O romance a seguir escrito por Pedro Cavalcanti narra os eventos ocorridos entre os anos de 1621 à 1628 em especial o período de um ano em que os holandeses invadiram e conquistaram a Bahia de Todos os Santos. A leitura pode ser dividida em três narrativas que contam o ponto de vista dos Holandeses, dos Brasileiros e dos Europeus com histórias que se enlaçam num emaranhado de atos de coragem, intriga e amor.

Parte I

 

Estaleiro da Companhia das Indias Orientais por Joseph Mulder (1658-1718)

 

 

A Companhia das Índias Ocidentais

–Holandeses–

 Capítulo 1

 

3 de Junho de 1621

A cidade de Amsterdã estava num período de vibrante otimismo e incontrolável ebulição, evidenciado em primeira mão pelo homem de cabelos castanhos claros e encaracolados que caíam ao ombro. Sua alva tez e olhos anis revelavam origem holandesa. Era bem apessoado e suas vestes condiziam com o título de nobreza que carregava. Era o Senhor de Horst e Persch, que detinha um prestígio herdado de seu finado pai, antigo governador de Zutphen, Lochen e Groenlo. Não era por menos que vestia roupas de algodão tingido em marrom-avermelhado que ressaltava sua nobreza pelos detalhes em bordado e cetim.

Este homem se chamava Johan van Dorth. Ele caminhava por um largo salão cujo barulho de gritos enlouquecidos e de papéis sendo embaralhados era ensurdecedor. Estava na recém-fundada Bolsa de Valores de Amsterdã, a primeira e única do mundo até aquele momento. Era um local de comércio, onde homens poderiam enriquecer em questão de minutos, da mesma forma que poderiam ser arruinados ainda mais rapidamente.

O cenário ao redor era caótico. Dezenas de pessoas anunciavam mercadorias que nem sequer existiam. Eram futuras plantações de arroz e trigo, cuja colheita só ocorreria meses a frente. Eram mercadorias vindas do oriente, cujo retorno das embarcações só ocorreria no próximo ano. Eram as valiosas tulipas que demoravam anos para florescer. Era um cenário caótico, com certeza, mas de uma forma inacreditavelmente organizada, com cada grito gerando as mais variadas reações na multidão.

– Venham todos! Estou vendendo papéis que garantem cem bulbos de tulipa até o fim do ano – muitos correram para comprar.

– Após dez meses, os navios chegaram do oriente com quatro vezes mais mercadorias que o esperado. Lucro de quatrocentos por cento! – seguiram os brados de alegria.

– Os campos de tomate de Jülich foram destruídos pela guerra! – fez muitos homens desesperados rasgarem seus papéis agora sem valor.

Nada neste cenário importava para Van Dorth. Ele atravessou o salão ignorando toda a barulheira. Não estava ali para vender ou comprar promessas de mercadorias. Estava ali para uma importante reunião. Por isso, tomou o caminho mais próximo até um escritório nos fundos do local.

Ao entrar, cumprimentou seu anfitrião.

– Senhor Usselincx!

Era um homem de cavanhaque grisalho, vestido num casaco negro sem grandes detalhes, sobre uma blusa branca de gola amarrotada. Tinha pequena estatura, talvez nem chegasse à altura dos ombros do Senhor de Horst e Persch, mas tinha os olhos cheios de asseveração.

– Senhor Van Dorth – este retornou o cumprimento.

O encontro destes dois homens era a própria representação dos novos tempos em Amsterdã. Usselincx não tinha título de nobreza, nem nasceu numa família abastada. Ele ascendeu na sociedade holandesa através do seu trabalho duro, acumulando fortuna e ganhando respeito como comerciante e diplomata. Era um empreendedor. Não conseguia deixar seu dinheiro parado tempo o bastante para que pudesse usufruir dele. Estava sempre realizando algum novo investimento.

Van Dorth, esse sim, herdou a fidalguia de seu pai e adquiriu o Senhorio de Horst e Persch através do casamento. Era da baixa nobreza. No entanto, se cem anos atrás, isso o colocaria muito acima de plebeus como Usselincx, nos tempos atuais, era o velho burguês quem detinha o poder para aumentar sua reputação. Eram os tempos de uma república, não de uma monarquia. Eram tempos dos grandes investimentos privados, não dos patrocínios reais.

– Vejo que recebeu minha carta – o velho empreendedor quem primero inferiu, observando o documento na mão do convidado.

– Sim, recebi – disse Van dorth. – E fiquei muito curioso com a criação desta nova Companhia.

– Quem não ficaria? Ainda mais com a Companhia das Índias Orientais nos proporcionando tantos lucros nos últimos anos.

Usselincx estendeu a mão na direção da cadeira, convidando o jovem fidalgo a se sentar. Este assim o fez.

– Felizmente, o fim da Trégua com a Espanha torna o momento propício para uma nova empresa – o velho burguês continuou. – Temos toda a América e África como alvos. Riquezas incontáveis prontas para serem conquistadas.

Van Dorth logo retrucou.

– Sua carta nada diz sobre quem financiará tudo isso. Meus contatos no palácio do governo não escutaram nenhuma menção do Stadtholder sobre o assunto.

Eram palavras esperadas aos velhos tempos, afinal, o Stadtholder era o líder militar da República Holandesa. Era o mais próximo que tinham de um rei. Tinha o mais alto título de nobreza e as forças armadas em suas mãos. A resposta, no entanto, era mais condizente com os tempos atuais.

– Ora, meu caro Van Dorth, nosso grupo de Dezenove Diretores o fará com recursos próprios.

– Recursos próprios? – Van Dorth arregalou os olhos. – Nunca imaginei que o Senhor e seus amigos tivessem tanto dinheiro!

Usselincx sorriu.

– Vejo que nunca comprou um bulbo de tulipa.

– Tulipas são só flores bonitas. – Van Dorth revirou os olhos.

– Elas vendem esperança, meu caro Van Dorth! – O velho negociante alargou o sorriso. – Um bulbo demora sete anos para florescer e custa muito pouco, mas valem cem vezes mais quando florescem. Às vezes, até mil vezes o custo inicial se apresentarem alguma coloração única. Houve quem já ganhou seis mil florins com uma única e exótica tulipa. E faremos de sua missão nossa mais promissora tulipa para arrecadarmos fundos.

Van Dorth ficou estupefato com as palavras do velho negociante. Um bom terreno nas terras de Horst e Persch não valia sequer essa fortuna de seis mil florins, quanto mais pagar tudo isso numa única tulipa. No entanto, para ele, as loucuras e desvarios da capital eram irrelevantes.

– Não me importo de onde vem o dinheiro, desde que seja bem utilizado – o fidalgo completou.

Usselincx balançou a cabeça afirmativamente.

– Então, aceita minha proposta? – ele mirou os olhos do fidalgo. – Afinal, se hoje as pessoas compram tulipas que nem floresceram ainda, imagina quanto pagarão pelo açúcar que o senhor trará do Novo Mundo.

Neste momento, Van Dorth se levantou. Respondeu os gracejos do velho negociante com as palavras que este tanto desejava escutar.

– Não se preocupe, senhor Usselincx. Farei tudo ao meu alcance para que seu sonho seja colocado em prática. Desejo tanto quanto vossa mercê criar no Novo Mundo um lugar de livre religião e livre comércio, sem censura, nem vícios da sociedade moderna. Fique certo que fundarei uma Nova Holanda.

Usselincx se levantou aliviado. Estendeu a mão na direção do nobre de Horst e Persch. E disse:

– Era tudo o que eu queria ouvir e para esse objetivo lhe entregarei os melhores soldados e marinheiros de toda Holanda! – o burguês por fim completou.

Ambos apertaram as mãos, como quem finaliza uma negociação.

 

***

 

O senhor Usselincx possuía um genuíno desejo de sucesso. No entanto, contrastando suas palavras à Van Dorth, nem todos os escolhidos para a empresa estavam entre os melhores da Holanda. Havia também os que estavam entre os piores, como se constatou alguns dias depois, num asqueroso prostíbulo de Amsterdã. Quem adentrava o imundo e mal iluminado local era o Major Albert Schouten, o líder da infantaria terrestre e segundo em comando no empreendimento ao Novo Mundo, abaixo apenas do próprio Van Dorth.

O Major tinha olhos azuis e pele branca de um holandês, mas suas feições ossudas e angulares eram horríveis. A sua feiura só era aliviada pelo corpo musculoso e pelo caráter austero. Era uma feiura que se acentuou com a face enojada que colocou ao chegar em tal estabelecimento. Tudo ao seu redor era tão horrendo e herético que lhe pareceu arder os olhos. Enfim, suspirou desapontado quando reconheceu seu irmão dividindo a língua entre as bebericadas da sua cerveja e os seios de uma prostituta gorda. Ele hesitou por um momento. Pensou em desistir do seu intento, mas desistir não era uma palavra do seu vocabulário.

– Pelo amor de Deus, Willem!

O Major levantou a voz ao segurar o colarinho do homem inebriado. Puxou-o para perto de si, retirando-o das carícias da imunda prostituta.

– Albert? – O homem exalou uma baforada alcóolica tão entorpecente que quase fez o Major vomitar. – O que faz aqui? Percebeu que sem minha presença, nossos pais descobririam que o filho favorito deles não é tão perfeito?

– Vim porque me preocupo, Willem. Nossa mãe me implorou para que eu o ajudasse a sair dessa vida desregrada.

– Ah! Que lindo! – o inebriado irmão externou seus sentimentos com um notório tom de zombaria e um falso abraço. – Meu grande salvador chegou!

Era notório que Willem se divertia com o embaraço do irmão.

– Por favor, Willem, levante as calças antes de me abraçar!  – O major se afastou do abraço fraterno, ainda mantendo o punho cerrado em seu casaco. – Agora, vamos embora! Esse não é mais o seu lugar!

Então, colocou um punhado de moedas de ouro no balcão encardido do local. Era o bastante para cobrir as dívidas do irmão com o taverneiro.

Em seguida, o arrastou para fora do imundo prostíbulo até o beco do lado de fora, onde arremessou o irmão ao chão. Este tentou se levantar. Foi em vão. Caiu novamente. Desta vez, derrubado pelo próprio estado alcoolizado. Apenas se arrastou para o canto de uma parede, onde apoiou suas costas. Até os cavalos amarrados num tronco próximo rincharam em razão do seu mau-cheiro.

Em plena luz da manhã, horário ao qual Willem já começava a beber, era possível ver a semelhança física entre os dois irmãos. Além de brancos, da cor holandesa, o desregrado irmão também tinha cabelos dourados, quase brancos, e olhos azuis, quase cinzas. A estrutura do rosto tinha o mesmo molde, com queixo quadrangular protruso, órbitas profundas e feições ósseas. No entanto, as semelhanças paravam por aí.

A vida militar de disciplina e treinamento fez de Albert um homem musculoso e de excelente postura. Willem, por outro lado, alcóolatra há anos, embora tivesse a mesma altura do irmão, era franzino com uma proeminente barriga. Estava encardido de meses sem banho, com unhas cheias de sujeira e cabelos oleosos. A pele era pegajosa, coberta de imundície. Para completar, deixou a barba crescer e desgrenhar-se, fazendo-o lembrar mais um mendigo do que alguém que nasceu numa feliz família de camponeses trabalhadores.

– Deplorável!

O major censurou o degenerado irmão.

– Olha só o seu estado, Willem! – continuou. – Só é dois anos mais novo que eu!

Willem sorriu ironicamente.

– Isso só prova o quanto dois anos fazem a diferença na vida de um homem!

Se o semblante de Albert já era de indignação, agora se contraía raivoso com o tom de brincadeira. O major tomou em suas mãos o balde d’água dos cavalos e jogou todo seu conteúdo sobre o alcoolizado irmão.

– Pois trate de fazer esses dois anos valerem – proferiu com ferocidade.

Willem passou a mão pela fronte ensopada e pelos cabelos molhados.

– Maldito seja, Albert! Essa era minha melhor roupa! – gritou ao levantar, apoiando-se na parede onde antes se encostara.

Só podia ser outra brincadeira, pensou Albert. Aquele trapo rasgado e sujo não seria nem a melhor roupa de um pedinte.

– As coisas vão mudar agora, Willem – o Major colocou as mãos no colarinho do irmão, ajudando-o a se levantar e ajeitando-o cuidadosamente. – Estou intervindo em prol de seu futuro. Não mais será uma vergonha para nosso pai e nossa mãe. Não mais será um degredado, meu irmão. Já coloquei seu nome no exército que a nova Companhia das Índias Ocidentais está organizando, e da qual sou líder maior de sua infantaria.

Willlem ouviu, mas a ideia de uma vida militar não lhe agradou nem um pouco. Empurrou o irmão para longe.

– Não preciso de sua ajuda. Não serei um simples soldado sob seu comando.

– Ah, irmãozinho, não imaginas o quanto me preocupo contigo. Nunca faria de ti um soldadozinho qualquer…

Albert se aproximou do irmão. Colocou a mão atrás da sua nuca. Puxou-o pelo pescoço até encostarem testa com testa. Com a voz cheia de um amor fraternal que há muito tempo ambos haviam esquecido, disse palavras que fizeram Willem Schouten pensar, pela primeira vez em anos, no próprio futuro:

– Só haverão cinco capitães na empresa ao Novo Mundo. E tenho certeza que o capitão Willem será aquele quem me trará mais orgulho.

Os olhos de Willem enfim pareciam ansiar algo além do próximo copo de rum.

