniciou-se outro momento mudo. Este foi logo interrompido com mais gritos de João.

– Diga-me Luísa! O que há de errado comigo? Por que todos ao meu redor sempre esperam mais de mim? Mais do que eu posso dar! Mais do que posso ser!

Ainda gritou mais alto.

– Nunca sou o bastante para ninguém. Nem para o meu pai. Nem para ti. Porquê? Diga-me o porquê?

Luísa, destruída física e mentalmente, se apoiava nos suportes de sua cama. Derramava mais dor na forma de lágrimas.

– Está errado, João – veio o desabafo. – Apesar de tudo, é sim o bastante para mim e continuarei sempre sendo sua esposa.

A dor no ventre intensificava.

Luísa baixou a cabeça. Ela confessava algo que nenhuma mulher poderia admitir, mas que ambos já sabiam ser verdade. Uma vez atados os laços matrimoniais, este não mais poderiam ser quebrados, assim Luísa foi educada.

O choque de João com esta confissão foi imenso, mas não foi maior quanto a força das perguntas seguintes da esposa.

– Mas lhe pergunto: É o bastante para a si mesmo? É o melhor que pode ser? É tudo o que deseja ser?

Os olhos de João fugiram da esposa. A vergonha tomou sua face.

– Se dependesse da ambição do meu pai, o melhor que eu posso ser é Rei de Portugal – o duque respondeu, com nuances de sarcasmo na voz. Era uma tentativa de fugir do interrogatório.

Nem um pouco surpresa, Luísa encerrou a conversa uma única frase.

– Eu não tenho dúvida que é capaz de ser o melhor Duque para esta Casa, o melhor Rei para Portugal e o melhor esposo para mim. Basta querer!

O silêncio tomou conta. Sem argumentos ou mais desculpas, o Duque não sabia o que falar.

Pôde apenas deixar o quarto.

 

***

 

Alvoreceu no quarto da Duquesa. Ela não dormiu um único segundo a noite toda. O sol nasceu por trás das serranias há horas. Atingiu seu ponto mais alto no azul celeste, sem que Luísa deixasse o quarto. Ela já dispensara Dona Filipa, sua camareira-mor, das atividades do dia. Já era tarde quando uma voz feminina atravessou a pequena brecha da porta que acabara de abrir.

Era Consuelo.

– Dona Luísa, Vossa Excelência está bem?

– Não estou nada bem – suspirou a chorosa Duquesa ao reconhecer a voz de sua principal dama de companhia.

Percebendo na Duquesa um clamor por ajuda, a dama de companhia pediu permissão para entrar, sendo de imediato concedida. Logo retomou a conversa interrompida na noite anterior.

– Deseja me contar o que Vossa Excelência e o Duque conversaram. Desabafar pode ajudar a diminuir a dor.

Os dedos acalentadores de Consuelo no cabelo da duquesa tentavam confortá-la enquanto lágrimas ainda molhavam o travesseiro.

– O que há para dizer? – A pergunta deixou a garganta da Duquesa com um peso enorme. – Disse o que todo homem diria. Prometeu que nunca mais me trairá novamente. Pediu o meu perdão.

– Eu sei bem como é, Excelência – foi a vez de Consuelo desabafar. – Promessas foram tudo o que tive de Eduardo. Só me resta a esperança agora.

Infelizmente, na mente de Luísa, não havia mais esperança para nenhum dos irmãos de Bragança. Não obstante, ela perguntou do marido.

– E o Duque? Como está? Já partiu para Elvas?

– Ele decidiu ficar em Vila Viçosa.

– Ficar?

– Sim, Excelência.

A surpresa e a curiosidade acometeram a Duquesa.

– Depois de ontem, deve estar se sentindo indisposto, acredito eu – ela questionou.

– Na verdade, o Duque deu outro motivo, minha senhora – Consuelo respondeu. – Foi algo que todos na corte estranharam.

– Que motivo foi esse? – os olhos vermelhos da Duquesa, antes escondidos no travesseiro, voltaram-se para a dama.

– O Duque disse que a Vice-Rainha não era merecedora de sua presença e prestígio. Estranho, não?

Um sorriso se esboçou na face da Duquesa. Relembrando da conversa do dia anterior, ela falou:

– Interessante. Parece que ainda há esperança para o meu João.

A duquesa lembrou do que João falou sobre seu legado e o Reino de Portugal. Se agora parecia estar escutando o pai, porque não poderia escutar a esposa. Pelo menos, a duquesa tinha algo para manter a esperança.

Consuelo ficou confusa, principalmente, quando a Duquesa se levantou da cama. Nem houve tempo dela lançar a nova pergunta, Luísa já alcançava a escrivaninha em seu quarto.

– O que a Vice-Rainha tem haver com o que aconteceu ontem?

– Parece que enfim minhas palavras estão entrando na cabeça dura de meu marido – Luísa falaou.

Ela tomou em suas mãos uma pena do tinteiro. Colocou-se a escrever numa folha de papel. Só depois de redigir um longo texto, voltou a falar com sua dama.

– Eu lhe tenho confiança, Consuelo, mais do que qualquer outra pessoa nesta casa. Por isso, lhe darei de uma importante missão.

– Qualquer coisa, Excelência.

Após colocar a folha de papel numa carta, lacrando-a bem com a cera derretida de uma vela, Luísa estendeu sua mão para entregá-la a Consuelo.

– Preciso que parta imediatamente a Andaluzia e entregue esta carta ao meu irmão Gaspar. Nem mais me lembrava dos pedidos que ele me fez antes mesmo do meu casamento. Ele certamente vai querer saber da minha última conversa com meu esposo e de sua recente mudança de atitude.

– Tudo o que Vossa Excelência desejar – respondeu a dama, abraçando a carta com os dedos.

A Duquesa acirrou o olhar na dama.

– Consuelo, tem que me prometer que entregará esta carta nas mãos do meu irmão. Ninguém mais deve tocá-la. Ou sequer saber o que há em seu interior. É um assunto que apenas diz respeito a mim e ao meu irmão. Algo que ele me pediu para fazer três anos atrás, antes de eu vir morar em Vila Viçosa.

– Estarei de volta antes mesmo do seu filho nascer – a dama respondeu sem hesitar. – Vossa Excelência pode confiar em mim.

– Eu confio, Consuelo.

Os dedos da jovem Duquesa liberaram a carta. A dama de companhia guardou-a dentro de seu vestido. Longe de olhos curiosos.

– Enviarei ordens ao estribeiro-mor para que prepare uma das carruagens para lhe levar a Andaluzia

Assim Consuelo partiu.

A porta do quarto se fechou. No entanto, apesar das palavras de confiança, Consuelo não resistiu nem um segundo à curiosidade. Não mais que alguns minutos depois, quando entrou em seus próprios aposentos, sozinha, tirou a carta de dentro do vestido. Rompeu o lacre de cera. E começou a realizar sua leitura em clara desobediência ao pedido da duquesa.

O queixo da dama caiu com a leitura da carta. Era inacreditável seu conteúdo. A face de Consuelo empalideceu e sua mão começou a tremer. Estava tão nervosa com o que descobrira que em pensamentos altos exclamou.

– Não acredito! A Duquesa e seu irmão estão conspirando contra El Rey! Meu Deus! Isso é traição!

 

***

 

Enquanto isso, no interior dos aposentos da Duquesa, após fechar a porta para Consuelo, Luísa retornou à cama. Infelizmente, mal caminhou dois passos na sua direção, uma forte dor lhe acometeu o ventre outra vez. Obrigou-a a fletir os joelhos, prostrar-se no chão e gemer em imensa penúria. Luíza percebeu neste momento que algo de muito errado estava acontecendo com a criança em seu ventre. Logo chamou as parteiras. Elas lhe recomendaram descanso absoluto e uma dieta específica. Recomendações que foram seguidas a risca pela Duquesa. No entanto, seu instinto materno era infalível. Algumas semanas depois, no meio da noite, ela abriu inesperadamente o quarto do marido.

– João! Pelo amor de Deus! Nosso bebê! – Ela gritava aterrorizada, segurando a barriga grávida. Tinha o desespero estampado numa face pálida e um caminhar tremulante num corpo abatido. Logo que observou esta cena, João soube que não era apenas com o filho que precisava se preocupar. O perigo também acometia sua esposa.

Logo percebeu em Luísa o sangue vivo escurecendo a parte mais baixa de sua camisola e escorrendo por entre suas coxas.

 

 

Crestofle d’Artischau Arcizewski por Autor Desconhecido

As Boas Vindas

Holandeses

 

4

4 de Março de 1635

 

Semanas depois no Porto do Recife, ao romper do novo ano, depois de outra noite de sexo raivoso com a Amália, o capitão Charles de Toulon estava, como já era usual, em sua taverna preferida com seu costumeiro copo de cachaça ao lado. E, como tantas outras vezes na tarde, elevava o copo ao alto, virando-o bruscamente à sua boca. Num único gole sorveu o alcoólico conteúdo através de sua garganta. O forte ardor da bebida, que resfolegava os não acostumados, já não retirava-lhe nem mesmo um suspiro. O fundo do copo bateu na madeira da mesa ressonando através das mofadas alvenarias da taverna. Os olhos do franco-holandês acertaram em cheio a negra que limpava as garrafas usadas do outro lado da construção. Era sua negra preferida. Mas há meses Toulon não mais procurava seu leito, nem sentia seus ardentes amores.

A negra o estava olhando. O negro de suas pupilas penetrava no interior da alma do capitão. Envolviam-no. Cercavam-no de forma inquisitória ao mesmo tempo que perguntavam suplicantes o porquê dela não ser mais sua preferida, o porquê dele não a procurar mais. No fundo, a negra sabia a razão do tratamento. Sabia que não era permitido aos escravos ter sentimentos. Ela cometeu o grave erro de os ter lhe revelado. Embora não culpasse o capitão por não a querer mais, seus olhos tristes faziam-no sentir culpa onde não havia. Não o faziam sentir-se bem. Assim, o capitão fez o que tanto desejava. Sair dali.

– Aqui está, taverneiro – Toulon arremessou uma moeda de ouro. – Isto deve pagar a bebida de hoje e as outras que estou lhe devendo.

O taverneiro agarrou a moeda em sua mão, examinou-a e depois balançou a cabeça em afirmação. Em seguida, despediu-se do capitão enquanto guardava a moeda num de seus bolsos. O capitão Toulon tomou o caminho de saída em passos lentos e andar sutilmente desequilibrado. Mas não conseguiu deixar o lugar sem antes retornar o olhar para a negra que ainda estava ali em seus afazeres. Ela ainda mantinha os olhos fixos no capitão, fazendo-o desviar a face para a porta de saída.

Ele então percebeu um pessoa entrando por essa mesma porta. Era um dos soldados de sua companhia.

– Senhor capitão. Eu estava à sua procura há quase uma hora – disse o soldado assim que colocou os olhos em Toulon.

O capitão o respondeu com a descortesia característica que tinha com seus subordinados.

– Então não me procurou direito. Todos sabem que, quando não estou em missão, nem no alojamento, certamente estou aqui nesta taverna.

– Desculpe, senhor. Eu estava…

– Não quero saber de desculpas, soldado. Diz logo o que deseja.

– É o coronel Von Sckoppe – o soldado respondeu. – Ele chegou da Paraíba. Disse que este é o grande dia. Disse quer todos os oficiais no porto para as novas ordens de ataque.

O capitão Toulon nem respondeu o soldado. Rompeu a passagem através dele.

 

***

 

Não mais que uma hora depois, todos os oficiais encontravam-se com o coronel Von Sckoppe. Este proferia a atual boa situação das forças holandesas que haviam conquistado o Rio Grande e a Paraíba, ficando para defesa destas capitanias, respectivamente, as companhias do capitão Joris Garstman e do conselheiro Ippo Eysassen.

Agora, o discurso de Von Sckoppe preparava seus exércitos para o próximo alvo. O alvo final para a total conquista de Zuikerland. Preparava-os para o ataque a Bom Jesus.

– Neste exato minuto, o coronel d’Artischau marcha oitocentos de nossos soldados desde a Paraíba até o Forte Real de Bom Jesus. Este é o nosso grande momento nesta guerra. Não apenas estamos avançando de forma invencível como o inimigo está em grande desvantagem. Algo que se comprovou com uma carta que interceptamos.

Assim que Von Sckoppe terminou de falar, estendeu sua mão ao lado na direção de Calabar. O mulato tomou um documento em suas mãos, explicitando o conteúdo. Ali estavam palavras escritas pelo próprio governador inimigo.

– A Vossa Majestade, El-Rei Filipe da Espanha. O que ainda resta de nossas terras, que já é pouco, causa receio, tanto por não haver as coisas necessárias para sua defesa, quanto por ser muito desgostoso malograr tanto valor e fidelidade que nossos soldados e moradores até então tem mostrado, ficando seus trabalhos e perdas assim sem luz e sem efeito. Por isso, continuamos a aguardar ansiosos por sua majestosa resposta. Assinado, Matias de Albuquerque.

Von Sckoppe continuou.

– O estado de desespero dos espanhóis é tão grande que o próprio Albuquerque abandonou o Forte Real de Bom Jesus. Fugiu para o sul. Por isso, eu mesmo hei de liderar nove companhias para sua perseguição.

Os nomes dos comandantes destas nove companhias foram proferidos: os majores Goedland e Descars, e os capitães Vallet, Daye, Maupas, Gilbert, Mausveldt e Hijcke.

Calabar retomou em seguida.

– O general-do-mar Lichtaart e eu levaremos os marinheiros e outras seis companhias por mar até Porto Calvo, desembarcando adiante das forças de Albuquerque para encurralá-lo e impedir que fuja para São Salvador.

Mais uma vez uma lista era proferida: major Picard e os capitães Van Exel, Pierre-Rusin, Sermijin, Bayerdt e Muller.

Enfim Von Sckoppe deu às ordens finais.

– Por fim, outras seis companhias deverão seguir ao interior para encontrarem-se com o coronel d’Artischau para assim dobrar suas forças no confronto contra o que restou do Forte Real de Bom Jesus.

A ultima lista incluía: o major Hinderson e os capitães Payman, Verdoe, Ernestus, Christiaensz e, por fim, Toulon. No entanto, Toulon logo descobriria que, apesar da carta lida por Calabar, o que restou do Forte Real de Bom Jesus não era algo pequeno e abandonado. Ainda haveria muita resistência. E que muito trabalho teriam para dominar aquele campo por completo.

Algo que o d’Artischau descobriu da pior e mais dolorosa maneira.

 

***

 

Cruzando as terras pernambucanas, através de estradas trancadas por árvores derrubadas, o coronel d’Artischau enfrentou os capitães inimigos e guerreiros indígenas nos vales do monte Miritibi, na casa-grande do engenho Mussurepe e no povoado de São Lourenço. Os inimigos nada puderam fazer pela forma como os holandeses abriam caminho. Muitas aldeias indígenas, igrejas católicas e colégios jesuítas foram encontrados, ainda ardendo, tendo sido incendiados com a retirada inimiga. Não demorou para, defronte ao coronel, surgirem as muralhas do Forte Real de Bom Jesus. Eram altas, sólidas e extensas, defendidas ainda por um largo fosso e guarnecida com quinhentos espanhóis.

Estando ansioso para analisar a fortaleza inimiga mais de perto, o coronel montou em seu cavalo e dirigiu-se para lá com uma guarda de sessenta mosqueteiros. E, para sua surpresa, durante esta ação, seus guias se enganaram no caminho, caindo numa emboscada. Em um dos engenhos que ficavam nos arredores da fortaleza, deram no corpo de guarda do inimigo, que imediatamente os acometeu.

– Atacar!

O grito veio no idioma espanhol de dentro da fortaleza, incitando duzentos soldados inimigos que, desde o princípio, aguardavam-no cometer um erro como este. A ordem do coronel d’Artischau não podia ser diferente.

– Soldaten! Aanval!

Com o bastão de comando ao alto, sobre sua montaria, o coronel sinalizava a ordem de ataque. O estouro dos mosquetes veio primeiro. O tinido metálico do encontro das espadas em seguida. Ambos os lados se misturaram nos campos do engenho e se combateram braço no braço. O coronel combatia, à cavalo, com não menos valor, guardando seu bastão de comando na cintura e empunhando a elegante lâmina de sua espada rapieira.

Encurralados, os holandeses foram empurrados pelo inimigo à contra-escarpa da fortaleza aonde o combate se tornou ainda mais renhido, por ter encontrado ali ainda mais inimigos. Mas foi uma felicidade não lhe puderem fazer mal com os mosquetes e canhões de cima da muralha porque, se o fizessem, estando todos misturados, também molestariam os companheiros.

A rapieira do coronel atacava. O prateado longo e fino esgrimava. Cortava o ar pela lateral da montaria. O primeiro adversário do coronel caiu. O segundo logo surgiu. Uma espada espanhola subiu em arco, desde o flanco até acima de sua cabeça na direção do coronel. Não era nem de perto tão brilhante quanto a rapieira do comandante holandês. Era amarelada, quase vermelha dos calombos de ferrugem que a recobriam. O ressoar do metal ocorreu no encontro das lâminas. Uma vez. Duas vezes. O terceiro som foi diferente. Foi o macio e grave retumbar de carne rasgando. O espanhol caiu de joelhos. Largou a espada. Tentou comprimir com ambas as mãos o abdômen atingido, cuja ferida empapava as roupas de sangue e embebia a grama de vermelho.

A sombra do coronel, ainda sobre a montaria, surgiu aos seus olhos.

– Por favor… Não…

O inimigo acovardava-se frente ao algoz. O adversário holandês tornou-se carrasco. O coronel empunhava sua espada para um golpe final.

Diferentes homens tem diferentes pensamentos quando retiram a vida de outros. Para o coronel holandês, não houve pensamento algum. Matar era mecânico. Realizava sem pensar. Havia cometido seu primeiro assassinato antes mesmo de entrar na carreira militar, aos vinte e sete anos de idade. A vítima foi um advogado de nome Brzeznick. Um homem que utilizou-se de manobras judiciárias para roubar a riqueza de seus pais e arruinar o nome de sua família.

O acordar da ira do jovem Crestofle d’Artischau Arciszewski foi perversa. O tal advogado amanheceu um dia, numa estrada qualquer, mutilado e morto à sangue frio. A língua estava cortada fora por uma faca. O corpo, varado por um tiro mortal de pistola. Um crime da qual o jovem d’Artischau foi julgado e condenado. Foi obrigado a fugir de sua terra-natal polonesa. Desde esse dia, os olhos, por trás da barba acastanhada de longos bigodes, tornaram-se gélidos. E o jovem rapaz, filho de um pacifista religioso com aversão à violência, passou a vender seus talentos macabros. Fez da morte o seu ofício. Decidiu tornar-se um mercenário.

Empunhou a espada pela Holanda na batalha por Breda. Manejou canhões franceses na conquista de La Rochelle. Enfim alistou-se na Companhia das Índias Ocidentais para a invasão ao Novo Mundo.

Neste dia, outra vez, depois de tantas execuções, ao galopar de seu cavalo, a rapieira realizava seu arco mortal contra o pescoço do espanhol. Mas algo o impediu de continuar. Um impacto. O ombro pareceu ser golpeado pelo coice de um animal. O braço queimou como na boca de um canhão. A dor dilacerou seus nervos. A rapieira caiu. Em seguida, foi a vez do coronel cair, desde o alto de sua montaria até o solo. Imediatamente, soube que fora atingido pelas costas por uma arma de fogo inimiga. Uma espingarda.

Já estava de joelhos quando sentiu este novo inimigo segurar-lhe pelo colarinho da roupa, arremessando-o em seguida na direção das portas da fortaleza espanhola. Caiu no chão, bateu o peito no solo. O espanhol fincou a rapieira do coronel na grama ao lado de sua cabeça. Tomou as rédeas de seu cavalo. Era uma forma de humilhá-lo. Mostrar que tinha suas armas como espólio.

– É seu fim, holandês maldito – o espanhol agora humilhava-o com palavras. – O nosso governador saberá bem o que fazer contigo!

O coronel holandês tentou se levantar. A mão esquerda apoiou-se na perna, encostando no bastão de comando em sua cintura. Então perguntou-se: Era a hora de entregar o símbolo de sua liderança ao espanhol? Seria ele capaz de suportar tamanha humilhação? Era este fim de sua carreira militar? As perguntas revolviam na mente do coronel. Ele ainda percebeu um socorro holandês chegando no horizonte. Mas estava longe demais. E não avançariam contra o espanhol arriscando a vida do seu comandante.

A morte ou a vergonha? Esta era a decisão que seus homens decidiriam pelo coronel. A sua própria arma, em posse do espanhol, certamente levaria a vida de d’Artischau se seus soldados tentassem algo. Mas também, se nada fizessem, o condenaria à vergonha da captura de seu bastão de comando e de sua própria vida. Por esta razão, a mente d’Artischau perguntou a si mesmo uma última pergunta: ‘Então este é o fim do grande Crestofle d’Artischau Arciszewski?’

– Não! – Bradou o coronel.

O bastão de comando, carregado por sua mão, rasgou o ar. Ao fim do cabo amadeirado, a ponta metálica deixou o cinturão até atingir a mandíbula do espanhol. Fizera o percurso tão veloz que este nada conseguiu fazer para se defender. Todos no campo de batalha escutaram o alto estalido de ossos se quebrando. E, enquanto o inimigo caía alguns metros à frente, já desacordado, o coronel retomava sua montaria e respondia essa pergunta num brado exaltado e nervoso.

– Não! Este é sim o fim de Bom Jesus! Pois prometo: não deixarei uma única pedra de suas fundações!

 

 

 

 

Henrique Dias

 

 

A Retirada para Serinhaém

Brasilianos

 

4

5 de Março de 1635

 

Era tarde da noite quando capitão-mor Matias de Albuquerque reuniu-se com o capitão de infantaria Henrique Dias e de artilharia André Marim. Estes eram os dois homens que defenderiam Bom Jesus enquanto realizava-se a retirada para o sul. O capitão-mor sabia que esta era sua última noite na fortificação que ele mesmo fundou exatos cinco anos atrás. A reunião com os dois capitães, que tomariam seu lugar neste que era pior momento da Resistência, tomava ares de tristeza quando foi interrompida pela entrada de outro homem no local.

– Mandou me chamar, capitão-mor – disse o soldado responsável pelos mantimentos de Bom Jesus.

– Sim, Fernandes Vieira – respondeu Matias de Albuquerque. – Gostaria de saber como estão os suprimentos de Bom Jesus. As despensas estão cheias como solicitei?

– Sim, senhor. Os moradores de Pernambuco nos auxiliaram com grande fidelidade. Trouxeram tantos mantimentos que faltou até onde guardar. Tive que deitar alguns menos úteis fora. Certamente temos o bastante para manter Bom Jesus alimentada por semanas.

Fernandes Vieira era um humilde civil que chegou da Ilha da Madeira na costa portuguesa ainda criança e viu-se obrigado a trabalhar para o seu sustento em idade muito tenra. Até o desembarque holandês, era dono de um pequeno açougue, seguindo a vida tranqüila de trabalhador. Mas, quando o capitão-mor Matias de Albuquerque solicitou ajuda a todos os homens da cidade, Vieira foi um dos primeiros a se apresentar.

– Muito Bom, Vieira. Sabia que podia contar com sua lealdade. Como sabe, esta semana partirei para Serinhaém. Por isso lhe pergunto se tem certeza que prefere ficar em Bom Jesus? Essa é realmente sua decisão final? Pois sei que tem dois ajudantes que podem assumir sua função.

– Serei mais útil aqui, capitão-mor – o ex-açougueiro não hesitou na resposta.

– Amanhã começaremos a retirada. Então não preciso lhe dizer dos riscos para aqueles que ficarem em Bom Jesus com o cerco de cinco mil holandeses ao redor? – Matias mostrou seu olhar mais incisivo em Fernandes Vieira.

– Com todo respeito, capitão-mor, quando o inimigo cercou o Forte São Jorge com quatro mil homens no dia do desembarque holandês, muitos foram os que deserdaram e fugiram do combate. Eu fiquei com outros trinta e cinco homens sob o comando do capitão Antônio de Lima. Também quando Rembac atacou Bom Jesus anos atrás em vez de ficar escondido em minha casa, tomei as armas para defender este novo lar. No fim, conseguimos repelir o ataque e matar o líder holandês. Eu conhecia dos riscos nestes dois confrontos e conheço-os agora.

Matias logo retomou.

– Nestes tempos, em que cada dia há menos pessoas em quem confiar, é bom saber que posso contar com homens como sua pessoa, Vieira, e os quinhentos bravos soldados que aqui deixarei. – O capitão tocou-lhe os ombros ao dizer. Depois voltou o olhar para seus capitães: – Henrique Dias e André Marim ficarão no comando de Bom Jesus. Mas voltarei assim que chegar o socorro que El Rey nos prometeu.

O capitão de artilharia e novo governador de Bom Jesus, André Marim, cerrou os olhos no capitão-mor.

– Acredita mesmo que este socorro chegará a tempo, senhor? Não seria mais prudente reunir os mil e quatrocentos homens que agora estão em Pernambuco nos arredores de Santo Agostinho?

A resposta de Matias veio em seguida.

– A carta de El Rey disse que enviaria uma Armada ainda neste mês de março. São pelo menos dois meses de viagem. Então devemos aguardar sua chegada para maio ou junho. Sua Majestade também ordenou que mantivéssemos o Forte Bom Jesus com toda as nossas forças até sua chegada. Pois este nome irradiava a esperança no coração de seus súditos neste continente. Tudo o que podemos fazer é resistir.

– Fique certo, capitão-mor, que resistiremos até o fim! – O negro Henrique Dias afirmou com toda certeza em sua voz.

Uma bravura já reconhecida. Pois nestes últimos dois anos, desde que apresentou seu exército de negros em Bom Jesus, já somava quatro marcas de bala por todo o corpo e uma profunda punhalada. E fez renome no confronto em Apipucos ao derrubar cinco holandeses, num único dia, por sua própria mão. Logo o brado do soldado negro foi seguido, com igual bravura por André Marim. Matias tocou o ombro destes dois homens ao responder tal mostra de ímpeto combatente.

– Eu nunca tive dúvidas quanto a isso. Que Deus ilumine suas espadas, meus bons soldados.

 

***

 

Para manter o Forte Bom Jesus como foi solicitado por Sua Majestade, El Rey Filipe, o capitão-mor Matias dividiu seu exército em três grandes grupos. Quinze capitães com quinhentos homens sob o comando de André Marim e Henrique Dias ficariam no Forte Bom Jesus. Outros quinze capitães com seiscentos homens sob o comando de Barbalho e do velho Gama ficariam no Forte de Santo Agostinho.

Os vinte capitães restantes, este com apenas trezentos soldados, escoltariam todos as cinco mil habitantes que deixavam Pernambuco. Uma multidão de crianças, mulheres, velhos, feridos e famintos, que ficariam sob o comando do próprio Matias de Albuquerque, seu irmão Duarte, Martim Soares Moreno e Felipe Camarão. Estes líderes posicionaram seus homens mais ao sul, em Rio Formoso, no distrito de Serinhaém. Assim seria possível enviar socorro a ambas as fortificações caso necessário.

O plano era enviar os cinco mil civis para locais seguros na cidade-capital de São Salvador. Mas, antes, o capitão-mor Matias enviou Rebelinho a frente das suas tropas à comarca de Alagoas. O seu objetivo era agir como batedor para localizar qualquer obstáculo ou inimigo no percurso para que pudesse enviar os cinco mil refugiados para a capital. E assim o jovem Rebelinho partiu com um pequeno grupo de algumas dezenas de soldados.

Enquanto isso, o conde italiano e Bento Parente ficaram em Pernambuco. Eles detinham uma das mais importantes missões. Manter a linha de suprimento entre Serinhaém e as duas fortificações. O Conde de Bagnuolo defenderia um alto do planalto nos arredores de Bom Jesus, que ficou conhecido como o Outeiro do Conde, enquanto Bento Parente realizaria a mesma defesa nos arredores de Santo Agostinho. No entanto, o Conde de Bagnuolo não foi capaz de resistir ao avanço holandês. Algumas semanas depois que Matias deixou Bom Jesus, a linha de mantimentos que sustentava esta fortificação foi interrompida.

– Conde? O que houve? O que Vossa Excelência faz aqui? – Perguntou Matias de Albuquerque ao ver o Conde de Bagnuolo aproximando-se de sua praça.

– Eu falhei em minha missão. Não consegui defender o Forte Bom Jesus – respondeu o conde com seu forte sotaque italiano e com pesar em seu olhar.

– Malditos sejam os holandeses. E como está a sua pessoa? Espero que não tenha se ferido na batalha.

– Não houve batalha. Eram muitos holandeses. Eu tive que ordenar a retirada para não perdermos mais de nossos soldados.

Ao ouvir que o Conde de Bagnuolo entregou aquela praça sem luta, o capitão-mor Martim Soares Moreno tomou a palavra para condenar o conde italiano.

– Maldito seja, Conde. Poderia resistir semanas naquela praça tão defensável, talvez meses. Como pôde ter recuado tão prematuramente… – bradou o capitão-mor do Ceará, iniciando-se assim uma perniciosa discussão.