 

 

Isabel de Bourbon, Rainha da Espanha, por Diego Velasquez (1599-1660)

A Paixão de Sua Majestade

–Ibéricos–

Capítulo 1

 

14 de Agosto de 1621

Uma magnífica cena ocorria nas ruas de Madri, na Espanha. Multidões de homens e mulheres, de cavaleiros e damas, de todas as idades, da mais alta nobreza castelhana, vestidos nas suas mais vistosas roupas, chegavam aos portões centrais de El Alcázar Real, o grande palácio de El Rey Filipe da Espanha. Duzentas. Trezentas. Quinhentas pessoas… Seguiam quase enfileiradas no pátio de entrada, espremidas entre as dezenas de luxuosas carruagens e a sacada assimétrica de torres do ilustre palácio. O clima alegre e festivo trazia júbilo à noite. Era iluminada pela perfeitamente arredondada lua, pelo pontilhado estelar no firmamento e pelos fogos de artifícios que riscavam a escuridão noturna.

Ninguém desejava perder o reinício das festividades que abruptamente se encerraram em agosto quando a então grávida Rainha Isabel entrou em trabalho de parto, mas, para tristeza geral, a criança não sobreviveu. A recém-nascida Margarida morreu no dia seguinte ao seu nascimento. Um infortúnio que entristeceu todo o Reino. Todos assim entenderam a ausência da Rainha no grande salão real neste dia.

O local era preenchido de sedas finas, carpetes vermelhos, paredes folheadas a ouro, estátuas do mais puro mármore e coloridas pinturas dos melhores artistas do reino. Todos já tomavam seus lugares. Eles se deliciavam do imenso banquete montado no centro do salão e seguravam suas taças com o bom vinho espanhol quando um homem surgiu defronte ao trono real. Era Dom Juan de Tassis y Peralta, fidalgo da corte, marquês de Villamediana, poeta, rico, bonito e bon vivant. Distribuía um charme indescritível que fazia as mulheres arfarem e os homens o odiarem com admiração.

Em pé numa postura altiva, começou a dar introdução às festividades. Com a mesma eloquência que realizava suas conquistas amorosas, proferiu frases poéticas de exaltação à Sua Majestade e a todos os reis que o antecederam, todos chamados Filipe: o avô, o pai e agora o filho.

Sete Virtudes que o Céu;
Divididas, partilhou,
A três Filipes entregou.
Para o conforto geral,
Fé e Prudência ao avô;
Caridade e Temperança
Ao piedoso pai, alcança;
E o feliz ciclo recomeça         
Com Justiça e Força;
Que faz comum a Esperança.

Sua Majestade, El Rey Filipe da Espanha surgiu por uma lateral em meio aos aplausos. Emanava seu poder com uma capa vermelha de bordas vilosas brancas, sobre suas roupas negras de detalhes dourados. Era o mais poderoso monarca da Europa. Era o soberano da Espanha, Portugal, Itália e Holanda, assim como da América, África e Ásia, detentor do monopólio comercial de todos os portos orientais e ocidentais.

Tinha apenas dezesseis anos de idade. Era alto, magro, com cabelo acastanhado curto, quase ruivo, sobre seus olhos azuis. No entanto, não era nem um pouco bonito. Era feio de doer à vista. A cabeça grande e quadrada lhe fazia parecer uma daquelas estátuas esculpidas pelos nativos da ilha de Páscoa, só que cheia de espinha e com uma barbinha rala e fina, daquelas que quase todo rapazote inseguro dessa idade teima em cultivar para tentar se sentir mais maduro.

O soberano se sentou no trono real. Todos tomaram caminho na sua direção. Enfileirados, desejavam marcar presença ao monarca. De joelhos, davam os pêsames pela perda da sua pequena filhinha recém-nascida. Um acontecimento que o rei sentiu imensamente, afinal, mesmo na imaturidade de sua adolescência, já começara a se acostumar com a ideia de paternidade e passara a se alegrar em ver a esposa grávida. O rapazote soberano desejou que sua esposa estivesse ali para receber o amor da nobreza castelhana. Poderia aplacar também sua dor, mas ninguém conseguiu fazer a Rainha deixar seus aposentos.

Uma obesa figura lamentava em meio à multidão, logo que viu a cena do rei, sentado, sozinho, sem a companhia da Rainha ao seu lado.

– Estou preocupado com o casamento de El Rey!

Era o Conde-Duque de Olivares. Um homem que chegou à corte quando Sua Majestade tinha apenas dez anos de idade para se tornar seu Camareiro-Mor. Deveria administrar a vida pessoal do futuro rei e ser a figura central na sua educação monárquica. Era mais presente na vida da soberana criança que o próprio pai, o rei Filipe anterior. Com seu protegido hoje já adulto e coroado, se tornou um dos principais ministros do Conselho de Estado.

Seu lamento era ouvido por um velho senhor de cabelos e cavanhaque grisalhos. Era seu tio Baltazar de Zuñiga, o atual Valido de El Rey, o administrador de todo o Reino Ibérico, o cargo mais elevado de toda a monarquia.

– Eu disse que a Rainha deveria estar aqui! – O obeso ministro continuou o lamento ao tio.

– Nós fizemos tudo para trazê-la, mas foi impossível fazer com que ela deixasse seu quarto – respondeu o tio Baltazar. Tão envelhecido, que em nada lembrava as pinturas de seus tempos áureos em que demonstrava um corpo saudável e viril. Atualmente, nele, destacava-se apenas o rosto enrugado e a tosse doente anunciando os últimos anos de vida.

A resposta não inibiu o Conde-Duque.

– El Rey quem deveria tê-la chamado para este banquete. Eu pedi para que falasse com a Rainha pessoalmente.

– Sua Majestade ainda tentou ir aos aposentos da Rainha, Olivares, mas todas as vezes só ficou em frente à sua porta, sem coragem de entrar, até que desistiu e voltou para seu quarto. É uma situação complicada. Tem que lembrar que Sua Majestade tem apenas dezesseis anos de idade.

O Conde-Duque escutou consternado. Podia apenas se lamentar. Não conseguia tirar os olhos do jovem Filipe, quase um filho para ele.

Estava verdadeiramente preocupado com seu casamento.

 

***

 

A situação da Rainha era realmente delicada. Nascida na França, aos treze anos de idade, ela foi arrancada de sua casa numa jogada política de sua mãe, a regente francesa. A então princesa Isabel de Bourbon se casou com Filipe, herdeiro da Espanha, ao mesmo tempo, que seu irmão Louis, herdeiro da França, se casou com a princesa Ana, irmã de Filipe. Esse matrimônio cruzado foi de extrema importância para a política dos dois países. No entanto, para a menina de treze anos de idade que chegou numa terra distante, de cultura estranha e língua diferente, a coisa não foi nada fácil. Já estava casada por procuração antes mesmo de conhecer o esposo.

Felizmente, altiva e alegre, a jovem Isabel se adaptou rapidamente à sua nova vida. Inteligente e esperta, aprendeu os costumes castelhanos com naturalidade. Por sua beleza e personalidade, se tornou bem popular na corte. E, aos dezesseis anos de idade, sabia bem o que esperavam dela. Estava preparada para receber um toque masculino. Aguardou ansiosa seu acanhado e inexperiente esposo reunir a coragem para tomar a iniciativa. Aos dezessete anos de idade estava grávida. E, aos dezoito, logo após seu esposo ser coroado Rei da Espanha, entrou em trabalho de parto.

A morte da criança recém-nascida foi um golpe duro. Na corte. No Rei. Na Rainha. Em todos. Depois de nove meses carregando a desejada Margarida em seu ventre, sentindo seus movimentos, sonhando em cuidar de sua cria, tudo foi abruptamente destruído. Isabel ficou devastada. Mas a tristeza realmente a atingiu quando percebeu não ter ninguém para compartilhar a mágoa. Ela queria o esposo ao seu lado. Semanas se passaram e, até aquele momento, não recebera qualquer visita dele.

– Por quê? Por que Filipe não me visita mais? – Ela se perguntava, também perguntava a suas criadas.

Em meses, os sentimentos que acometiam a jovem Rainha passaram por vários estágios. Culpa. Negação. Raiva. Tristeza. E, embora tenha aceitado a morte da criança, não aceitou a ausência do esposo. Seja, por sua inexperiência como diziam uns, seja por sua indiferença como se perguntava. Nada justificava seu afastamento, nem a rejeição que ela sentia.

Era algo que lhe afundava ainda mais na tristeza.

Era manhã, após uma das festas no palácio real, da qual não sentiu vontade de participar como era costume, quando o último convidado deixara o local, a Rainha caminhou cabisbaixa pelo salão vazio. Foi quando escutou uma voz. Era uma poesia ao longe que lhe chamou a atenção.

– Desperto, não posso sonhar; 
Excesso de leite foi 
Uma doença da qual 
Se ocasionou do ordenhar; 
Por aquilinos não há de passar, 
Que a indiciada fadiga,
Causa há quem diga:
Embora dissimule a doença,
São dores da nascença;
E do leite na barriga.

Muitos meses se passaram desde que não escutava essa voz. Era do seu poeta e escritor preferido. Um homem mais velho que conheceu assim que chegou ao Reino. Era vinte anos mais velho que Isabel. Era casado. No entanto, uns diziam que era galanteador inveterado. Outros diziam que era um sodomita. E havia aqueles, principalmente entre as damas de companhia de Isabel, que diziam que ele detinha sentimentos românticos pela Rainha.

Isabel enxergava apenas um bom amigo. Nunca houve nada entre os dois. Nem mesmo uma suspeita de sentimentos. Nem mesmo uma demonstração proibida de amor. Mesmo hoje, a beleza masculina não lhe chamou a atenção. A poesia, sim. O parto de uma criança quase natimorta. A impossibilidade de amamentar o rebento. A perda da pequenina Margarida. A Rainha sentiu a semelhança daqueles versos com seu sofrimento.

Uma pergunta tomou seus lábios.

– Essa poesia é para mim?

Ela perguntou quando seus olhos atingiram a íris cor de mel do poeta.

– Sim – o homem respondeu. – Tenho tentado falar contigo há meses, Isabel. Senti muito a tua falta. Fiz esta poesia quando soube que perdeste o bebê.

– Oh, Dom Juan, sinto muito. Essas últimas semanas foram horríveis. As piores de minha vida! – os olhos da rainha umedeceram. – Nunca pensei… Nunca imaginei que…

O choro a impediu de continuar.

– Calma, franceliza – ele a abraçou.

– Eu estou me sentindo tão sozinha… – mais lágrimas caíram.

– Eu estou aqui – ele a aninhou mais em seus braços. – Por meses, o pensamento em ti me inspirou os versos que borbulham em minha mente. Apenas deixa-me terminar a poesia.

– Sim, claro – ela continuou com voz embargada – Por favor, continue.

O homem sorriu. Apenas com seu olhar dourado, fez Isabel entender que ela não precisava se desculpar. Os lábios continuaram a se mover numa cadência musical. A poesia continuou:

– Minha amante, não desafôgo;
Tão tenros tormentos passam,
Compreende que se abrasam,
Advertindo que és tu o fogo.
Cego de adorar-te
E cego de não gozar-te.
Tu me dás Compasso que guiais,
Os favores menos amenos,
Não sendo justo que no menos,
Te esqueceis do que é mais.

Ela olhou para o poeta sem saber o que dizer. As letras eram lindas. Mas minha amante? – Ela olhou para o homem sem entender –, de onde ele tirou isso? Olhou seguida para os lados, preocupada em alguém escutar aquelas palavras. A única explicação era que a poesia fora escrita para outra pessoa. Antes que chegasse a uma explicação o poema continuou.

– Bem sei que és soberana;
Bem sei de tua grande majestade;
Bem sei que és divindade;
Que raios de sol emana;
Bem sei que és humana.
Senhora aos seus pés posso saber,
Que meu amor pode acabar-me,
Mas se advertem matar-me;
De amor, senhora, o que posso fazer?

Isabel o empurrou o homem ao perceber a revelação de amor.

– Está louco, Dom Juan? – Disse num grito contido para ninguém escutar. – Minha cabeça já está confusa. E tu ainda vem falar de amor? Não quero ouvir isso! Acabará morto se alguém o escutar!

Dom Juan deu um passo à frente, ficando não mais que um palmo da Rainha. A resposta continuou vindo na forma de versos.

– Nada me chega a faltar,
Para nobre amante pois;
Meu amor tão valente sois;
Que ao sol se atreve a chegar;
Então pois venha me dar!
As primícias do meu amor,
Não me negueis maior que for;
Para que desta maneira corra;
Ainda que desta maneira eu morra;
Que morra cheio do seu favor.

Era uma inesperada declaração de amor. A Rainha olhou para a porta de saída do salão. Pensou em fugir. Mas algo a impediu. Uma força invisível pareceu a segurar ali. A hesitação deu tempo o bastante para o braço de Dom Juan cingir-lhe a cintura.

Os lábios masculinos se aproximaram dos lábios de Isabel.

– Como é tal amore mio,
E de novo enlevo,
Que às vezes me atrevo,
E outras desconfio;
Mas já meu desejo fio.
Em vós tão encontrado,
E ao alto tendo alcançado,
Tamanha esfera afora,
Vamos, minha senhora,
Tome deste amor um bocado.

Sem resistência, os lábios da soberana e do poeta se encontraram de forma natural, num proibido beijo. Isabel entendeu o calor que suas damas sentiam na presença deste homem.

Tudo pareceu um sonho. Minutos extasiantes no paraíso. Tudo à sua volta foi esquecido. Não havia mais o medo de alguém aparecer. Ou de alguém ouvir aquelas palavras. Ela deixou seus finos lábios se esparramarem ainda mais nos deles. Sentiu o braço forte apertar sua cintura. Sentiu seus seios tocarem o espadaúdo peitoral. Sentiu a experiente língua arrancar desejos intensos.

Ao fim, a realidade a atingiu como um raio. Ela estava traindo seu marido! Estava traindo o Rei da Espanha!

A mão tremia. A palidez deixou ainda mais alva sua face.

– Se acaso de minha canção,
Enojar vosso ouvido,
Com isto tenho conseguido,
O dano e a punição,
Que é iminente minha intenção.
E árdua sua empresa é constante,
Me chame vosso amante.
Mas sendo grande a injustiça,
Minha ignorância ou malícia,
Deixarei de sê-lo num instante.