– Vossa mercê não estava lá, Dom Martim! Eram cinco mil soldados. Além disso, o caminho até minha posição foi revelada por dois traidores chamados Pedro de Rocha e Agostinho de Holanda. Este mais valendo de seu sobrenome que de suas obrigações. Por isso, não tive como combater os inimigos. E quase não consegui chegar até aqui. O coronel Von Sckoppe com dois mil destes soldados me perseguiu por todo o caminho.

– Agora, nossos companheiros no Forte Bom Jesus estão condenados por sua causa e, com eles, toda a nossa Resistência! – Martim, desconsiderando a explicação, inferiu mais condenações.

O Conde, exaltando-se, cerrou seus olhos negros nel.

– Cuidado em como fala com seu superior, Dom Martim. Não ouse me dizer a forma como devo agir.

A exaltação de Martim era maior.

– Ora, seu…

Mas, antes que o capitão-mor do Ceará pudesse desferir seu insulto, foi Matias de Albuquerque quem apaziguou o conflito lembrando Martim do título nobiliárquico superior do comandante italiano.

– Calma, Martim! Sua Excelência, o Conde de Bagnuolo, tem muitos anos de guerra. Se ele acredita que não poderia defender a praça, eu não discuto. Apenas darei a ordem para enforcar Pedro da Rocha e Agostinho de Holanda. Agora, paremos com estas disputas! Não temos tempo para isso!

– Sim… Tudo bem… – Martim Soares Moreno segurou os ânimos. – Conversaremos sobre isto para depois. Afinal, se Von Sckoppe está vindo nesta direção para um ataque direto, nós temos que nos preparar para o confronto.

– Exato!

Matias respirou aliviado por Martim ter retomado sua postura antes que mais dano pudesse ser causado. E assim Martim, contendo seus ânimos, apenas perguntou:

– Então diga-nos, Conde de Bagnuolo, onde o coronel Von Sckoppe está agora?

Todos esperavam a resposta do conde italiano mas foi outra pessoa quem logo respondeu. Era a voz de Bento Parente que vinha de fora da discussão.

– O coronel Von Sckoppe levou seus homens a Santo Agostinho. Eles estão iniciando os preparativos para o cerco no local.

 

***

 

A situação da Resistência era terrível. As duas últimas fortalezas estavam para ser sitiadas. E um ataque direto aos sitiadores era extremamente arriscado. No entanto, quando todos pensavam que esta situação não podia ficar pior, alguns dias depois, o jovem capitão Rebelinho trouxe informações igualmente perturbadoras da comarca de Alagoas.

– Capitão-mor Matias, os invasores chegaram em Alagoas primeiro, levados por seus navios – o jovem capitão falou. – E possuem uma fortificação no distrito de Porto Calvo com algumas centenas de homens ao seu dispor. Não há como levar os civis a São Salvador sem passar por eles.

– Entendo – o capitão-mor resfolegou. – Um ataque direto seria então muito arriscado?

– Eram tantos canhões e soldados que um ataque direto nos causaria muitas perdas até enfim conquistarmos as fortificações inimigas em Porto Calvo.

Enquanto a voz de Rebelinho baixava-se pela preocupação, o brado do capitão-mor elevava-se consternadamente.

– Maldição! A situação parece piorar a cada segundo! Vamos realizar um novo Conselho de Guerra para decidir: se enviaremos nossas forças para salvar as fortificações sitiadas ou para Alagoas para realizarmos a retirada dos civis à capital.

– Antes, capitão-mor… Há algo mais que precisa saber… devo lhe informar algo de extrema importância que vi no local…

Rebelinho retomava a palavra mas era notório perceber que algumas delas ficaram presas em sua garganta.

– Fale então, Rebelo. O que pode ser tão importante que percebo hesitação em sua voz? – Matias falou com firmeza. Mas não estava preparado para escutar o que Rebelinho revelou. Um prenúncio do que estava por vir.

– Senhor, eu vi o traidor Calabar em Porto Calvo. É ele quem impede nossa passagem à São Salvador.

Hinderson

 

Verdoe
Toulon
Ernestus
Christiaensz

 

 

O Cerco a Bom Jesus

Holandeses

 

5

5 de Março de 1634

 

Neste dia, o coronel d’Artischau dividiu os pelotões para iniciar o bloqueio de todas as passagens de socorro ao Forte Real de Bom Jesus. A primeira decisão foi montar, sete dias depois, um reduto à distância de um tiro de mosquete da fortaleza inimiga, junto a um lugar chamado Passo do Fidalgo. Era um posição importantíssima por estar entre o inimigo e rio Capibaribe, pelo qual deviam transportar para lá os canhões e todos os recursos para o cerco. Esta primeira fortificação foi chamada reduto do major Hinderson.

O inimigo comportava-se muito valentemente em sua própria defesa, tendo seus melhores soldados dentro deste forte. E, antes dos canhões holandeses chegarem, deram-lhe um assalto e escaramuçaram bastante sendo no fim repelidos. Doze dias depois, o coronel tratou de construir um outro reduto do outro lado da fortaleza, em certo outeiro chamado do Conde, situado à distância de um tiro de canhão. O inimigo fez outra sortida com pouco mais de duzentos homens e deu um vigoroso assalto por seis longas horas, ficando muitos mortos dos seus e levando muitos feridos. Esta segunda fortificação foi chamada reduto do capitão Verdoe.

Oito dias depois, no primeiro de abril, decidiu-se pela terceira construção a distância de um tiro de pistola. Esta terceira fortificação se chamaria reduto do capitão Ernestus. Sua construção incomodou muito o inimigo que viu seus caminhos se fechando e quase arrebentou de despeito. Não ousou, todavia, durante dois dias, atacar ou embaraçar as obras, receando as companhias que o esperavam sair. As ordens de sua construção estavam encarregadas pelo capitão Ernestus. E sua defesa era feita por companhias, escondidas na mata próxima e lideradas do capitão Payman e pelo tenente-coronel Reedt.

No terceiro dia, os inimigos não se contiveram. Esperavam o momento certo para apanhar os holandeses descuidados. Quando a oportunidade surgiu, não a perderam. Fizeram uma grande sortida, travando-se furioso combate.

O coronel d’Artischau, ainda não completamente curado de sua ferida, estava no quartel deitado na cama do engenho São Pantaleão, que transformaram em enfermaria. Mas, ouvindo as terríveis descargas de mosquete e canhão, vindas daquela direção, logo pôs-se de pé. Saltou como estava, ainda em roupas de cama, para fora do quarto. Encontrando na porta o cavalo já selado do conselheiro político Jacob Stachouwer, montou-se depressa galopando ferozmente

– Onde pensam que vão, bando de covardes? – O coronel bradou quando percebeu seus homens fugindo. – A batalha está para aquele lado!

A montaria do coronel não diminuiu o passo quando cruzou os soldados em fuga. Deixou-os para trás em veloz galope. Muito pelo contrário, estes soldados que foram, aos poucos, contendo sua fuga. Tomavam coragem no exemplo do coronel que, sem olhar para trás, para saber quem o seguia, galopava na direção do inimigo.

– Sigam o coronel! Morte aos espanhóis!

Dos desesperados pedidos de socorro, os gritos dos soldados radicalmente se modificavam a cada passagem do valoroso coronel.

Próximo das construções do terceiro reduto, Crestofle d’Artischau nem esperou o negro corcel que montava fincar os cascos no solo. Desmontou-o ainda em movimento. Correu para o interior do reduto. Observou mais de uma centena de inimigos avançando na sua direção. Tomou defesa atrás do relevo feito para disparar mosquetes. No entanto, a visão mais preocupante estava entre os cestões de defesa do reduto. Lá, d’Artischau encontrou seu tenente-coronel Reedt, o capitão Payman e muitos outros caídos mortos pelo chão. Apenas seis homens dentro se achavam ainda em pé.

– Wat de fuck! O que aconteceu aqui?

O brado do coronel ecoou sob o telhado de pranchões de madeira que davam cobertura ao reduto. Enquanto todos ali dentro disparavam seus mosquetes em turnos aleatórios, um dos homens que recarregava sua arma logo o respondeu.

– Os espanhóis nos enganaram. Mostrando que iam atacar este reduto, chamaram a gente que nós tínhamos na cobertura. Era uma armadilha.

O homem nem precisou dizer mais. O coronel entendeu logo o que acontecera. Quando os soldados holandeses saíram do bosque para atacar os espanhóis que surgiam, caíram como peixes atrás de uma isca. O inimigo tinha sua artilharia preparada no local, disparando tão oportunamente, que, de duas companhias, poucos ficaram com vida. Atingiram logo o capitão Payman e o tenente-coronel Reedt, fazendo o resto dos seus homens fugirem apavorados.

– Graças a Deus, ainda há alguns bons homens nesta companhia para manter a posição – o coronel elogiou.

Logo, o coronel também tomou nas mãos uma das armas caídas pelo chão. Alguns disparos inimigos atingiam o interior do reduto sem atingir os sete homens que agora haviam ali. Nesse tempo, o mesmo soldado que primeiro respondeu, volvendo sua face, por um segundo, sorriu para seu superior.

– Infelizmente, esta não é minha companhia, coronel – logo retornou a arma para procurar um alvo entre os espanhóis. – Ou eu não estaria sozinho aqui.

– Capitão Toulon! – O coronel exclamou, realizando igual ação com seu mosquete. – Que surpresa lhe ver aqui. Disseram-me que não passava de um bêbado imprestável.

– Verdade seja dita, coronel…

O capitão Toulon interrompeu suas palavras pelo disparo de seu mosquete. Um espanhol caiu morto. A pontaria não parecia nem um pouco inebriada.

Então continuou:

– Eu não recusaria uma boa dose de cachaça agora.

Em seguida foi a vez do coronel d’Artischau disparar.

– Verdade seja dita, capitão…

Com uma pontaria igualmente impecável do coronel, outro daqueles espanhóis caiu morto.

– Eu também não recusaria.

Os outros homens no reduto também continuavam a disparar seus mosquetes. Mantinham o avanço daquela centena de inimigos. Mas não demorou para outros disparos, vindos de fora do reduto, acompanharem suas armas. Tal foi o esforço do coronel para instigar coragem em seus homens ao ataque, que o inimigo em pouco tempo se retirou.

A posição estava guardada. O reduto foi completado.

 

***

 

Cinco dias depois, o coronel já estava montando um quarto reduto com o nome do capitão Christiaensz que ficava entre as árvores. Estava distante apenas um tiro de mosquete do Forte Real de Bom Jesus, sendo ali mantidas sentinelas por algumas semanas ao sereno na relva e na chuva as quais diariamente escaramuçavam com os sitiados. Ali, o coronel d’Artischau e o capitão Toulon conversavam. Era a primeira vez desde o dia que dispararam armas lado a lado no reduto do Ernestus que os dois se encontravam. O coronel quem iniciava a conversa.

– Tomamos as veredas do outeiro, que os espanhóis chamam do Barbosa, e por onde até então recebiam algum socorro dos moradores.

Na frente do coronel estava o mapa da área. Com seu bastão de comando, tendo bem visível o amassado na ponta metálica com a qual matou um espanhol, d’Artischau apontava para todas as posições críticas: o Forte Real de Bom Jesus e os quatro redutos holandeses construídos ao seu redor. Assim como os principais ataques inimigos nestes quarenta dias de cerco.

– Parece que todos os caminhos estão tomados – Toulon completou.

– Concordo. Mas ainda acredito que nós podemos apertar mais o inimigo. E quero saber se tem alguma sugestão, Toulon?

O capitão fungou ironicamente.

– Quer mesmo saber de minha opinião?

– Ganhou meu respeito. Agora quero ouvir sua opinião – o coronel assertou.

A resposta do capitão foi imediata.

– Aqui – disse colocando o dedo sobre o mapa. – Um quinto reduto de frente forte, a menos de um tiro de pistola da sua entrada. Já há uma casa lá que facilitará a construção. Estando terminado, com armas apontadas nessa direção, o inimigo não ousará sequer colocar os pés fora da porta.

A gargalhada do coronel transcendeu os cestões de madeira do reduto onde estavam conversavam.

– Gosto da forma como pensa, Toulon. Tem mais coragem que o resto dos meus capitães juntos. Pois bem deixarei que coloque em prática seu plano.

O braço do coronel tocou as costas de Toulon já lhe conduzindo para fora do quarto reduto para que começasse imediatamente este quinto e último. Esta seria a peça final do cerco ao Forte Real de Bom Jesus que o coronel tanto aprazou com a sentença seguinte.

– E este será chamado o Reduto do Capitão Toulon!

 

***

 

Entrementes o Forte Real de Bom Jesus era cercado pelas forças de d’Artischau, Matias de Albuquerque, que até então estivera no Forte de Santo Agostinho, sabendo da chegada do coronel Sigismund Von Sckoppe, receou ficar cercado nele. Fugiu dali em tempo com trezentos homens, deixando a fortaleza sob o comando de dois dos seus melhores comandantes: o major Gama e o capitão Barbalho.

E assim, depois de enviar algumas companhias sob o comando do major Goodland, com uma tropa ligeira rastreando as fraldas de Albuquerque até Serinhaém, o coronel postou suas forças defronte o Cabo de Santo Agostinho, num engenho de açúcar chamado Algodoeiros. Pela localização do Forte de Santo Agostinho, num estreito cabo, com esta única praça no engenho Algodoeiros, os espanhóis ficaram completamente assediados de sorte a cortar qualquer socorro e impedir toda comunicação com as terras do interior. Um trabalho logo elogiado por Domingos Calabar.

– Fez um ótimo trabalho aqui, Von Sckoppe. Não vai demorar para que o Forte de Santo Agostinho esteja em nossas mãos.

Ele as proferia numa das praias da costa marinha de Santo Agostinho onde, no cenário ao fundo, era possível ver navios fundeados no azulado mar lhe aguardando para embarcar. Calabar, com essas embarcações, levaria consigo três companhias de soldados para Porto Calvo.

– As coisas estão correndo demasiadamente bem – Von Sckoppe respondeu. – Tive notícias que d’Artischau está conseguindo fechar os caminhos de Bom Jesus assim como o Forte Santo Agostinho está muito bem cercado.

– Ótimo – Calabar sorriu.

–  A única preocupação agora é Albuquerque – o coronel o admoestou.

– Ele logo não será preocupação alguma – Calabar respondeu. – Assim que o ambos os fortes caírem, iremos atrás dele. Eu mesmo cuidarei para que não escape para o sul.

– Tem certeza que não deseja ficar aqui para ver queda de Santo Agostinho? Afinal, soube que as coisas andam bem tranqüilas em Porto Calvo.

– Sim, estão bem tranqüilas. O commandeur Lichtaart e o major Picard já estão lá. Ocuparam a povoação. Começaram a fortificá-la para guarnecer ali seus quinhentos soldados. Também soube que encontraram meu cunhado que lhes apresentou aos senhores de engenho mais importantes do lugar, que agora estão do nosso lado, provendo-os de todo o necessário.

Ouvindo o relato de Calabar, Von Sckoppe tentou convencê-lo novamente a ficar em Santo Agostinho para acompanhar o cerco.

– Não vejo razão para uma partida tão imediata por sua parte – argumentou.

Mas Calabar tinham contra-argumentos bem mais fortes.

– Sabe bem, Sckoppe, que tenho boas razões para ir à Porto Calvo. Nasci lá. Minha família esta lá me esperando. Minha esposa.

O coronel tocou seu ombro.

– Sim. E, por falar nisto, como está Bárbara? A última vez que a vi estava grávida de uma grande barriga.

– A criança nasceu alguns meses atrás. É um menino – um sorriso iluminou a face de Calabar. – Entende agora porque tenho que ir

– Com certeza, meu amigo – Von Sckoppe respondeu com um sorriso.

– Mas, antes de partir, preciso lhe pedir algo. Algo da qual espero que aprecie – o sorriso de Calabar se alargava. – É sobre meu filho. Eu escolhi um bom nome para ele. Decidi batizá-lo de: Sigismund. Sigismund Calabar.

Os olhos de Von Sckoppe abriram-se largamente. O queixo caiu. Os pêlos de seu corpo se arrepiaram. Afinal, Sigismund era o primeiro nome do coronel. O amigo Calabar assim o honrava como ninguém o fizera antes. Os olhos umedeceram. As lágrimas foram contidas de ambos os lados com muita dificuldade. Ainda mais depois da solicitação seguinte feita por Calabar.

– Ele logo fará um ano de idade e o batizaremos em Porto Calvo quando tudo isso acabar… Eu, e Bárbara também, ficaríamos muito felizes se aceitar ser seu padrinho. Não há ninguém em quem confio mais neste mundo.

Ao fim de suas palavras, a mão de Calabar se estendeu. O aperto de mão que seguiu selava a resposta afirmativa. Não sem que o coronel puxasse o amigo para um fraternal abraço.

– Muito obrigado, Calabar, eu não poderia estar mais honrado por isso, meu bom amigo – disse Von Sckoppe.

– Fico feliz em escutar isso – Calabar retrucou ainda mantendo o abraço. – Então depois que dominarmos Santo Agostinho e Serinhaém, estarei esperando em Porto Calvo para que conheça seu afilhado.

– Mal posso esperar – disse o coronel.

Em seguida, os dois se separaram. E, cheios de bons sentimentos no peito, ambos tomaram seus caminhos. O coronel Von Sckoppe retornou ao cerco em Santo Agostinho.

O amigo Calabar partiu para Porto Calvo.

 

 

 

Castelo de Santiago em Sanlúcar de Barrameda (Gravura)

 

A Primavera das Amarguras

Nobreza

 

5

19 de Maio de 1635

 

Em frente ao quarto de Luísa, recostado ao lado da porta, estava seu esposo João de Bragança. Estava mais preocupado do que nunca. A cena presenciada horas antes, com sua esposa sangrando pelo ventre gestante, era aterradora. Não era natural. Agora, eram os gritos dela que atravessavam as brechas da porta do quarto. Pareciam martelar a culpa contra a cabeça do Duque. Se não tivesse causado tanta tensão neste período, com as mulheres que levava para cama enquanto a esposa estava grávida, nada disto teria acontecido. Este pensamento atingiu fortemente suas têmporas, quase as fazendo explodir.

O momento de silêncio então veio. Os gritos de Luísa cessaram. Não houve o choro de criança. Algo estava errado. Enquanto o silêncio reinava no interior dos aposentos da Duquesa, a inquietude tomou conta do lado de fora. Só depois de algum tempo, uma das parteiras deixou o aposento. O avental sobre seu corpo estava ensopado de sangue. O vermelho vivo transformou a preocupação em terror. O semblante taciturno revelava más notícias.

– Eu sinto muito, Excelência – a voz foi proferida de forma sombria.

Um peso enorme recaiu sobre os ombros do Duque. As pernas fraquejaram.

– O que houve? Luísa está bem? E o bebê?

– O sangramento de Luísa parou. Ela ficará bem. Mas sinto lhe dizer que não conseguimos salvar a criança.

João, aflito, prostrou seu corpo, apoiando a mão contra a parede.

– A criança nasceu antes do tempo esperado – a mulher continuou. – Deveria ter nascido apenas daqui a dois meses. Fizemos o possível, mas já era tarde demais. Eu sinto muito, meu senhor.

João nem mais a escutava. Só uma pergunta veio em sua mente.

– Era uma menina?

– Sim, Excelência. Era uma menina.

Escorregando seu corpo através parede, João voltou a sentar no piso de mármore. Recostou-se na parede do corredor. Apenas lástimas deixavam seus lábios agora. Remorsos de culpa e arrependimento. Lamentos por uma vida perdida.

– Era nossa pequena Ana… Nossa pequena Ana está morta!

 

***

 

Cinqüenta léguas dali, já perfazendo mais de uma semana de viagem, na carruagem da Duquesa, sua dama de companhia, Consuelo, realizava o percurso entre a cidade de Vila Viçosa dos Bragança e a cidade Sanlúcar de Barrameda dos Gusmão de Medina-Sidônia. Ela levava, oculta consigo, a carta escrita por sua senhora, Dona Luísa.

Era uma simples missão. Entregar uma carta ao irmão: Gaspar de Gusmão. Era uma simples missão que se tornou uma angústia no momento em que Consuelo descobriu seu conteúdo. Descobriu a conspiração embrionária dos seus senhores para demover a soberania de El Rey Filipe nos territórios de Portugal e Andaluzia. Aterrorizava-lhe a idéia de que o simples porte desta carta a enquadrasse como traidora do Reino. Era algo punível com a morte. Por esta razão, um alívio enorme a atingiu quando enfim chegou na cidade de Sanlúcar de Barrameda e adentrou palácio de Medina-Sidônia.

– Meu senhor, tenho uma carta escrita por Dona Luísa, para lhe entregar – disse a dama quando enfim encontrou o homem que buscava. No entanto, não era o irmão da Duquesa quem estava na sua frente. Era outra pessoa.

– Ótimo – disse o homem ao tomar a carta em sua mãos. – Muito obrigado, Consuelo. Realizarei sua leitura esta noite em meus aposentos.

– Senhor – a dama revelava sua preocupação. – Devo recomendar que a leia agora. Na verdade, o destinatário era o jovem Gusmão, irmão da Duquesa, mas trago-a a Vossa Excelência por saber o quão perturbador é seu conteúdo. Eu me preocupo com os perigos que minha senhora e seu irmão estão se envolvendo. E acredito que Vossa Excelência possa ajudá-los.

O homem abriu a carta imediatamente. Leu seu conteúdo com abismal preocupação, descobrindo os planos conspiratórios dos dois irmãos. Este homem, imediatamente, colocou a carta em seu bolso antes que seu conteúdo fosse revelado a outra pessoa. Não poderia permitir que tal plano fosse levado à frente. Afinal, sua principal missão, como um principais generais do Reino, era proteger El Rey Filipe da Espanha.

Este homem era o Juan Manuel de Gusmão, Duque de Medina-Sidônia, pai dos irmãos conspiradores.

– Ainda bem que veio primeiro a mim, Consuelo. Saiba que tomarei as medidas necessárias para impedir que esta loucura continue.

 

***

 

Semanas se passaram quando, nos arredores de El Alcázar, Antônio de Oquendo, novo general da Armada del Mar Oceano, se mantinha de pé em frente ao portão principal. A razão pela qual se mantinha ali aguardando logo surgiu num cavalo castanho de patas negras. Era um musculoso espécime de nobre raça, forte o bastante para suportar o peso de seu volumoso cavaleiro: o Conde-Duque de Olivares. Este chegava das construções do novo palácio de El Rey, que acabara de inspecionar, quando tomou o caminho do seu general do mar.

– Excelência – Oquendo primeiro o reverenciou.

– Boa tarde, Oquendo – o Valido de El Rey respondeu já descendo de sua montaria. – Se soubesse que estava aqui me esperando, eu teria vindo mais cedo.

O Conde-Duque, com seu obeso corpo, se aproximou do general enquanto um dos seus serviçais tomava as rédeas do cavalo, levando-o aos estábulos reais.

– Esperaria o tempo que fosse necessário por Vossa Excelência – Oquendo falou. – Na verdade, é bom vê-lo retomando as atividades regulares. Devo dizer que há muito tempo não lhe vejo com tão bom semblante.

– Graças ao bom Deus, as coisas estão finalmente se ajustando – o Conde-Duque respondeu. – Vitórias contra os hereges são capazes de alegrar qualquer ânimo.

As palavras do obeso Valido remetiam à batalha de Nordlingen na Bavária, na qual as forças hereges confrontaram as forças combinas da Espanha e do Império, lideradas pelo irmão de El Rey, o cardeal-infante, e por seu cunhado, o filho do Imperador. Essa vitória dos exércitos católicos na atual conjectura mudaria os rumos da guerra. Afinal, com a morte do Rei Gustav Adolph e com a vitória em Nordlingen, os nobres germânicos revoltosos estavam dispostos a entregar suas armas em troca de anistia.

O chamado para se encontrar com Oquendo, no entanto, tinha os olhos voltados para outro fronte de batalha.

O Conde-Duque assim retomou a palavra.

– No entanto, meus problemas ainda estão longe de terminar. Por isso o chamei aqui, Oquendo, pois um desses problemas vai requerer suas habilidades para ser resolvido.

– Estou às suas ordens, Excelência.

– Quero que retorne ao Novo Mundo com sua Armada. As últimas cartas do Conde de Bagnuolo e de Matias de Albuquerque descrevem que estão sofrendo um forte cerco inimigo em Pernambuco. Eles precisam de socorro com grande urgência.

– Como desejar, Excelência.

– Reuni trinta embarcações para a Armada del Mar Oceano para transportar um exército ao Novo Mundo. Assim como Fadrique fez renome ao reconquistar São Salvador, o grande Antônio de Oquendo fará renome com a restauração de Pernambuco.

– Será uma honra outra vez servir a Vossa Excelência e a Sua Mejestade – Oquendo curvou-se lhe reverenciando.

O Conde-Duque estava satisfeito com a resposta de seu general. Bateu-lhe levemente as costas. Conduziou-o ao interior de El Alcázar.

– A vitória em Nordlingen. O socorro a Pernambuco. A recuperação de Mantova. A reintegração dos territórios germânicos. O retorno das boas colheitas – o bom suspiro do Conde-Duque traduzia seu alívio. – As coisas estão finalmente se ajustando. Devo começar a dar cabo dos nossos inimigos internos.

– Fala da família de Fadrique?

Na verdade, o Conde-Duque já começara a atacar estes inimigos internos. Ele já espulsara do Duque de Alba, patriarca da família Toledo, da corte de El Rey. Este duque se negou a participar das comemorações do novo palácio em protesto pela morte do sobrinho Fadrique. Com sua expusão, não apenas toda a família Toledo acompanhou o patrarca exilado em protesto, como seu filho herdeiro, Fernando de Navarra, rejeitou as compensações que lhe foram presenteadas.

A negação do herdeiro pela compensação era uma ofensa gravíssima ao Conde-Duque. Afinal, um dos costumes monárquicos, quando um nobre de alta posição sofria uma alta dura pena, era ter seu herdeiro compensado para não incitar o desejo de revanche por parte da família envolvida. A negação era uma forma de dizer que buscaria essa revanche.

No entanto, os Toledo não eram os únicos desafetos do Conde-Duque, como este comentou logo em seguida.

– Há também os Sandoval de Lerma, os Ponce-de-Leon de Arcos, os Tellen-Girons de Osuna e muitos que ousam me desafiar. Sei bem o que farei com eles!

– São muitos.

O Conde-Duque colocou sua face mais maléfica.

– Na política, quando cercado de inimigos, basta destruir os principais de uma forma tal que os outros nem sequer pensem em levantar a mão outra vez.

– Imagino que a viúva de Fadrique esteja entre os principais inimigos. Temos que admitir sua coragem com a frase que escreveu na lápide de Fadrique: O Herói Morto pela Inveja de um Valido.

Estas palavras fizeram o ódio revelar-se por completo no obeso Valido. Este interrompeu seu passo para falar exaltado.

– Não importa! Já dei a ordem para destruir o maldito túmulo!

– Excelência? – Oquendo surpreendia-se com o sacrilégio cometido.

No entanto, o obeso Valido apenas continuou.

– Elvira está cavando uma cova não só para ela mas também para suas filhas.

O Conde-Duque retomou o passo. Conduziu o general Oquendo para o castelo em El Alcázar. Para sua infelizidade, se o ódio por elvira não conseguiu lhe abater, logo surgiria algo que conseguiria.

– Agora vamos – disse o Conde-Duque. Temos que terminar os acertos sobre o socorro ao Novo Mundo.

Nem terminou de falar estas palavras ao seu general, um som ritmado e grave chegou-lhe aos ouvidos. Eram as pancadas de cascos a galope sobre o chão. Ao volver o olhar em busca deste som, encontrou um dos mensageiros reais vindo em sua direção. Ele cruzava, em grande velocidade, os campos de El Alcázar. Não pode ser boa coisa, pensou o Conde-Duque. Apenas as más notícias chegam em galopes tão apressados.

– Senhor Conde-Duque. Trago uma urgente mensagem!

As palavras do mensageiro em nada surpreenderam o obeso Valido. Todas as notícias pareciam urgentes nos últimos tempos.

– O que é dessa vez?

– São notícias das terras holandesas, Excelência. Enviadas pelo próprio Cardeal-Infante, que demanda grande urgência.

O Conde-Duque recebeu a carta.

Ao fim da leitura, Oquendo e o mensageiro se assustaram com a forte reação do Conde-Duque.

O semblante, antes sereno, passou ao espanto. Depois, à fúria.

– Maldito! Filho duma p!…

A raiva era tamanha que o Valido mal conseguiu terminar o praguejar. A voz se estrangulou. O fôlego começou a lhe faltar. O corpo, a tremer. E as mãos, a suar. Veio a mesma sensação de aperto em sua cabeça que lhe acometeu meses atrás, como um quebra-nozes em suas têmporas. O general Oquendo, vendo a reação do Valido, se perguntou o que poderia ser tão terrível para deixar o Conde-Duque desta forma.

– O que houve, Excelência? O senhor está bem?

A pergunta de Oquendo foi ignorada. O Valido de El Rey estava muito ocupado buscando o ar que lhe faltava.

Quando o encontrou, já voltava a praguejar.

– O maldito se arrependerá por isso. Ah, como se arrependerá!

O ódio obstruía seus ouvidos, flamejava seus olhos e extravasava sua cólera na forma de ordens prementes.

– Esqueça o Novo Mundo, Oquendo. A Holanda é sua missão agora! Bagnuolo e Albuquerque terão que esperar – primeiro gritou a Oquendo.

Depois, gritou ao mensageiro. Causou tamanho terror que até mesmo sua montaria se assustou.

– Vá agora mesmo à Andaluzia. Chame o general Gusmão. Preciso falar com ele imediatamente. Antes, me chame também o embaixador do Império Romano-Germânico. Diga aos dois que é um assunto da maior urgência.

O olhar colérico, penetrante de almas, atinava todos desta urgência.

– E quero tudo isso pra hoje! – Por fim, berrou.

Em seguida, caminhou entre os dois homens, empurrando-os pelos ombros.

– Agora me dêem licença que preciso falar com Sua Majestade!

O Conde-Duque mal respirava. O general do mar tratou de persegui-lo.

– O que houve, Excelência?

Oquendo voltava a mesma pergunta, ainda ignorante do que causara tamanho furor. Este, para o responder, precisou de algum tempo para rearticular sua voz e não se engasgar em suas palavras. A dor lancinante da apertura em suas têmporas nunca esteve tão terrível.

Enfim, lhe explicou a razão do alvoroço.

– Os franceses enviaram seus próprios exércitos à Flandres, unindo forças com os holandeses. Maldito seja Richelieu!

– A França acabou de declarar guerra contra nós!

 

 

 

 

III

 

 

 

Negra por Albert Eckhout

(1610-1666)

 

 

Os Sacrifícios de Guerra

Brasilianos

 

1

7 de Junho de 1635

 

O posto defendido pelo Conde de Bagnuolo possuía uma importância estratégica enorme. Isso porque, apenas ficando a um tiro de mosquete de Bom Jesus, era um caminho elevado com que se podia andar por ele sem evidente perigo. Ideal, principalmente, para levar os mantimentos. O efeito da sua perda foi de grande dano.

Além deste posto, o inimigo foi tomando todos os caminhos. Ocupou o engenho de Francisco Monteiro, às costas de Bom Jesus. Depois, ocupou o engenho de Marcos André, pela frente dele, posto mais conveniente para juntar-se com seu Forte de Afogados. Também ocuparam o Passo do Fidalgo, já na parte do Rio Capibaribe, para que ficava assegurado os abastecimentos e munições que lhe podiam ir por via fluvial. Três meses e três dias depois, chegou em Serinhaém um mensageiro com a tão terrível notícia.

– O Forte Bom Jesus caiu! – O mensageiro proferiu. – Os seus últimos quinhentos defensores sob o comando de André Marim resistiram até o fim. Mas a maior peleja era a da fome, que ia chegando a tal ponto que de tudo se valiam os nossos. Nem o valor nem a constância dos defensores do Arraial bastou para que ele não se perdesse; porque ao final faltou tudo o que servia de sustento. Consumiram-se cavalos, couros, cães, gatos e ratos, com que se alimentavam. E, quando ainda havia alguma destas imundas coisas, não existia mais pólvora nem outra qualquer munição.

Terminava assim este terceiro mês desde que iniciou o cerco holandês ao Forte Bom Jesus. Era o fim deste lar que acomodou a Resistência por mais de cinco anos.

Embora fosse algo que todos já esperavam com a retirada do Conde de Bagnuolo da praça que lhe garantia os suprimentos, Matias sentiu amargamente. Tanto pelas conseqüências que disto se seguiam, quanto pela memória de que aquela praça era fundação sua, sustentada por sua mão por tanto tempo, com grande reputação e louvada pelo próprio inimigo. A Resistência, que agora estava assentada em Serinhaém, poderia apenas homenagear a coragem e abnegação de seus últimos defensores. Era incrível pensar que estes bravos soldados ainda resistiram por tanto tempo.

Ao receber tais noticiais, uma carta que Matias tinha em suas mãos foi amassada com todo ódio e frustração que percorriam seu corpo. Uma carta do Rei Filipe avisando-o que não fora possível enviar uma Armada no tempo previsto. Esta ainda estava nos preparativos e sem previsão para partir do Reino. André Marim, Henrique Dias e aqueles quinhentos soldados de Bom Jesus, agora prisioneiros sob o jugo holandês, nunca tiveram qualquer chance. O socorro prometido por El Rey nunca chegaria a tempo de salvá-los. Não havia mais o que fazer. O novo líder de Bom Jesus era o seu conquistador, o coronel holandês d’Artischau, que já havia dado a ordem para colocá-la abaixo. Destruir tudo, pedra por pedra.

Igualmente tristes, eram as preocupantes notícias que vinham tanto do sul quanto do norte. Isso porque a Resistência estava cercada. O Coronel Von Sckoppe mantinha o cerco ao Forte de Santo Agostinho por um lado enquanto Calabar dominava Porto Calvo por outro. E, tendo o oceano intransponível ao leste e, a oeste, as selvagens matas inexploradas dos sertões, que faziam desaparecer os melhores exploradores, não havia para onde ir. Assim, o capitão-mor teria que tomar a decisão sobre o próximo passo. Deveria ele tentar resgatar o Forte de Santo Agostinho para salvar o capitão Luís Barbalho e o velho Gama com os seiscentos homens que tinham sob seu comando? Ou deveria atacar o traidor Calabar para livrar o caminho até a capital de São Salvador?

O capitão-mor não poderia demorar em sua decisão. Tudo dependia dela. E assim não tardou para estar no comando de seus soldados com um claro objetivo e uma bem-ponderada direção.

O seu destino era o Forte de Santo Agostinho.

 

***

 

O cerco à fortificação já durava várias semanas. O capitão Barbalho e o sargento-mor Gama defendiam com grande sucesso todas as investidas do coronel Von Sckoppe. No entanto, assim como ocorreu em Bom Jesus, o maior temor destes bravos homens não era as espadas, os canhões ou os mosquetes. Era a fome! Era doloroso ao capitão-mor saber que a Resistência não dispunha de caravelas para enviar-lhes socorro e mantimentos. Mas ele estava determinado a encontrar uma solução. Algo que o Conde de Bagnuolo, em concordância com o capitão-mor Albuquerque Maranhão e o capitão-mor Martim Soares Moreno, discordavam do capitão-mor Matias de Albuquerque.

– O distrito de Serinhaém, onde nossos soldados estão acampados, fica a apenas uma légua de distância do Forte de Santo Agostinho, onde estão nossos inimigos. Devemos nos retirar para a comarca de Alagoas o quanto antes, Dom Matias – disse o conde italiano.

Mesmo Bento Parente, conhecido por sempre discordar de Albuquerque Maranhão, por uma forte rixa passada, também era da mesma opinião. Mas Matias de Albuquerque estava irredutível em lutar até o fim.

– Eu sei disto, Conde – respondeu o capitão-mor de Pernambuco, – mas eu não posso abandonar ainda mais homens. Não posso perder mais companheiros nesta guerra.

No entanto, mesmo ouvindo as palavras de Matias, o Conde de Bagnuolo apertava-o para outra tomada de decisão.

– Se o Forte cair, os inimigos certamente lançarão um ataque contra nossas forças. Estamos correndo um gravíssimo risco ficando aqui em Serinhaém!

– Um risco que vale a pena correr. Um risco que correu Atilano Gonçalves quando tentou levar mais de quarenta bois a Santo Agostinho. O mesmo risco que correu Manuel Barros ao trilhar este mesmo caminho furtivamente numa carroça. E Estevão Álvares ao navegar um barco com mantimentos.

– E nenhum obteve suceso! – O Conde elevou a voz. – Isso inclui Manuel Barros, que traído pelo ruído de seu carro, foi capturado e enforcado. Além disso, perdemos todas as nossas embarcações para tentar uma ação por via marítima. O que podemos fazer?

– Não sei! Tentaremos com todos os recursos disponíveis! Mas não desistirei deles!

 

***

 

A conversa terminou desta forma. O conde italiano, com alguns poucos homens, foi reconhecer a região de Porto Calvo e encontrar alguma forma de passagem através das fortificações inimigas lideradas por Calabar. Enquanto isso, os líderes Martim Soares Moreno e Albuquerque Maranhão mantinham-se no comando de Serinhaém. O capitão-mor Matias de Albuquerque e o líder indígena Felipe Camarão levariam o socorro ao Forte de Santo Agostinho.

Não demorou para que as forças comandadas por Matias de Albuquerque chegassem ao seu destino. Foi quando olhou a organização dos exércitos inimigos. E enfim iniciou seu plano.

– Mandem partir as jangadas com os mantimentos agora. Vamos atacar! – Matias bradou aos seus soldados.

Mesmo na falta de caravelas, ele tentaria enviar o socorro em pequenas embarcações improvisadas, construídas a partir daquilo que puderam tirar da vegetação local.

– Comecem a tanger os oitenta carros de bois ocultos nas trilhas, sendas e veredas da mata. E mantenham a escolta dos animais até o Forte!

Matias complementava suas ordens para uma de suas companhias de emboscada. Ele estava disposto a levar os mantimentos aos seus companheiros sitiados de todas as formas possíveis. Mas lá estava todo o exército holandês cercando a última fortificação pernambucana. Em suas primeiras fileiras, estava o Coronel Von Sckoppe com seu grande e largo corpo, empunhando sua espada na mão e tendo a poderosa arcabuz na cintura. Com esta visão na sua frente, Matias bradou novas ordens.

– Os nossos companheiros em Santo Agostinho dependem de nós! Seja pelos caminhos ocultos na mata, ou por via marítima, ou mesmo pela força, nós lhes resgataremos! Então, soldados, preparem-se para atacar ao meu sinal!

O momento chegou quando o pequeno batalhão de Matias enfrentou o inimigo tantas vezes maior. Todos apertavam com mais força os cabos das espadas, quanto mais do exército inimigo se aproximavam. Era um exército que nublava a verde colina tal qual as nuvens escuras escondem o azul do céu nos dias de forte chuva. Em seguida, a linha de frente invasora levantou os seus mosquetes, preparados para lançar seu fogo. Foi quando Matias gritou aos seus homens a ordem para iniciar esta batalha.

– Atacar!

 

***

 

Os mosqueteiros da Resistência dispararam suas armas enquanto a infantaria avançava sobre o inimigo. Eram os índios liderados por Felipe Camarão e os soldados de outros cinco capitães da Resistência que obedeciam ao capitão-mor sem pestanejar. Ao mesmo tempo, as forças holandesas realizavam a mesma ação. Matias também observava o capitão Luís Barbalho deixando o Forte de Santo Agostinho para realizar uma saída. Ele comandava o ataque ao cerco inimigo para auxiliar na chegada dos mantimentos enquanto o velho Gama sobre as muralhas comandava a defesa desta praça. As suas vidas dependiam deste socorro. Certamente, as barrigas vazias e a fraqueza da fome muito atrapalhavam suas forças desnutridas. Mas estes homens nunca deixariam de combater até o fim.

– Von Sckoppe! Bastardo! Infeliz! Morrerá, junto com seus malditos holandeses, por todo o mal que causaram ao meu povo – Matias gritou com o coração batendo quase insuportável.

Os olhos de Matias e de Von Sckoppe se cruzaram. O capitão-mor fitou a face do coronel holandês exalando frios sentimentos por trás do loiro cavanhaque e das grossas sobrancelhas. Lembrou do primeiro governador inimigo: o Coronel Waerdenburch. Três anos atrás, antes de deixar o Novo Mundo, ele escreveu uma carta, não apenas ao capitão-mor, mas também à população sob seu comando.

Eram palavras que agora mais pareciam uma profecia se tornando realidade pelo punho do novo coronel Von Sckoppe.

– Nós, os holandeses, somos inocentados perante Deus e perante o Mundo pela destruição que seu povo sofreu durante essa guerra. E, deste sofrimento, ainda devem esperar mais no futuro.

O choque de forças ocorreu! Da mesma forma que estes dois homens exalavam ódio em seus olhares, os soldados da Resistência atacavam com todo furor. Eles podiam ver as pequenas jangadas percorrendo os mares costeiros sob uma chuva de bala de canhões. E sabiam da carreata de bois que enveredavam, invisíveis, pelas caminhos ocultos da mata. Isso apenas aumentava o ímpeto desses homens em lutar.

Em meio a todo o tropel de guerra, as frases da carta do antigo coronel holandês pareciam percorrer as poucas dezenas de homens, que separavam Von Sckoppe do capitão-mor.

– Os soldados do Rei da Espanha não podem defender as suas terras e impedir a sua total ruína como bem sabem por experiência. Uma ruína maior do que nós desejamos fazer e uma ainda maior que aparecerá se persistirem!

Toda Resistência avançava sobre o inimigo, sem medir esforços ou sentir qualquer temor, arriscando suas vidas por seus companheiros, como a onça mãe defende sua cria em perigo. Os marinheiros sofriam com os canhonaços inimigos nos mares costeiros. Os guias de carros de bois sentiam o fogo dos sentinelas holandeses na mata. E os bons soldados avançavam sobre os exércitos inimigos defronte ao Forte de Santo Agostinho.

Ainda assim, as palavras do antigo governador holandês tornavam as coisas mais terríveis para o capitão-mor. Tal lembrança fazia tão mal ao seu ímpeto quanto as armas inimigas faziam aos corpos de seus soldados.

– Estão todos abandonados pelo seus rei, cujos cuidados são desviados dessas terras e dirigem-se a outras partes. Pois preocupa-se ele com outras praças. Refletem o que faz o rei da Suécia e os príncipes holandeses com seus exércitos vitoriosos que já bateram por várias vezes suas forças aliadas, que já quase lhes expulsaram de toda a Alemanha. Razão porque os súditos em Portugal e noutras partes estão tão oprimidos.

Todo furor da Resistência não foi o bastante para derrotar o exército inimigo. Haviam tantos destroços no mar causados pelos canhões holandeses. Tantos carros de bois que foram acuados pelas patrulhas na mata. E tantos corpos de companheiros caídos no chão. Não apenas sob o comando de Matias neste fronte de batalha. Mas também dos liderados por Luís Barbalho do outro lado do exército invasor.

Cada palavra na antiga carta do coronel holandês, agora parecia concertada com o avanço do exército inimigo que impedia a ação da Resistência.

– Para seu povo, não há senão prejuízos por serem atormentados por dois lados. Primeiro por si mesmos que são obrigados a incendiar as suas casas e belos edifícios, e, depois, por nós, que nisso seguimos as suas pegadas porque jamais procederíamos tão duramente se não fosse o seu próprio exemplo.

A cena tornou-se terrível. Matias entristeceu-se ao perceber que a maioria das jangadas tornaram-se pedaços de madeira destruída, flutuando no mar. E, embora algumas tenham chegado ao seu destino, estas eram em número muito inferior do que o esperado. Mas esta não seria a pior sensação do capitão-mor. Pois logo soube que todos aqueles carros de boi retornaram pelo local de onde vieram, incapazes de atravessar o cerco holandês. E ainda pior! Ele não conseguiu acreditar quando escutou os gritos dos seus homens recuando frente ao avanço inimigo.

A lembrança do capitão-mor nas palavras malignas daquela carta enfim ganharam a força de destruir sua força de vontade. Algo que não fizeram três anos atrás.

– Não viemos para tomar os seus bens, mas sim para deixar que gozem deles pacificamente. Não queremos lhes oprimir com tão fortes tributos como a Espanha lhes tem imposto todos estes anos!

Os soldados da Resistência recuavam para longe do Forte de Santo Agostinho e os marinheiros nadavam à costa por terem suas jangadas destruídas. Nenhum dos oitenta bois chegou ao seu destino. As palavras do antigo governador Waerdenburch eram agora tão destrutivas quanto as espadas e mosquetes do coronel Von Sckoppe.

– Assim, fiquem avisados que, em caso de persistirem sem motivo na mesma obstinação e não aceitarem nosso governo, devem esperar todos os extremos causados por uma guerra justa de um inimigo cuja paciência e grandeza abusaram no mais alto grau!

A profecia se tornava realidade. Matias ainda bradava ordens para contornar a situação. Mas o coronel holandês realizava o mesmo. O confronto de estratégia e liderança entre os dois líderes chegou ao fim. O capitão-mor observava o Coronel Von Sckoppe, em frente, olhando-o com faces vitoriosas. O plano de socorro ao Forte de Santo Agostinho falhava miseravelmente! As ações coordenadas pelo brado do capitão-mor continuavam, mudando por várias vezes o rumo desta batalha. Mas tais táticas que poderiam contornar a situação contra um comandante menos competente, eram neutralizadas pelos comandos do coronel Von Sckoppe.

Matias não queria desistir. Continuava a repensar alguma saída. Mas se viu obrigado a entender que esta batalha chegara ao final pelas palavras do líder indígena Felipe Camarão.

– Não temos mais o que fazer capitão-mor. Não estamos mais conseguindo controlar os bois assustados com as explosões. E já temos todas as jangadas, que não foram destruídas, adentrando no Forte…

– Foram muito poucas! – Matias o respondeu. – Nem vinte fangas de farinha conseguiram chegar lá! Não durará mais que uma semana para acabarem!

– Esse limitado socorro nos ganhará tempo para evacuar a vila de Serinhaém. Ficarei aqui para tentar enviar mais mantimentos. Mas o senhor tem que deixar este local e comandar a retirada de nossas forças antes que seja tarde demais.

A verdade na voz de Felipe Camarão era incontestável. A Resistência tinha que se retirar para a comarca de Alagoas o quanto antes. Pois, com a queda do Forte de Santo Agostinho, o coronel Von Sckoppe comandaria suas forças na direção de Serinhaém. O capitão-mor ainda observou Barbalho atacando os inimigos em sua saída enquanto Gama continuava a liderar seus canhões sobre as muralhas. E assim, enquanto o capitão-mor deixava o campo de batalha, com o Forte de Santo Agostinho desaparecendo no horizonte, a culpa lhe acometia com uma última visão.

Estes dois grandes comandantes mantendo a luta até o fim.

Matias refletiu. Era ele quem agora necessitava do socorro do Forte de Santo Agostinho. Pois, cada dia que a praça mantivesse sua posição, era um dia a mais que a Resistência ganharia para sua retirada. E assim um suspiro silencioso deixou os lábios do capitão-mor.

– Eu sinto muito…

O som era inaudível para qualquer um escutar. Mas a tristeza e a culpa estampadas em sua face, revelavam o mal sentimento por deixar estes homens sozinhos. Por abandoná-los em batalha. Um sentimento que corroeu ainda mais seu coração ao chegar em Serinhaém, próximo às margens do Rio Formoso, local onde Pedro de Albuquerque caiu em batalha.

Era também os limites da capitania de Pernambuco que deveria cruzar na fuga para a comarca de Alagoas.

 

***

 

Semanas depois, a terrível notícia chegou. Matias foi acordado com a chegada de Felipe Camarão em Serinhaém, ainda com o céu escuro pelos raios da alvorada que apenas brilhavam timidamente por detrás dos montes.

– Capitão-mor… Eu sinto muito. Tentamos de tudo. Mas o forte de Santo Agostinho se rendeu – Felipe Camarão falava com vozes murmurantes e quebradas pelo fôlego difícil enquanto deixava cair sua espada, ensangüentada como Matias nunca a havia visto antes. Logo depois, desabou na inconsciência e no cansaço. Não sem antes proferir as terríveis notícias sobre aquela praça.

– Ambos Barbalho e Gama foram capturados. E agora Von Sckoppe avança nesta direção.

 

 

 

Mapa das Dezessete Províncias por Johann Baptist Homann (1720)

As Discussões em Família

Nobreza

 

1

2 de Julho de 1635

 

Com o ar lhe faltando aos pulmões e o coração explodindo no peito, o Duque João de Bragança acordou desesperado. Levantou-se da cama em sobressalto. Um suor gélido lhe escorria a face. Uma terrível sensação lhe acometia internamente. Resfolegava-o fortemente. Demorou alguns segundos para se orientar e perceber que ainda estava em seu quarto, no paço ducal de Vila Viçosa.

– Luísa! Meu Deus! – Foram suas primeiras palavras ao abrir os olhos. Depois pôde relaxar. – Meu Deus! Ainda bem que foi só um sonho!

Era mais uma noite de pesadelo. O mesmo pesadelo na qual revivia o dia em que perdeu Ana, sua filha recém-nascida. Mais terrível que a realidade, no sonho também perdia sua esposa.

Como em todas as vezes que fora acordado por este pesadelo, o Duque era incapaz de dormir. Não demorou para que abandonasse o quarto. Resolveu caminhar pelo palácio. Espairecer sua mente. Livrar-se das lembranças. Ele atravessou os corredores protegidos pelos silenciosos e atentos guardas do palácio. Chegou num dos salões principais. Para sua surpresa, encontrou um lampião aceso no aposento. Logo descobriu quem o acendeu. Sentada em um dos sofás, estava sua esposa Luísa de Gusmão.

O Duque se aproximou da esposa, que não percebera ainda sua presença. Estava ali, sentada, imóvel. Apenas mexendo as mãos sobre um tecido bordado. Analisava-o cuidadosamente. Ele percebeu se tratar de uma roupa de criança. Era uma roupinha que ela mesmo bordara para a filha recém-nascida. A filha que precisou enterrar.

– O que faz acordada tão tarde da noite, Luísa? – João revelava sua presença.

– Eu estava sem sono – a esposa respondeu com olhar abatido.

– Está se sentindo bem?

– Estava apenas lembrando de nossa filhinha Ana. Imaginando como seria se estivesse viva. Fiz esta camisa para ela. Algo que ela nunca vestirá.

O desalento a fez estender os braços na direção do marido. Este se aproximou para abraçá-la. Os dois ficaram ali, sob a penumbra do lampião, abraçados em meio ao silêncio da noite. As lágrimas da duquesa tanto encharcavam a roupa do Duque de Bragança quanto a culpa encharcava sua alma.

– Eu sinto muito, Luísa. Perdoe-me, por favor!

João transbordou palavras quando esta culpa lhe preencheu por completo. Luísa soltou os braços do marido. Afastando seus corpos, ela o olhou mais penetrante.

– Porque solicita o meu perdão? Que culpa pensa que tem no que aconteceu com nossa Ana?

– Foi tudo culpa minha. Se eu tivesse sido um bom marido, se eu não a fizesse passar por aquela situação humilhante, nada disso teria acontecido.

A esposa, percebendo a tristeza oculta, lançou palavras de consolo.

– Não foi culpa sua, João. Nem poderia ser. Deus escreve certo por linhas tortas. Ele deve ter um plano para nós.

O conforto não veio. A culpa continuou a atormentar o Duque. O peso da responsabilidade estava em suas costas. A história de sua vida passou por sua mente. Percebeu como agiu como um adolescente por tanto tempo. Fugiu dos seus deveres por toda a vida até a morte do velho Teodósio. Continuou a ignorar seus votos matrimoniais até a morte da pequena Ana.

– Gostaria de acreditar nisso, Luísa. Vejo apenas as conseqüências de meus atos. Vejo que tudo isso só ocorreu por meu egoísmo.

– Não se martirize, João. Não há sua culpa nisso tudo, principalmente, na morte de Ana – Luísa tentou censurá-lo destes pensamentos.

Foi em vão. Ignorando os argumentos da esposa, ele continuou.

– As palavras que me disse naquela noite, semanas atrás, Luísa, nunca deixaram minha mente. Estão martelando em minha cabeça. Por causa delas, eu lhe prometo hoje: Que serei o marido que merece.

Um esboço sóbrio surgiu na Duquesa. Era a maior demonstração de amor que seu marido lhe mostrava desde o dia em que se conheceram e se casaram. A duquesa envolveu o marido em seu braços e o beijou. Terminou por lhe a falar frases de contentamento.

– Eu nunca duvidei que um dia seria, João.

 

***

 

Longe dali, bem na costa de Andaluzia, um grito ecoou na palacete da família Gusmão em Sanlúcar de Barrameda. O autor deste desaforado brado era seu próprio patriarca, o general Juan Manuel, duque destes domínios. Desferia-o na direção do seu jovem herdeiro. Sua boca tremia por um ranço terrível. Suas rugas estavam mais delineadas pelo rosto contraído. O rosto enrubescia com indignação.

– Pelo amor de Deus! Acreditou mesmo que poderia esconder segredos de mim? Em minha própria casa?

O brado estridente veio cortando o ar como uma espada contra o jovem rapaz, que antes estava sentado tão pacificamente em seu encosto.

– Do que está falando, pai? – O jovem sobressaltou. Tentou esconder suas preocupações com estas palavras. Dissimuladamente, ressaltou sua face mais parva.

A reação apenas agravou a gana do patriarca.

– Estou falando do conluio engendrado com sua irmã.

O seu pai jogou sobre a mesa o papel que trazia nas mãos.

– Estou falando disto! Escrito por sua própria irmã! O meu próprio filho desejando trazer vergonha e ruína à nossa família!

O jovem Gusmão murmurou. Tentou ganhar tempo. Buscou desculpas. Mas a letra no documento era inegável. Ele reconheceu a autora da carta. Percebeu detalhes reveladores do plano para a independência dos territórios de Portugal e Andaluzia. Era impossível negar o que estava ali.

– Não é capaz de imaginar o que o Conde-Duque fará se descobrir isto – o pai continuou o sermão. – Não tem a menor idéia do que ele é capaz, meu filho.

Não havia mais como esconder. O filho externou suas respostas.

– O Conde-Duque tem inveja de nossa Casa, meu pai. Nem mesmo um herdeiro aquele gordo asqueroso conseguiu produzir para sua casa. Ele ressente que, mesmo com todo o poder que adquiriu nos últimos anos, a Casa de Medina-Sidônia ainda eclipse a Casa de Olivares com seu prestigio e tradição.

O pai logo revidou os argumentos do filho.

O pai suspirou desapontado.

– Cuidado com suas palavras, filho. Não de morará para o Conde-Duque esses planos que arriscam o futuro e o nome de nossa família.

O filho levantou-se de seu assento. Avançou na direção de seu progenitor. O jogo de máscaras acabou.

– Quando o Conde-Duque descobrir, já será tarde demais – então falou. – Tanto eu quanto Luísa, ambos seremos Majestades. Soberanos de nossos próprios Reinos!

– El Rey Filipe é o nosso soberano – gritou o pai

– Não serei um mero cão encoleirado como sempre foi, meu pai – o filho gritou de volta.

O timbre da discussão escalonava a cada novo brado.

– Herdará meu titulo de defensor de Andaluzia.

– Eu levantarei um exército para confrontá-lo!

– Será o novo Duque de Medina-Sidônia!

– Serei o primeiro Rei de Andaluzia!

O velho Duque fez o volume da altercação atingir seu ápice com um clamor inigualável.

– Será um cadáver antes mesmo de levantar a primeira espada, assim que essa loucura chegar aos ouvidos de Olivares!

O ápice também atingido pela voz do jovem rapaz. Este gritou com todo o poder de sua garganta fazendo-a arder intensamente.

– E quem revelará os meus desejos? O senhor, meu pai? Entregará o seu próprio filho?

A resposta para estas perguntas travou na laringe do velho Duque. As palavras se prenderam. O clamor se tornou um murmúrio farto de hesitação.

– Farei tudo para honrar minha lealdade a El Rey.

As palavras por pouco não escaparam de sua boca. Esta declamação nem um pouco abalou o filho. Um sorriso discreto esboçou-se no canto da boca do rebento. Palavras foram externadas com tranqüilidade.

– Não. Não o fará – o filho proferiu.

Os olhos cerraram um no outro. O velho Duque rugiu como um animal raivoso. Desembainhou a espada em seu cinturão

– Não me desafie, rapaz! – Os seus dentes rangiam. – Prefiro ver um filho morto que envergonhando gerações de nossos antepassados!

A espada se elevou sobre a cabeça do velho Gusmão pronta para desferir um golpe no jovem rapaz. Uma ação que já causou pavor em tantos homens, não causou sequer o mínimo abalo no jovem Gusmão.

– Eu não acredito nisso, meu pai.

Com um rugir ainda mais animalesco, a lâmina do velho Duque desceu com toda velocidade na direção do seu herdeiro. Este sentiu a lufada de vento pelo aproximar da arma, mas não moveu nem uma polegada para se desviar. Um som ecoou. A cadeira ao seu lado estilhaçou em milhares de lascas de madeira com o impacto da arma ao fim do percurso.

Nada ocorreu com o jovem Gusmão.

– Nem por um segundo pensei que derramaria sequer uma única gota de seu próprio sangue neste chão – ileso, ele falou.

Infelizmente, o jovem Gusmão não esperava o poder letal de suas palavras. Mal terminou de manifestá-las, a mão do velho Duque ficou incapaz de sustentar o peso de sua arma. O metal ecoou ao se chocar no chão.

– Pai? – A calma se tornou apreensão. Uma dormência fraquejou o punho direito do velho Duque. Logo se irradiou. As pernas não mais sustentavam o próprio corpo. O filho apenas pôde observar o tombar do pai, aterrorizado com o grito inumano deformado pela paralisia dos músculos de sua face.