Isabel estava arrebatada. Havia a paixão. Havia o proibido. Havia a incerteza. Havia algo inexplicável.

– Se alguém descobrir o que aconteceu aqui, seremos mortos… – Ela falou mantendo a distância limitada por suas mãos dadas.

Nem por um segundo, ele hesitou.

– Morrer por vós será glória,
Viver sem vós será inferno,
Com cujo mal tão eterno,
Me atormenta a memória;
E pois se haja vitória,
À nossa sentença unida,
Lhe dá tão compadecida 
Que vindo ao sol minha sorte,
Nem mesmo morta a morte;
Poderá atravessar a vida.

Milhares de possibilidades e proibições percorreram a mente de Isabel. Toda sua vida foi conduzida por outras pessoas. Pela primeira vez na vida, teria que tomar uma decisão sobre si mesma.

Assim a resposta foi proferida.

– Não fale mais nada, Juan! – Disse a Rainha segurando-o pela mão. – Não temos tempo a perder! Quero sim aproveitar esse momento!

E assim conduziu o homem até seus aposentos particulares.

 

Mercado de Escravos de Olinda por Zacharias Wagener (1614-1668)

A Noiva Prometida

–Brasileiros–

Capítulo 1

12 de Outubro de 1621

O grande continente recém-descoberto do outro lado do Oceano recebeu o nome de América. Era um Novo Mundo cuja maior parte ainda estava por ser explorado. Era uma infindável selva habitada por animais selvagens e nativos canibais. Cem anos atrás, não havia qualquer cidade civilizada. Agora, existiam às dezenas, divididas em Capitanias Hereditárias, com a economia impulsionada pelo cultivo da cana de açúcar.

Foi na capitania de Pernambuco, exatamente na casa do seu governador, o capitão-mor Matias de Albuquerque, que essa história se inicia com ele tomando a palavra.

– Seu sogro era um homem muito querido na capitania, Jerônimo!

Matias de Albuquerque era um homem com quase trinta anos de idade, magro, de altura mediana, quase baixa. Possuía cabelos negros e curtos, e feições alongadas. As pálpebras nunca se levantavam totalmente, dando-lhe um aspecto cansado. O pai deixara a capitania de Pernambuco de herança para ele e seu irmão. E, embora seu irmão mais velho fosse o primogênito e herdeiro da família, foi Matias quem decidiu viver no Novo Mundo para governar estas terras pouco exploradas.

O homem do outro lado da mesa, com quem Matias conversava, era um comerciante chamado Jerônimo Paes. Era mais velho, ultrapassando facilmente os cinquenta anos de idade. Tinha uma barba completa e negra, com muitos fios grisalhos, e um olhar que transmitia uma sensação de austeridade.

– Todos me falam o mesmo, Dom Matias – disse abrindo um sorriso. – Meu sogro era realmente muito querido aqui.

– Só espero que tenha gostado da sua herança.

– Não há como não gostar, é um excelente Engenho.

O engenho do sogro de Jerônimo, chamado Casa Forte, era realmente excelente. Afinal, a capitania de Pernambuco neste período possuía 137 engenhos, entre os quais o Casa Forte era o quarto mais rentável com produção anual de 9.520 arrobas de açúcar retame. Por essa razão, o capitão-mor Matias de Albuquerque lançou a pergunta.

– Então acredito que vossa mercê virá morar em Pernambuco?

A América deste tempo era bem diferente da Europa. No Velho Mundo, a sociedade europeia era dividida em classes nobiliárquicas de fidalgos, corruptela para Filhos de Algo. Ou seja, detentores de Sangue Nobre, que variavam em grau de importância entre Duques, Marqueses, Condes, Barões, Senhores, Cavaleiros e os puramente Fidalgos, sem títulos. Todo o resto vinha depois: eram os não-Fidalgos, também chamados de Plebeus. Em Pernambuco, esses títulos não existiam. Apenas um punhado de pessoas em todo o Novo Mundo era detentora de um título de fidalguia. Matias era um deles, o que explica ser chamado de Dom Matias pelo senhor de meia-idade na sua frente.

Diferente da Europa, a economia do Novo Mundo criou uma nova estrutura de classes. Havia apenas dois tipos de pessoas: Os Senhores de Engenho e todo o resto. Por isso mesmo, a surpresa acometeu o capitão-mor ao ouvir a inesperada resposta de Jerônimo Paes.

– Acredito que não, Dom Matias. Devo voltar para meu pequeno comércio na cidade de Salvador.

Era realmente uma resposta inesperada. Afinal, a atividade econômica mais importante do Novo Mundo era a dos Engenhos. A produção do açúcar, mercadoria tão valiosa quanto doce, deixou muitas famílias extremamente ricas só em Pernambuco. Pareceu uma loucura ver um homem não se importar tanto com tão boa herança.

– E posso saber a razão disso? – Curioso, o capitão-mor perguntou.

– Como eu disse, tenho um bom comércio em Salvador. Posso viver dignamente dele, e dar à minha família tudo o que ela deseja. Minha preocupação hoje é com minha filha. Quero o melhor para ela.

O governante de Pernambuco entendeu de imediato a intenção de Jerônimo.

– Presumo que ela esteja em idade de se casar.

– Está bem próxima – o velho respondeu orgulhoso. – E já tenho um pretendente com título de fidalguia. Logo que o novo Governador-Geral chegar a Salvador voltarei para concluir as negociações do matrimônio oferecendo o engenho como dote..

Por fim, concluiu.

– Desejo muito um neto com sangue nobre!

 

***

 

Ana Paes, filha de Jerônimo, era uma dessas moças que desenvolvem o corpo muito rápido e muito precocemente. Em tenra idade, já tinha um bom busto e ares de mulher. Os cabelos eram castanhos escuros bem penteados e os olhos eram verdes esmeraldas. Era magra e alta, naturalmente desenvolta, principalmente se levasse em consideração a inexperiência de sua vida e a inocência infantil de quem acabara de deixar de lado as bonecas de pano.

Durante sua estadia em Pernambuco, a moça enroupava um vestido inteiriço de cores azuis e detalhes brancos, com um lenço sobre a cabeça para a proteger do forte sol do Novo Mundo. Caminhava, junto com sua mãe pelas ruas de Olinda, através das estradas de terra batida e das casas em arquitetura barroca colonial, de fachada lisa quadrangular, pintadas em cores claras, alternando, de casa em casa, entre branco, azul, verde, rosa, amarelo…

Também haviam muitos estabelecimentos comerciais entre os quarteirões residênciais. Vendas de verduras, frutas, carne, animais, escravos, ferramentas e bugigangas. As pessoas gritavam os preços de seus produtos e a suposta qualidade deles. Os meninos corriam pela rua, brincando. Donas de casas caminhavam com suas cestinhas de compras. Carregadores levavam mercadorias, do porto para a cidade, assim como da cidade para o porto.

A cidade era viva e vibrante. Seus três mil habitantes viviam a rotina, dia após dia, em busca de subsistência. Buscavam a própria ascensão financeira. O infinito mar estava logo em frente, os contemplando, com as salgadas águas no Porto do Recife, onde dezenas de naus estavam ancoradas para receber as caixas de açúcar que levariam à Europa. Neste dia, no entanto, a agitada rotina foi bruscamente interrompida por um inusitado e intempestivo evento.

– Meu Deus! O que é isso?

A mãe de Ana Paes exclamou. As palavras remetiam ao empurra-empurra que começou naquelas ruas de terra batida. As pessoas, antes tão compenetrados na compra e venda de produtos na feira ao ar livre, agora abriam espaço para duas pessoas que se aproximavam, causando uma grande confusão.

Estas duas pessoas não estavam apenas de passagem. Estavam duelando num feroz confronto de espadas. O bater do metal, de uma lâmina contra a outra, revelava a fúria dos golpes desferidos. A curiosidade fez a bela Ana Paes olhar por entre as pessoas que se empurravam. Ela reconheceu um dos duelistas.

Era André Vidal de Negreiros!

– Calma! Calma! Não quero te machucar, amigo – André Vidal tentava apaziguar os ânimos de seu adversário.

– Maldito sejas, Vidal! Te matarei em nome da minha honra!

Moço de dezesseis anos de idade, o charmoso André Vidal era o objeto de desejo de todas as meninas da cidade. Tinha longos cabelos negros que lhe caíam ao ombro e que esvoaçavam aos movimentos da espada. Possuía ombros largos e peitoral forte. O rosto era másculo, com aquelas covinhas na bochecha e no queixo que deixavam as mulheres loucas.

Além disso, era um filho de um Senhor de Engenho da capitania da Paraíba, sendo assim tanto membro da aristocracia do Novo Mundo quanto uma novidade recém-chegada em Olinda. A razão de sua vinda também ajudava. Alistou-se no exército pernambucano o que lhe dava a aura de perigo, ainda mais quando vestia o casaco de algodão vermelho do uniforme militar.

E como ele sabia se portar entre as mulheres! Nasceu com aquele talento natural de conquistá-las, com uma voz ao mesmo tempo forte e encantadora e o olhar penetrante de um galanteador.

O próprio duelo, que acabava com a paz na feira de Olinda, foi devido a mais uma de suas conquistas amorosas.

– Joana era minha noiva, maldito! – O agressor bradou.

O noivo traído estava tão nervoso e cego de fúria que não estava sendo difícil para se esquivar. O risco que mais preocupava o jovem conquistador, no entanto, era que golpes tão cegos pudessem atingir alguém na multidão.

A curiosa Ana Paes se afastou da mãe. Aproximou mais para ver a confusão. E, claro, para ver também os músculos do belo e bem afamado rapaz em ação. Infelizmente, quando chegou próxima do embate, viu algo que não esperava. Viu a espada cega do duelista agressor na sua direção.

Ela se jogou para trás. Não houve tempo para o noivo traído abortar o golpe, nem para ela se desviar. Naquele segundo em que a lâmina rasgou o ar, a menina-moça pensou ser seu fim.

O som que se seguiu foi de um tilintar metálico. Ela percebeu que o golpe fora aparado pela arma do bem-apessoado conquistador.

– Opa! – André falou, ao mesmo tempo em que, num lance de mão, girou sua lâmina sobre a do adversário, removendo-a do punho inimigo. – Essa brincadeira já foi longe demais.

Os olhos do noivo traído seguiram sua arma até cair na areia.

Nesse exato momento, chegou a guarda da cidade, que, tendo Olinda apenas três mil habitantes, não era mais que duas dúzias de soldados, da qual André Vidal fazia parte. Metade deles chegava ali. Entre eles, numa bela montaria de raça, estava o parente e braço direito do capitão-mor de Pernambuco, o corajoso Pedro de Albuquerque Melo.

– Vidal? O que está ocorrendo aqui? – o líder da guarda perguntou.

– Não foi nada, capitão. Eu e meu amigo aqui estávamos num disputa esportiva e exageramos na empolgação – André respondeu.

O rapaz traído consentiu com um balançar de cabeça. Não queria problemas com a guarda da cidade. Deixou o local, esbarrando no ombro do bem-apessoado paraibano.

O comandante da guarda aproximou sua montaria de André.

– Conversaremos sobre isso depois, meu rapaz! – disse ao apertar o dorso do cavalo com os estribos da sela, guinando suas rédeas na direção oposta ao encrenqueiro soldado.

Com a confusão já rapidamente apaziguada, ele assim partiu.

 

***

 

A face de André Vidal de Negreiros acompanhou a partida do seu capitão. Só depois voltou sua atenção para a jovem moça que quase se feriu no duelo. Ela ainda estava no chão, sentada, observando a resolução do conflito, quando ele estendeu uma das mãos. A outra apoiou as costas da moça. E assim a levantou com uma bem-medida delicadeza.

– Desculpe-me pelo ocorrido, senhorita. Como está se sentindo?

– Estou bem – Ana Paes respondeu.

Ela passou a mão no vestido para tirar o excesso de areia. O rapaz, educadamente, se curvou frente à moça, tomou-lhe o punho e beijou-lhe a mão.

– Nunca a vi por aqui antes – André tomou a palavra com seu tom de voz mais galanteador. – Me dê a graça do seu nome?

– Ana… Ana Paes – ela falou com acanhada voz.

– É nova aqui em Olinda?

– Sou de Salvador, estou aqui há poucas semanas.

O sorriso do rapaz se abriu de forma encantadora. Tinha dentes brancos perfeitos e alinhados, algo raro num tempo em que ter todos os dentes já era um grande feito. A moça sorriu timidamente, quase sem abrir a boca, mas tão inocente que mais lembrava uma figura angelical. Um silêncio estranho se manteve entre os dois, principalmente pela forma como o rapaz a olhava.

Era um momento de mútuo interesse, que deixou a inexperiente moça ainda mais acanhada e, ao mesmo tempo, lisonjeada.

Esse momento foi logo interrompido.

– Ana! – Um grito atravessou a multidão. Era sua mãe. – Onde esteve este tempo todo? Eu mandei me seguir!

– Eu escorreguei, mãe, me perdi na multidão.

A mãe segurou o braço da filha, puxando-a para perto de si. Não sem antes o belo rapaz se mostrar evidente.

– Ela está comigo, senhora – André se mostrou, como sempre, galanteador. Geralmente, era muito bom em conquistar futuras sogras também. Por isso, falou: – Eu nunca deixaria nada de ruim acontecer com sua bela filha.

A mãe não se acanhou.

– Palavras bonitas, rapazinho, mas eu vi que vossa mercê começou toda essa confusão – falou com voz de desprezo. – Ana ficará melhor longe de ti!

– Nem mesmo se eu desejar encontrá-la depois, – o rapaz disse com nítido interesse. – Num lugar mais calmo, sob sua benção e vigia.