– O que está acontecendo, meu pai? – O terror brotava. A busca do velho Duque por algo para se apoiar apenas derrubava tudo ao seu redor. O filho tentou se aproximar. Ajudar o velho pai. Já era tarde demais. Taças, pratos e objetos de decoração ressonaram sons estilhaçados.

Mas estes não sobrepujaram o grave som do seu crânio colidindo fortemente no piso rochoso do palácio.

 

As Promessas do Passado

Holandeses

 

4

2 de Julho de 1635

 

Três meses e três dias desde que começou o cerco, as provisões de suprimentos começaram a escassear dentro do Forte Real de Bom Jesus. Era já tanta a falta de abastecimento que o governador da fortaleza, André Marim, que substituíra Matias de Albuquerque, permitia que alguns saíssem a buscá-lo por mais que fosse com grande risco. Era admirável que em tal estado o governador e seus capitães o sustentassem por tanto tempo. Além disso, em razão do fogo que os holandeses submetiam a fortaleza, as muralhas ficaram em tal estado de ruína que nem mais tinham a forma de antes.

Os prisioneiros, feitos nas inúmeras sortidas dos espanhóis, foram inquiridos pelo coronel. Eles informavam que os víveres tinham se esgotado. Sabendo disto, o coronel intimou o forte a se render. Ainda assim seus defensores continuavam a negar fazê-lo. Essa arrogância irritou o coronel d’Artischau, que sabia, pelas inteligências dos prisioneiros, de todas suas desgraças. Não havia dúvida que, em tais circunstâncias, a resistência inimiga foi por certo gloriosa. Mas o fim era inevitável. Os espanhóis vendo-se tão estreitamente sitiado e apertado, sem esperança alguma de socorro ou de se libertar, enfim levantaram a bandeira branca.

O governador André Marin, que tomava o lugar de Albuquerque contra o cerco inimigo, enviou dois capitães para negociar a capitulação. Estipulada para o dia seguinte, o coronel d’Artischau, muito nobremente, enviou no mesmo instante quarenta bois e pão encontrados nos engenhos, suficiente para satisfazer sua fome. Todos receberam bom quartel e as condições honrosas que pediram ao coronel. Do forte, saíram mais de quinhentos soldados veteranos, os melhores que nesta terra haviam pisado, juntamente com cento e cinqüenta praças tiradas de gente da região, às quais se permitiu seguir para o interior. Eram inimigos que o Coronel d’Artischau, vendo-os sair, não pôde deixar de aplaudir pela defesa de sua praça e pela fidelidade ao seu rei, tendo mantido o forte, sem ser tomado, até o último instante possível.

Assim, quando as forças da Resistência abandonaram sua fortaleza, enfim, as forças holandesas a invadiram e a dominaram. O coronel logo proferiu, na forma de ordens aos seus guardas, o destino que a aguardava.

– Ponham tudo abaixo! Entulhem os fossos. Derrubem as muralhas. E queimem as casas! Quero esse símbolo da resistência espanhola totalmente destruído!

Esse foi o fim de Bom Jesus.

 

***

 

No mês seguinte, foi a vez do Forte de Santo Agostinho capitular frente as forças do coronel Von Sckoppe. O major Gama, governador deste forte, enviou uma mensagem para o coronel holandês, que estava aquartelado no Engenho Algodoeiros a meia milha da sua posição. O desejo do comandante espanhol era, já que não tinha esperança de socorro e a fome apertava-se fortemente em toda guarnição, pedir aos holandeses que lhe fizesse o favor de postar seus batalhões mais próximo do forte.

Isso para que, quando o forte fosse rendido, ignorantes não lançassem uma nódoa em sua biografia e honra, dizendo que não estava sitiado. Pois, estando as forcas holandesas tão longe dele, ainda assim tendo cortado todo socorro, o povo simplesmente não houvera entendido isto. Recebendo a mensagem, e tendo sido bem entendida pelo coronel, enviou-se o exército para cercá-lo.

Três dias depois o forte foi rendido, recebendo bom quartel nas mesmas excelentes condições do Forte Real de Bom Jesus.

 

***

 

Enquanto o Forte de Santo Agostinho era conquistado, no Forte de Bom Jesus, toda sua artilharia já estava no Recife e sua estrutura arrasada. Não sem antes ocorrer uma inusitada situação. Não haviam apenas os soldados dentro da fortaleza. Haviam também mais de duzentos civis habitantes, com suas mulheres, filhos e escravos. Entre estes habitantes, estava um velho conhecido dos holandeses. O homem que lhes servia de espião desde o dia em que Adriaen Verdonck foi capturado. Era Gaspar Dias Ferreira.

– Vossas senhorias demoraram bem mais do que eu esperava – o espião falou.

– Mas no fim chegamos. Isso é o que importa – d’Artischau respondeu. – E agora que chegamos, diga-me quem são todas essas duzentas pessoas?

– Habitantes desta capitania, senhor. E da pior qualidade.

– Porque diz isso, Gaspar? – D’Artischau perguntou, percebendo as faces enojadas do homem à sua frente.

E Gaspar Dias Ferreira, ainda as mantendo, continuou.

– Digo porque eles nem os temeram o bastante para fugir com Albuquerque, nem os respeitaram o bastante para aceitar os passaportes holandeses.

–  Isso não importa – D’Artischau interrompeu. – A guerra por Pernambuco acabou. Albuquerque perdeu. E nós ganhamos.

O olhar maligno de Gaspar Dias Ferreira ressaltou.

– Mas estes moradores merecem uma boa lição para aprender como tratar os novos senhores desta terra.

O coronel, enxergando as entrelinhas de suas palavras, retomou diretamente ao objetivo da conversa. Algo que sempre foi de sua personalidade.

– Já temos muitos prisioneiros, Gaspar – então falou. –  Os quinhentos de Bom Jesus. Outra igual quantidade deve vir dos confrontos com Von Sckoppe ao sul. Deixemos estes civis partirem. Como prisioneiros, seriam muito custosos aos nossos já escassos cofres. Além disso, precisamos de pessoas para manter esta capitania povoada.

– Eu sei, coronel – foi a vez de Gaspar interromper, – mas peço a vossa senhoria que me escute.

– Pressinto que tem uma idéia diferente para punir estes moradores.

– Sim, coronel. Em vez de trazer mais custos aos já vazios cofres holandeses, vamos preenchê-los. Proveremos esses habitantes com a chance de se redimir custeando as despesas do cerco contra Bom Jesus e indenizando os sitiadores pelo trabalho. Daremos a eles a chance de se resgatarem com ouro para que retornem às suas casas.

D’Artischau riu.

– Não é uma má idéia, Gaspar.

O espião continuou.

– Para este fim, eu conheço um dos soldados que realizava a distribuição de víveres aos habitantes de Bom Jesus. Ele sabe bem quanto cada um desses habitantes tem escondido nos bolsos e debaixo de suas camas para conseguirmos extorquir o máximo destas duzentas famílias.

As palavras de Gaspar Dias Ferreira assustaram até mesmo o coronel d’Artischau. Ele não conseguia acreditar na forma como este espanhol parecia deliciar-se com a idéia de maltratar seus conterrâneos e a possibilidade de conseguir no processo algumas moedas de ouro para si. E mais surpreso o coronel ficou em perceber que Gaspar não estava sozinho nisso. Tinha um comparsa entre os quinhentos honrados soldados. Alguém que desejava, com igual ganância, as mesmas moedas de ouro no bolso e a mesma graça dos vencedores nesta guerra. Um homem que logo foi citado:

– O nome dele é Fernandes Vieira. E disse ser capaz de conseguir cinqüenta mil moedas de ouro destes habitantes em beneficio aos sitiadores.

 

***

 

Longe dali, o coronel d’Artischau marchava seus reforços ao encontro do amigo Von Sckoppe, que agora perseguia o que sobrou das forças de Matias de Albuquerque pelo sul da capitania. No entanto, se nas terras de engenho de Pernambuco era o alegre sorriso do major que brilhava, para Von Sckoppe que chegava em Serinhaém, a coisa era bem menos feliz. O sentimento reinante era a preocupação por um amigo em perigo.

Isso porque, havendo se apoderado e guarnecido o Forte do Cabo de Santo Agostinho, o coronel partiu para o sul a fim de desalojar o inimigo e perseguir o governador Albuquerque ao longo da praia. Logo encontrou major Goodland, que o coronel enviara como batedor à frente de suas tropas. E assim sua preocupação se tornou uma angústia aterrorizante pelo bom amigo e compadre Calabar quando este major lhe relatou:

– Senhor coronel, Matias de Albuquerque se retirou para Porto Calvo. E acaba de avançar contra as forças que temos na povoação.

 

***

 

Semanas depois, após a destruição de Bom Jesus e a libertação dos moradores que tiveram que se regatar, já haviam passado quase quatro meses desde que o capitão Charles de Toulon esteve longe do Porto do Recife. Eram quatro meses desde que não sentia o toque de uma mulher. Tendo remediado isso, o franco-holandês acordou neste dia ao lado da sua amante Amália. Ela deitava-se na cama onde passaram a noite juntos, outra vez aproveitando-se da ausência do marido que tomou o caminho oposto para inspecionar a destruição de Bom Jesus. Depois da noite de prazer que o capitão tanto desejava após meses de batalhas, agora observava Amália chorar como nunca fizera antes.

As marcas de mais uma noite de luxúria carnal estavam espalhadas por todo o corpo. Os seus olhos avermelhados e melancólicos olhavam para o teto. As lágrimas que dali brotavam revelavam pensamentos que ardiam em sua mente atormentada. Era uma situação desconcertante para Toulon. Ele desejava fugir dali, mas também não queria deixar Amália sozinha. Foi quando uma pergunta inesperada foi proferida.

– Já amou alguém na vida, Charles?

A perguntou causou um forte estranhamento em Toulon. Ouvir Amália falar de amor era algo estranho. Ela apenas externava sentimentos opostos. No entanto, quando o estranheza incial passou, logo percebeu que sua resposta para a pergunta era negativa. Isso deixou o capitão ainda mais desconcertado.

– Eu gosto de estar ao seu lado, Amália – foi a melhor resposta que lhe surgiu à mente.

Amália riu. Foi uma risada nervosa, quase impugnante.

– Pelo amor de Deus! – Em seguida, exclamou com desprezo. – Poupe-me desse sentimentalismo barato. Guarde-o para suas outras amantes. Sei o que sente por mim. Não é diferente do mesmo sentimento que lhe tenho.

Era exatamente desprezo a palavra que passou na mente dela. É verdade que o desprezo, que acreditava que Toulon detinha por ela, aproximava-se mais da comiseração e lástima por sua melancolia enquanto o desprezo dela por ele era o mesmo que se tem por um carrasco, que não tem qualquer culpa mas é quem desfere a condenação.

– Então porque fez essa pergunta? – Toulon tentou remediar.

Foram palavras que fizeram as lembranças, que tanto ardiam a mente de Amália nas horas anteriores, enfim serem reveladas.

– Eu já amei uma pessoa uma vez. Foram os anos mais felizes da minha vida. Hoje, parecem ter sido vividos por uma outra pessoa. Parecem tão distante. E o que me restou foi um marido que odeio, um filho que não consigo amar e uma vida que sinto apenas repúdio e vergonha. Faria de tudo para voltar no tempo, para viver aquelas sensações de novo.

O choro intensificou. As lágrimas ficaram mais dolorosas. A mulher se levantou. O amante faz o mesmo em seguida. Ele tentou dizer algo para a alegrar. Mas nada veio em sua mente. Apenas observa-a chorar. Ela estava de costas para ele, com o objetivo de esconder os prantos, mas era impossível. Eles ecoavam dolorosamente altos e sonoros.

Em certo momento, foram substituídos por um grito ardente de dor.

– Saia daqui, Charles!

Era tudo o que Toulon queria ouvir. Mas não conseguiu obedecer. Não conseguiu deixa-lá. Desejava confortá-la de alguma maneira.

– Estou preocupado, Amália. Já lhe vi em péssimo estado, mas nunca desse jeito…

Foi em vão. O grito se repetiu ainda mais intenso e nervoso.

– Saia daqui agora!

– Amália… – ainda tentou uma segunda vez.

A voz dele parecia abastecer o ódio em sua voz.

– Saia agora!

O força da voz feminina foi tão arrebatadora que a mão de Toulon ganhou vida própria e tocou a porta para sua saída. Por um segundo, ainda pensou em retirar a mão dali e ficar no aposento para ajudar a moça de alguma forma. Infelizmente, o pensamento durou só por um segundo. Percebeu que mão havia como mudar a dor da amante, nem o que ocorria ali. A porta se abriu. Ele deixou o local.

Amália não soube quanto tempo ainda chorou depois da saída de Toulon, nem o que ocorreu depois. Os pensamentos que a envolveram nas horas anteriores, continuaram a lhe atormentar. Dessa vez, não ganharam apenas sua voz. Tomaram as ações de seu corpo, fazendo-a percorrer a casa até chegar na cozinha. Antes que pudesse perceber, a mão já segurava a mais de cortante de suas facas.

Enfim um sorriso tomou sua face. A mente relembrou de tempos passados em que fora mais feliz. O envolvente sentimento negro que lhe tomou nos últimos anos desapareceu. A felicidade a acolheu por completo neste momento. Ela voltou ao tempo passado onde as lágrimas eram de alegria. Lembrou como é bom estar apaixonada. Lembrou de uma cama alegre, onde planos para o futuro eram sonhados. Lembrou de uma face amada, cujo sorriso contagiava seu ser. Lembrou das horas que passava contando os segundos para reencontrar a pessoa amada. Lembrou como era bom ter um grande amor na vida.

– Ah, Haus, meu grande amor… Desejava tanto lhe ver outra vez. É uma pena que não vamos para o mesmo lugar!

A lâmina lhe atravessou o pulso. Criou nascentes de sangue que brotaram de suas artérias e veias. Ela deixou o corpo cair sobre a rubra poça que se formou ao seu redor. Fechou os olhos com a imagem de seu antigo amor na mente. Enfim o amado rosto desapareceu, ficando apenas a escuridão.

Apenas a morte era capaz de libertar Amália de seu sofrimento.

 

 

 

 

 

A Povoação de Porto Calvo por Johannes Vingboons (1617-1670)

O Reencontro com Calabar

Brasilianos

 

2

12 de Julho de 1635

 

O capitão-mor, no acampamento provisório da Resistência já na comarca de Alagoas, escondido no engenho de Amador Álvares, morador da região, olhava na direção de Pernambuco além das margens do Rio Formoso. Estava acometido em vil tristeza pelas derrotas do Forte Bom Jesus e do Cabo de Santo Agostinho. Não podia deixar de sentir-se culpado pela perda de tão bons capitães como André Marim, Henrique Dias, Luís Barbalho e o velho Gama. Todos agora prisioneiros do inimigo.

No entanto, ainda era mais difícil para o capitão-mor acreditar na grande fidelidade que seus soldados lhe tinham em tempos tão terríveis. Ele refletia que, com tanta dificuldade, se combatia quase todos os dias. Convencia-se que excedia o possível. Pois não tinham como fazer um pagamento, nem dar o que vestir aos soldados. Mesmo que fossem um par de sapatos. Desta forma, a maioria andava descalça e com diminuto alimento. Não tinham botica para os enfermos e feridos. Mas, com tanta falta, nunca faltou a constância e o valor de seus homens nas ocasiões que demandavam.

Era incrível como todas as pessoas, moradores e soldados, confiavam no nome Matias de Albuquerque. Mesmo quando nem o próprio capitão-mor possuía tamanha fé em si mesmo. Ele relembrava incrédulo do ocorrido nesta manhã quando uma mulher chegou nos seus aposentos com dois filhos adolescentes. Um de quatorze e o outro doze anos de idade. O capitão-mor logo reconheceu a mulher. Era Maria de Souza, esposa de Gonçalo Velho e a mãe de Estevão. Este, um bom soldado que perdeu a vida defendendo o acampamento contra forças enviadas por Von Sckoppe há alguns dias atrás.

Matias não sabia o que esperar da mulher. Poderia ser um desabafo pelo filho morto. Insultos contra sua pessoa. Ou algo mais que incrementasse sua culpa. Preparando-se para qualquer forte reação, como é comum às mães que perdem tão prematuramente seus amados filhos, o capitão-mor perguntou.

– Dona Maria, como posso ajudar?

O capitão-mor nunca poderia se preparar para o que aconteceu a seguir. Ele esperou a resposta. Mas a mãe amorosa nada lhe falou. Apenas abraçou os dois meninos, com lágrimas nos olhos, enquanto lhes dizia.

– Meus filhos, chegou ao seu pai e a mim, a noticia de ter sido morto pelo inimigo o seu irmão, que já é o terceiro que nesta guerra perco. Mas não quero lhes desviar dos mesmos riscos. Tomem a espada e vão dar a vida com a mesma honra que seus irmãos. Por nosso Deus. Por nosso Rei. E por nosso povo!

Em seguida, a mãe olhou para o capitão-mor. Os dois meninos com olhares inocentes, fizeram o mesmo. Foi quando a mãe dirigiu a palavra a Matias.

– Os meus dois últimos filhos agora são seus, capitão-mor. Antes de serem meus filhos, são filhos de nossa terra. Então faça com eu me orgulhe deles.

Tamanha confiança e lealdade do seu povo teriam que ser retribuídas! Reafirmava o capitão-mor em sua mente. Pensamentos estes, que foram dispersos com a visão de Rebelinho chegando dos arredores das fortificações inimigas em Porto Calvo. Este seu bom soldado atravessou as defesas invisíveis do acampamento da Resistência. Pois, não havendo fortificações no lar improvisado, estas defesas eram realizadas por soldados escondidos na mata, preparados para emboscar qualquer inimigo que tentasse avançar por elas.

– E então Rebelinho? Descobriu alguma forma de contornar a passagem por Porto Calvo?

– Não, capitão-mor, eu sinto muito – disse o jovem capitão. – Toda a região está por completo bem protegida. O Conde de Bagnuolo está lá ainda tentando encontrar uma solução ou falha nas defesas inimigas. Mas, até o momento, não conseguimos encontrar nada!

– Entendo. Com Calabar defendendo aquela praça, me surpreenderia se fosse de outra forma! – Matias balbuciou.

Rebelinho retomou em seguida.

– E agora? O que faremos, capitão-mor?

– Não temos escolha. Temos que encontrar alguma maneira de atravessar a praça de Porto Calvo. Pois o exército holandês de Von Sckoppe já nos procura por toda esta região. A única razão por ainda estarmos vivos é porque ainda não descobriram esta nossa posição depois que quase nos pegaram no curral de Rodrigo Barros.

– Graças a Deus ainda temos essa vantagem. Mas não a teremos por muito tempo.

Infelizmente, Rebelinho não poderia imaginar o quão curto seria este tempo! Neste mesmo dia em que ele e o capitão-mor trocavam palavras, sons de tiros de pistola foram ouvidos nos arredores do acampamento contra os sentinelas que ali estavam. Rebelinho e sua companhia chegaram ainda a tempo de ver um cavaleiro irrompendo por entre as matas da região. Infelizmente, não conseguiram impedir sua fuga.

Quando lá chegaram, apenas encontraram as pegadas de sua montaria e seu chapéu caído no chão.

 

***

 

Horas depois, algo aconteceu nos arredores da fortificação inimiga. Algo que mudaria os rumos da guerra. Um homem em roupas civis surgiu em frente ao portão das fortificações de Porto Calvo. Um dos únicos três homens que mantiveram-se no local quando os holandeses ali chegaram. Neste dia, ele solicitava a presença do comandante holandês para relatar importantes informações do interesse inimigo. Informações que descreviam a presença da Resistência nos arredores da região.

– Preciso falar urgentemente com Calabar e com o major Picard! – Este civil gritou. Em pouco tempo, ambos os comandantes holandeses surgiram à sua frente.

– Estou aqui, cidadão, e o major também! – O traidor respondeu, servindo-se de intérprete para o comandante holandês. – Quem é e o que deseja falar conosco, a esta hora da noite, para demandar tamanha urgência?

– Sou eu,  Sebastião Souto, do vilarejo de Porto de Pedras, que ajudou a distribuir suas circulares aos moradores. Tenho informações da maior importância sobre as forças do capitão-mor Matias de Albuquerque.

Calabar e o major Picard se entreolharem. Depois responderam o civil.

– Conte-nos o que sabe, bom cidadão. Caso esta informação seja de tão grande importância como descreve, saiba que será muito bem recompensado pelos libertadores holandeses.

O homem continuou seu relato.

– Venho relatar que ontem eu estava na floresta e vi soldados acampados a poucas léguas da minha cidade. Disparei duas vezes contra eles. Mas, quando percebi que vestiam fardamento militar de Pernambuco, vim o mais rápido que pude até aqui. Pois acredito que sejam fugitivos da Resistência de Bom Jesus e que planejam um ataque surpresa a esta fortificação.

– Ouvimos os tiros. Estamos felizes por ter conseguido chegar são e salvo até aqui com esta informação.

Ao fim destas palavras, Calabar emitiu ordens aos soldados para abrirem as portas  ao civil.

– Entre em nossa fortificação, bom cidadão – o traidor retomou. E assim, quando Sebastião adentrou-a, logo lhe falou:

–  Conte-nos o que viu, meu rapaz, e mostre-nos o local deste acampamento. Pois, para cada rebelde capturado, receberá uma boa quantidade do ouro holandês.

 

***

 

Nos primeiros raios da alvorada, o exército holandês partiu da fortificação de Porto Calvo em direção a localização descrita por Sebastião Souto. Calabar ficou no comando destas fortificações enquanto, na frente do exército, estavam o próprio Sebastião e o Major Picard. Todos prontos para o combate contra este grupo de rebeldes nos arredores de Porto de Pedras. Eles desejavam atingir os refugiados de Bom Jesus de surpresa. Destruir os resistentes antes destes poderem contra-atacar. E tomar o maior número prisioneiros com um número mínimo de baixas.

Enquanto olhava os exércitos holandeses atravessando uma clareira, subindo um outeiro, Sebastião perguntou de uma dúvida que acometia sua mente.

– Senhor Picard, o senhor acredita ter trazido homens o bastante para esse ataque?

E o major holandês o respondeu através de um intérprete.

– Trouxemos o bastante para derrotar a quantidade de rebeldes que descreveu. Ou tem alguma dúvida quanto ao número de homens avistados?

– Nenhuma dúvida! Vi apenas quatro soldados e quatro índios em acampamento. Logo ali, depois desta serra. Tenho total certeza, senhor Picard!

– Então não tenha dúvidas que nossos cem homens serão mais do que o necessário.

Mal Sebastião terminou de falar, trezentos de soldados da Resistência, sob o comando do capitão-mor Matias, cercaram os agora tão escassos homens do Major Picard. As companhias dos capitães Rebelinho e Ascenso da Silva tomaram a frente, sobre o outeiro, com suas armas na mão e protegidos pelas coberturas naturais. Felipe Camarão surgiu por trás, tomando a retaguarda ao pé do mesmo monte. Enquanto isso, os holandeses, com armas na cintura e em meio a uma clareira na mata, estavam totalmente vulneráveis. Isso anulou a vantagem holandesa pelos grandes talentos do traidor em armar uma defesa.

O capitão-mor não ficaria surpreso se, mesmo que marchasse com milhares de homens, Calabar ainda assim fosse capaz de derrotá-los em condições escolhidas por ele. Além disso, ajudou muito o traidor não estar ali neste momento. Pois sua intuição poderia muito bem ser capaz de prever a emboscada.

Assim, após constatada a grande discordância da quantidade de soldados descrita por Sebastião Souto comparada com esta que surgiu aos olhos holandeses, este cidadão delator pôs-se a falar com vozes irônicas.

– Bem… Acho que me enganei um pouco na conta. Bem que mamãe falou para eu estudar mais na escola… – falou Sebastião enquanto batia a chibata no dorso de seu cavalo, pondo-o a correr.

Ele percorreu a clareira a frente até chegar ao lado do capitão-mor. E foi o próprio quem primeiro lhe proferiu congratulações.

– Bom Trabalho, Souto! Merece as honras desta vitória!

– A honra foi poder lhe ajudar, capitão-mor. Eles acreditaram em mim e caíram direitinho em nossa armadilha. Tudo saiu conforme o planejado.

A verdade é que os tiros que Matias e Rebelinho escutaram no dia anterior não eram de um vil ataque, mas de um cordial aviso. Ambos nem acreditaram ao encontrar uma carta do próprio Sebastião Souto no interior do chapéu deixado na entrada do acampamento. A carta contava o plano do bom cidadão, lhes dizendo que meteria o inimigo na mão do capitão-mor, neste local indicado.

Souto respondeu com um sorriso. Matias volveu o olhar para os holandeses. Gritou na direção deles sobre uma piedosa possibilidade de sobrevivência.

– Major Picard e todos os holandeses sob seu comando! Os senhores não têm como lutar ou como fugir. Estão cercados. Rendam-se agora e eu lhes pouparei a vida! Todos sairão com honras militares, armas na mão e mochilas cheias. Asseguro-lhes a liberdade, assim como o embarque da Baía de Todos os Santos para suas terras na Europa.

O major Picard percebeu que estava cercado sem chance de vitória. Realizou a contra-proposta por seu intérprete.

– Tudo Bem. Nós nos renderemos e entregaremos Porto Calvo sem luta. Mas apenas o faremos se mantiverem a palavra de poupar a vida de todos os soldados e oficiais sob meu comando…

Ao ouvir essas palavras do major holandês, Matias balançava a cabeça em afirmativo, aceitando sua reivindicação e evitando um combate desnecessário. Mas sua opinião mudou drasticamente com as palavras finais de Picard.

– Todos, incluindo Calabar!

– Nunca – bradou Matias. – O traidor Calabar será julgado por seu próprio povo!

O capitão-mor logo se surpreenderia com o sentimento que tinham pelo traidor. Pois, mesmo em tamanha desvantagem, a resposta dos holandeses foi imediata. A arma do major Picard foi a primeira a se levantar, atacando os exércitos da Resistência que o cercavam. Começou o combate, e os capitães que lá estavam cerraram-se também, a tempo que o capitão-mor, com espada na mão, combatia o inimigo. Uma ação que ceifou grande parte dos soldados holandeses. Mas permitiu o Major Picard atravessar os exércitos da Resistência com apenas doze soldados, retornando às fortificações de Porto Calvo.

O capitão-mor foi em seu encalço! E foi colhendo os frutos do ardil orquestrado por Sebastião Souto. Pois a perda de tantos holandeses no mesmo momento, o desnorteamento das defesas inimigas e ver seu comandante em retirada acabou com a moral do soldados holandeses. A Resistência destruiu as principais defesas inimigas, em Igreja Velha e Varadouro, matando-lhes mais de cem homens.

Enfim cercaram o inimigo no centro de Porto Calvo, já com seis canhões conquistados no percurso.

 

***

 

O desejo de Matias era continuar avançando. Era notório que os seus passos eram mais motivados pelo desejo de capturar o vil traidor Domingos Calabar. E fazê-lo sofrer tudo que merecia! A última fortificação remanescente estava no alto da colina do povoado, erguida sobre uma igreja armada com canhões e cercada por várias casas de moradores onde estavam muitos outros holandeses com armas na mão. Nesta igreja, Domingos Calabar e o Major Picard, comandavam a defesa da praça.

Os inimigos ainda tentaram disparar os seus canhões, conseguindo causar algumas baixas na Resistência. Mas Matias também tinha tais armamento ao seus dispor. Dispararam os seis canhões saqueados das fortificações. No entanto, o auge do ódio pelo traidor que consumia o capitão-mor ainda chegaria!

À noite, mandou atacar uma das casas vizinhas defendidas pelos inimigos, levando-se faxinas com alcatrão, para executar um incêndio. Uma decisão que deixou todos estarrecidos com a idéia de queimar aquelas pessoas vivas. Mesmo elas sendo inimigas. Até mesmo seu irmão Duarte protestou. Mas Matias estava irredutível, cheio de ódio e rancor. Desejava capturar Calabar mais do que tudo. Um desejo acima do limite da razão.

Assim deu a ordem! Incendiou-se a casa, com a morte de seus defensores, queimados vivos, crepitando seus corpos pelo fogo ardente. E aproveitando-se do pavor que lhes causou, ao mostrar que estava disposto a tudo para conseguir Calabar, o capitão-mor voltou a gritar. Solicitava a rendição dos inimigos. Pois, mais do que ver o traidor morto, desejava confrontá-lo e saber o motivo de suas vis ações.

– Esta é a última chance de rendição! Ou lhes colocaremos fogo! Mas Calabar ficará aqui, sob minha custodia e julgamento. Estes termo da rendição é inegociável.

Matias espantou-se ao receber a nova resposta negativa do Major.

– Niet! Calabar is van ons!

 

***

 

O major Picard dizia que Calabar era um deles. E não desistiriam do companheiro tão facilmente. Matias olhava incrédulo a fortificação à sua frente. Os holandeses estavam dispostos a morrer por aquele homem! E teriam morrido se o próprio Calabar, condoído por tamanha lealdade, não lhes tivesse dito.

– Aceite, major! Mais vale sua vida e de todos os seus soldados que a minha.

Ouvindo isto, o major holandês ainda tentou protestar.

– Mas, Calabar, eles vão lhe… – tentou, mas logo engoliu as fortes palavras sobre o que ocorreria ao companheiro. Fortes palavras que não o intimidaram.

– Sim – Calabar falou, reconhecendo seu destino. – Eles me humilharão. Eles me enforcarão. Eles me insultarão, até depois de morto. Mas ficarei satisfeito com este sacrifício. Serei um soldado que morrerá pela liberdade Pátria.

Ao terminar, com lágrimas nos olhos, porém com um sorriso nos lábios, o amigo Calabar, saudosamente, continuou suas últimas palavras.

– Major Picard, estimo a sua pessoa, o coronel Von Sckoppe e a nossa causa mais do que tudo. Não deixe, o senhor, de fazer acordo pelo que me toca. Não quero perder a hora que Deus quis dar para me salvar. Assim espero Sua imensa bondade e infinita misericórdia. Como eu disse, prefiro morrer por vossa mercês, do que vê-los morrer por mim.

O major Picard ficou perplexo. Chorando, apertou-lhe no peito, como se Calabar representasse a inteira nação holandesa, o herói que assim se sacrificava. Estava emudecido, cabisbaixo, sem qualquer ação. O major era incapaz de responder ao amigo ou ao inimigo sobre os dolorosos termos impostos pela rendição. Por esta razão, foi o próprio Calabar quem tocou o braço do soldado mensageiro de sua companhia para lhe falar:

– Vá, soldado, e diga a Matias de Albuquerque, que ambos os comandantes Picard e Calabar aceitam a proposta!

 

***

 

Pouco depois, as portas do reduto se abriram. O major Picard, junto com seus soldados remanescentes, rendidos, deixaram o local com armas nas mãos e todas as honras militares. Apenas Calabar ficou em seu interior.

– Vamos! Sigam-me todos! – O capitão-mor lançou a ordem.

Prontamente, marchou ao interior da fortificação inimiga. O ódio ainda ardia fortemente em seu interior. E logo foi seguido por Rebelinho e tantos outros fieis soldados. Adentrou ainda mais no interior da fortificação. Seu único objetivo era o maldito traidor. E logo o encontrou. Calabar estava na parte mais interna da fortificação, ali, parado, empunhando uma espada na mão.

– Eu não queria que tivesse chegado a este ponto, Matias – disse o traidor.

Matias nada respondeu. Nem mesmo a honra de manter-se com sua espada na mão, durante a rendição, era algo que Calabar merecia. O ódio do capitão-mor acrescia a cada passo mais próximo. Enfim lançou sua perna contra o estômago do traidor antes dele realizar qualquer ação. Calabar urrou de dor desde o momento em que recebeu o chute até quando chocou suas costas contra a parede logo atrás, caindo no chão desorientado. O capitão-mor pisou no seu antebraço, imobilizando sua arma, e colocou a espada que empunhava encostada em seu pescoço. Finalizou a ação com um brado contra o maldito.

– Considere-se preso, bastardo traidor! – Matias falou para Calabar agora caído no chão.

 

 

 

Cidade Murada de Évora com a Sé no ponto mais alto (1503)

 

Os Fantasmas do Passado

Nobreza

 

2

19 de Julho de 1635

 

Conde-Duque entrou em seu escritório com um semblante lúgrube e sombrio, bem pior que de costume. Caminhou até o tabuleiro de xadrez. Observou o lado com menor número de peças. Tinha ali apenas alguns peões, um bispo e um cavalo. Dedilhou-as até segurar o único cavalo que restava. Colocou-o junto das peças descartadas. Enfim falou:

– Gusmão, meu bom cavaleiro. Era minha peça preferida. Minha jogada especial. Estava lhe guardando para o momento certo.

Um folgo de luto deixou seus pulmões. Olhos baixos, penosos, observavam a pequena peça. O sentimento de tristeza era decorrente da notícia que seu bom amigo caíra, vítima de uma terrível enfermidade. Estava num estado, que, segundo os médicos, a recuperação era impossível.

O Conde-Duque caminhou à sua larga poltrona. Deixou seu corpo cair sobre o acolchoado de couro. Um novo folgo de sua respiração deixou os pulmões ainda mais pesado que seu grande corpo. O assovio soturno da ventania atravessou a janela. Era o único som ao seu redor. A única iluminação era de velas cambaleantes sobre o castiçal. O cheiro era da chuva que alagava a floresta ao redor de El Alcázar.

Era tarde da noite. Todo o castelo estava vazio. Era um horário em que o Conde-Duque já se acostumara a ficar no escritório. Ali, sozinho, amargava a perda do amigo e ponderava sobre as futuras jogadas no tabuleiro da guerra. Ali ficou, até sentir sua cabeça apertar. Era uma dor que o acometia quase diariamente agora.

Neste momento, surgiu uma voz misteriosa.

– Tudo o que Gusmão desejava era viver em paz em Andaluzia! Algo que nunca soube fazer, não é, Olivares?

Em sobressalto, o Conde-Duque se levantou. Um arrepio lhe subiu as costas. Ninguém em El Alcázar tinha permissão para estar naquele andar em tal hora da noite. Muitos menos ter entrado em seu escritório sem que se percebesse. No entanto, o que mais assustou o Valido foi reconhecer a misteriosa voz. Era incrivelmente familiar. Era uma voz que não escutava há mais de dez anos.

Um uivo lupino ecoou pelas pradarias de Madrid. O vento assoviou gelidamente. Cambaleou as velas do castiçal. Apagou-as quase completamente. A única que ali ficou o permitiu reconhecer o autor das palavras. Uma figura etérea surgiu à sua frente. Era um fantasma.

– Dom Francisco? – Perguntou o Conde-Duque.

Um espírito vagante respondeu.

– Sim. Dom Francisco Gomes de Sandoval, Duque de Lerma, cardeal de Madrid… E o primeiro Valido de El Rey! Fico feliz por ainda reconhecer seus antigos adversários?

– Isso não é possível! Deveria estar morto!

Tão gélido quanto o vento que atravessava a janela, foi a sensação que, no Conde-Duque, lhe subiu a espinha.

– Se hoje estou morto, devo apenas à sua pessoa. Morri na miséria na qual me deixou.

A sensação não foi gélida o bastante para paralisá-lo. O Valido de sua Majestade bradou ao fantasma.

– Não venha apenas me culpar pelo seu fracasso, maldito. Muitos foram os conspiradores  – o Conde-Duque bradou raivosamente. – Afinal eu não teria conseguido lhe destruir sem a ajuda do seu próprio filho!

Com o brado do Conde-Duque, a figura etérea se desmaterializou. Do outro lado do escritório, uma nova voz surgiu.

– Mas quem planejou toda a conspiração? Quem me levou a tramar contra meu próprio pai? Quem plantou as denúncias contra ele?

O susto derrubou o Conde-Duque, primeiro contra a mesa, depois contra chão junto com os papéis que haviam sobre ela. O novo fantasma também foi reconhecido pelo Valido.

– Cristobal?… – ele murmurou.

Era Cristobal Sandoval, filho do fantasma anterior. Outro espírito que parecia voltar do túmulo para acusar seu companheiro de conspirações.

– Sua mão, Olivares, protagonizou a traição de um filho contra o pai!

Apesar do susto e das palavras do fantasma, o Conde-Duque não se abalou. Ele se levantou. Gritou ainda mais intensamente.

– Não se faça de vítima! Graças a mim, se tornou o novo Valido de El Rey, sucedendo o seu pai! Deveria me agradecer!

O fantasma aumentou o tom de voz.

– Também devo lhe agradecer pelas falsas acusações que fez contra mim? Pelas masmorras de Henares onde me fui aprisionado? Ou pelos bons cuidados que me fez passar na masmorra e que me causaram a morte?

– Traições e tentativas de assassinato vêm com o cargo! – o Conde-Duque devolveu. – Se eu fosse tão inábil e descuidado, eu não estaria nesta mesma posição por quase quinze anos!

O brado fez o fantasma se desmaterializar.

Outra voz surgiu.

– Ossos do oficio. Nada pessoal. Essa também é a explicação por ter me exilado da corte, Olivares?

Surgiam agora dois fantasmas.

O primeiro era Luís de Aliaga. Era o homem que graças às conspirações do Conde-Duque se tornou o religioso mais poderoso do Reino, alcançando as posição de Confessor Real e Inquisidor General. Era seu primeiro bispo do tabuleiro. No entanto, quando se tornou mais um estorvo que um aliado, o Conde-Duque lhe condenou ao exílio, onde morreu anos depois.

– Certamente, é a mesma explicação para o meu enforcamento. Ainda mais sob a acusação de bruxaria!

O segundo fantasma era Rodrigo Calderón, antigo secretário dos Validos anteriores. Ele foi acusado da feitiçaria que matou a antiga rainha em seu parto. Foi enforcado em praça pública. Morreu no cadafalso tão dignamente que tornou célebre o ditado: Com tanta honra quanto Dom Rodrigo na forca.

As palavras de ambos fantasmas nem um pouco abalaram o Conde-Duque.

– Não me arrependo de nada – ele gritou – Se precisasse faria tudo novamente. Assim como farei a qualquer outro que estiver em meu caminho!

Os fantasmas se dissiparam. Não sem antes surgir novos fantasmas.

– E, quando se tornou Valido, levou a guerra da política para os campos de batalha. Doze anos de paz e prosperidade com os holandeses se acabaram por causa do orgulho e vaidade de um homem gordo e asqueroso!

A imagem que se formou à sua frente era do general Ambrogio Spinola      – Aceitou entrar no meu Conselho de Guerra, Spinola! Concordou com o fim da Trégua. Foi a favor do recomeço dos combates! Não me venha com essa hipocrisia! Todos aqui surgidos, são todos uma corja de hipócritas!

A voz seguinte foi a de Fadrique de Toledo, cuja imagem logo se postou ao lado do general Spinola.

– Sim. E nós vencemos muitas batalhas, não é verdade, Olivares? Fizemos os holandeses recuar. Fomos gloriosos! Mas Vossa Excelência deveria ter nos ouvido quando mesmo nós, os seus senhores da guerra, não desejávamos mais guerrear. Foi o erro de um político em tempo de decadência.

– Bando de Hipócritas! Nunca haverá decadência enquanto eu governar! – O grito colérico do Valido ecoou.

O silêncio tomou conta. Este se encerrou segundos depois, quando uma nova voz veio da porta do escritório.

– Excelência? Está se sentindo bem?

A nova imagem que surgiu não era mais etérea. Era um dos guardas noturnos do palácio de El Alcázar. O Conde-Duque logo percebeu que, diferente dos outros, esta presença era bem real.

– O que está fazendo aqui, soldado? E a uma hora dessas? – O olhar maligno do Valido de El Rey penetrou no âmago do subordinado. – Não vê que estou falando com os generais Fadrique e Spinola?

O olhar do Conde-Duque fez a alma do soldado tremer. O medo em sua face tomou contornos de surpresa. Depois de muita hesitação, o soldado respondeu.

– Senhor, – ele balbuciou. – Não há ninguém ali.

Só então o Conde-Duque voltou o olhar às figuras de ambos generais. Elas não estavam mais lá. Desapareceram como os outros fantasmas.

– Vossa Excelência está falando sozinho há quase cinco minutos.

O olhar se acirrou sobre o soldado. Este quase não conseguiu segurar suas necessidades fisiológicos tamanho era o pavor. Principalmente, ao ouvir o Conde-Duque falar em tom ameaçador.

– Está questionando minha sanidade, soldado?

– Claro que não, Excelência – ele respondeu tremulante.

– Eu estava pensando alto, soldado. Algo que nós, superiores intelectuais, fazemos quando sozinhos.

O soldado se ajoelhou.

– Perdão, Excelência. Só o fiz por trazer uma importante mensagem. Vim informar do avanço francês em nosso território na Holanda. Eles conquistaram a cidade de Les Avins e uniram forças com nossos inimigos holandeses. Estão cercando Leuven, a entrada para Flandres, com cinqüenta mil homens neste exato momento!

A situação na Holanda se tornava cada vez mais insustentável.

 

***

 

Notícias tão preocupantes fariam alguém mais incauto se desesperar. Não o Conde-Duque. Mantendo a frieza, apenas solicitou que o soldado o deixasse sozinho. Em seguida, esfregou os olhos tentando acordar do pesadelo que ocorrera. Caminhou ao tabuleiro de xadrez. O aperto nas têmporas estava insuportável. Relembrou de todas as dificuldades que teve nos últimos anos.

Uma última figura etérea então surgiu. Foi aquela que mais surpreendeu o Conde-Duque em toda esta noita. Era também a pessoa que mais amou em toda sua vida. Era uma pesoa cuja vida foi arrebatada de forma abrupta do seu convívio. Era uma jovem mulher de dezessete anos de idade, que morrera há mais de nove anos e da forma mais inesperada possível. Morreu no mesmo dia em que devia lhe ter trazido sua maior felicidade.

– Olá, meu pai – as palavras da moça apertaram o coração do Conde-Duque.

Era sua filha, sua única filha. O único fruto do ventre de sua amada esposa. Uma criancinha que se tornou uma bela mulher, na qual o Conde-Duque arranjou o melhor casamento possível. Ela tinha dezessete anos de idade quando engravidou do esposo. Estava prestes para lhe dar um herdeiro ao Valido, o neto varão que tanto sonhou. Era o tão desejado sucessor de sua Casa Ducal, que tanto cresceu sob sua influência e poder. Para sua infelicidade, Deus foi cruel com o Conde-Duque. Ambos o neto e a filha morreram no parto.

– Maria, minha querida, – a felicidade tentou encher seu âmago, mas havia uma certa desesperança na presença. – Veio para me atacar também com a mesma hipocrisia dos outros?

– Não, meu pai. Pelo contrário, vim para lhe confortar neste tempo difícil. – A filha se aproximou do pai. Abraçou-o carinhosamente. – Eu vim para lhe trazer a paz. A paz que Deus sempre lhe desejou, mas que o senhor sempre afastou.

O pai nunca sentiu um tamanho bom sentimento lhe aquecer. Se sentira algo assim antes, já fazia muito tempo, já não lembrava mais. Ali, abraçados, os dois, pai e filha, ficaram por horas. Era uma sensação que o Conde-Duque nunca desejava acabar.

Por fim, o Valido proferiu em voz alta suas palavras finais em direção à querida filha. Já concordava com ela e com todos os outros fantasmas que o atormentaram nesta noite. Foi quando seu olhar recaiu novamente sobre o tabuleiro de xadrez.

– Sim. É verdade. Talvez Deus deseje mesmo a paz… Pois parece estar privando a Espanha de todos os recursos para se continuar esta guerra!

 

***

 

Longe dali, em Portugal, o cenário era da verdejante paisagem do verão ibérico. O céu estava coberto pelo manto ametista do meio-dia. As estradas cortavam a bela paisagem. Uma confortável carruagem de madeira com grandes rodas era carregada por quatro belos animais de boa raça. Ela transportava seus ilustres passageiros desde a alvorada. Dentro da cabine, ignorando o bater dos cascos no chão e o leve balançar da estrutura, duas pessoas estavam sentadas nos acolchoados bancos sob a sombra de sua cobertura. Eram o Duque e a Duquesa de Bragança.

– Não precisava ter vindo, Luísa – o Duque falou.

– Sim, eu precisava – respondeu a Duquesa. – Era necessário que eu deixasse Vila Viçosa. As paredes de nosso paço ainda me trazem muitas recordações. Pergunto-me porque Deus colocou tantas provações para mim este ano.

O pesar em sua voz era imenso.

– O pensamento na doença que consome meu pai me persegue vorazmente, assim como a lembrança em nossa pequena Ana.

Ela repousou a cabeça nos ombros acalentadores do marido. A situação do casal pelo menos se mostrava mais pacífica. Não mais houveram atrizes castelhanas, nem amas-de-leite duvidosas. A Duquesa podia se confortar nos braços do marido, consolar-se em suas palavras.

– Apenas tenta manter a mente em pensamentos mais felizes – o Duque continuou.

– Sim – Luísa retomou. – Por isso quis lhe acompanhar à Évora neste convite do Marquês de Ferreira. Espero encontrar um ambiente mais alegre para limpar o espírito desta dor.

Ao fim destas palavras, a Duquesa de Bragança retirou da bolsa um pequeno pedaço de papel. Era o convite: Convidamos Todos ao Grande e Aparatoso Recebimento Que a Nobre Cidade de Évora Faz ao Excelentíssimo Duque de Bragança, que ela em seguida comentou.

– Ouvi dizer que mandaram panfletar este convite para toda cidade de Évora. Festejos populares e apresentações foram organizadas para vários dias.

– Ferreira, sempre foi um exagerado, Luísa, mas este é apenas um encontro entre primos. Entre um Duque e um Marquês vizinhos. Não mais que isto.

As palavras do Duque de Bragança não poderiam contradizer mais com a realidade. Algo que constatou poucas horas depois quando o som balburdioso de uma multidão chegou ao interior do coche.

– Que barulho é este? – Luísa exaltou sua preocupação.

O Duque deixou seu assento para abrir a pequena janela que se comunicava com o condutor da carruagem. O som penetrou ainda mais intenso na cabine, tornando a intensidade quase insuportável.

– Cocheiro, pelo amor de Deus, que barulheira é essa?

– Vossa Excelência não vai acreditar, – o tropel externo quase impediu o Duque de ouvir estas palavras. – Vossa excelência precisa ver com seus próprios olhos!

A ação seguinte do Duque foi abrir a pequena portinhola no teto de sua carruagem. Em seguida, se levantou apoiando nas frestas de sua abertura. Postou-se, em pé, colocando a parte superior de seu corpo para fora da cabine. E assim observou todo cenário ao seu redor. Milhares e milhares de pessoas. Toda a cidade de Évora cercava sua carruagem com gritos de alegria e regozijo na entrada murada desta cidade.

– Viva ao Duque de Bragança!

Era o brado da grande maioria, entrecortado por muitos outros.

– Viva ao Herdeiro de Dona Catarina!

– Viva ao Legado do Rei Sebastião!

– Viva à Herança do Rei Manuel

– Viva ao Reino de Portugal!

O Duque pasmou-se ao ouvir seu nome ecoar na multidão. O coração acelerou. Parecia querer saltar fora do peito. A mesma sensação foi partilhada por sua esposa quando esta se levantou para ficar ao lado do marido através da mesma abertura. Os gritos se tornavam ainda mais intensos com o avançar do coche. Um simples acenar do casal fez a multidão ir à loucura.

Este tão celebrado percurso desde os portões da Évora terminou na Sé Catedral, no centro da cidade, cuja entrada era formada por duas grandes torres quadrangulares e assimétricas que saltavam à paisagem. O Duque desceu frente a imponente porta principal, em forma de arco, tão alta quanto quatro homens. Estavam ali para recebê-lo, na sua escadaria, entre as várias estátuas de apóstolos, o Arcebispo Rodrigo da Cunha, o Marquês de Ferreira e dezenas de outros nobres da região.

Feitas as devidas saudações, o Duque foi conduzido ao interior da catedral até chegar no Claustro. Era um ambiente quadrilátero, com um belo jardim no centro, cercado por corredores ornamentados com colunas góticas e imagens dos santos evangelistas. Local onde se montou um largo banquete. Foi ali que o Duque encontrou alguém que há muito tempo não via. Ele encontrou o velho amigo Antônio Mascarenhas.

– O que Vossa Excelência pensa desta recepção em sua homenagem? – Mascarenhas perguntou com a devida honraria ao cargo do amigo.

Este logo o respondeu.

– Certamente, não é o que eu esperava. Nem parece que foi preparada para um Duque.

Antônio Mascarenhas esboçou um belo sorriso. Abraçou saudosamente seu antigo companheiro de farras. Respondeu o comentário com um orgulhoso sentimento. Era uma profecia de tudo o que ainda estava por vir.

– Certamente não parece, meu amigo – Mascarenhas falou. – Ouso até dizer que é uma recepção digna de um Rei.

 

 

 

 

 

Paisagem de Porto Calvo por Frans Post (1612-1680)

 

 

 

 

 

 

O Traidor e o Patriota

Brasilianos

 

3

22 de Julho de 1635

 

Os holandeses capturados na campanha de Porto Calvo, junto com seu comandante, o Major Picard, foram levados a São Salvador. Todos seriam enviados nas naus aliadas para a Europa e aprisionados nas terras do Rei Filipe. Também foram enviados à capital muitos dos moradores, refugiados de Bom Jesus, pois lá estariam seguros. Diferente dos prisioneiros holandeses, os prisioneiros nascidos neste continente, em especial o traidor Calabar, estavam em celas especiais organizadas no povoado de Porto Calvo. Eles aguardavam serem julgados pelos antigos companheiros de batalham que tão vilmente traíram.

Era com tais pensamentos, sobre a muralha de uma fortificação que Matias observava o horizonte ao norte. Na direção de Pernambuco. Vigiando os ataques inimigos que poderiam chegar a qualquer momento. No entanto, mesmo com esse risco iminente de um novo ataque invasor, aquilo que mais o angustiava era o pensamento no vil traidor. Pois este era o dia marcado para o julgamento. E Matias, como representante de El Rey Filipe nesta guerra, deveria tomar a decisão sobre a vida deste que foi o maior vilão do conflito. Mas que, antes de tudo, também já fora seu grande amigo.

Ter que decidir algo tão grave sobre alguém que já foi tão querido estava consumindo o capitão-mor. Mas faltava menos de uma hora para o momento da decisão. E os soldados impacientes e enraivecidos com o traidor já aguardavam ansiosamente. Foi com esse pensamento em mente que Matias deixou o posto de vigilância sobre as muralhas da fortificação em direção às prisões improvisadas neste local.

– Rebelinho, mantenha a vigia. E me Informe de qualquer movimentação fora do comum. Caso me procure, estarei interrogando o prisioneiro.

Após estas palavras, Matias de Albuquerque tomou o caminho das prisões improvisadas no centro do pequeno povoado de Porto Calvo. Os moradores, que dias atrás estiveram sob o jugo holandês, comemoravam a vitória da Resistência. Enquanto isso, os soldados preparavam a forca para o julgamento dos traidores. Esta forca era na verdade uma cadeira baixa, cujo encosto dorsal, na altura da cabeça possuía um mecanismo simples para garrotear o pescoço dos que ali sentarem e matar suas vitimas por estrangulamento.

Matias observava a preparação quando foi surpreendido por uma voz. Era uma feminina súplica sincera e desesperada que fez seu coração se apertar.

– Por favor, Matias! Tenha piedade. Por favor!

Era um mulher de cabelos negros e faces que misturavam as feições da raça branca e indígena. Matias a conheceia bem. Era Bárbara, esposa de Calabar, que caía de joelhos aos pés do capitão-mor enquanto mantinha-se segurando uma criança em seus braços. Era um bebê com não mais que um ano de idade. Era o filho do traidor.

– Por favor, Matias… – as lágrimas desciam abundantes em sua face. – Apesar de tudo, meu esposo, nunca deixou de respeitá-lo, nunca deixou de considerá-lo um irmão.

As palavras fizerem o coração de Matias apertar-se mais. A mente começava a questionar seu próprio ódio. No entanto, mesmo com as emoções a flor da pele, Matias nem mesmo olhou para a suplicante mulher. Passou ao seu lado como se nem mesmo ela estivesse ali.

– Por favor, Matias… Lembre-se de tudo que passaram juntos, tudo que viveram antes desta guerra. Lembra do amor que tinham um pelo outro. Dê ao seu antigo amigo, ao pai do meu filho, uma segunda chance, por favor…

Pelo semblante frio do capitão-mor, era impossível para Bárbara perceber o quanto suas palavras o afetavam. Dentro do seu âmago, o desejo era mesmo perdoar o amigo. Era voltar ao tê-lo de volta ao seu lado. Quem sabe se ele se arrependesse? Ele se perguntava por um lado. Pelo outro dizia: Não não posso permitir que sua tamanha afronta fique impune. O conflito fazia sua cabeça enlouquecer.

– Por favor, Matias…

A medida que se afastava, o som das súplicas tornava-se mais baixo.

O capitão continuava a caminhar deixando a mulher para trás. A lembrança do dia que conheceu Calabar. Os momentos de alegria que teve ao seu lado. As batalhas que combateram juntos. A amizade que se firmou ao longo de anos. Eram todas lembranças arrebatadoras. Foi duro para ele manter a face gélida e endurecida, manter a aparência de que tinha o controle da situação e das suas próprias emoções

– Tenha misericórdia… por favor… – enfim a súplica encharcada de lágrimas diluiu-se na distância, tornando-se um silêncio desesperador, um silêncio incerto e amargurante.

No entanto, nenhuma resposta à esposa amargurada deixou os lábios do capitão-mor. O silêncio se tornou condenador.

 

***

 

Matias caminhou ao interior da fortificação, até local onde instalaram as prisões. Mal entrou ali, a porta de uma das celas abriu-se para a saída de um frade. Esta era a cela de Calabar. E o nome do clérigo era Frei Manuel Calado do Salvador. Um habitante de Porto Calvo, que embora nascido no Reino, esteve em São Salvador durante a primeira invasão holandesa, onde foi torturado e julgado à morte. E agora sofreu outra vez o jugo holandês em Porto Calvo.

– Como foi com Calabar, frei? – Matias perguntou. – Espero que tenha conseguido livrar os pecados do traidor. Apesar de tudo o que Calabar fez, não quero que perca a sua alma.

– Devo manter sigilo das confissões ouvidas, capitão-mor. Mas Calabar disse que tem grandes revelações para fazer. E deseja fazê-lo na hora do julgamento.

– Ótimo. O julgamento logo começará.

– Mas capitão-mor… – o frei quase não emitiu voz para dizer as novas palavras, parecendo tomado pela preocupação. – Devo avisá-lo que Calabar disse-me algumas coisas pesadas. Revelações preocupantes. Traições entre os nossos. E não dos mais abatidos do nosso povo.

Matias ouviu o frade, mas não imaginou as conseqüências de suas palavras. Apenas o respondeu tranquilamente.

– Não se preocupe, frei. Falarei com ele agora. Vejamos o que o maldito tem a dizer para mim.

 

***

 

Matias continuou o passo em direção à cela de Calabar. Ainda hesitou por um momento antes de abrir sua porta. Ficou imerso em seus próprios pensamentos e dúvidas antes de confrontar o traidor. Mas, quando sua mão alcançou o trinco para abri-la, não havia mais volta. Os dois carcereiros que vigiavam a cela entraram neste aposento atrás de Matias. E, enquanto o capitão-mor fitava Calabar, eles colocaram-se na posição logo atrás do prisioneiro. Era próximo o bastante para evitar que realizasse qualquer ação contra a pessoa do capitão-mor. Algo totalmente fora de possibilidade, visto sua situação.

O seu corpo moribundo estava despojado sobre uma cadeira de forte madeira. Os braços e pernas estavam acorrentados em grilhões metálicos presos a ferrolhos parafusados no chão. O seu pescoço possuía uma corda ao redor, nem apertada demais para estrangulá-lo, nem folgada demais para permitir realizar quaisquer movimentos para os lados. A madeira da cadeira era bastante forte para resistir ao poder de um touro em fúria. E as correntes metálicas eram de tão boa qualidade que nem o mais pesado martelo seria capaz de trincá-las. No entanto, todo esse material de boa qualidade para aprisionar Calabar era desnecessário. Era notório que o traidor não possuía forças sequer para conseguir se levantar.

O corpo estava emagrecido com a péssima dieta do calabouço. Uma barba suja e malfeita tomava sua face agora. O corpo semi-despido estava coberto de hematomas pelas surras que levou de seus compatriotas indignados. E detinha uma mente tão cansada que mal percebera a movimentação ao redor. Apenas continuou a olhar o chão, inerte e semi-desacordado. Mas Matias não teve pena da sua situação. Ele estava sofrendo apenas o que mereceu. E não estava disposto a deixá-lo em paz ou descansando. Chutou sua perna para acordá-lo e começou a demandar tudo o que desejava saber sobre sua deserção.

– Por que, Calabar? Por que trair sua guerra? Os seus companheiros de luta? O seu povo?

O ódio e a indignação eram notórios na voz de Matias. Mas Calabar manteve-se calado com olhar fixo no chão, fraco demais ou não desejando continuar esta discussão.

– Diz o porquê, traidor!

Matias repetiu, com veemência ainda maior, retirando um punhal da algibeira e apertando-o contra o peito de Calabar. Em seguida com um golpe rasgou as roupas moribundas do traidor, revelando a cicatriz em seu ombro esquerdo, logo acima do seu peito.

– Recebeu este ferimento lutando em meu nome, em nome de Sua Majestade! Não consigo entender o que mudou! Porque me traiu? Diz! Mereço uma resposta!

Calabar, que mantinha-se cabisbaixo, imerso nos pensamentos, levantou sua cabeça na direção da voz de Matias. O seu olhar atingiu certeiro os olhos do antigo amigo.

– Percebe, Matias, que eu não fui o único que lhe traiu! Foram muitos…

– Almas tão vis quanto a sua, maldito!

– O sargento Pinheiro no Rio Grande. O senhor de engenho Duarte Gomes na Paraíba. O padre Manuel Moraes. Agostinho de Holanda. Pedro da Rocha… Mesmo aqui em Porto Calvo os senhores de engenho, incluindo Sebastião Carvalho e Rodrigo Barros, antes tão fieis à sua causa, agora devem estar assustados como raposa pega em galinheiro, por terem provido e guiado seus inimigos…

– Todos pagarão por seus crimes!