Era um pedido de cortejo que a mãe tratou logo de encerrar.

– Sinto muito, mas minha Ana já está prometida para outro!

Que petulância, desse rapazinho encrenqueiro, a mãe exclamou para si. Afinal, reconheceu que tipo de homem era André Vidal. Era o tipo de pretendente que qualquer mãe não deseja perto da sua filha. O tipo conquistador, que não fora feito para uma única mulher. O tipo que fazia as mulheres se apaixonarem perdidamente. O tipo que poderia fazer uma moça colocar em risco a própria honra.

E, se a mãe visse o risinho orgulhoso que Ana Paes não conseguia segurar, ficaria ainda mais preocupada com a situação.

 

***

 

Enquanto isso, na casa do capitão-mor de Pernambuco, a conversa entre Matias de Albuquerque e Jerônimo Paes continuava pela tarde adentro. Afinal, ambos não poderiam conversar por muito tempo. Como Jerônimo disse anteriormente, logo retornaria à cidade de Salvador. Só esperava a chegada do novo Governador-Geral, visto que terminara o termo de três anos do último.

Um frenético bater na porta anunciou esse momento. Era o garotinho João Fernandes Vieira, de onze anos de idade, sempre vestido em roupas velhas e rasgadas. Era um pobre menino da Ilha da Madeira que recentemente chegou desamparado à vila de Olinda e foi acolhido pelo dono do açougue local.

– Ora, Fernandes – o capitão-mor olhou para o garotinho: – Diga-me o porquê dessa agitação toda?

– Navio à vista, senhor – o garotinho respondeu, num único fôlego.

Até como forma de ajudar o pobre garotinho, Matias lhe dava um tostão sempre que alguma embarcação surgisse no horizonte. Era uma forma de estar sempre avisado do que ocorria no porto. Assim, ao fim da frase, o capitão-mor se levantou, tomou o passo à janela mais próxima. E, tendo sido a vila de Olinda construída sobre um monte com vista para toda a costa, ele pôde ver a tal embarcação citada pelo garotinho.

Depois de analisar o borrão no horizonte, o capitão-mor proferiu em firme voz.

– Ora, ora – disse sorrindo –, é o Manja-Léguas

Matias tinha grande memória. Não só para rostos, ainda que só uma vez os visse, como também para navios, ainda que só uma vez tivessem ancorado àquele porto. Sempre que vinham outra vez, mesmo daí a muito tempo, antes de chegar dizia quais eram. Houve até uma vez que vindo um barco com o mastro mudado, vendo-o de muito longe, disse: aquele é tal navio, que aqui veio há um ano, mas traz já outro mastro; e assim o confirmou o mestre da embarcação depois que chegou.

O Manja-Léguas foi a embarcação que trouxe o último Governador-Geral ao Novo Mundo há três anos atrás. Certamente, era a embarcação em que este retornava ao Reino. E, se retornava, era por que o novo Governador-Geral chegara à Bahia de Todos os Santos.

– Que pena – por fim, Matias desabafou. – Parece que retornará com sua família para Salvador mais cedo que o esperado, meu caro Jerônimo.

 

Don Juan de Tassis y Peralta, Conde de Villamediana, por Autor Desconhecido

A Corte sob Controle

–Ibéricos–

Capítulo 2

 

17 de Julho de 1622

A jovem rainha Isabel acordou com uma sensação de completude e felicidade. Na noite anterior, experimentou sensações arrebatadoras que nunca sentira antes. As pernas estavam bambas. O rosto estava ruborizado. A mente, leve e descansada. Um sorriso estampava seu rosto. O sentimento de rejeição havia passado. A tristeza também. Ela primeiro se espreguiçou ao som do vento e da cantoria dos pássaros, depois procurou o amante que a proporcionou todas essas maravilhosas sensações.

Dom Juan não estava lá. Isabel sobressaltou. Levantou seu dorso e se sentou à cama. A mão manteve o lençol preso ao corpo, para lhe cobrir os seios nus. Ela olhou para os lados, confirmando não haver mais ninguém. Estava sozinha no quarto. Teria sido um sonho?, ela se perguntou. Foi então que percebeu a caneta-pena sobre o criado mudo e o frasco de tinta aberto. Sob eles, estava uma carta com sinais ainda de tinta fresca. Ali, estava escrito:

Ao beijo de uma dama,

Divina boca de doçuras cheia
Ditoso o lábio que te beija e toca
Que não há quantas há tão doce boca
Nem para aprisionar-me em tal cadeia

Não há tão saboroso favo na colmeia
Que está o doce em ti e o seu apouca
Que tanto gosto e suavidade provoca
O âmbar, o cravo, e a azaleia.

Mas dentro do mel está escondido
O espinho cruel com que me feres
E não há vida em ver este signo.
Boca tenra e peito estendido,
Não, nem em todas as mulheres,
Boca tão branda e coração tão digno.

Não foi um sonho! Esta era a prova de que os eventos da noite anterior realmente aconteceram. Dom Juan apenas teve que sair mais cedo por temer ser descoberto, logo concluiu a razão da ausência masculina em sua cama. Em seguida, leu e releu o poema. Sentiu no papel a adorável fragrância com a qual o poeta se perfumava. O seu cheiro lhe ativava lembranças arrebatadoras. E, com essas a lembranças dominando sua mente, ela se deixou cair sobre os travesseiros da cama. O sorriso era onipresente. Isabel se sentia nas nuvens.

Risadinhas nervosas e felizes ecoaram pelo quarto. Mostravam que a menina-rainha de dezoito anos de idade encontrara um novo amor. No entanto, o feliz sentimento desapareceu ao pensar na dura realidade, ao pensar numa terrível possibilidade…

Ao pensar no que poderia acontecer se alguém descobrisse que ela estava traindo Sua Majestade, El Rey Filipe da Espanha.

 

***

 

Muitos corredores longe dali, El Rey estava num grande átrio onde centenas de pessoas se reuniam para discutir os futuros do Reino. A algazarra era ensurdecedora. Os ânimos das discussões se exaltavam. Borbulhavam como água fervente na panela. Todos estavam ali, não apenas para testemunhar, mas também influenciar a primeira grande decisão do seu reinado. Uma decisão que reuniu todos os doze membros do Conselho de Estado, oficiais de justiça, mercadores, burgueses, políticos, nobres e clérigos do Reino. Era a decisão sobre o envio de tropas à Holanda, para reavivar a guerra, interrompida doze anos atrás.

Os portugueses defendiam a paz por terem os holandeses como importantes parceiros comerciais. Os italianos defendiam que os esforços de guerra deveriam estar voltados contra a França que constantemente assediava suas fronteiras. Os catalães preocupavam-se com os custos militares. Os representantes de Flandres reclamavam dos soldos atrasados aos soldados. Os Andaluzes esperavam uma ação contra as forças inglesas do outro lado do mediterrâneo. Os Aragoneses preocupavam-se com o aumento dos impostos. E a discussão parecia não ter fim.

O silêncio só retornou ao átrio quando Baltazar de Zuñiga, o Valido de El Rey, começou a sessão, com um discurso que antecedeu seu voto.

– A tentativa, pela força das armas, de reduzir à obediência àquelas províncias da Holanda como estava antes, quem queira que olhe atentamente e sem emoção. Considere as poderosas forças daquelas províncias por mar e por terra, o sítio delas tão forte e tão rodeado de mar e rios, e tão em comarca com seus confederados da França, Inglaterra e Alemanha. Considere em que situação ele está e considere o nosso. Falará que é tratar do impossível.

Baltazar de Zuñiga estava mais velho do que aparentava seus pouco mais de sessenta anos de idade. Esse seu péssimo semblante era explicado por rumores de uma doença recém-diagnosticada. A boataria dizia que a morte o rondava diariamente. No entanto, apesar de sua abatida figura, sempre foi conhecido por sua empolgação e otimismo em relação ao Reino. Era sempre o primeiro a defendê-lo. Era sempre o primeiro a nomeá-lo invencível.

Por essa razão, seu discurso surpreendeu a todos com palavras tão comedidas, tão neutras e tão terrenas; mais parecia uma exaltação do poder holandês. Era estranho ouvi-las deste homem que sempre foi considerado o maior defensor do poder monárquico e mais ferrenho partidário da guerra. A doença estaria afetando suas opiniões?, era a pergunta corrente no salão.

Ele continuou.

– Ao seu juízo, a guerra ou a paz com os holandeses é optar entre dois males ao qual o pior deve ser eleito depois de realizar cálculos bem ponderados. Exatamente por tamanho poder adquirido pela República Holandesa nestes doze anos de paz, meu voto é… – ele hesitou antes de dar seu voto.

No entanto, apesar da mudança súbita do tom do discurso, o voto manteve a linha que sempre seguiu.

– É a favor da guerra, pela restauração da Honra e Reputação monárquica.

Em meio ao aplauso de seus partidários, Zuñiga deixou o púlpito da sala. Caminhou ao seu assento, ao lado de seu parceiro político, o Conde-Duque de Olivares. A verdade era que a mudança de tom do discurso não era em razão de sua doença. Era uma estratégia bem definida.

– Espero que esteja certo, Olivares – Zuñiga respirou profundamente. – Eu estava preparado para algo mais motivador. Algo que certificasse nossa vitória na votação.

– A vitória já é certa, Baltazar.  – o obeso ministro retrucou – Já tenho todos os votos na mão. Não há por que gastar a saliva num discurso que todos já ouviram. Com um discurso mais moderado, ganhará a simpatia da ala contrária. Será algo de grande valia no futuro.

– Espero que esteja certo, Olivares.

O Conde-Duque foi incapaz de esconder o sorriso. Ele observava os homens sentados ao redor como um maestro de orquestra, tendo cada nota já ensaiada à exaustão. Era impossível para os presentes verem sua batuta condutora, mas ela estava ali. Guiava cada um dos Conselheiros de Estado.

O discurso seguinte ditou o tom da assembleia com o voto do Duque de Infantado, um dos seus conhecidos partidários.

– Encontrar o ouro para pagar nossos exércitos em Flandres não será tão mal quanto perpetuar a Trégua que tanto já custou à Espanha a sua reputação.

Depois, foi a vez do belicoso Marquês de Villafranca que estava em débito ao Conde-Duque por trazê-lo de volta a corte da qual foi banido pela administração anterior.

– O recomeço da guerra na Holanda, tão próxima das fronteiras francesas, intimidará este reino em seus ataques na Itália e trará a paz nas terras onde é desejada.

E assim a melodia orquestrada continuou.

– A guerra obrigará o Reino a empunhar as armas outra vez, algo benéfico em uma monarquia tão vasta quanto a espanhola, impedindo que o povo se torne ainda mais afeminado do que já está. – disse o linha-dura Conde de Benavente.

– A guerra dará ao exército espanhol algo do que se ocupar, visto que todos sabem dos riscos de se ter um exército ocioso e mal pago – votou o Dom Agustín Mexia.

– É papel da Espanha ser o grande defensor católico na guerra contra o herege holandês – exaltou o cardeal Zapata.

– A trégua foi um erro orquestrado por interesses privados – disse Diego Ibarra, amigo íntimo de Zuñiga.

Em seguida votaram respectivamente: o Marquês de Laguna, o Duque de Monteléon, o Marquês de Aytona e o Marquês de Montesclaros. Todos foram a favor da guerra. A minoria favorável à paz, cabisbaixa e derrotada, foi deixando aos poucos o salão.

Enfim a votação finalizou com o voto do Conde-Duque de Olivares.

– É com grande ânsia para mim podermos mostrar ao mundo que a opinião e reputação de Sua Majestade, El Rey Filipe da Espanha, são iguais à sua grandeza e partes!

Doze votos a zero. Decisão unânime a favor da guerra.

O obeso conselheiro acomodou seu grande corpo na cadeira logo atrás, relaxado e vitorioso. Zuñiga não conseguiu conter o sorriso.

– Decididamente és um gênio, Olivares!

 

***

 

A confirmação do resultado por El Rey, ao se levantar do trono em destaque no átrio, foi seguido de aplausos extasiados. Os partidários da guerra exaltavam-se tão jubilosamente qual estivessem numa tourada. Os doze conselheiros se levantaram, incluindo o Conde-Duque de Olivares, e, com ar triunfante, este tomou o caminho de saída.

Seu olhar então encontrou duas faces bem conhecidas. As duas pessoas cujo amor era tão grande quanto sua ambição: a esposa Inês e a filha Maria.

– Papai! – gritou a menininha de doze anos de idade, que correu na sua direção enquanto segurava uma bonequinha de pano.

O Conde-Duque agachou seu esférico corpo sobre os joelhos e abriu os braços. Pai e filha se abraçaram.

– Eu disse que não precisavam vir – este disse a esposa.

– E eu disse que viria de qualquer modo – a esposa o admoestou. – Eu sei como esse dia lhe era importante. Em menos de seis anos desde que chegou a Madrid, os seus planos estão finalmente se concretizando.

– Sim. Com a glória de Deus, consigo mais a cada dia.

Segurando a filhinha pela mão e tendo a esposa ao lado, o Conde-Duque continuou o percurso para fora do grande átrio. Era o fim de mais um dia de trabalho e de mais uma vitória política em sua carreira. Era preciso comemorar. Antes, sentiu alguém lhe tocar o ombro.

Ao se virar, percebeu uma jovem em seus vinte anos de idade.

– Senhor Conde-Duque? – A moça perguntou acanhadamente.

– Chirel? – Ele logo a reconheceu. – O que faz aqui?

Era uma das damas do palácio. Chamava-se Maria de Chirel, filha do Conde de Chirel, que no ano anterior solicitou o ingresso da menina na corte castelhana. Este nobre das terras valencianas era tão amigo do Conde-Duque de Olivares que este agraciou a moça com um dos mais concorridos cargos dentre os mil e setecentos que havia no palácio real. Ela conseguiu a posição de Dama de Companhia da Rainha Isabel.