Matias o interrompeu. Mas apenas um sorriso surgiu, tímido e irônico, na face do traidor antes das fortes revelações que continuou a falar. Uma lista que deixou Matias estarrecido.

– Também o frei que acabou de me confessar recebeu os holandeses de braços abertos aqui em Porto Calvo…

– O açougueiro Fernandes Vieira vendeu a lista dos mais abastados em Bom Jesus para que fossem extorquidos…

– O Conde de Bagnuolo entregou por dinheiro a defesa de sua praça no outeiro durante o cerco a Bom Jesus…

– E, claro, onde está Ana Paes agora?…

Calabar abriu mais seu sorriso ao mostrar toda rede de mentiras que ocorria ao redor de Matias. Este o respondeu, descrente, das acusações.

– Caluniador! Mentiroso!

O traidor apenas disse:

– E ainda houveram muito mais!

– Pensa mesmo que deixarei que jogue-nos uns contra os outros, traidor? Que ouvirei tais mentiras?

– Então, além de cego, é surdo, Matias! Nem percebe os traidores, nem quão podre é a causa que defende!

O sorriso, já sumido na face de Calabar, deu lugar aos seus olhos acusatórios. E assim ele bradou.

– Não percebe que os holandeses abrem seus portos enquanto o Reino Ibérico os monopolizou. Eles nos dão voz ativa enquanto El Rey nos censurou! Desejam investir seu ouro aqui enquanto somos extorquidos para encher cofres reais. Querem tornar nossas terras parte das Províncias Unidas da Holanda enquanto, para portugueses e espanhóis, somos apenas uma colônia a ser explorada!

Em seguida, Calabar baixou seu tom de voz, agora calmo e lento, enquanto a busca por uma resposta hesitava as palavras de Matias.

– Não consegue nem ver um palmo a frente do que este seu Rei ordena, Matias. Não o culpo pois nem nestas terras nasceu. Por isso, não consegue ver que o Rei Filipe escraviza a nossa Pátria. Não consegue enxergar o que é melhor para o povo do Brasil!

– São suas vis ações, Calabar, que atacam seu próprio povo, atacam a causa do bom Rei Filipe, atacam a causa que um dia defendeu ao meu lado!

Nesse momento, Calabar tentou se levantar da cadeira mas os grilhões em seus braços e pernas impediram-no de realizar tal ação. Mas isso não conteve uma resposta com a mesma aspereza.

– Depois de ter derramado meu sangue pela causa da escravidão que é a que defendes ainda, Matias, eu passei para este campo, não como traidor, mas como patriota, porque vejo que os holandeses procuram implantar a liberdade no Brasil, enquanto os espanhóis e portugueses cada vez mais escravizam o meu país.

– Blasfemador! Infame! – Matias gritou. – Pensa de si mesmo um herói? Não é! É um traidor! Eu lhe entreguei o comando dos meus exércitos. Discutiu comigo os planejamentos de guerra. Lutou ao meu lado. Jurou defender a mim e minha Resistência…

As palavras de Matias, que iniciaram tão duras, foram perdendo a força a medida que a lembrança dos momentos juntos com Calabar dominaram sua mente. Fez a tristeza tomar conta de sua alma.

– Como pôde fazer isto comigo… este seu amigo, que tanto lhe confiou…

Mas Calabar continuou a massacrá-lo com suas palavras.

– Como homem, tenho direito de derramar o meu sangue pelo ideal que eu quiser escolher; como soldado, tenho direito de quebrar o juramento que prestei enganado!

– Não me venha com mentiras e um belo discurso – Matias logo rebateu suas palavras. – Diz a verdade! Foi ouro que eles lhe prometeram? Largas porções de terras? Um posto avançado na hierarquia? Diz! Por qual valor vendeu a sua honra?

Mas a resposta de Calabar foi mais inquestionável do que Matias desejava.

– O meu desinteresse é sabido por aqueles que foram meus chefes! Quiseste confiar-me um honroso posto na frente de vossas tropas. Recusei. Se meus bens antes se achavam em terras ocupadas pela vossa gente, não é visível que só eu tinha a perder com minha mudança de bandeira?

– Cale-se, traidor – Matias tentou, em vão, interrompê-lo. – Cale-se agora com estas suas mentiras! Nenhuma causa é mais pura do que a causa de El Rey Filipe!

– Derramei meu sangue por uma causa que reputava santa e que, entretanto, era a causa da escravidão de minha Pátria. É a causa que vós defendeis.

– Cale-se agora, Calabar!

O capitão-mor bradou, cada vez mais, com o ódio tomando o semblante do seu rosto e a essência da sua alma. Mas Calabar, desconsiderando os sentimentos do antigo aliado, continuou:

– Com os seus atos, os holandeses tem provado melhor que os portugueses e espanhóis!

– Eu já mandei calar, seu bastardo! – Matias tentou interrompê-lo outra vez.

Outra vez, em vão. As verdades continuaram a deixar a boca de Calabar como golpes de espadas nos ideais e na honra de Matias.

– Enquanto nas terras por vós ocupadas existe a mais negra escravidão e tirania, os holandeses não somente protegem materialmente os naturais do país, como lhes dão até liberdade de consciência.

Calabar assim desferia mais golpes com sua voz desafiando insolentemente as ordens do capitão-mor. Este, nem mais escutava-o. Apenas levantou o traidor pelo pescoço, carregando-o através das portas e corredores das prisões improvisadas, aos tropeços pelos grilhões nos tornozelos, e acompanhado dos carrascos.

– Em Recife e Olinda… – Calabar tentou continuar seus brados.

Foi quando Matias arremessou-o porta afora para as ruas de Porto Calvo. Local de sua execução. Logo Calabar percebeu que estavam cheias de pessoas que já aguardavam seu julgamento. E, já observava-se pendurado numa árvore, enforcado, um outro traidor que o acompanhou na companhia do major Picard.

– Se não me obedece, então calará de uma vez por todas, maldito! – Matias outra vez tentou interromper as palavras do traidor.

Este, não obstante disso, continuava.

– …em Recife e Olinda, como na Europa, cada um pensa como quer. E entre vós? Vós bem sabeis!

Com o ódio que estava preenchendo seu coração e percebendo não ser capaz de conseguir silenciá-lo, o capitão-mor bradou.

– Enforquem este blasfemador!

Matias virou de costas para Calabar, deixando-o sozinho com os carrascos que, de cada lado, seguravam uma corda ao redor do seu pescoço. Mas a ordem não o intimidou.

– Com o mesmo ardor e sinceridade com que me bati pela vossa bandeira, me bato pela bandeira da liberdade do Brasil, que é a Holandesa!

Apesar destes duros argumentos proferidos por Calabar, nem por um segundo, Matias questionou as decisões e opiniões da monarquia Ibérica que chegavam do Reino. A sua vida toda foi guiada por sua pátria. A pátria do seu bom Rei Filipe. E, com estes pensamentos, continuou a afastar-se do traidor. Mas as duras frases de Calabar ao fundo ainda podiam ser claramente ouvidas. Eram mais altos do que quaisquer outros brados nesta discussão, fazendo todo Porto Calvo escutar.

– Tomo Deus por testemunha de que os meus atos foram indicados pela minha consciência de verdadeiro patriota!

Os sons seguintes foram dos gemidos e grunhidos emitidos por sua garganta sendo estrangulada pelo garrote dos carrascos. Até enfim fazê-lo se calar por completo.

Era o fim de Calabar cuja vida foi tomada pela ordem de Matias.

 

***

 

Não havia necessidade de ouvir revelações de supostos traidores que apenas trariam desconfiança à Resistência. Nem de ouvir brados em prol da causa holandesa. Muito menos de julgamento com tal confissão. Pois a única pena cabível para a traição é a morte. Assim pensava Matias que continuou caminhando em meios aos brados alegres de seus soldados ao fim da execução.

Ao mesmo tempo, como guiado pelo destino, seus olhos recaíram diretamente sobre a esposa do condenado, Bárbara, num dos canto da multidão, aos prantos silenciosos, tendo seu filho pequeno nos braços. Doeu perceber que ambos contemplaram tudo… Mas o capitão-mor ignorou-os. Apenas continou a afastar-se do corpo agora sem vida de Calabar, atravessando por entre a multidão. E lembrando pela última vez dos bons momentos ao lado deste homem que já fora um dos seus melhores amigos.

Mas nenhuma lágrima caiu dos seus olhos pela morte de Calabar. Para Matias, um vil traidor.

 

Processo do Açúcar por Simon Vries (1682)

 

IV. Purga (Refino)
I. Plantio e Colheita
II. Moenda Animal
II. Moenda Hídrica
III.

Fervura

V. Encaixotamento

 

A Terra de Engenhos

Holandeses

 

5

22 de Julho de 1635

 

 

A mente de Toulon ainda estava afetada pelos recentes e tristes acontecimentos ocorridos com sua amante Amália Strausskicher. Ele vagava sozinho e introspectivamente pelas ruas do Porto do Recife. Amargava uma culpa não declarada. Finalmente chegou ao lugar que considerava seu verdadeiro lar. Era o local onde poderia esquecer os seus problemas. Era a velha taverna do porto com suas madeiras podres no teto e bebuns caídos pelo chão. E, depois de tanto tempo, a sede na sua garganta era terrível. Ele desejava saciá-la mais do que tudo no mundo.

– Taverneiro! Uma dose caprichada da sua melhor cachaça! – Ele berrou.

Imediatamente, o capitão curvou-se para baixo da mesa, estendeu a mão aos seus calçados, desatando as amarras de suas botas para ficar ainda mais confortável. Enquanto o fazia, o bater do copo contra a madeira da mesa anunciou a chegada de sua bebida. Ele levantou o corpo, recostando-se sobre o dorso da cadeira, acomodando-se no assento. Percebeu que a pessoa quem lhe entregou a bebida era a negra que já fora sua preferida mas que há longos meses não a saboreava.

– Aqui está sua bebida, capitão Toulon.

A negra falou com um sorriso convidativo entre os lábios. Mas Toulon falou com frieza na voz.

– Obrigado, Preta.

O frio de suas palavras foi como o gélido metal de uma espada no estômago da negra. Ela pensou que, no retorno ao Recife, o capitão poderia estar mais desejoso de cair em seus braços. Mesmo porque, durante sua ausência, o taverneiro obrigou-a a dormir com muitos homens. E era dos braços de Toulon que a negra sentia falta.

Por isso, depois de entregar a bebida do capitão, não conseguiu deixar o lado da mesa. Manteve-se, ali, em pé e em silêncio.

– Algo mais, Preta? – Toulon questionava sua presença.

– Já faz tanto tempo que não ficamos a sós… – a negra não pôde deixar de insinuar-se. – Pensei em irmos lá para trás. Relembrar dos nossos velhos tempos.

O capitão não pôde deixar de perceber a corpulência apetitosa da negra. As largas coxas. Os empinados seios. O vasto quadril. Deus, que quadril! Ele ainda pensou… No entanto, a pupilas da negra o incomodavam. Incomodavam até demais.

– Não posso ir agora, Preta. Tenho muito o que fazer.

– Mais tarde então? – As pálpebras da negra desesperaram-se.

– Talvez… – o capitão respondeu com nítido desinteresse. – Quando eu puder, pode deixar que eu a chamarei.

A negra não conseguiu conter a lágrima. O choro escorreu por sua face.

– Por que, meu senhor? – Também não conseguiu conter suas palavras. – Porque não me procura mais?

Toulon ignorou-a. Apenas levou o copo de cachaça à boca como se ninguém estivesse do seu lado. A negra segurou-o pelo braço impedindo da bebida chegar ao seu destino. Ela demandava uma resposta.

A resposta foi o bruto afastar da mão da negra pelo outro braço de Toulon. A pancada foi dolorosa até demais.

– São seus olhos, Preta! – Toulon falou mordendo os lábios. Havia uma raiva neles que causava ainda mais dor na negra. – Eu não gosto da forma como eles me olham! Não gosto dos pensamentos por trás deles! E é por causa deles que quero que saia agora da minha frente e nunca mais se aproxime de mim! Está estragando meu gosto por essa taverna!

O choro da negra tornou-se incontrolável. Caíram abundantes. Ainda assim, ela foi obrigada a engolir todo seu ressentimento. Não podia deixar o taverneiro vê-la desta forma ou este poderia lhe açoitar em punição. Mas não deixou o local sem libertar toda a indignação e ressentimento pela forma como fora tratada nos últimos meses.

– Apenas lhe olho assim, meu senhor, porque gosto da sua pessoa. Gostaria de passar a vida toda lhe servindo. É um sentimento da qual não espero que compreenda pois vejo que nunca sentiu algo igual por ninguém.

A negra deixou o local tomada por uma triste fúria. No entanto, não mais que alguns passos a frente, volveu a face de volta para Toulon. Estava agora mais serena. Assim como suas palavras.

– Mas espero que um dia tenha esse sentimento. Digo isso porque, apesar de tudo, ainda lhe desejo o melhor.

 

***

 

O capitão Charles de Toulon deu um bom gole da cachaça em sua mesa. Ficou ali saboreando seu sabor e seu efeito. Pouco depois, não mais que uma hora depois que a negra deixou o local, para sua surpresa, outras duas pessoas tomaram as cadeiras da mesa. O capitão logo reconheceu a barba de longos bigodes e os olhos malignos do coronel d’Artischau num deles. O outro homem era o conselheiro Jacob Stachouwer

– Disseram que eu lhe encontraria aqui, capitão.

– Este é o meu segundo lar, coronel.

A resposta roubou um sorriso de d’Artischau. Toulon continuou.

– Mas diga-me como posso ajudar desta vez?

A resposta do coronel d’Artischau veio de forma silenciosa. Colocou um bastão de comando sobre a mesa. A explicação veio em seguida.

– Quis lhe avisar pessoalmente que, pelos bons serviços que prestou sob meu comando na vitória em Bom Jesus, será promovido a patente de Major.

A face de Toulon empalideceu. Nem seu pai havia chegado ao cargo de major. Por fora externava apenas a surpresa. No entanto, em seu interior, havia a mais completa satisfação.

– Obrigado… Obrigado, senhor. – O agradecimento veio hesitante em razão da incredulidade. – Não sei como posso agradecer tamanha honra.

– Eu sei – o coronel falou sem nenhuma hesitação. – Apenas mantenha-se fazendo seu bom trabalho. Mesmo porque trago-lhe uma nova missão.

O coronel aguardou um momento para Toulon processar tudo aquilo. E, neste curto instante, o novo major imaginou qual seria essa sua nova missão. Procurar indígenas inimigos nas matas? Buscar companhias de emboscadas espanholas que possam estar a solta? Perseguir o governador espanhol Matias de Albuquerque em Serinhaém?

Não era nada disso. O novo major compreendeu que, quanto maior se tornava sua patente, mais distantes do combate, ficava.

– Trago a missão de avaliar os engenhos de açúcar que estavam sob a proteção do Forte de Bom Jesus e entregar passaportes aos senhores que aceitem o governo holandês.

 

***

 

O trabalho que o coronel incumbira ao major Toulon o surpreendeu enormemente. Não apenas porque ele esperava um trabalho bem menos burocrático, mas também porque Toulon não sabia nada sobre engenhos de açúcar. A verdade é que poucos holandeses sabiam. Afinal, passaram três anos confinados no espaço entre o rio Beberibe e o mar oceânico. E apenas nos últimos dois anos, com as vitórias em Itamaracá, Rio Grande e Paraíba, foi que começaram a trabalhar neles. Por esta razão, não foi a toa que, dias depois, o recém-promovido major exclamava ao entrar num engenho pela primeira vez com novos olhos. Os olhos de um produtor de açúcar .

– Então é para este ‘troço horrível’ que os espanhóis trazem a cana logo após a colheita? Eu já devo ter incendiado e posto abaixo, no mínimo, uma meia dúzia deles!

O ‘troço horrível’ da qual Toulon falava era uma grande tubo cilíndrico de madeira no meio de uma cabana de pau-a-pique, que tinha o diâmetro de um palmo, cuja parte mais alta, próxima do teto, prendia-se a longas hastes que atingiam os cabrestos de bois nos limites desta mesma cabana. Esta engenharia permitia que, a medida que os bois se movimentassem, o tubo cilíndrico girasse. E o girar do tubo cilíndrico movimentava dois grandes pilares redondos de madeira em sua base, reforçados com ferro e dispostos de modo a aproximarem um do outro sem se tocarem.

A função deste mecanismo era destroçar a cana repassada entre os pilares pelos escravos sentados entre eles e os bois nas extremidades.

– Esta é a Moenda. Serve para moer a cana até produzir um suco que chamamos de ‘garapa’ – assim explicava o homem que o acompanhava.

Este homem era Fernandes Vieira, quem após a destruição de Bom Jesus havia solicitado quartel e tornara-se empregado do conselheiro Stachouwer.

Toulon colocou o dedo onde o suco branco-esverdeado escorria desde os pilares da Moenda até o interior de um recipiente. O major aproximou o dedo de seus curiosos olhos. Examinou-o com cuidado. E, no fim, colocou-o em sua boca. A expressão em sua face tomou contornos nem um pouco bonitos.

– Forte… e doce! Muito doce! – Falou ainda mantendo uma expressiva careta.

– Este caldo serve para muitos usos. Principalmente, para a alimentação de cavalos, suínos e também de escravos. E, claro, se destilada, serve para fazer o aguardente de cana também. A boa e velha cachaça.

– Já começo a gostar mais desta tal de garapa – Toulon sorriu.

Fernandes Vieira também riu do comentário. Mas logo virou seu corpo. Apontava agora para outra cabana onde haviam vários fornos construídos em alvenaria.

– A etapa seguinte é a fervura. Esta realizada por fornos alimentados com lenha. A garapa aquecida borbulha produzindo um sobrenadante que é logo separado – ele explicava.

E, não interrompendo seu passo, conduziu o major Toulon à outro grupo de cabanas de pau-a-pique, ainda maiores que as utilizadas para a moenda e a fervura juntas. Neste local, era realizada a etapa final da produção do açúcar. O local onde dezenas de calhetas estavam esculpidas em alvenaria e tijolos.

– Enfim há a etapa da Purga – Vieira falava, tocando gentilmente na alvenaria esculpida nas cabanas. – Depois que o produto das caldeiras está frio e espesso, é colocado nestas calhetas onde há a ciência de fazer uma mistura de cinzas de madeira e óleos com o qual as calhetas são cobertas. Ficam aí por quatro meses, purgando toda a escória e terminando por deixar o açúcar branco como neve.

Com surpresa no rosto, Toulon interrompeu a explicação do amigo.

– E já viu neve alguma vez, Vieira?

O jovem rapaz logo o respondeu:

– Nasci na Europa, na Ilha da Madeira. Tenho algumas pequenas lembranças de lá. Mas não muito, visto que cheguei neste continente aos dez anos de idade.

– Então deve ter uma boa memória. Pois, depois de viver apenas cinco anos aqui, neste calor dos infernos, eu não reconheceria um punhado de neve se a encontrasse novamente.

– Se serve de consolo, major, todos dizem que é branca como o açúcar – Vieira disse sorrindo.

O recém-promovido major gargalhou alto e forte. A mudança de seus referenciais com a mudança de continentes o divertiu. Mas logo retomou ao tópico da conversa, depois que seus olhos agora reexaminavam toda a imensidão do engenho.

– Devo admitir, Vieira, que todo esse processo do açúcar é bem mais complexo do que eu imaginei. E imagino que, depois de tudo isso, ainda é preciso mais escravos para pesar tudo, encaixotar e transportar ao porto – disse o major. – É muita gente envolvida.

Fernandes Vieira logo o respondeu.

– Sim. Afora os negros para plantar a cana, que deve ser feita uma vez a cada sete anos, e outros tantos para realizar a colheita anual. Também é preciso fundidores para fundir as caldeiras. Pedreiros para fazer os fornos. Carpinteiros para fazer baús. Barbeiros. Ferreiros. Sapateiros. Carpinteiros. Oleiros. Alfaiates. E tantos outros artífices necessários. Não é sem razão que, em quase todos os engenhos, estão erguidas capelas e escolas.

– É realmente impressionante – o major assustava-se.

– E digo mais – Vieira continuava. – Cada engenho é como um Estado em si mesmo. Sob a benção do capitão-mor de cada capitania, o senhor de engenho tem todas as liberdades nele. É o juiz, justiceiro e executor.

Quando de frente à senzala dos escravos, Vieira estendeu o braço.

– E deve fazê-lo com braço de ferro. Tem que manter o respeito. Pois, embora um negro custe caro, umas cem moedas de ouro, suas ações podem ser de pouco valor. Eles podem ficar até mesmo mais arredios e selvagens que os próprios tapuias dos sertões. Por esta razão, os senhores devem usar seus escravos muito intensamente e sem piedade, fazendo-os trabalhar desmesuradamente.

E, ao fim, para completar o raciocínio, apontou para o tronco onde os negros são amarrados e açoitados nas punições.

–  Pois, quanto pior tratam os negros, mais úteis os encontram. Os bons tratos pervertem suas maneiras. Já diz o ditado que ainda ouvirá muito por aqui: ‘Para tirar melhor proveito dos negros deve-se mantê-los preso, fazê-los trabalhar bem, e surrá-los ainda melhor, sem isso não se consegue o serviço.’

As palavras atingiram mais fortemente o major do que Vieira pôde perceber.

– Aprendi isso da pior maneira… – Toulon continuou. – Uma vez tratei bem uma negra, bem até demais, apenas para me arrepender depois.

Fernandes Vieira rolou os olhos para cima num claro sinal de obviedade como que dizendo: ‘alguém já devia ter-lhe dito isso. Não é assim que se trata um negro’. Mesmo para Vieira, um mulato, que diziam ter nascido bastardo da relação entre um rico europeu e uma negra escrava, isso era algo lógico. Estava enraizado nos cantos mais profundos da cultura colonial.

– E então, major? – Vieira retomava a discussão inicial. – Espero ter esclarecido este pequeno conhecimento sobre nossa Pernambuco. Engenhos são complexos, eu sei. É muita coisa para aprender num único dia. Só espero não ter lhe desanimado com tanta informação.

O encantador sorriso de Toulon abriu-se largamente mostrando seus alvos dentes e feliz figura. Era certo que aquilo não o desanimara. Algo que logo confirmou com suas finais palavras.

– Na verdade, Vieira, após tudo que me disse, mal vejo a hora de possuir meu próprio engenho.

 

***

 

Enquanto isso, se era o encantador sorriso de Charles de Toulon que iluminava as paragens nas terras de engenho de Pernambuco, dezenas de léguas ao sul, na comarca de Alagoas, os sentimentos eram bem menos alegres. O Coronel Von Sckoppe entrou apressadamente na povoação de Porto Calvo com todo o peso de seu exército. A infantaria cercava a região. Os patachos entravam rio acima. Ele próprio exortava ordens aos seus homens para se apressarem. E a razão de sua pressa não era apenas o desejo de capturar o governador espanhol Matias de Albuquerque. Essa pressa na verdade avolumou-se subitamente no momento que recebeu a notícia que as forças espanholas confrontaram as companhias sob o comando do amigo Calabar.

– Vamos, soldados! Marchem! Rápido!

Era uma pressa que progrediu assustadoramente com o relato que o governador espanhol venceu este confronto, fazendo prisioneiros todos os holandeses que ali estavam. Enfim tornou-se incontrolável quando um negro avisou-o pelo caminho que Albuquerque havia sentenciado Calabar à morte. No dia seguinte ao que recebera este aviso, os exércitos holandeses adentraram o povoado. As aves carniceiras que escureciam os céus com suas penugens negras eram o prenúncio de que algo terrível acontecera. Era ao cacarejar sombrio destes animais, que os holandeses foram descobrindo o terrível cenário que assolava o local. Ele estava completamente abandonado. Não havia pessoa alguma. Apenas casas vazias. A destruição da batalha. E uma centena de corpos holandeses que os espanhóis nem se dignaram a enterrar. Estes ficaram ainda insepultos aqui e acolá. Era uma triste cena.

Depois de afugentar lobos igualmente carniceiros que andavam entre os corpos e acostumarem o olfato do cheiro de morte, sangue e fezes, Von Sckoppe e seus soldados perceberam que os espanhóis haviam saído algum tempo antes. Os malditos não ousaram esperar pelo coronel holandês. Pareciam ter partido com tanta pressa e abandono que não deixaram ali nem mesmo uma guarnição ou emboscada para causar algum dano às forças do coronel. No entanto, deixaram algo que o feriu mais do que qualquer espada ou mosquete. Deixaram ali, à vista de todos, um conjunto de estacas ao longo da trincheira que rodeava a cidade. Logo na primeira delas, na entrada do povoado, estava espetada numa lança, já com seus contornos enegrecidos de apodrecimento, a cabeça degolada do compadre e bom amigo Domingos Calabar.

Os espanhóis também deixaram pedaços do seu corpo esquartejado pendurados sobre muitas destas mesmas estacas que rodeavam a cidade. O sentimento de perda pelo amigo morto era terrível. O coronel caiu de joelhos frente aos restos mortais profanados e apodrecidos de seu compadre. Era uma visão que fez o coronel Von Sckoppe encher-se de tanta ira e cólera, que estes sentimentos extravasaram numa sadística e vingativa ordem.

– Quero todos os espanhóis deste distrito mortos a ferro e fogo. Soldados! Moradores! Todos! Todos merecem morrer!

 

 

Os Delírios de Poder

Nobreza

 

3

8 de Agosto de 1635

 

A visita do Duque de Bragança à cidade de Évora continuou no dia seguinte à sua chegada. Pela manhã, ele e sua esposa assistiram à missa na belíssima Catedral da Sé. À tarde, foram à Universidade de Évora, cujo pátio principal tinha uma fonte de água no centro da larga estrutura quadrangular de dois andares, construída no estilo romano de arcos. Em seu interior, todos os nobres convidados à recepção assistiam à uma apresentação teatral. A peça em questão descrevia a vida de Santo Eustáquio.

Por se converter à fé cristão durante o pagão Império Romano, Eustáquio perdeu todos os bens e prestígio. Depois, sua esposa foi raptada pelo capitão do seu navio e seus dois filhos foram levados por animais selvagens. Eustáquio se lamentou, mas, mesmo quando obrigado pelo imperador romano à realizar um sacrifício pagão, se recusou a fazê-lo. Manteve sua fidelidade ao Cristianismo. Tamanha devoção foi recompensada por Deus que, no fim, após tantas provações, devolveu sua mulher e filhos.

– Espero que vossas senhorias tenham apreciado esta apresentação em homenagem à Sua Excelência, o Duque de Bragança.

Os aplausos se elevaram. Os olhos do arcebispo encontraram os do Duque. As palavras do clérigo continuaram.

– No entanto, não hei de me despedir sem dizer palavras de esperança. Assim como Eustáquio perdeu tudo que tinha e o recupero graças ao poder de Deus, elevando-se como um santo de nossa igreja, o mesmo ocorrerá com o povo português. Se mantivermos a mesma fé, Deus entregará de volta todo nosso esplendor de outrora. Entregará de volta à majestade do Reino de Portugal!

Os aplausos recomeçaram mais intensos, terminando com o nome da avó do Duque de Bragança proferido pela platéia.

– Salve a herança de Dona Catarina de Bragança!

– Salve! – Todos gritaram.

Estas palavras fizeram o casal de Bragança se entreolharem surpresos. Era uma reação discutida mais tarde, à noite. Quando estavam se preparando para dormir no quarto do convento religioso que os hospedava, o Duque tomou a palavra.

– Como eu não previ isso antes, Deus? – Ele resmungava.

– O que está dizendo, João? – A esposa retrucou.

O Duque estava ao lado da banheira de água aquecida para o banho. Olhou-se frente um espelho. Molhou seu rosto. Passou os dedos molhados entre seus cabelos.

– Esta festa. A multidão. Os nobres convidados. A peça teatral. O sermão pela manhã na Sé Catedral quando O padre Correia repetiu a palavra ‘Coroa’ várias vezes: ‘Coroa de Graça’, ‘Coroa de Glória’ e, outras tantos vezes, ‘Coroa’. Enfim, o discurso final do arcebispo na Universidade. Cada palavra deste dia foi cuidadosamente escolhida. Está tudo lá nas entrelinhas. Estão querendo trair o Rei Filipe! E querem que eu torne legítima toda essa loucura!

Ao término desta sua conclusão, o Duque nem sequer percebeu a esposa se aproximar. Apenas sentiu braços calorosos lhe envolverem a cintura.

– Faz parecer que há uma terrível conspiração contra ti, João.

– Foi tudo idéia de Mascarenhas. Depois de tanto eu lhe pedir, ele continua a tentar me convencer da minha herança real. Ele está colocando nossas vidas em risco. Uma palavra errada e será o nosso fim!

O Duque virou o corpo. Ficou, frente a frente, com sua esposa. Revelou os pensamentos que tanto lhe causavam preocupação.

– Hoje falaram da herança de minha avó Catarina! E todos sabem da história de como ela perdeu nas cortes portuguesas o Édito de Tomar para o avô do Rei Filipe.

– Não vejo com que se preocupar – a esposa continuava. – A herança da sua avó Catarina foi o Ducado de Bragança. É de se esperar que falem sobre ela. Afinal está é uma recepção à sua pessoa!

– Está sendo ingênua, Luísa – a descrença e desengano na face de João era completa.

– Tudo bem. E se for verdade? – Luísa lhe beijou a bochecha. – Estão todos tão errados em pensar assim?

– O que quer dizer, Luísa?

– Este ano foi tão terrível. Depois da morte de nossa bebê e da doença do meu pai, estava tudo tão doloroso… Mas quando vi aquela multidão nos recebendo… – Luísa se interrompeu, fechando os olhos para relembrar o momento. –  Há meses não me sentia tão bem. Era exatamente disso que eu estava precisando.

Ela sorriu.

– E não foi esse o pedido do seu pai no seu leito de morte? Que retome o legado de sua avó como ele nunca conseguiu?

Por fim ,completou.

– Talvez esse seja mesmo o seu destino!

 

***

 

O Conde-Duque o aguardava em pé por mais de uma hora em frente aos aposentos de El Rey no palácio de El Alcázar. Dois soldados da Guarda Real estavam em cada lado de uma pesada porta, fazendo a sentinela de sua entrada. A madeira da porta era bastante densa e as paredes de pedra bem grossas, mas ainda era possível escutar os sons de El Rey desfrutando de alguma de suas amantes. Enfim, após ecoar os gritos de gozo, tudo terminou num abrupto silêncio.

Tal situação que antes o Conde-Duque tanto reclamara, neste dia, a aceitava em total submissão. Afinal, tinha a tarefa ingrata de trazer as péssimas notícias dos frontes de guerra. Na verdade, seu subconsciente desejava que El Rey demorasse mais, pois, embora tivesse ensaiado na cabeça a forma como relatar essas noticiais, ainda não estava certo de como fazê-lo.

O pesada porta de madeira se abriu. A amante a atravessou com El Rey log atrás. Estavam tão entretidos com seus jogos sexuais que nem perceberam o Conde-Duque em pé de frente à porta. Quando a amante se virou, atingiu o olhar taciturno do Valido. Era Mariana de Cuevas, filha de um nobre da corte e dama de companhia da Rainha Isabel. Os risos da menina levada, coberta só pelos lençóis e envergonhada pela descoberta, ressonaram na ante-câmara do aposento.  Ela então deixou o local.

– Boa Tarde, Olivares. Desejava falar comigo? – A porta enfim se abriu mais largamente.

– Sim, Majestade. Trago notícias do Novo Mundo – disse o valido ao entrar luxuoso aposento de El Rey. Gotas de suor escorreram por sua testa. Ele hesitou nervosamente por alguns segundos. Só então falou: – Lamento informar que Pernambuco foi conquistada pelos holandeses.

Um novo torturante silêncio antecedeu a resposta de Sua Majestade.

– Isso é inadmissível – ele as proferiu com o mais completo desprezo.

Então, deu um passo a frente.

– Primeiro, perdemos nossos territórios italianos de Sabóia e Mantova. Depois, a França conquistou cidade de Les Avins, cercando nossa capital na Holanda. Agora, vem me dizer que perdemos Pernambuco também?

O Conde-Duque baixou sua cabeça, envergonhado. Nem mesmo conseguia olhar a face de Sua Majestade. O suor encharcou a arredondada face do Valido.

O soberano continuou sua inconformada resposta.

– Disse-me que Pernambuco precisava de socorro imediatamente. Então porque não o enviou?

A indignação do soberano aterrorizou o Conde-Duque. Este tratou de responder com a única resposta que veio em sua mente.

– Se Matias de Albuquerque e o Conde de Bagnuolo tivessem feito o que deveriam, eu não precisaria enviar socorro algum!

A desculpa só causou mais incredulidade em El Rey. O Valido percebeu o olhar condenatório sobre ele. Esperou a punição recair sobre seu pescoço quando Sua Majestade começou a proferir novas palavras.

– Meu reino está se desmoronando, Olivares. E quem é o culpado disto? Quem é o culpado pela perda de Pernambuco?

O Conde-Duque tentou engolir sua saliva, mesmo sem haver nenhuma. Sentiu apenas o queimor na garganta. Mal conseguiu proferir sua resposta.

– Cabe à Vossa Majestade decidir – disse friamente.

O Valido manteve sua cabeça cabisbaixa e o olhar ao chão. Percebeu El Rey se postar às suas costas. Quase conseguia sentir sua cabeça rolando. Fechou os olhos mais acirradamente. Podia apenas esperar Sua Majestade lançar seu decreto punitivo.

Quando este decreto veio, o surpreendeu.

– Deixarei que decida então, Olivares. Diga-me quem é o culpado e lhe providencie uma punição exemplar!

Sempre hábil em esconder seus sentimentos, o Conde-Duque não conteve a surpresa desta vez. Arregalou os olhos. Esboçou um sorriso. Mostrava claramente seu alívio em ouvir tais palavras. Nem acreditou não haver uma punição. Assim, quando retomou a compostura, voltou a falar.

– Sim, Majestade. Prometo que esta situação não ocorrerá novamente. Os responsáveis por nossas perdas aqui na Europa e no Novo Mundo serão severamente punidos.

Ao fim destas palavras, a mente do Conde-Duque já percorria seu tabuleiro, escolhendo qual dos comandantes seria o bode expiatório. Qual dos seus peões seria sacrificado desta vez?, se perguntou antes do rei interromper o pensamento.

– Ótimo – disse El Rey retornando à cama de ricos lençóis. – Faz o que for necessário para retomar os territórios perdidos. Ainda é o homem em que mais confio para esta missão.

– Obrigado, Majestade – O Conde-Duque se ajoelhou agradecido.

El Rey se esparramou sob os nobres lençóis vermelhos. Sentiu o aconchego de seu leito e a maciez de seus travesseiros de penas.

O Conde-Duque nunca esteve tão alegre. Não conseguia retirar o sorriso de sua face. Estava prestes a deixar os aposentos reais quando Sua Majestade proferiu as palavras seguintes.

– E, Olivares… – este o chamou.

– Algo mais, Majestade? – O gordo homem perguntou. Percebeu que os olhos reais não mostravam a mesma benevolência de antes. Suas palavras vieram numa única e gélida resposta.

– Não se engane. Esta é sua última chance!

A frase expunha a atual vulnerabilidade de seu Valido.

 

***

 

O Conde-Duque atravessou os corredores de El Alcázar em grande velocidade. Muitos reverenciaram seu título pelo caminho. Outros tentaram o chamar para reuniões. Os seus serviçais perguntavam como o agradar. Todos foram ignorados. O seu único desejo era chegar o mais rápido possível em seu escritório. Mal o adentrou, já foi folgando a gola pespontada que tinha ao redor do pescoço. Abriu o torso da camisa. Expôs o peitoral peludo e gorduroso. Caiu de joelhos. Sentiu-se sem respiração. O coração palpitava Os joelhos ardiam fortemente.

– Deus me ajude!

Sofreu um aperto insuportável nas têmporas. O grito desesperado deixou sua garganta. Ele tentou se levantar, mas caiu novamente com a volumosa barriga sobre o atapetado chão.

– Deus me ajude!

Continuou a gritar. Ninguém apareceu. O escritório do Conde-Duque foi escolhido especialmente por sua pouca propagação acústica.

Ele se arrastou. Chegou as pés de sua larga mesa, onde se apoiou. Num esforço magnânimo, conseguiu se levantar. As rótulas dos joelhos queimavam. A dor irradiava por ambas as pernas. Neste momento, se perguntou: Sou um bobo da corte que apenas finge ser o que não é? Ou sou um louco que realmente pensa ser tudo isso? A fragilidade de sua posição em momento tão crítico colocou dúvidas sobre seu poder, sobre suas capacidades.

Uma imagem etérea surgiu.

– Meu pai! O que houve? Deixe eu lhe ajudar.

Era a sua finada filha Maria que ali chegava. Ela tomou o braço do pai. Tentou desesperadamente o levantar.

A resposta do Conde-Duque foi bradar raivosamente para ela.

– Saia daqui, sua farsa!

Ele arremessou seu braço violentamente contra ela.

– Não preciso de fantamas! – Sua mão atravessou a imagem etérea. A face assustada da menina de dezessete anos se desmaterializou de imediato. – Não é a minha filha. É apenas mais um dos castigos que Deus me coloca!

A fúria se apoderou do seu ser.

O ar adentrou seus pulmões. Trouxe a doce respiração e um alívio inexplicável. O Conde-Duque voltou a sentir as forças retornarem. Sentiu-se novamente poderoso e capaz.

Relembrou quem realmente era. Respondeu às questões que estavam em sua mente. Bobo da corte ou Louco?, então bradou:

– Eu sou o Conde-Duque de Olivares! Sou o homem mais poderoso do Mundo e não preciso de ninguém!

Ainda apoiado na madeira de sua mesa o Valido atravessou o escritório. Na sua frente, estava o tabuleiro de xadrez com tão poucas peças de um lado enquanto o outro detinha tantas.

Era em sua direção que caminhava os mesmos passos capengas.

– Os Sandoval não me derrubaram.

Um novo pesado passo estremeceu seu joelho.

– Os Toledo não me derrubaram!

Outro passo quase o fez cair, tamanha era dor acometida.

– A Rainha não me derrubou!

Coxeando, continuou já sem o apoio da mesa, deixando-a para trás.

– O Stadtholder holandês não me derrubou.

Avançou mais.

– O Rei Gustav Adolph não me derrubou.

Seu punho se elevou acima da cabeça. Desceu em seguida em grande velocidade. A pequena mesa que servia de suporte ao tabuleiro foi derrubada. Peças revoaram para todos os lados.

– E, com certeza, não será um crápula, uma cobra traiçoeira, como Richelieu quem me derrubará!

O cenho era vermelho como fogo. A cólera tomou conta. Partiu para o alvo seguinte de sua fúria. Era a grande pintura emoldurada atrás de sua cadeira. Era a imagem de Sua Majestade, El Rey Filipe.

Ele segurou a moldura pelas laterais, arrancou-o da parede e o arremessou sobre a mesa do escritório. Cacos de vidro explodiram para todos os lados. Farpas de madeira foram tudo o que sobrou da moldura.

Outra vez, bradou enfurecido.

– Nem mesmo El Rey me derrubará! – Em seguida, arrancou o crucifixo que trazia no peito. Jogou-o no chão com toda sua força. – Nem mesmo Deus!

– Ninguém! – Bradou ainda mais alto.

Os olhos vermelhos, ardentes e flamejantes, queimaram numa ira descomunal. Selvagem. Diabólica. Ele observou que a falsa imagem de sua filha. Ela ainda estava ali, lhe observando no canto da parede com olhar assustado. Gritou contra ela com todo seu furor, mais poderoso do que nunca.

– Eu sou o Conde-Duque de Olivares! E continuarei a destruir cada um dos meus inimigos! Eu assim prometo!

 

 

Mulher Mameluca por Albert Eckhout (1610-1665)

 

As Ordens do Rei

Brasilianos

 

4

15 de Agosto de 1635

 

Aves negras, na entrada de Porto Calvo, voavam em círculos nos céus avermelhados do fim de tarde. Elas anunciavam o rondar da morte. Pois, nos campos logo abaixo, estava o frei Calado observando, compenetrado, uma série de estacas ali posicionadas. O clérigo fixava seu olhar numa estaca em particular. A estaca que expunha, ao alto, a cabeça do traidor Domingos Calabar, colocada ali pelo capitão-mor para servir de exemplo aos que pensassem em trair a Resistência.

O anúncio da morte também vinha do norte com as notícias que chegavam. Ambos Von Sckoppe e d’Artischau avançavam os exércitos que conquistaram Bom Jesus e Santo Agostinho àquelas paragens. Eles logo chegariam em Porto Calvo. Mas os mensageiros também traziam notícias esperançosas vindas do sul, de São Salvador. O socorro do Rei Filipe enfim partiu do Reino com três mil homens e logo chegaria em portos aliados.

Desta forma, com menos de trezentos soldados à disposição, todos os refugiados da Resistência passaram o dia preparando seus pertences para partir. Eles iniciariam a marcha à capital no dia seguinte. Rebelinho e Camarão preparavam os poucos soldados para a escolta dos refugiados enquanto Martim Soares Moreno e o Conde de Bagnuolo coordenavam tudo. E o frei Calado orava a Deus por uma decisão, pedindo-lhe orientação, pois todos moradores de Porto Calvo, com a exceção de um ou outro habitante, decidiram ficar em suas casas.

Tão imerso em seus pensamentos e na visão da cabeça degolada de Calabar, o frei não percebeu a chegada do capitão-mor Matias de Albuquerque.

– Boa tarde, frei – este falou.

– Boa tarde, capitão-mor – o frade respondeu. – Como estão os preparativos para a retirada? Posso ajudar em alguma coisa?

Na verdade, o capitão-mor tinha algo inusitado para lhe pedir.

– Pode me ajudar sim, frei. Mas não com a retirada. Venho pedir algo sobre as coisas que o traidor lhe falou antes de morrer. Solicitar que não se fale mais nesta matéria, para não se levantar alguma poeira, da qual se originarão muitos desgostos e trabalhos.

– O que Calabar me contou foi dito em confissão. E não há como provar suas acusações. Assim como vossa mercê, capitão-mor, não quero que a desconfiança cause a desunião de nossa Resistência.

O capitão-mor logo complementou.

– Não me surpreenderia se tudo aquilo fosse um ardil inventado por aquele traidor para este fim. Aquelas acusações devem ir para o túmulo com aquele homem.

– Como eu disse, não precisa se preocupar – o frade repetiu.

– Obrigado, frei. Sinto-me mais aliviado agora – disse o capitão-mor.

Ao final de tais palavras, antes do capitão-mor deixar o local, era o frei Calado quem agora mudava o assunto para perguntar de algo que chegou aos seus ouvidos nesta última semana.

– Soube que enviou um emissário até Von Sckoppe para lhe propor a troca dos prisioneiros holandeses de Porto Calvo pelos nossos de Bom Jesus ou de Santo Agostinho. Houve alguma resposta?

– O coronel não aceitou – o capitão-mor assim confirmava o ocorrido. – Deve ter considerado pela experiência que tinha do nosso valor, que prefere antes perder os seus, que voltar a ter os nossos por inimigos.

– E agora? O que fará, Matias? Tem certeza que a decisão mais acertada é a retirada para a capital?

– Desta vez não há opção, frei – disse Matias com um semblante triste de quem busca um confidente e um ombro amigo. – Bom Jesus e Santo Agostinho foram conquistados. A vitória de Von Sckoppe mostrou que ele é capaz de nos derrotar sem a ajuda de Calabar. E agora ele vem avançando na nossa direção. Só nos resta desistir. Aceitar a derrotar. E preparar as defesas de São Salvador.

– Não concordo, capitão-mor.

A resposta do frade fez transparecer incredulidade na face do capitão-mor. Este sentimento se revelou nas suas palavras.

– Devo dizer que será bem difícil me convencer do contrário…

– Não serei eu. Pois acredito que tenha lido a carta do capitão Barbalho e do velho Gama?

Nem terminou suas palavras, o frei Calado retirou um papel em um bolso escondido de suas vestes. E começou a proferir palavras que vinham dos combatentes do Forte de Santo Agostinho. Era inacreditável o quanto ainda lutaram contra o cerco inimigo.

Ao realizar a leitura da carta, o frei proferiu em voz alta:

– Ouve o que os dois escreveram: ‘O que nos perdeu não foi a fome, nem a indústria de traidores. Comíamos o couro dos sapatos e arreios, bem cozidos, na falta de qualquer outro mantimento. Nossa rendição só se deu quando não nos restou nem mais um grão de pólvora para combater. E, ao sair rendida nossa gente, caíram alguns soldados mortos, ao que parece que os sustentava o não mover-se, tal era o estado de fome a que haviam chegado.’

O capitão-mor logo tratou de comentar.

– Este relato apenas fez doer mais meu coração em saber que não pude ajudá-los. É o que me deixa mais angustiado. Soube que o velho Gama está agora num estado critico de saúde, penando entre a vida e a morte.

– Por essa razão, eu peço que me diga, Matias, com toda sinceridade, se realmente acredita que, com tão bravos combatentes em nossa terra, este seria realmente o fim?

Matias ficou em silêncio, sem uma boa resposta para dar. Desta forma, foi o próprio frade que respondeu sua própria questão.

– Não! Este é apenas o início de um novo capítulo. É como dizem: ‘Perdemos a batalha mas não a guerra’.

Matias deixou-se expressar um sorriso amarelo e descrente. Neste momento, percebeu que o frei não estava com seus pertences prontos para a viagem.

– Onde estão suas coisas, frei? Não se preparará para a retirada? Os sentinelas avistaram tropas de Von Sckoppe aproximando-se da nossa posição. Devemos nos reunir com o socorro enviado por El Rey que logo chegará na cidade de São Salvador.

– Já fui informado disto. Mas não hei de partir.

O frei manteve-se frente a estaca que detinha a cabeça de Calabar. Matias posicionou-se ao lado do clérigo. Ambos contemplavam, juntos, a mesma imagem quando o capitão-mor voltou a questionar.

– Devo lembrar das ordens do Bispo de nossa terra, que chegaram de São Salvador? Ele ordenou expressamente que todos os sacerdotes devem deixar Pernambuco para reunirem-se na capital.

– Não importa – o frei não hesitou em responder. – Ficarei em Porto Calvo para amparar a população que decidiu ficar aqui. Devo aplacar o medo de meus fieis e o ódio dos inimigos. É a única forma de manter todos seguros.

– Então desobedecerá os seus superiores?

Matias perguntou um tanto surpreso. O frei Calado respondeu com vozes calmas e certas, não para convencer o capitão-mor, mas para explicar uma decisão já tomada.

– Caro Matias… O que acredita que ocorrerá quando Von Sckoppe chegar e ver a cabeça de Calabar aqui pendurada nestas estacas? Era tão grande a amizade com o inimigo que Calabar tomou Von Sckoppe como padrinho de seu filho. Não posso deixar meus fieis a mercê de um homem com ódio no coração e desejoso de vingança.

Matias respondeu em seguida:

– O melhor para seus fieis não é aquilo que o Bispo, mais iluminado, e representante do Papa em nossas terras, lhe ordena? Se ele diz que os padres farão um melhor serviço de Deus em São Salvador do que em Pernambuco, por que não fazê-lo?

– Ponho a questão, Matias: Qual é o melhor serviço de Deus? Ficarem os sacerdotes com os fieis cristãos, seus próximos? Ou irem-se fugindo, deixando-os ao puro desamparo, sem missa, confissão, e metidos em tantas heresias e seitas?

– Mas o que conseguirá fazer aqui sozinho, frei?

– Mais do que imagina, capitão-mor. Muito mais do que imagina…

Um sorriso discreto, quase desafiador, surgiu na face do frei antes de retomar a palavra.

– Deixa-me contar uma história, capitão-mor. Quando Calabar chegou em Porto Calvo com o major Picard trazido pelo almirante Johann Lichtaart, general do mar, estes holandeses logo chamaram todos moradores a um jantar. E eu fui lá para recebê-los.

– Calabar me contou. Disse, antes de morrer, o quão bem recebeu os invasores, lhe acusando de traição.

O frei já se explicava.

– Calabar, assim como vossa mercê, capitão-mor, não consegue ver os diferentes pontos de vista que não os seus próprios. Deixe-me tentar explicar.

– Estou escutando, frei. Pois, depois do que Calabar falou, não quero deixá-lo aqui na dúvida sobre qual lado realmente está.

– Bem… durante o tal jantar vi um insulto ao nosso bom Deus. Pois um cálice sagrado, roubado de uma de nossas igrejas, era utilizado por um soldado raso como um copo qualquer para beber o vinho impuro. Uma verdadeira afronta aos sacramentos.

Um certo repúdio pôde ser notado na face do padre enquanto relembrava o episódio. Ele engoliu seco. Mas continuou a contar o que aconteceu:

– Eu disse a todos aqueles holandeses que aquilo era notável agravo. Era maior injúria que podiam fazer à nossa religião. Consentir que profanassem os cálices sagrados, nos quais consagra-se o sangue de Cristo, era a injúria que bastava para o povo não ter-lhes amizade.

– Os holandeses são uns hereges, frei. Não há como conversar com esses animais – o capitão-mor argumentou.

– Engana-se, Matias. Pois o general do mar, Lichtaart, mandou aquele soldado deitar fora o impuro vinho, e me deu o cálice com grande cortesia. Mas tarde, em particular, veio até mim e confidenciou ser Católico. Era por seu interesse não declarar sua religião para que não lhe tirassem o cargo de almirante ou ainda negassem pagar o que lhe deviam de soldo. Disse que após a guerra navegaria a Roma para pedir perdão ao Papa.

– Duvido que este homem venha a cumprir sua promessa. A mentira faz parte da natureza da raça holandesa.

O frei primeiro sorriu. Depois continuou.

– Talvez sim, talvez não. A decisão está na consciência daquele homem agora, Matias. Mas enxergue como é importante minha missão aqui. Numa única noite, recuperei um cálice sagrado, consegui manter a prática de nossa religião no povoado e confortei uma alma atormentada, mesmo que uma holandesa.

– É um otimista, frei – Matias mostrava um sorriso irônico.

– Fico feliz de ter estado lá para ouvi-lo e mostrar o caminho de Deus. Sei apenas que no tempo que ele se deteve naquela povoação mandou, com pena de morte, que nenhum soldado seu fizesse agravo a algum morador, nem que roubassem coisa alguma. E devo lembrar também, Matias, que depois os civis de Bom Jesus chegaram, eu lhes dei abrigo e sustento.

Matias já mostrava mais seriedade nas palavras do frei Calado. Sabia que sem o padre em Porto Calvo não teria como saciar a fome dos moradores e soldados que se retiravam sob seu comando. Em seguida, já fazendo a cabeça de Matias revolver, continuou.

– Consegue enxergar agora? Eu sou apenas um homem, tentando fazer o que certo para minha missão em nome do nosso bom Deus. Mesmo que para isso tenha que desobedecer meus superiores. Não me diga que nunca pensou em rejeitar a ordem de um superior? Do Governador-Geral? Ou mesmo de Sua Majestade?

Com a pergunta do frei Calado, Matias não pôde deixar de rever os eventos destes últimos meses. Não pôde deixar de pensar na última ordem enviada por El Rey de manter os fortes de Bom Jesus e de Santo Agostinho, dizendo-lhe que o socorro estava a caminho. Um socorro que deveria chegar em maio, chegaria apenas ao fim do ano.

Não pôde deixar de pensar que se todos os soldados tivessem se retirado com ele para Porto Calvo, abandonando essas fortificações, Matias teria a sua disposição quase dois mil homens para unir-se ao socorro do Rei Filipe.

Não pôde deixar de pensar que não precisaria ter abandonado os seus companheiros de batalha que agora jazem em prisões holandesas.

Não pôde deixar de pensar em tão pouco socorro El Rey enviou nos cinco anos que já duravam esta guerra.

Não pôde deixar de pensar em muitas outras coisas.

Mas no fim respondeu.

– Não, frei. As ordens de El Rey não podem ser questionadas. E agora que seu socorro chegará em nossos portos devo me reunir com eles e continuar minha luta.

O frei não revelou o desapontamento que as palavras de Matias lhe causaram. Mas logo o respondeu cordialmente.

– Então espero nos encontrarmos muito em breve. Pois imagino que logo retornará aqui.

– Apenas tome cuidado, frei – Matias continuou. – Sei muito bem o que ocorreu contigo dez anos atrás na primeira invasão em São Salvador. Lembro-me da sua mesma teimosia em deixar aquela cidade dominada pelos hereges e em pregar nossa religião contra as ordens holandesas. E acabou quase enforcado por isso.

– Sim. Fui condenado a morte. Mas ainda estou aqui para contar a história, não?

Matias não conseguiu esconder o sorriso. O frei continuou.

– Não se preocupe, capitão-mor. Tenha um bom retorno a São Salvador.

Assim disse o frei, antes do capitão-mor deixar o local. Não sem antes o próprio Matias observar a cabeça de Calabar exposta sobre aquela estaca. Lembrando como um dia acreditou neste homem. Perguntava-se se ainda seria capaz de acreditar em alguém, mesmo neste frei que pareceu-lhe tão sincero em suas palavras.

Ao amanhecer, a Resistência deixou Porto Calvo em direção a São Salvador.

 

***

 

O capitão-mor, durante a retirada, por vários dias até chegar em São Salvador, não conseguiu dormir. A sua mente estava atormentada por todos os eventos passados. Tantos eram os nomes e as visões que permeavam sua mente. O seu peito estava mais doloroso do que nunca. Ele repetia uma lista que aumentava a todo momento. Verdonck. Pedro. Calabar. Henrique. Marim. Barbalho. Gama. Todos os quinhentos homens que defenderam Bom Jesus. Os outros seiscentos que defenderam o cabo de Santo Agostinho. Todos mortos ou aprisionados pelas forças holandesas.

Também fitava o Conde de Bagnulo, lembrando das palavras de Calabar. Havia ele traído a Resistência como fez o padre Moraes, Calabar e Ana Paes?… E quanto a Fernandes Vieira? Ou Frei Calado? Eram tantas as dúvidas. O capitão-mor torturava-se com a possibilidade de faltar verdade nas palavras destes homens. Ele agora não se sentia seguro nem mesmo entre seus companheiros. O seu corpo não estava tão maltratado quanto sua mente e seu espírito.

Os soldados de Bom Jesus e de Santo Agostinho, que tanto esperavam o socorro do Reino, realmente não tiveram a menor chance. O socorro, que o Rei Filipe havia prometido, chegou com mais de seis meses de atraso. Deveria ele culpar Sua Majestade? Deveria ter agido diferente das suas ordens? Matias sempre revolvia tais indagações. E tinha apenas uma resposta: Não! As decisões de El Rey eram inquestionáveis. E não havia do que reclamar. Ele deveria ser grato pelo grande socorro cuja esquadra que o trouxe já era avistada ao entrar na cidade de São Salvador, ancorada em seus portos.

Matias foi diretamente ao palácio do Governo-Geral para se encontrar e se reunir com estes três mil soldados recém-chegados. Lembrando-se que exército holandês aproximava-se a cada dia. E, ao chegar no palácio do governo de São Salvador, lá estavam muitos dos cidadãos pernambucanos que, tendo chegando antes, esperavam a chegada do capitão-mor. O semblante taciturno dos homens e os prantos das mulheres já anunciavam que algo terrível estava para acontecer. Algo que o capitão-mor nunca poderia imaginar! Pois lá estava o Governador-Geral, representante do Rei Filipe neste continente, já esperando sua chegada. Mas não com braços abertos e sim com mosquetes apontados para sua cabeça.

Matias deteve o passo, surpreso, tentando entender o que estava acontecendo. E foi o próprio Governador-Geral quem explicou a razão desta maligna recepção.

– Eu tenho terríveis noticias, Matias – disse o Governador-Geral. – Novas ordens de El Rey chegaram até mim. Sua Majestade decretou a ordem para sua prisão e solicita seu retorno a Europa imediatamente. Estes homens o levarão como prisioneiro ao Reino onde será julgado pelos tribunais militares sob a acusação de incompetência e covardia. Eu sinto muito…

– Guardas! Prendam Matias de Albuquerque, o responsável por ‘abandonar’ a capitania de Pernambuco em mãos inimigas!

 

 

 

Rio São Francisco por Frans Post (1612-1680)

 

A Emoção contra Razão

Holandeses

 

6

15 de Agosto de 1635

 

– Quero todos mortos. Sejam soldados que causaram isso, sejam moradores que deixaram nossos homens sem a dignidade de um enterro! – O coronel Von Sckoppe mal conseguiu conter os olhos umedecidos pela indignação e pelo ódio que gerou esse cruel e tirano édito. Era um ódio abastecido pela visão à sua frente. Era um ódio abastecido toda vez que fitava a cabeça degolada do seu bom amigo Calabar, exposta num pedaço de pau, já inchada e enegrecida, quase irreconhecível pelos três dias em que ficara ali, apodrecendo, à vista de todos.

Não demorou para encontrar a viúva do amigo, Bárbara. A tristeza era ainda mais arrebatadora. As lágrimas, mais abundantes enquanto o pequeno Sigismud Calabar, de um ano de idade, agarrava-se à perna da mãe. Tinha os mesmos olhos vermelhos e úmidos. Parecia já ser capaz de entender o sofrimento ao seu redor, o sofrimento pela perda do pai. Uma lástima e um ódio que levaria pelo resto da vida. Era uma triste visão que aumentava o mau sentimento no peito de Von Sckoppe.

O coronel tratou de dar sepultura ao amigo. Colocou num caixão seus quartos e cabeça. Mandou pôr os soldados em ala. E, acompanhado de toda a gente de guerra com cerimônias de tristeza e sentimento que na milícia se costumam, o fez enterrar na igreja, na presença das pesadas lágrimas da mãe do morto Ângela, da viúva Bárbara e do filho órfão Sigismund. Ordenou a toda sua companhia de guerra que disparassem ao alto três grandes surriadas de mosquetaria.

E assim Domingos Calabar teve um enterro digno de um herói holandês.