A dama, no entanto, também recebeu uma função especial. Ela se tornaria uma das dezenas de olhos e ouvidos que o Conde-Duque de Olivares possuía na corte. E foi exatamente para reportar algo que a dama o procurou.

– Eu descobri algo terrível – ela disse, resfolegando grande urgência. – Algo que coloca a honra de Sua Majestade em risco.

Ambos então partiram em direção ao palácio real.

 

***

 

Horas depois, o nobre conquistador Dom Juan de Tassis y Peralta atravessava as muitas pinturas que decoravam os labirínticos corredores do palácio de El Alcázar. A cabeça constantemente revolvia para os lados, como se estivesse preocupado que sua presença fosse descoberta. Os passos apressados evidenciavam o desejo em chegar ao almejado destino. E esse destino não era difícil de imaginar. O abrir de uma porta revelou uma bela figura feminina.

Ele então falou.

– Minha francelisa…

O apelido carinhoso remetia à origem francesa da Rainha e ao seu nome de batismo Elizabeth que foi devidamente traduzido para o idioma espanhol.

– Oh, Dom Juan – a moça deixou escapar um suspiro. – Quando eu acordei ontem e não te vi, pensei que tudo fora um sonho.

Mal terminou de proferir essas palavras, os corpos se enlaçaram. As bocas se beijaram. A paixão subiu-lhes as pernas. O desejo os dominou. Ele a colocou contra a parede, como que a impedindo de fugir. Beijou-a mais intensamente. O toque de suas intimidades roubou suspiros de prazer.

A Rainha nem percebeu o momento que chegou à cama, nem percebeu o momento que seus delicados seios foram despidos, nem percebeu o momento que o homem desceu para debaixo do vestido, beijando-lhe as coxas.

– Oh, Dom Juan! – ela gemeu ao sentir algo lhe aquecer entre as pernas.

E assim os dois se entregaram à paixão.

Os sons de seus atos pecaminosos, no entanto, não estavam por completo ocultos. Duas figuras escutavam, do outro lado da porta, os gemidos que ocorriam no interior dos aposentos da Rainha. Eram o Conde-Duque e a jovem Maria de Chirel, que estavam tão absortos com a revelação quanto assustados com suas consequências.

– Fez bem em vir me contar – o Conde-Duque suspirou. – Seu pai e sua família terão sempre minha gratidão.

– Obrigado, Excelência – a senhorita Chirel respondeu.

– E vossa mercê receberá ainda mais do meu favor se mantiver em completo segredo o que está ocorrendo aqui.

– Vossa Excelência tem a minha palavra.

O Conde-Duque exalou preocupação. Retomou o passo. Colocou-se a caminhar pelos corredores. Deixou a jovem dama sem saber o que fazer. Esta pensou que deveria ficar ali para descobrir mais. Não apenas para avisar ao seu patrono, mas também para satisfazer sua própria curiosidade.

O Conde-Duque, no entanto, já tinha visto o bastante.

– Venha comigo, senhorita Chirel – ele disse, interrompendo os pensamentos da dama.

– Vamos para onde, senhor?

A resposta surpreendeu a moça imensamente. Seu corpo delicado estremeceu quando o ouviu dizer:

– Ora, Maria… É nossa obrigação avisar a El Rey o que descobrimos.

 

 

Ancoradouro ao Sudoeste de Texel por Ludolph Backhuysen (1630-1708)

 

O Embarque ao Novo Mundo

–Holandeses–

Capítulo 2

12 de Abril de 1622

Era uma bela manhã de primavera no porto de Texel. O céu brilhava o azul claro. O sol dardejava o dourado radiante. As brisas marinhas esvoaçavam os cabelos loiros de Van Dorth, recém empossado Coronel da Companhia das Índias Ocidentais. Ele inspecionava castelo de proa do galeão Hollandia. Era a maior das dezesseis embarcações que foram cedidas pelo governo holandês. Tinha trezentas toneladas. Estava armada com vinte e oito canhões. Comportava mais de duzentos homens a bordo. Era sua nau capitânia.

Além dessas dezesseis embarcações, outras sete foram fretadas pela própria Companhia das Índias Ocidentais e mais três foram construídas com recursos próprios. A preparação da Armada durou mais de um ano. Era um total de vinte seis navios, com poder de fogo de 447 peças de artilharias, 1.700 marinheiros e 1.600 soldados de infantaria. Três navios partiram antes, eram o Dolphyn, o Thonijn e o Bruyn-Visch, respectivamente: Golfinho, Atum e Porco-do-Mar. Sua missão era avisar dos perigos que encontrassem no percurso até o arquipélago de Cabo Verde, onde toda a armada se reuniria.

O coronel então chamou o major Schouten até um armazém do porto para as considerações finais.

– Aqui estão as Cartas de Instruções.

Ele entregou um envelope negro ao subcomandante.

– Elas revelam a cidade que atacaremos. Fornecem mapas, planos de ataque e outras informações essenciais para o plano de invasão. Nem mesmo eu conheço seu conteúdo, pois só poderão ser abertas quando deixarmos o arquipélago de Cabo Verde. Por isso, guarde-as como à sua própria vida.

O major assentiu honrosamente. Continuou a ouvir as orientações do seu superior.

– Tenha uma boa viagem, major – enfim, o coronel completou. – Deixarei a Holanda no dia 26 de janeiro, junto com o vice-almirante Piet Heyn e os últimos quatro navios da nossa armada, para enfim nos reencontrarmos. Até lá, treine nossos homens e os deixe bem preparados para o ataque.

– Pode confiar em mim, senhor – o major Albert Schouten respondeu com voz firme e inabalável.

O coronel Van Dorth então conduziu o major para fora do armazém. Os ventos nórdicos bafejaram gélidos em suas faces. O forte sol iluminou seus corpos. Fez surgir aos seus olhos todos os navios da sua armada e todos os soldados do seu exército. Pouco mais à frente, sob a sombra de outro armazém do porto de Texel, estavam dezenove pessoas bem vestidas e de importante renome. Eram os responsáveis por essa empresa. Curiosas e palpitantes, elas contemplavam o embarque das tropas holandesas.

– Então, embarque nossos homens – o coronel falou. – Pois os Dezenove Diretores da Companhia estão ali, esperando para ver a sua partida.

 

***

 

Enfim, chegou o momento do embarque dos soldados. O Coronel Van Dorth e o Major Schouten se posicionaram à frente das tropas. Caminharam até chegar aos navios, onde interromperam o passo. Ficaram ao lado da ponte que levava ao interior da embarcação Zeelandia, que estava sob o comando do almirante Willinkens. As tropas marcharam, cada uma para sua respectiva embarcação. Eram onze companhias de infantaria no total, divididas entre os cinco capitães e seus tenentes, sendo a décima-primeira a companhia do próprio major Schouten.

O embarque foi realizado individualmente, com a passagem do coronel em cada casco. Depois do Zeelandia, foi a vez dos outros grandes navios: Província de Utrecht, De Tyger, Guld Zee-paerdt, Samsom, Orangnien-Boom I e Groeningen; cada um com vinte a trinta canhões de artilharia e mais de trezentas toneladas de lastro cada um. Depois, foi a vez dos navios médios: De Eendracht, St Cristophel, De Hope, Nassauw, Orangniem-Boom II, De Vier Hayms Kinderen, Oude Roode Leeeuw, De Sterre, Overyssel e De Haen; que comportavam cerca de cem homens, entre dez e vinte canhões, e tendo cerca de duzentas toneladas de lastro cada um. Por fim, os velozes iates Post-Paerdt, Zee-Jaeger, Haes-Windt e De Vos; que não levavam mais que sessenta homens e cerca de dez canhões, nos seus lastros menores que cem toneladas.

Os soldados vestiam casacos de cores mais escuras que variavam do bege ao cinza, que lhes era oferecido pela Companhia das Índias Ocidentais junto com as botas negras. As calças pretas e as camisas brancas eram compradas pelo próprio soldado com o soldo adiantado que lhes era oferecido antes da viagem. Muitos usavam chapéu escuro para os proteger do sol, mas a maioria estava com os cabelos à mostra. Desta forma, apesar de uma padronização orientada, cada uniforme poderia ter características próprias. Pouco mais da metade tinham piquetes em suas mãos, enquanto o resto recebeu mosquetes.

O embarque foi tranquilo. Era um grande espetáculo para aqueles dezenove homens que tornaram essa empreitada possível. Teria sido uma perfeita apresentação se não fosse um único incidente.

– Maldição – o coronel Van Dorth exclamou, perdendo a nobre compostura. – Que merda é essa!

Dentre os militares de infantaria, não mais que cem oficiais, que eram capitães, sargentos, trombetas e outros, receberam placas metálicas sobre o peitoral e capacetes cônicos sobre suas cabeças. Era exatamente a cena de um dos capitães de companhia que vinha cambaleante e em levando à marcha dos seus soldados que chamava a atenção. Todos perceberam que este capitão mal se aguentava em pé de tão bêbado. Caiu ao solo empurrado pela força invisível do álcool, fazendo ecoar o som metálico de sua armadura contra o chão.

O coronel Van Dorth e o major Schouten, postados ao lado da ponte que levava ao convés da embarcação, nem se moveram. Nem sabiam como proceder. Um soldado correu até embriagado capitão. Segurou-lhe o braço. Entregou a bandeira holandesa que também caíra do chão. E o ajudou a levantar.

Enfim, quando já estava em pé, este capitão empurrou o soldado para longe, dizendo: – Estou bem, foi só um tropeção. Mesmo estando o coronel e o major, a uns trinta metros de distância, o odor alcoólico era tão forte que entranhou as suas narinas.

A patética cena durou apenas alguns segundos, mas foi o bastante para corar a face do coronel Van Dorth com um misto de vergonha e raiva. Ele olhou os Dezenove Diretores nervosamente. Desejou que não tivessem visto este embaraço, mas era impossível não o terem percebido. Os diretores já estavam comentando entre si, nem um pouco felizes com o ocorrido.

– Quem é esse imbecil? – Van Dorth perguntou ao Major.

Se o Coronel Van Dorth estava ruborizado, o major Albert Schouten parecia um pimentão. E mais desconcertado ficou ao responder.

– É o meu irmão Willem, senhor.

A raiva do coronel foi tamanha que o emudeceu. Não conseguiu praguejar, ordenar ou reclamar mais nada. Apenas cerrou os olhos no seu major, em silêncio, com olhos flamejantes de fúria.

O major, cabisbaixo e envergonhado, quem primeiro respondeu.

– Eu cuido disso, senhor. Não vai se repetir.

Felizmente, o capitão embriagado, Willem Schouten, retomou parte da postura. Conseguiu marchar com seus soldados ao interior da embarcação. Não sem antes passar pelos dois comandantes. O coronel estava tão furioso que nem conseguiu o olhar, pensando: Se foi o major quem o convocou e intercedeu fervorosamente a favor deste traste, o major que resolva esse problema.

O percurso à embarcação certamente foi um calvário para Willem, pois, a cada passo, lá estava seu irmão o fuzilando com o olhar.

 

***

 

Os galeões eram realmente desconfortáveis. Seus porões e alojamentos eram cercado de madeira negra e úmida ao redor. Tudo era claustrofóbico. Apenas ao comandante do navio era reservado o direito a um camarote verdadeiramente amplo na popa. Todos os tripulantes e passageiros ficavam alojados no chão, em beliches ou redes no galpão inferior, que, por sua vez, eram organizado por divisórias para a cozinha, jogos e outras atividades. Para os passageiros mais ilustres, havia dois ou três pequenos cômodos improvisados por lençóis, num espaço que mal cabiam duas pessoas.

Era num desses minúsculos cômodos que o capitão Willem Schouten estava alojado. Foi em sua cama que desabou ao fim da apresentação.

Só acordou horas depois com os gritos raivosos do Major.

– Tem sequer a noção da vergonha que me fez passar?

O lençol que servia de divisória foi afastado para a lateral, retirando toda a já limitada privacidade de Willem.

– Sabe quantos favores tive de pedir para que se tornasse capitão? Entende quantas outras pessoas desejavam estar no seu lugar?

– Eu… – Willem tartamudeava.

– Pensa que foi fácil chegar aonde cheguei?

– Calma, Albert. Eu posso explicar.

– É Major Schouten agora!

Willem se sentou na cama. Percebeu que o irmão nem o olhou. Foi direto ao pequeno armário ao lado da cama, abrindo-o tão bruscamente quanto entrou ali. A inesperada ação assustou o inebriado capitão.

– O que está fazendo? – ele perguntou.

A resposta de Albert continuou no mesmo tom de raiva.

– Cuspiu no prato que lhe dei. Envergonhou minha autoridade. E o pior, nem deve perceber quão grave foi aquela palhaçada.

Nesse momento, o Major encontrou o que procurava no armário. Encontrou uma garrafa de rum que estava escondida entre as roupas de Willem. Tomou-a para si.

– Por favor, não faça isso – o semblante de Willem se encheu de desespero.

Em seguida, encontrou outra garrafa. Depois uma terceira. Uma quarta. E uma quinta. Willem se levantou de imediato. Avançou sobre o irmão. Esticou os braços para alcançar as garrafas na sua mão.

– Albert, por favor… – suplicou nervosamente.

O Major precisou apenas de um braço para afastar Willem. Bastou um movimento de corpo para jogar o entorpecido irmão ao lado. O bater de suas costas na parede de madeira do casco ecoou pelas câmaras internas do navio. As garrafas caíram. O alarido do estilhaçar de vidros veio em seguida.

Willem não conseguia se mover. Estava imobilizado pelo antebraço do Albert que pressionava o tórax contra a madeira, dificultando seus movimento e até sua respiração.

– Eu disse que é Major Schouten agora!