 

***

 

No mesmo dia, à tarde, o primeiro prisioneiro espanhol foi capturado. Na verdade, ele deixou-se ser capturado surgindo dentre a mata da povoação. Era um clérigo da religião católica que solicitava a presença do coronel antes de ser executado pela ordem proferida no dia anterior. O clérigo espanhol nem precisava ter chamado o coronel holandês. Este teria ido ao seu encontro de qualquer jeito. Desejava expiar sua indignação e raiva em alguém. Não foi a toa que recebeu o clérigo com nervos a flor da pele numa das casas abandonadas que tomou como temporária moradia.

– É muita coragem sua vir aqui, padre! Com que intento entra nessa povoação Não soube que proferi ordens para matar todos os espanhóis que fossem encontrados!

Os irados semblantes holandeses de Von Sckoppe caíram sobre o clérigo. Este, embora notoriamente temeroso, tomou a palavra.

– Meu nome é frei Manuel Calado. Eu venho até aqui obrigado pela caridade e zelo do serviço de Deus. Venho para pedir a vossa senhoria nada mais que misericórdia.

– Misericórdia?

– Sim, meu senhor. Peço misericórdia ao povo desta povoação. Os moradores que escondem-se no mato assustados com a vossa ordem e que para cá desejam voltar.

O frei aguardava a compreensão do coronel. Tinha dentro de si a esperança de salvar os moradores e a si próprio caso conseguisse instigar nele alguma piedade e comiseração. No entanto, a resposta do coronel holandês foi bem diferente do que o clérigo esperava.

– Maldito seja seu povo de animais e bárbaros, padre! Todos mereceram morrer! E lhe estou incluindo nessa conta!

A voz do coronel exaltava-se. Tomou um fôlego apenas para que o ódio fornecesse mais ânimo perverso em si. Continuou a descrever sua dura pena.

– Merecem todos serem feitos de exemplo por ajudarem a Matias de Albuquerque a ganhar nossas fortalezas, matar nossos soldados e pelo agravo de enforcar Calabar, deixando-o seus quartos e cabeça dependurados!

O frei, um tanto confuso e sobressaltado com tão dura resposta, considerou que morrendo pelo serviço de Deus e proveito dos próximos, fazia o que devia como bom cristão. Tomou algum alento e lhe respondeu.

– Meu senhor, pouca culpa têm os súditos do que ordena seu Rei e o Senhor que os governa. Se Matias de Albuquerque fez a vossas senhorias algum agravo, vossas senhorias têm gente de guerra e cabedal para tomarem dele cruel vingança. No entanto, os moradores que aqui ficaram, se quisessem ir com ele, poderiam tê-lo feito e o farão se virem-se perseguidos. Porém, se esses moradores aqui ficaram é certo que querem viver na companhia de seus novos senhores holandeses.

Tudo isso o coronel lhe ouviu com carrancudo semblante. Em nada pareceu ter modificado sua posição. E assim logo deu a ordem.

– Levem esse padre embora daqui – o coronel falou aos seus soldados. – Coloquem-no nos calabouços que improvisamos. Amanhã executaremos sua pena!

O padre estremeceu ao ouvir esta sentença. O suor desceu pela fronte. As pernas perderam a força. Sentiu os braços serem detidos pelos dois soldados que estavam atrás dele. Voltou a ser carregado com a mesma brutalidade de antes. E, percebendo o vil destino que o aguardava, ainda tentou lançar novos argumentos para convencer o coronel.

– Se vossas senhorias pretendem viver nesta terra e conservá-la é impossível o poderem fazê-lo sem os moradores que sabem plantar os mantimentos, beneficiar os canaviais, fazer açúcar e criar gado – o padre berrava desesperado.

Era inútil. Continuou a ser carregado. Não obstante disso, mantinha os argumentos na busca por comiseração.

– Tomem conselho e suspendam a rigorosa sentença que tem publicado, e dêem-se bem com os moradores, e tratem com eles, com amor e brandura, pois eles se oferecem de boa-vontade e estão à sua obediência – a tentativa mantinhase sem resposta. – Eu mesmo posso chamá-los aqui para conversar com vossas senhorias se quiserem…

Enfim as palavras do padre interromperam-se ao atravessar a porta de saída e ao ser levado além dos corredores do aposento onde ficou o coronel. A sua voz já não mais o alcançava. Era inútil continuar. Já em silêncio, foi arremessado na câmara que lhe serviu de prisão. Julgou-se por morto. Era possível agora à ele apenas rezar para que Deus iluminasse o julgamento do coronel. Durante o resto da noite, tratou de fazer seus atos de contrição e pedir a Deus perdão de seus pecados com todo o coração.

No dia seguinte, já depois do meio dia, o Coronel Von Sckoppe entrou no aposento. Vinha acompanhado do coronel d’Artischau que acabara de chegar na povoação e do almirante Lichtaart. Um momento tenso atravessou gélido pela garganta do frei Manuel Calado enquanto este esperava sua sentença ser proferida. E, ao fim deste interminável momento, a voz do coronel ecoou por toda mal-iluminada câmara. Esta voz trouxe uma decidida resolução cujo coronel ponderou por toda noite. As suas palavras proferidas nesta manhã foram: – Es Goede Vriend.

O coronel Von Sckoppe estendeu a mão saudosamente para o frei num ato que concordava com suas palavras, que no idioma holandês que dizer: – ‘Bom Amigo.’

 

***

 

Nas margens do Capibaribe, nos arredores das ruínas do Forte Real de Bom Jesus, o Major Charles de Toulon realizava a missão a que fora incumbido. Era seu dever tanto catalogar os engenhos de toda a região quanto entregar os passaportes e salvo-condutos aos habitantes que desejassem prestar fidelidade à bandeira holandesa. O major Toulon cavalgava na companhia do conselheiro Jacob Stachouwer e de Fernandes Vieira, o espanhol que este conselheiro tomou por ajudante.

– Então, Vieira? Qual o próximo engenho? – Toulon perguntou com claros sinais de cansaço na voz.

Muitos foram os engenhos visitados neste dia. E ainda faltavam muitos outros a serem visitados. Era um trabalho burocrático do tipo que Toulon odiava fazer. No entanto, o dever obrigava-o a escutar as tediosas descrições quanto ao nome da propriedade, do proprietário, das condições e tudo o mais que já não suportava ouvir. Desta forma, Fernandes Vieira relatava as informações deste engenho pela qual os três homem cavalgavam pelos portões.

– Este engenho chama-se: ‘Casa Forte’. A proprietária chama-se ‘Ana Paes’.

No entanto, mal começou a descrição, Vieira foi interrompido. Toulon não pôde deixar de comentar quando ouviu o nome da proprietária. Logo interferiu com notória incredulidade na voz e sarcasmo no pensamento

– Proprietária? Quer dizer uma mulher?

– Sim, senhor Toulon. Uma mulher. A dona Ana Paes assumiu o engenho após a morte de seu pai e de seu esposo por armas holandesas. E, embora tenha um irmão homem, depois que Olinda foi conquistada, este abandonou sua herança, fugindo para São Salvador. Desde então, esta mulher vem administrando o engenho sozinha.

O major Toulon deixou escapar uma risada, ironizando a situação.

– Posso até imaginar o estado que está este engenho. Uma mulher administrando? Deve ser um desastre!

– Devo dizer que a verdade é bem outra, senhor Toulon. O engenho Casa Forte é um dos melhores desta terra.

Como os três cavaleiros já aproximavam-se da casa-grande do engenho, onde já era possível observar também as senzalas dos escravos e as construções para a produção do açúcar. Era para estas últimas que Vieira apontava.

– Veja aquela moenda.

Ali estava uma grande estrutura circular de madeira, cuja estrutura movimentava-se através de um pequeno riacho de águas escavado na terra. Quando os olhos de Toulon acertaram em cheio a estrutura, Fernandes Vieira continuou suas descritivas palavras.

– É movida à água, diferente da maioria que vimos à tração animal. Isso não é algo de baixo custo. Além disso, o número de caldeiras para a produção de garapa que dispõem-se aqui é impressionante. E todos os armazéns ali, acredite ou não, são apenas para as formas de purgar escória e refinar o açúcar branco. Como pode ver, é um engenho de alto nível.

– Devo dizer que estou surpreso – disse Toulon já convencido da qualidade do engenho.

– Poucas propriedades possuem tantos recursos e tamanha produção de caixas de açúcar por ano quanto este.

– Mal posso esperar para conhecer essa ‘senhora’ de engenho. – Um sorriso surgiu na face do major.

Fernandes Vieira retornou o sorriso.

– Isso acontecerá agora mesmo. A dona Ana Paes está logo ali.

Os olhos de Toulon seguiram a direção apontada por Vieira. Caíram sobre um grupo de pessoas que estavam defronte à casa-grande. Esta construção central detinha dois andares de altura, cuja entrada principal ficava no andar superior onde duas escadas laterais convergiam-se até lá. No entanto, algo chamou sua atenção acima de tudo. Uma visão inacreditável enevoou a mente do major. Uma imagem que tragou toda sua atenção.

Nunca Toulon vira uma tão bela mulher em toda sua vida quanto a jovem dama, detentora de pouco mais de vinte anos de idade, que estava na sua frente. Ele tomou a palavra assim que estava próximo o bastante dela.

– Dona Ana Paes. Soube que a senhorita é a dona deste engenho.

– Sim, major Toulon – a jovem dama inclinou o corpo em respeito.

O major era incapaz de tirar os olhos da sua alva face, levemente dourada pelo sol, com cabelos castanhos, escuros e lisos, cujos ventos davam um majestoso movimento. Nem nos olhos verdes, mais intensos que a mata ao redor e mais profundos que a imensidão dos oceanos. Muitos menos nos belos lábios cheios e sedutores que o hipnotizaram desde o momento que Ana Paes começou a movê-los. Não foi de imediato que Toulon proferiu uma palavra. Segundos passaram num piscar de olhos até que enfim o conseguir.

– Estou realmente impressionado – Toulon falou ao descer de sua montaria. – Este é um magnífico engenho. Um dos melhores que avaliei desde que cheguei aqui.

– Obrigado, senhor – Ana Paes respondeu.

Os passos do major Toulon procederam até a jovem mulher. Continuaram incessantes até que o franco-holandês estivesse em sua lateral.

– No entanto, devo admitir que estou ainda mais impressionado com a senhora dele –  Toulon manteve o caminhar até chegar em suas costas quando então proferiu. – É muito jovem e bela para tamanha obra.

Toulon, ainda caminhando atrás de Ana Paes, falou observando bem o encorpado quadril da bela dona de engenho logo abaixo de sua delgada cintura. Esta silhueta particularmente chamou sua atenção.

– Obrigado… Obrigado, senhor – a dama falou hesitante, sem saber como responder este elogio. – Minha vida é o Engenho Casa Forte. É a minha própria alma. E, se está em boas condições, é por causa do amor que eu tenho por ele.

O major, retornando de seu percurso, surgiu pela sua outra lateral novamente aos olhos de Ana Paes. Ele caminhava na direção de Stachouwer e do seu ajudante Vieira. E, de costas para Ana Paes, resolveu atiçar esta mulher.

– Deve ser um amor muito bom para mantê-lo assim.

Um sorriso, tão malicioso quanto suas palavras, surgiu na face de Toulon. Como o major estava de costas, Ana Paes não o viu diretamente. Mas percebeu-o refletir no conselheiro que não conteve outro igual sorriso.

Ana Paes compreendeu bem a malícia nas palavras de Toulon. Preferiu ignorar. Tinha uma maior preocupação em mente. Uma preocupação que voltou a expor.

– Apenas peço ao senhor major que tenha compaixão com minha pessoa. Estou disposta a ser uma fiel súdita das Províncias da Holanda se os senhores deixarem-me continuar tomando conta deste meu engenho.

A súplica da senhora de engenho pareceu ter um efeito contrário do que ela esperava. A resposta de Toulon foi especialmente dolorosa para ela.

– Na verdade, dona Ana Paes, estou tão impressionado com este engenho que pensei em ficar com ele para mim. Conhecer um pouco da vida provinciana deste continente.

A pálpebra de Ana Paes latejou. O canto do lábio estremeceu. O punho se fechou. Mas nada podia fazer. Estava a mercê dos conquistadores holandeses. Fez de tudo para conter o instinto violento de proteção que tomava conta de sua mente. Não satisfeito com o silêncio da jovem mulher, já volvendo-se de frente para ela, Toulon voltou a falar com tons desafiadores e maliciosos.

– E, se uma noite com o grande amor da dona deste engenho vier inclusa na compra, pode ter certeza que eu o levarei!

A mão aberta da jovem mulher cortou o vento. Atravessou o ar de encontro com a face do major. O som do tapa ecoou pelos canaviais que desapareciam na paisagem.

– Este é o meu engenho! – Ana Paes berrava enquanto a face de Toulon corava. – E apenas morta deixarei alguém tomá-lo de mim. E, quanto à sua proposta, seu crápula, nem mesmo morta eu passaria uma noite contigo!

Os dedos de Toulon logo massagearam a tez ruborizada de sua face. Mesmo acostumado com dores piores era notório que o golpe deixou-a bem dolorida. No entanto, o sorriso travesso não deixou a face do major. Este sorriso provocava-a ainda mais.

– Do que está rindo, seu cínico! – Ela gritou.

– Não estou rindo de nada, minha jovem – Toulon colocava os punhos em defesa de seu rosto, ao mesmo tempo protegendo-se de um novo ataque e divertindo-se com a situação. – A verdade, se me permite dizer, é que sempre gostei das minhas mulheres bem briguentas.

Estas palavras do major fizeram Ana Paes praguejar.

– Isto não tem graça, seu idiota, crápula.

– Calma! Calma! – Ainda sorrindo, ele defendia o rosto novamente. – Pode ficar com seu engenho. Não tenho a intenção de lhe causar mal algum. E, com toda essa sua valentia, muito menos teria coragem de enfrentá-la outra vez.

O major estendeu a mão aberta para o conselheiro Stachouwer. Este logo colocou entre seus dedos alguns papéis trazidos na bolsa que tinha a tiracolo.

– Aqui estão os passaportes e os salvo-condutos para todos no seu engenho. Agora é oficial. O Engenho Casa Forte faz parte das terras holandesas. Considere um presente meu para sua pessoa.

O sorriso do major alargou-se.

– Seja bem-vinda à Nova Holanda!

Mesmo ouvindo estas palavras que tanto buscava, a face da dona do engenho continuou endurecida. Apenas disse:

– Eu não esperava menos, major Toulon. E não espere um ‘obrigado ‘ de minha pessoa. Mas, se o senhor quiser me deixar realmente agradecida, apenas lhe peço que nunca mais cruze o meu caminho novamente.

A resposta de Toulon não poderia ser mais provocante.

– Infelizmente, isso não poderei prometer, minha jovem. Sinto que, depois de hoje, ainda nos encontraremos muitas outras vezes.

Ouvindo esta resposta, Ana Paes suspirou desapontamento. Mas não se dignificou a responder.

Apenas virou de costas em direção à casa-grande.

 

***

 

O major Toulon assistiu assiduamente cada passo da moça através da escadaria que a levava às portas principais de sua morada até ela desaparecer em seu interior. Ele enfim voltou aos seus companheiros, dizendo-lhes:

– Terminamos por aqui. Vamos para o próximo engenho agora.

E assim os três homens partiram em suas montarias, tomando o caminho de saída do engenho Casa Forte. Não sem antes o major escutar a crítica do conselheiro Stachouwer com relação a atitude da jovem dona de engenho.

– Essa moça terá que aprender a respeitar seus novos senhores. Esse tipo de comportamento é inadmissível.

– Ela aprenderá, conselheiro – Toulon logo o respondeu.

Não sem que Fernandes Vieira pudesse conter sua observação com o que já conhecia da moça.

– Não sei quanto a isso, major Toulon – Vieira inferiu. – O temperamento da dona Ana Paes é bem conhecido nessa região. Só espero que o senhor não tenha ficado muito ofendido por tamanho desrespeito.

Estas palavras fizeram um suspiro contestador romper a respiração do major Toulon enquanto este continuava a massagear a corada e dolorida face. Estava certamente admirado pela atitude daquela mulher. Mas sabia também que havia algo mais. Sentiu como que um diferente sentimento estive subindo de seu peito até sua garganta. O coração parecia ter acelerado. Um desejo causava confusão em sua cabeça. Lembrou-se da palavras que ouviu, meses atrás, tanto de Amália quanto de sua negra preferida. Perguntou-se se era esta a sensação da qual ambas falavam. E, com esta sensação lhe apertando o peito, proferiu as seguintes palavras.

– Ofendido? – Toulon sorria discretamente agora. – Bem diferente disso, Vieira. Acredito que, pela primeira vez em minha vida, eu estou apaixonado.

 

 

 

 

 

Continua em…

 

 

 

 

Cerco à Salvador

 

No meio das esquadras belicosas,

Ao som das celebrinas e roqueiras,

Entre o estrondo das armas sanguinosas,

E o arvorear-nos as bandeiras,

Ao ressonar das caixas clamorosas,

Entre o render e defender trincheiras,

Furtei, ao corpo aflito, seu sossego

Por fazer nesta empresa largo emprego.

                – Frei Manuel Calado (1584-1654)

 

 

 

 

 

Rio São Francisco por Johannes Vingboons (1617-1670)

 

 

Epílogo

Holandeses

 

 

30 de Novembro de 1635

 

Pouco depois da conquista completa de Pernambuco, o navio Alkmaar chegou carregado com víveres. O capitão do mesmo navio trouxe também a notícia que dezenas de navios espanhóis estavam fundeados na Espanha, cheios de soldados, que se destinavam ao Novo Mundo. Enfim, exatos três meses depois, surgindo no horizonte, avistou-se do Porto do Recife mais de trinta navios de guerra espanhóis. Estes fundearam na Ponta do Jaraguá, próximo à povoação de Alagoas, poucas léguas ao sul de Porto Calvo, onde desembarcaram três mil homens. Demorariam mais de um mês para descansar da longa viagem.

Quando enfim colocaram-se em marcha, doze dias após o romper do novo ano, isso obrigou o coronel Von Sckoppe a abandonar a povoação de Porto Calvo, recuando à praça defendida pelo coronel d’Artischau na praia de Paripueira.

– O inimigo começou a marchar? – D’Artischau perguntou assim que o encontrou o outro coronel.

– Sim – Von Sckoppe respondeu. – O capitão espanhol Rebelinho quase me pegou de surpresa em Porto Calvo, tomando os caminhos principais e assassinando muitos dos nossos soldados. Até capturou meu secretário… E quase me capturou também.

– Graças a Deus! Então foi por pouco?

– Por muito pouco – Von Sckoppe respirava aliviado. – Mas ainda consegui evacuar a povoação a tempo. Os moradores de Porto Calvo já estão em Serinhaém.

– Ótimo – o outro coronel respondeu.

– E como foi em Paripueira, d’Artischau? Também conseguiu evacuar essa área?

– Fiz o possível para evacuar os engenhos nas dez léguas entre Porto Calvo e Paripueira. Ainda executei muitos desertores que maquinavam secretamente com o inimigo e matavam nossos soldados, tanto à traição nas casas, quanto abertamente no mato. Também interceptei muitas cartas que os padres e negros levavam de um lado para outro, mantendo a correspondência com o inimigo. Todos foram executados.

O coronel Von Sckoppe balançou a cabeça negativamente. Muito embora não estivesse nem um pouco surpreso em ouvir estes relatos.

– Não se pode confiar mesmo nesses espanhóis – indignava-se.

– Já avisei às nossas patrulhas que o prazo para a retirada acabou. Se encontrarem qualquer espanhol ou português, podem meter bala! Sem exceção!

A indignação do coronel tornava-se ódio. Diferente de Von Sckoppe, mantendo seu eternamente calmo semblante, d’Artischau mudava o tema da conversa para problemas ainda mais correntes.

– E agora? Qual o plano?

– O plano agora é confrontar o inimigo – Von Sckoppe respondeu. – Eu soube que Albuquerque foi demitido do cargo. Os espanhóis tem agora um novo comandante que marcha à olhos vistos e deseja combater em campo aberto.

– Ótimo. Isso trará novos ares à esta guerra. Não suportava mais essa maldita guerra de emboscada. Agora veremos quem é realmente o melhor.

– Sim. E nós venceremos! – Von Sckoppe assentou.

– Temos que vencer – d’Artischau reafirmou. – Principalmente, depois da carta que chegou no Porto do Recife alguns dias atrás, vinda da Holanda e assinada pelos Dezenove Diretores. Recebi-a hoje mesmo do commandeur Lichtaart.

– Que carta?

Os olhos de Von Sckoppe foram tomados pela surpresa.

– Veja por si mesmo – disse d’Artischau estendendo a mão que segurava o documento.

O coronel Von Sckoppe tomou-a para si. Iniciou a leitura. O grau de importância desta carta era logo perceptível pela forma como os olhos do coronel fitavam as palavras escritas ali. Ele nem conseguia acreditar em seu conteúdo. E, ao fim das suas palavras, proferiu:

– É uma pena que Calabar não esteja mais conosco. Este era seu sonho – Von Sckoppe lamentava-se. – Era seu maior desejo ver Pernambuco deixar de ser uma colônia explorada pela Espanha para se tornar uma província holandesa. Uma zona de livre comércio. Um principado independente. Uma verdadeira Pátria.

Os olhos do coronel fitaram em seguida o oceano no horizonte. Isso porque a carta anunciava a chegada de um homem nestas terras. Um homem que mudaria, não apenas os rumos desta dolorosa guerra, mas também toda a história da capitania de Pernambuco.

– Gostaria muito que Calabar estivesse aqui para ver sua terra-natal possuir seu próprio príncipe regente: ‘O Príncipe de Nassau’.

 

 

Epílogo

Nobreza

 

 

21 de Janeiro de 1636

 

Alguns meses depois da recepção em Évora, o Duque de Bragança e sua esposa estavam sentados numa mesa quadrangular. Em pé, ao lado do arcebispo Rodrigo da Cunha, o bom amigo Antônio Mascarenhas relatava os recentes eventos ocorridos em Madrid. Não apenas ao casal de Bragança como também a outros dois outros homens sentados na mesma mesa.

– O Conde-Duque de Olivares só pode ter enlouquecido! – Mascarenhas proferiu para os convidados na mesa. –  Depois de coroar uma Duquesa espanhola como Vice-Rainha de Portugal, os impostos aumentaram outra vez. É um Absurdo! Vozes de insatisfação estão ecoando não apenas entre as massas mas também por toda a nobreza.

– A insatisfação é geral! – Bradou o arcebispo Rodrigo da Cunha – Todos clamam João de Bragança para ser seu novo Rei, como Vossa Excelencia mesmo pôde presenciar nas celebrações de Évora .

Ouvindo estes ânimos, o Duque de Bragança logo tentou admoestar.

– Já falei sobre isso com Mascarenhas. É arriscado demais!

– Nós sabemos disso, João. Por isso, trouxemos estes dois homens para lhe convencer do contrário.

A mão de Mascarenhas se estendeu para o nobre ancião ao lado. Era Antão de Almada, bem conhecido por todos na corte. É o Senhor de Lagares e Pombalinho. Poucos gozam de igual prestígio entre os nobres do Reino quanto ele.

O ancião complementou.

– E eu lhe garanto, Dom João, que todos os marqueses, condes e senhores de Portugal estarão ao seu lado.

O outro homem era Jorge de Melo. Um Experimentado navegador que, sob o comando de Fadrique de Toledo, expulsou os holandeses de São Salvador anos atrás e agora era o General das Galés de Portugal.

O general também complementou.

– E devo dizer que não sou o único general português do lado de Vossa Excelência. Há muitos outros se unindo à esta honrosa causa.

O Duque de Bragança engoliu seco. Era claro que a situação o deixou desconfortável. A sua primeira reação foi se esquivar da responsabilidade.

– Os riscos são enormes, não podemos dar chance para o erro – falou hesitante.

– Vossa Excelência precisa aceitar! – o arcebispo o admoestou. – Precisa aceitar o reino que lhe damos, pois lhe pertence. Ou ceda do direito que tem nele, que chamaremos seu irmão, Dom Eduardo.

Os olhos do arcebispo cerraram fortemente em Dom João.

– E, mesmo que nenhuma de Vossas Excelências o queira aceitar, entregaremos a qualquer outro na mesma linha de sucessão, como o príncipe de Sabóia. No entanto, lhe digo com toda certeza: Esta revolução há de acontecer!

João quase engasgou na própria saliva com a proclamação. Ao contrário do que desejava o arcebispo, a incerteza em sua face aumentou. A sua esposa, por outro lado não alimentava as mesmas dúvidas. Respondeu sem pestanejar.

– Meu amado esposo, o Duque de Bragança, aceita a proposta!

O medo transpareceu mais evidente na face de Dom João.

– Tem certeza disso, Luísa? – ele tartamudeou. – Devo lembrar do que estaremos arriscando?

Outra vez, contrastando a incerteza do esposo, Luísa de Gusmão proferiu a frase que selaria o futuro dela e do esposo.

– Meu amado João, eu prefiro morrer governando como Rainha por um único dia do que servindo como Duquesa por uma vida inteira.

Epílogo

Brasilianos

 

 

14 de Fevereiro de 1636

 

– Eu fui traído – disse Matias de Albuquerque atrás das barras metálicas de sua cela. – Traído por homens em quem tanto confiei. Traído pelo Rei Filipe. Após vinte anos lutando sob seu nome com todo meu ardor. Após ter sido fiel todos esses anos ao juramento que prestei à Sua Majestade. Após tudo o que eu perdi para defender suas terras. Companheiros de batalha. As terras herdadas do meu querido pai. A cidade fundada por meu avô. Meu lar. Tudo o que já amei. Eu perdi tudo.

As lágrimas desciam da face Matias com tal relato. As sombras tomavam seu rosto por completo. O seu corpo estava abatido. Não parecia ter forças nem para se levantar. Ele mantinha a face voltada para o chão. A vergonha parecia o impedir de olhar nos olhos do homem do outro lado das barras metálicas que faziam-no prisioneiro. Este homem, que escutava as palavras de Matias, era o grande herói chamado André Vidal de Negreiros. Um nome que combateu, sob o comando de Matias de Albuquerque, na primeira invasão holandesa há dez anos atrás.

Quando Matias conheceu André Vidal, ele detinha apenas dezoito anos de idade e a vontade de lutar por sua terra-natal. Um recruta recém ingressado no exército pernambucano com o único intuito de expulsar os holandeses. E assim eles conseguiram àquela época. Matias lembrava que André detinha um furor enorme como o furor que o próprio Matias possuía quando ingressou nos exércitos do Rei Filipe há quase de duas décadas atrás.

Agora, André Vidal, com cerca de trinta anos de idade, ainda exalava os invejáveis ares de juventude com seus longos cabelos negros caindo sobre os ombros e o rosto bem aparentado imberbe. As suas palavras ainda possuíam o mesmo furor do dia que Matias o conheceu. Mas os olhos experientes e detentores de sabedoria contradiziam sua jovem face. Frutos da época em que lutou sob a liderança de Matias e dos seus oito anos de estudo na Europa. Uma combinação rara e muito preciosa à causa da Resistência. Este logo respondeu seu capitão-mor.

– É inacreditável que, mesmo após ter lutado tanto por seu nome, El Rey Filipe lhe aprisionou nos sombrios calabouços reais, colocando um qualquer em seu lugar que nada sabe sobre nossa capitania e ainda mais acusando-o de ‘deixar’ as terras pernambucanas serem conquistadas. Logo o senhor, quem mais lutou por esta bela capitania!

– Foi Deus que colocou o bom Rei Filipe à frente de nossa coroa. Não podemos questionar sua opinião – Matias falou, em seguida mudou por completo o conteúdo da conversa. – Mas pergunto, André, trouxe o que eu pedi?

– Sim – afirmou André Vidal enquanto lhe entregava um longo caixote de madeira. – O seu irmão Duarte enviou-o das terras do Novo Mundo. Não o abri conforme o senhor me solicitou.

Matias tomou o caixote das mãos de André, removendo as amarras que o fechavam e abrindo-o por completo. Dentro do caixote, estava a espada que Matias herdou do pai e que vinha sendo passada através de incontáveis gerações na família Albuquerque. Em seguida, retomou.

– Quero que fique com esta espada, André. Eu não tenho filhos próprios. Mas vossa mercê sempre foi tudo o que eu esperaria de um herdeiro. Ainda mais agora que quero que a empunhe na luta contra os vis holandeses!

Matias olhava com cuidado a espada sagrada da família Albuquerque como que pela última vez. E entregou-a ao jovem André Vidal.

– Não tenho palavras para agradecer tal honra, capitão-mor. Mas deixe que minhas ações retribuam tal presente. Pois prometo que não deixarei um único grão de nossas terra em mãos inimigas!

– Nunca esperei menos. E confio que honrará sua palavra e esta boa espada. Mas entenda, André, que Rio Grande, Paraíba, Itamaracá, Pernambuco e Alagoas foram conquistadas pelos inimigos. E o inimigo avança sobre São Salvador, a capital do Novo Mundo. O centro econômico e político de nossas terras.

– Entenda, meu caro André Vidal, que não mais lutará apenas por Pernambuco. Lutará por todo este continente.