O desespero de Willem se transformou em prantos. Neste tempo, as mãos de Albert revistaram os bolsos internos da sua roupa. Mais dois cantis cheios de rum foram encontrados. As lágrimas de Willem caíram mais abundantes. Só quando certificou não haver mais garrafas escondidas, o braço disciplinador folgou o tórax aprisionado. O corpo inebriado foi aos poucos libertado. Escorregou pela madeira do navio. Sentou no chão.

As mãos do Major recolheram as garrafas que não se estilhaçaram. Tomou o caminho de saída do apertado cômodo do navio.

– Por causa do papelão que fez hoje de manhã, já ordenei que nenhuma bebida será permitida na viagem! Todo o álcool encontrado será confiscado! Todo aquele que desrespeitar será açoitado e severamente punido! E isso vale especialmente para o capitão Schouten!

O desespero jogou Willem ao chão. Ele deitou o corpo inebriado no frio assoalho. Encostou a face na madeira úmida. Lambeu o resto do rum derramado antes que escapassem totalmente por entre as frestas de madeira da embarcação.

Vendo o estado do irmão, colocando a língua naquele chão sujo e enlameado, o Major não pôde deixar de sentir comiseração pelo pobre coitado. Proferiu suas palavras finais antes de abandoná-lo ali.

– É para o seu próprio bem, Willem.

 

 

Filipe IV, Rei da Espanha por Pieter Paul Rubens (1577-1640)

 

A Glória de Niquéia

–Ibéricos–

 Capítulo 3

8 de Abril de 1622

Após mais uma espetacular noite de amor com seu amante, a Rainha Isabel acordou revigorada. Sorrindo, lembrava-se das aventuras da noite anterior, das explorações mútuas de corpos e dos prazeres divididos com o encantador Dom Juan de Tassis y Peralta. Era pouco depois do cantar do galo quando enfim leu e releu outras tantas vezes as cartas de amor e as poesias que recebeu. Sua mente estava enuviada por toda a lúdica situação e pelos sentimentos que a acometiam.

Inesperadamente, foi interrompida pelo bater na porta. Uma voz ríspida e gutural atravessou suas frestas.

– Desculpe incomodá-la tão cedo, minha Rainha – era a voz do Conde-Duque de Olivares. – Preciso falar urgentemente com Vossa Majestade.

Imediatamente, pelo instinto sobressaltado daqueles sem a consciência limpa, Isabel escondeu apressadamente as cartas na gaveta de seu criado-mudo. Só então lembrou que o Conde-Duque nunca abriria a porta do quarto sem sua permissão. Foi quando respondeu.

– Eu avisei às damas que não desejo ser interrompida essa manhã.

– É uma situação de vida ou morte, Majestade. Não pode esperar.

O sobressalto foi ainda maior. O que poderia ser? A pergunta se repetiu em sua mente. Tomada pela culpa dos criminosos, vasculhou seu quarto com o olhar, buscando alguma pista da presença masculina da noite anterior. Teve o cuidado de rever sua vestimenta para ver se estava de acordo. Checou pela segunda vez a fechadura da gaveta no seu criado.

– Pode entrar, Olivares – enfim respondeu.

O Conde-Duque adentrou o aposento. A face estava séria e cheia de negros sentimentos. Estava tomada por grande preocupação.

– O que pode ser tão importante para demandar tanta urgência? – a Rainha continuou, tentando disfarçar seu próprio nervosismo.

– Majestade, eu… – o Conde-Duque hesitou, sabia da gravidade de suas palavras, depois de um profundo fôlego, continuou. – Vossa Majestade sabe que El Rey é a pessoa com que mais me preocupo nesse mundo? Sabe que ele tem o meu mais devoto amor? Não sabe?

Ela balançou a cabeça em afirmação. O Conde-Duque continuou.

– Preocupo-me e o amo mais do que à minha esposa, à minha filha e a mim mesmo – com um lenço, ele enxugou o suor em sua testa. – Por isso, venho aqui. Estou muito preocupado.

– E por que tamanha preocupação? – a rainha perguntou dissimuladamente. – Estou me sentindo bem melhor. A dor pela pequena Margarida já não me machuca como antes.

– Não é disso que estou falando, Majestade.

– Então do que está falando, Olivares?

– Estou falando de Dom Juan de Tassis y Peralta.

O corpo de Isabel estremeceu. A face descorou. A culpa em seus olhos era o bastante para condená-la.

– Nós somos apenas bons amigos – ainda tentou contra-argumentar.

O Conde-Duque foi implacável.

– Eu o vi entrando em seu quarto ontem à noite. Eu o vi sair hoje pela manhã. Eu ouvi os sons que ambos fizeram durante toda noite.

Ela tentou falar algo, mas, entendendo sua situação indefensável, nenhuma frase inteligível deixou sua boca.

O ministro continuou.

– Não adianta tentar me convencer do contrário. Eu vi, ouvi e investiguei tudo, Majestade!

A Rainha foi tomada pelo desespero. Quase caiu aos pés do conselheiro real, mas ainda manteve a majestosa postura.

– Meu Deus, Olivares. Por favor, não conte nada a Filipe! – Lágrimas brotaram de suas pálpebras.

O Conde-Duque continuou implacável.

– El Rey já sabe. Eu contei a ele.

Desta vez a moça de dezoito anos de idade não mais conseguiu segurar a postura. Caiu de joelhos. Os prantos caíram no assoalho do palácio.

– Por favor, não. – balbuciou mais uma vez.

– Contei como Dom Juan vem cortejando Vossa Majestade. Contei como Vossa Majestade tem se sentido lisonjeada por tão impróprios atos. Felizmente para Vossa Majestade, não consegui contar sobre seus desonrosos encontros noturnos com esse jogador inveterado e excessivo bom vivant.

A face cabisbaixa da Rainha se elevou.

– Eu disse que, apesar de lisonjeada pelos cortejos, Vossa Majestade rejeitou suas investidas. Eu disse não haver nada para ele se preocupar.

– Muito obrigada, Olivares! – Ela respondeu. – Não tenho palavras para lhe agradecer!

Os grossos dedos do Conde-Duque tocaram delicadamente o braço da Rainha. Colocaram-na de pé novamente.

– Não precisa agradecer, Majestade. Eu só desejo a felicidade de El Rey. Por isso mesmo, espero que tome consciência de sua posição. Tenho muitos planos para o futuro do Reino. Não posso deixar que uma paixãozinha adolescente estrague a minha administração.

– Prometo que não acontecerá outra vez – a Rainha desabafou.

O Conde-Duque balançou a cabeça afirmativamente. Então, proferiu suas palavras finais, utilizando um tom de moderada, mas perceptível, ameaça.

– Realmente espero que não aconteça, Majestade. Como eu falei, essa é uma questão de vida ou morte.

 

***

 

Horas depois, o Conde-Duque já estava em outro local, em outra parte do palácio de El Alcázar, em outro aposento real. Ele percorreu os labirínticos corredores até chegar num local bem específico. Desta vez, estava no quarto do adolescente cheio de espinhas e de cabeça quadrada que governava metade da Europa. Estava no quarto de El Rey Filipe da Espanha.

– O problema foi resolvido, Majestade – disse o fiel conselheiro ao se ajoelhar perante seu soberano. – Sua Majestade, a Rainha não mais se encontrará com o sodomita Dom Juan.

– Mas, Olivares… – o rei balbuciava com medo da pergunta seguinte, mais especificamente com medo da possível resposta. – Eles realmente não ficaram íntimos? Por favor, me diga! Eu tenho que saber!

O Conde-Duque se levantou. Fitou os olhos de El Rey. E mentiu.

– Eles não ficaram íntimos, Majestade. Não se preocupe. Consegui intervir antes mesmo disto se tornar uma possibilidade.

El Rey suspirou aliviado.

– Graças a Deus! Obrigado, Olivares!

– Estou neste mundo apenas para lhe servir, Majestade.

Para alguém na sua posição, ainda mais na sua idade, descobrir uma traição assim poderia tomar ares trágicos. Ele agradeceu a Deus, por dezenas de vezes em sua mente, por ter alguém como o Conde-Duque de Olivares.

– Só tenho palavras de gratidão, Olivares. Nem acredito que, quando primeiro nos conhecemos, solicitei ao meu pai para lhe tirar do palácio.

– Vossa Majestade tinha dez anos de idade apenas. Além disso, eu nunca fui bom com primeiras impressões – disse o Conde-Duque, ciente do seu aspecto extravagante.

Qualquer que tenha sido os sentimentos iniciais de Sua Majestade ao seu fiel ministro, os sentimentos atuais mudaram completamente. As suas palavras seguintes revelaram o grau de dependência e controle que o Conde-Duque sempre almejou conseguir sobre menino-monarca.

– Sim. Começamos mal, Olivares, mas hoje não consigo imaginar minha vida sem tê-lo ao meu lado.

 

***

 

Semanas se passaram com a Rainha evitando o contato com Dom Juan, justificando a difícil situação implicada pelo Conde-Duque de Olivares. O amante nunca quis ouvir seus motivos, nem os riscos envolvidos. Suas mensagens chegavam a Rainha diariamente por meio de um intrincado correio. Por que não me responde? Suas perguntas eram cada vez mais persuasivas. Por que não me encontrou ontem à noite? Vinham também as súplicas. Sabe o quanto senti falta de ti, minha francelisa?

As mensagens enfim pararam. Doeu muito à Rainha quando passou toda uma semana sem notícias do amante, sem suas poesias, sem suas declarações. A falta do contato com aquele homem se tornou dolorosa.

Certo dia, embora não admitisse, a Rainha sabia bem qual fora a razão que a trouxe ao teatro, mais especificamente ao Coliseu de Aranjuez no sul de Madrid. Não era coincidência que adaptação para o teatro da peça La Glória de Niquéia fora escrita pelo seu antigo amante. Muitas das Damas de Companhia da Rainha participavam como atrizes da peça, por isso desejava prestigiá-las. Assim, Isabel racionalizava.

O primeiro ato da peça começou sem Isabel conseguir prestar a menor atenção. A mente estava imersa em lembranças de um passado de brincadeiras e prazeres sexuais. Ela só voltou à realidade quando as cortinas do teatro se fecharam e começaram os aplausos da multidão de espectadores. Era o fim do primeiro ato da peça.

– Agradeço a presença de todos! – Disse o apresentador quando as cortinas se abriram outra vez.

Os aplausos se intensificaram. Todos aguardavam o inicio do segundo ato. E lá estavam todos os atores se curvando em agradecimento pela boa reação da plateia. O apresentador continuou.

– Em especial, agradecemos à presença de Vossas Majestades por nos agraciarem com sua tão honrosa presença.

Toda a atenção se voltou para o casal dos soberanos da Espanha. Ambos Isabel e Filipe estavam num camarote especial, lado a lado, sendo reverenciado pelas pessoas nos andares abaixo. Enfim, a mão do apresentador tomou a direção da lateral do palco.

– E solicito também uma salva de palmas ao idealizador da peça – quando apresentador terminou de falar, alguém surgiu pela lateral. – Uma salva de palmas ao genial Conde de Villamediana, Dom Juan de Tassis y Peralta!

A imagem viril e sorridente, tão libertina e afeita aos prazeres da vida, causou um turbilhão na cabeça da Rainha. As lembranças das noites de paixão ao seu lado retornaram ainda mais devastadoras. Não demorou para os olhos do homem caírem diretamente sobre ela, aquecendo ainda mais suas memórias e seus desejos.

A sutileza nunca foi uma das virtudes de Dom Juan. Os olhos do amante a despiram e a desejaram por todo momento em que ele esteve no palco. Suplicavam-lhe um reencontro. Até mesmo o inexperiente El Rey Filipe percebeu a desrespeitosa implicação daquele olhar. Sentiu o ciúme incomodá-lo. Sentiu as dores de uma traição.

El Rey fitou a esposa com uma fúria que Isabel nunca vira nele.

– Espere por mim lá fora, Isabel – ele falou com aspereza.

– Sim, claro, tudo o que meu amado esposo desejar – ela respondeu.

Isabel se levantou. Caminhou para fora do camarote, com outras duas Damas de Companhia, tomando o corredor de circulação que levava à saída. A jovem Rainha não conseguiu partir sem antes olhar para trás, sem olhar o palco pela última vez.

O ex-amante já não estava lá. As cortinas haviam se fechado. As pessoas começaram a se levantar para o intervalo entre os atos. No entanto, toda a organização da saída se desfez com um grito alto e forte no meio da plateia.

– Fogo!

 

***

 

Por trás de outro camarote, uma cortina de fumaça negra ascendeu. Pairou sobre o teto do teatro. Era incrível para a Rainha ver como tudo ao seu redor mudou num único segundo. Gritos de desesperos se elevaram. Os prantos de mulheres eram ouvidos. Um empurra-empurra infernal atingiu o corpo de Sua Majestade à medida que os nobres, em pânico, deixavam os camarotes. A busca renhida pela saída fez as pessoas perderem o discernimento sobre quem é fidalgo ou povo, quem é plebeu ou majestade.

– Por aqui, Rainha! Venha! – Gritou uma das damas correndo e empurrando as pessoas desesperadas que agora superlotavam os corredores.

O medo paralisou Isabel. A outra Dama já correra para longe dali, esquecendo a Rainha a quem jurou lealdade, pensando apenas na própria sobrevivência. Enquanto isso, a Dama mais dedicada tentava abrir espaço entre a multidão para a passagem da Rainha,

– Deixem Sua Majestade passar!

Ela gritava em vão. Ninguém parecia escutá-la.

Primeiro, os olhos assustados de Isabel olharam para trás, em busca do esposo ou de sua guarda pessoal. Viu nada além da multidão que abarrotava os corredores. A Rainha sentiu seu corpo jogado contra a parede. Em seguida, acompanhou a multidão. Procurou correr na direção da tão prestativa Dama. Foi quando sentiu alguém lhe segurar o braço, puxando-a noutra direção, para longe da multidão ensandecida.

A face deste alguém foi logo reconhecida.

– Dom Juan?

Enquanto isso, aquela prestativa Dama de Companhia, que tanto tentava sem sucesso abrir espaço entre a multidão, voltou o olhar para trás do corredor, em direção à Sua Majestade.

A Rainha Isabel já não estava mais ali.

 

***

 

A Rainha Isabel foi puxada através de uma porta dentre as muitas daquele corredor. Era um aposento destinado aos funcionários do teatro. Era uma passagem empoeirada e cheia de tralhas, cuja escuridão escondia seu mau acabamento. Era uma área que não fora feito para os olhos dos expectadores. Tinha a função de depósito. A Rainha, ainda acometida pelos sentimentos da fuga desesperada, demorou a se acalmar.

– Temos que sair daqui, Dom Juan! Tem um incêndio ocorrendo no teatro! – a Rainha gritou com vozes de terror.

– Eu sei – a calma na voz de Dom Juan contrastava, cuja razão foi logo explicada. – Fui eu quem causou o fogo, francelisa.

O terror foi substituído pela surpresa.

– Está louco?

– Sabe muito bem que estou. – Dom Juan falou com um sorriso no rosto e com seu jeito bonachão. – Sabe bem a razão de minha loucura!

Ele aproximou seus lábios dos dela.

– Por favor, deixe-me sentir seu corpo uma última vez.

Isabel sempre soube que esta nunca seria uma despedida. O jogo era o que mais estimulava o audacioso amante. Certamente, haveria outras formas de encontrá-la, tão criativas quanto esta, quantas fossem necessárias. Era preciso que ela interrompesse seus ímpetos agora ou as consequências seriam terríveis.

A verdade é que nunca houve a menor chance de Isabel resistir. Ela entregou seu corpo necessitado a Dom Juan outra vez.

 

***

 

A Rainha não podia desaparecer por muito tempo. Nem mesmo tirou as roupas. Nem mesmo buscou as preliminares. Só levantou a saia e apressou o clímax. Enganou a vontade, mas não matou o desejo. Foi uma gota d’água no deserto. Era preciso voltar a Filipe antes que seu sumiço fosse percebido.

Ao fim, a moça logo retomou suas preocupações.

– Temos que sair agora. Logo virão atrás de mim. – Isabel falou com claro nervosismo após o amante jorrar seu anseio dentro dela.

– Não se preocupe, há uma saída pelos fundos.

Ambos caminharam pelos corredores escuros das partes mais internas e restritas do teatro. Passaram por baixo de vigas. Caminharam entre objetos de palco. Chegaram à porta ao fundo. A Rainha a atravessou, com a mente preenchida de preocupação. Rezava para não ser vista ali, ao lado do amante.

Infelizmente, suas preces não foram atendidas. Mal pisou fora do teatro, uma voz ressonou pelo beco ao fundo.

– Majestade!

A voz vinha de uma esquina das ruas perpendiculares próximas.

– Estão todos à sua procura. Graças a Deus a encontramos!

Era um dos guardas pessoais do palácio, chamado Alonso Matteo, o balestreiro real. O soldado correu na sua direção junto com o companheiro de profissão Ignácio Mendez.

– Quem é esse homem ao seu lado? – o outro guarda exclamou.

A voz do outro balestreiro continha notória indignação na voz. Percebendo o perigo, Dom Juan tratou de expressar uma explicação.

– Eu encontrei a Rainha perdida no teatro e em grande perigo por causa do incêndio. Graças a Deus, pude escoltá-la em segurança até a saída – o galanteador desconversou. – Se permitem, devo partir agora.

– Não tão cedo, senhor. Tenho certeza que El Rey desejará conhecer o homem que salvou a Rainha.

 

***

 

Apesar das palavras elogiosas, era notória a desconfiança dos balestreiros, mas ambos deixariam qualquer julgamento da situação para o Conde-Duque de Olivares. Afinal, o obeso conselheiro saberia bem como proceder.

Antes, Dom Juan colocou Isabel em seus braços.

– O que está fazendo, Dom Juan? – A Rainha questionou.

– Eu não a resgatei do incêndio? Como tudo o que faço, o resgate deverá ser em grande estilo também – um sorriso surgiu no seu rosto. – Tenho uma reputação a zelar!

Dom Juan carregou Isabel em seus braços até a porta principal do teatro. Ambos foram recebidos por El Rey que foi, ou inteligente, ou incapaz de confrontamento, o bastante para agradecer o salvador de sua esposa pelo heroico resgate.

A Rainha Isabel, embora receasse o esposo, não conseguiu tirar os olhos do Conde-Duque de Olivares. Ela se preocupava imensamente. E certamente se preocuparia mais se ouvisse o lamento silencioso que ele proferiu a si mesmo.

– Ah, Isabel… Eu disse que esta era uma situação de vida ou morte. É uma pena que tenha escolhido a segunda opção!

 

Planta da Bahia por João Teixeira Albernaz, o Velho (1500s – 1662)

A Chegada do Bispo

–Brasileiros–

Capítulo 2

8 de Dezembro de 1622

A menina-moça Ana Paes já se acostumara com o balançar da caravela. Enfim estava retornando para sua terra-natal na Bahia de Todos os Santos, na capital do Novo Mundo. Estava sendo levada numa caravela pequena que não transportava mais que cinquenta pessoas. No entanto, um ilustre passageiro se destacava dos demais. Lá estava o Bispo do Novo Mundo. Era o mais alto cargo clerical destas terras recém-descobertas, ao qual todos os padres e provinciais deviam obediência. O seu nome era Dom Marcos Teixeira.

Era um santo homem que abençoou não apenas o próprio barco, como todos os que partiram com ele da Europa e os que embarcaram em Pernambuco, incluindo a família Paes. Era uma longa viagem que se encerrava com o grito do marinheiro no cestão no mastro principal.

– Terra à vista!

Todos correram para lateral da caravela para confirmar suas palavras. Após dois meses de viagem desde Lisboa e uma semana desde Olinda, o cantar das gaivotas anunciaram a chegada à cidade de São Salvador. O Bispo Dom Marcos amealhou todos os presentes numa roda. Começou uma oração com palavras de agradecimento e de boa ventura.

A cidade foi construída sobre um monte no centro de uma baía costeira em formato de meia-lua e cercada por altas muralhas. Era tão bem fechada por seus tijolos de pedra e argamassa de cal que haviam apenas três entradas: o Portão de São Bento pelo lado do oceano ao leste; o Portão do Carmo pelo lado da terra firme a oeste; e o Porto da Cidade, bem no centro da meia-lua ao sul, onde o Bispo e os outros passageiros desembarcariam.

Para a família Paes, havia uma grande surpresa no local. O novo Governador-Geral, que chegara meses antes, já começara a construção de uma nova fortificação bem ali no próprio porto. Ela ainda estava em suas fundações. E, pela falta de um nome para batizá-la, era chamada pela antonomásia de Fortaleza Nova.

– Todos, se segurem! – gritou outro marinheiro.

A pancada brusca da caravela contra o deque de madeira no porto quase derrubou Ana Paes.

– Senta, Ana! Não quero que se machuque – a senhora Paes admoestou.

As cordas da caravela foram lançadas. Os trabalhadores do porto as seguraram e imediatamente as amarraram nas madeiras que sustentavam o porto. A cada novo puxão nas cordas, a caravela se aproximava do deque, até que uma ponte foi lançada ao convés da embarcação.

– Podem descer – por fim, disse outro marinheiro.

O Bispo foi o primeiro, sendo recepcionado por um noviço da Sé e por muitos clérigos católicos que ali se encontravam. A população o aguardava ansiosa. Parecia ser um dia de festa e procissão. Afinal, já se fazia três anos desde que o Novo Mundo não tinha um Bispo.

O olhar atento de Ana Paes conseguiu identificar duas pessoas que se destacavam na multidão. Era seu irmão Antônio e seu noivo Dom Pero.

– Que saudade de todos – disse o irmão mais velho, que carinhosamente chamavam de Toninho.

Ele primeiro abraçou o pai e a mãe. Depois, beijou a irmã na fronte. Em seguida, foi a vez do noivo se aproximar.

– Olá, Ana – ele se curvou, segurando o braço da noiva e beijando-lhe respeitosamente o dorso da mão. Depois, se voltou para os sogros. – Senhor Jerônimo. Dona Isabel. Espero que tenham tido uma boa viagem.

– Não podia ter sido mais tranquila – o patriarca respondeu.

– A presença do Bispo a iluminou – a mãe completou.

O noivo se chamava Pero Correia da Silva. Era um homem alto, forte e bonito, alguém que falava pouco e apenas o necessário. Era sem dúvidas um bom partido, cobiçado por muitas mulheres de Salvador, muito embora a noiva o considerasse calado demais. Afinal, tendo Ana Paes apenas catorze anos de idade, o noivo era pelo menos vinte anos mais velho. Certamente, não tinham muitos assuntos em comum para conversar.

Pero Correia da Silva, no entanto, não era um simples cidadão. Era um dos poucos Fidalgos de Salvador. Mesmo sendo esta a capital do Novo Mundo, o número de homens com algum título de nobreza podia ser contado nos dedos das mãos. Isso incluía o Bispo, o Governador, e alguns políticos e militares. E, mesmo entre os Fidalgos, Pero Correia da Silva era uma exceção. Afinal, quando nobres vêm para terras tão distantes quanto o Novo Mundo, buscam fazê-lo temporariamente como forma de buscar notoriedade e ascensão perante a corte de El Rey. Esse era o plano inicial de Dom Pero quando aceitou ser capitão da Guarda da Bahia, mas, diferente dos demais, ele se apaixonou por esta terra selvagem.

– Deseja acompanhar a procissão em homenagem ao Bispo, senhor Jerônimo? – o fidalgo perguntou aos sogros.

– Ah não, Dom Pero – respondeu o patriarca. – Quero ver como está o meu comércio que há meses não tenho notícia.

O casamento era uma negociação perfeita. Ana Paes se casava com um fidalgo para gerar um neto igualmente nobre. Era uma ascensão social gigantesca para sua família. O noivo se tornaria Senhor de Engenho em Pernambuco graças ao dote da moça. E, com a filha casada com um nobre e o filho mantendo o comércio que fundou, Jerônimo regozijava com a possibilidade de enfim poder se aposentar.

As coisas não poderiam estar melhores para ele.

 

***

 

Enquanto isso, o Bispo continuou sua caminhada em direção a Sé. Lançava a água benta entre os fieis, purificando o povo e o solo baiano com sua chegada. Tinha na cabeça uma Mitra dourada e, sobre a túnica branca, estava revestido em sua Capa de Asperges de cor rubra, belos bordados e alamar brilhoso. Na mão, tinha um Báculo de ouro puro. E, apesar de suar por todos os poros de seu corpo atarracado, mantinha uma figura gloriosa como manda o cerimonial da igreja católica romana.

Todos os principais clérigos da cidade o acompanhavam sob a tenda do pálio litúrgico, que os protegia do forte sol do Novo Mundo. Ao seu lado, estava o noviço escolhido como seu ajudante. No entanto, o Bispo logo percebeu uma importante falta em toda aquela multidão.

– Onde está o Governador-Geral, meu rapaz? Ele está na Sé me esperando? – o bispo perguntou.

O noviço era um garoto franzino de dezesseis anos de idade chamado Antônio Vieira. Era muito jovem para ter as verves e o entendimento das situações políticas. Neste caso, foi mais sincero do que os superiores na Bahia gostariam.

– Infelizmente, o Governador-Geral foi embora, senhor. Não quis ficar – o noviço respondeu sem medir as palavras. – Dom Diogo se chateou pelo senhor não deixar que ele acompanhasse a cerimônia embaixo do pálio conosco. Desejava ficar ao seu lado, praticando junto ao povo.

– Onde já se viu? – exclamou o Bispo, esnobando-o a seguir. – Essa é uma cerimônia religiosa! Por acaso, o Governador está pensando que isso aqui é um palanque político?

A indignação do Bispo estava escondida por trás do semblante alegre exposto aos fieis. Ela foi percebida pelo noviço franzino, o que fez com que este baixasse a cabeça. Era inteligente o bastante para ver os maus sentimentos que começavam a criar raízes no Bispo Dom Marcos.

– Mas o Governador-Geral enviou um Chanceler em seu lugar. Ele sim está esperando o senhor na Sé.

O Bispo nem se dignou a responder. O seu sentimento de desprezo pelo Governador-Geral se realçou num meio-sorriso que expunha ao povo baiano. Por acaso, o governador pensa que não sou bom o bastante para sua presença? O noviço traduzia as palavras que saltavam dos olhos acinzentados do Bispo.

Esse foi o começo de uma inimizade entre o líder administrativo e o líder religioso do Novo Mundo que persistiria por todo o tempo em que ambos conviveram juntos.

Esse sentimento aumentou quando enfim os religiosos chegaram à Sé. A situação do templo era deplorável. Era quase uma ruína em pleno centro da cidade. Estava mal-acabada da reforma de dez anos antes, com as tintas das paredes descascadas, muitos dos assentos quebrados e nenhuma imagem nos murais. Além disso, era muito pequena, muito pior do que o Bispo esperava quando aceitou o cargo. Tinha apenas uma nave e não cabia o número de fieis que eram necessários para as missas de domingo. Maior parte deles era obrigada a assistir a missa em pé.

Na entrada do arruinado templo, estava o Chanceler, representando o Governador-Geral. Um pensamento correu a mente do Bispo, quando chegou até ele. Lembrou que havia apenas mil e quatrocentas casas em Salvador. Não havia nem mesmo dez mil pessoas residindo na cidade. Com certeza, não havia nada mais importante para fazer que a chegada de um Bispo.

– Por que o Governador-Geral não veio me receber?

Dom Marcos externou sua indignação quando chegou ao Chanceler. Já não havia nem mesmo um meio sorriso na sua face.

– Infelizmente, o Governador não pôde vir, Reverendíssimo. Houve uma urgência na governadoria – o Chanceler respondeu com um melhor manejo da situação.

Em seguida, se curvou. Beijou o anel sacro do clérigo.

– Vossa Reverendíssima poderá encontrar Dom Diogo amanhã – então retomou. – Terminamos as fundações da Fortaleza Nova no porto da cidade. O senhor deve ter visto o local quando desembarcou. Colocaremos a primeira pedra da construção pela manhã. Bem que o senhor poderia benzê-la.

– Benzer a Fortaleza?

O Bispo não mais conseguiu se segurar.

– Pelo amor de Deus – então exclamou. – Não estão vendo a situação da nossa Sé? O dinheiro deveria ser usado aqui, em homenagem ao Nosso Senhor, não numa fortaleza qualquer!

O Bispo nem deixou o Chanceler responder. Atravessou a entrada do templo semiarruinado. O pecado da ira sobrepujava qualquer outro sentimento.

– Se eu for lá amanhã, será para amaldiçoar o lugar!

 

 

Conde-Duque de Olivares por Diego Velaquez (1599-1660)

 

A Ação e a Reação

–Ibéricos–

 Capítulo 4

 

21 de Agosto de 1622

Esse foi um dia triste para o Reino Ibérico. Muitos foram os donos de Casas de Jogo que se entristeceram pela perda de um bom cliente. Muitos foram os adoradores da arte que sentiram a perda de um grande artista. Muitas foram as mulheres que choraram pela perda de um amante. A vida boêmia da noite madrilenha sofreria grandes mudanças com a morte de um grande participante dela, assim como também sofreria a vida da Rainha Isabel.

Neste dia, Dom Juan passou o dia no palácio real de El Alcázar. Compartilhou uma tarde agradável conversando de interesses comuns com Dom Luís de Haro, sobrinho do Conde-Duque de Olivares. Falaram principalmente de esportes, afinal, além de um poeta reconhecido, Dom Juan era um exímio mestre nas touradas. Um fabuloso picador, como chamavam aqueles grandes toureiros capazes de picar os touros com suas lanças certeiras.

O sol começara a traçar seu trajeto final ao horizonte quando ambos caminharam juntos aos portões de saída de El Alcázar.

– A tarde foi extremamente agradável.

– Espero que possamos repetir outro dia.

– Talvez, sim. Quem sabe? – Dom Luís proferiu sem muita convicção.

O boêmio poeta percebeu o semblante do amigo se modificar. De alegre companhia passou ao funesto luto.

Intrigado, uma pergunta deixou os lábios do poeta.

– Quer me dizer algo, Dom Luís?

– Não é nada… – o rosto do rapaz se fechou. – Apenas sentirei falta da sua boa companhia.

– Fala como se nunca mais fossemos nos encontrar.

O jovem rapaz tentou desconversar. Deixou transparecer um sentimento de apreensão. Luís de Haro, herdeiro do marquesado de Carpio, tinha apenas vinte e três anos. Nascido em Valladolid, nos arredores de Madrid, fora inserido recentemente na corte Madrileña pelo Conde-Duque de Olivares, irmão de sua mãe. Graças ao tio teve uma boa ascensão na corte, mas muito ainda precisava aprender. Uma dessas coisas era mentir.

Percebendo algo errado, Dom Juan lançou uma nova pergunta.

– Sei que mora perto daqui. Por favor, me permita deixá-lo em casa.

Dom Luís hesitou, mas logo balançou a cabeça afirmativamente. Entrou no coche de Dom Juan.

Os cavalos começaram a se mover.

– Ah, Dom Juan… – o jovem fidalgo hesitou por um segundo. – És tão grande galanteador como és bom toureiro picador, mas desta vez picaste muito alto. Meu tio te matará se não desistires da Rainha.

Mantendo o mesmo peso no cenho, o rapaz continuou.

– Entrei na carruagem para pedir que te afastes dela. Eu posso convencer Olivares a te dar uma última chance. Basta me prometer que nunca mais verás a Rainha Isabel.

A proposta estava feita, mas Dom Juan tinha apenas uma resposta.

– Honro minha palavra acima de tudo, Dom Luís. Não posso prometer algo que não posso cumprir.

O semblante de Dom Luís afundou em tristeza.

– É realmente uma pena, meu amigo.

Neste momento, a carruagem atravessava La Calle Mayor, a principal rua de Madrid, já próximo da casa de Dom Juan, quando o cocheiro abriu a portinhola para falar ao interior da cabine. Sua voz anunciou a chegada de uma pessoa vindo da Puerta de Pellejeros.

– Senhor! – O cocheiro elevou a voz. – Um homem se aproximou dizendo ter uma mensagem urgente para Vossa Excelência.

– Que diabos! – Dom Juan se chateou com a interrupção. – Diga-o para ser rápido! Estou no meio de uma conversa importante aqui.

A porta da carruagem se abriu de repente. Um homem surgiu à frente. Dom Juan logo o reconheceu. Era um dos homens que o surpreendera nos fundos do teatro. Era um dos balestreiros reais. Era Matteo Ignácio. E tinha sua balestra na mão, apontada para o poeta.

As palavras de Dom Luís selaram seu destino.

– Sentirei a falta da tua companhia, grande picador.

Um balançar de cabeça bastou para o gatilho ser apertado. Um som surdo vibrou o ar. Uma flecha cruzou os ventos. Atravessou a manga da roupa de Dom Juan. Arrebatou carne de seu braço até atingir os ossos. Foi sair atrás do ombro. Dom Juan ainda sacou sua espada. Caminhou cego de dor contra seu agressor. Tropeçou nos próprios passos. Deixou um rastro de sangue por onde passou.

Não conseguiu dar nem o terceiro passo, caiu morto no chão.

 

***

 

Não mais que algumas semanas depois, era o Conde-Duque de Olivares quem amargava a morte de outra pessoa. Seu parceiro político e companheiro de estratégias, Baltazar de Zuñiga, sucumbiu à doença. Cabe a ti, Olivares, tornar real a nossa visão de um Reino reformado, pela Grandeza e Reputação da Espanha, foram suas últimas palavras. E, para atingir esse objetivo, Olivares precisava unir a colcha de retalhos que era o Reino Ibérico.

Era preciso transformar nações tão diferentes em cultura e língua quanto Portugal, Flandres, Itália, Catalunha, Valência e Bascos. Precisava aliar-se a nações tão distintas quanto Inglaterra, França e o Império Romano-Germânico. Era um plano possível apenas com um soberano forte. Assim, precisava transformar um adolescente cabeçudo e franzino no mais poderoso Monarca e Defensor da Cristandade.

Tinha a seu favor o amor por Sua Majestade. Era o filho varão que o Conde-Duque nunca teve. Não era apenas um meio para um fim. Ele realmente desejava o melhor para o rapaz. E por isso mesmo precisava controlar a situação com a Rainha Isabel. Com esse intuito, a chamou até seu escritório.

– Solicitou minha presença, Olivares? – a Rainha adentrou.

– Sim, Majestade – o ministro se curvou em respeito. – Há muito tempo que não nos falamos.

O Conde-Duque não estava sozinho no aposento. Ao seu lado, estava sua esposa, igualmente curvada diante da Rainha. O nome dela era Inês, uma delicada mulher de trinta e oito anos de idade, cabelos negros, e tão magra que a cintura parecia prestes a se quebrar. Era impossível imaginar tão delicada criatura na cama com o obeso Conde-Duque, para conceber a pequena Maria, a única filha do casal.

Apesar da presença da educada esposa de Olivares ali no aposento, a Rainha não mediu palavras.

– Sim, desde o dia em que mataste Dom Juan!

A cabeça curvada do Conde-Duque se levantou. O semblante era de uma seriedade pavorosa.

– Por favor, Majestade, não faça tão injustas acusações – ele ergueu o corpo. – Eu não tive qualquer relação com tão terrível infortúnio.

A Rainha só conseguiu enxergar cinismo no rosto de Conde-Duque.

– E como explica a presença de seu sobrinho, Dom Luís, no coche? Foi uma coincidência?

– Dom Luís é um herói, Majestade – o ministro continuou. – Devo lembrar que foi ele quem prendeu o assassino.

A Rainha nada respondeu. Manteve o silêncio. Não havia provas materiais, pois qualquer indício da participação do Conde-Duque no assassinato foi cuidadosamente apagado.

– Não nego que esta fatalidade foi a melhor coisa que já aconteceu a Vossa Majestade – o ministro continuou. – O cortejo de Dom Juan, mesmo que não tenha atingido o objetivo, estava prestes a se tornar um escândalo.

Isabel jogou o olhar para Inês. Era óbvio que o Conde-Duque mentiu até para a esposa ao dizer que o cortejo de Dom Juan, não tinha atingido o objetivo.

– Mas deixemos de lado essas frivolidades – o ministro desconversou. – Esqueçamos o passado. Chamei-a aqui para dar a mais nova boa notícia.

A Rainha não podia estar mais desinteressada no que Olivares tinha para dizer. Não podia ser boa coisa afinal, mas a moça não esperava ouvir o pior de seus pesadelos virar realidade.

– Vim informar que El Rey me convidou para morar no palácio!

O rosto da Rainha ficou pasmada.

– A morte de Baltazar de Zuñiga trouxe consequências inesperadas – o Conde-Duque continuou. – Três homens da mais valorosa estirpe espanhola assumirão o seu lugar como administradores do Reino. Eu fui escolhido para intermediar as palavras de El Rey com esse Triunvirato.

– Intermediar ou colocar palavras na boca dele? – Isabel alfinetou.

O Conde-Duque alfinetou de volta.

– Vossa Majestade menospreza as capacidades de El Rey, ele é muito mais capaz do que a senhora é capaz de imaginar.

As palavras a atingiram de forma profunda. Era exatamente o sentimento de culpa que o Conde-Duque desejava lhe causar. Por um momento, até a educada Inês não conseguiu esconder o desconforto.

A Rainha manteve a frieza no cenho, mas as palavras seguintes do ministro a indignariam ainda mais.

– El Rey também está animado com a possibilidade de Vossa Majestade ter com minha esposa a mesma relação que ele tem comigo – O sorriso do Conde-Duque se alargou. – Por essa razão, El Rey fará da minha amada Inês a sua principal Dama de Companhia.

A delicada Inês tomou a palavras pela primeira vez na conversa.

– Majestade, estarei ao seu lado apenas para servi-la.

– Tenho certeza que sim –  mal Isabel terminou de falar, consternada, já se voltou à porta de saída. Não sem antes falar suas desoladoras palavras finais, como algum condenado a caminho de sua prisão.

– Então por que sinto que não terei voto nessa decisão? – perguntou com a sensação das paredes se fechando ao redor.

 

***

 

Noutra parte do palácio, Maria de Chirel, a Dama de Companhia da Rainha entrou na sala de leitura de El Alcázar. Ali encontrou, entre as dezenas de prateleiras de livros e documentos impressos, alguém deitado na poltrona maior. Esta pessoa não estava lendo um livro ou realizando qualquer ação. Parecia inerte, olhando fixamente para o teto, totalmente absorto em seus pensamentos.

Apenas duas coisas podem deixar um homem assim, tão tragado nos próprios problemas. Essas duas coisas são: Mulher ou Dinheiro. E, como essa pessoa era El Rey Filipe da Espanha, o mais poderoso monarca europeu, problemas financeiros não eram algo que o atingiam. O problema só poderia ser de natureza feminina.

– Majestade, algum problema? – A Dama perguntou.

– Não é nada. Apenas quero ficar sozinho – El Rey respondeu.

A verdade era que a egoísta aventura da Rainha Isabel não mediu as consequências sobre o seu esposo. Se há algo que pode derrubar um homem, certamente é a traição da mulher amada.

Percebendo a situação, a Dama de Companhia se aproximou. Deixou ao seu lado um pouco de chá e serviu alguns biscoitos para comer. O monarca nada falou. Manteve o silêncio de seus perturbadores pensamentos. A tensão, que emanava de sua mente, envolvia o ambiente como uma névoa escura. A sensação fez o peito de Maria de Chirel se apertar.

Comovida com a situação, a Dama teve a coragem de tomar a palavra.

– Majestade, não fique assim. – disse se voltando para o rapazote. – O senhor não merece estar passando por isso.

– Só quero ficar sozinho, Maria.

A Dama engoliu o nervosismo. Afinal, estava falando o mais poderoso monarca da Europa, mas retomou a palavra ao perceber a fragilidade do mesmo.

– Eu sei sobre a Rainha, Majestade… Sobre ela e Dom Juan. Não é correto que o senhor sofra por suas ações desonrosas.

Essa foi a vez de El Rey virar a face na direção da Dama.

– O Conde-Duque lhe contou o que a Rainha fez? – falou mais consternado que curioso.

– Na verdade, fui eu quem contou ao Conde-Duque – a Dama explicou.

El Rey suspirou antes de responder.

– Então devo lhe agradecer por evitar que o ultraje tomasse proporções ainda maiores.

– O erro foi da Rainha, Majestade. Não há do que se envergonhar.

O suspiro de El Rey soou como um desabafo descrente.

A Dama se aproximou.

– A Rainha não percebeu o esposo maravilhoso que tinha ao seu lado – disse quando próxima o bastante para lhe tocar a mão.

– Por favor, Maria, não preciso que tenha pena de mim.

A Dama se ajoelhou para fitar os olhos com o rapazote. A mão direita dela tocou sua triste face de forma carinhosa.

– É verdade, Majestade – ela aproximou seu rosto. – Se eu tivesse um homem como o senhor, mesmo que por uma noite, eu seria a mulher mais grata desse mundo.

Mal terminou as palavras, El Rey sentiu outra mão lhe tocar a coxa.

– Mesmo que por uma única noite – ela repetiu quando a mão chegou em sua virilha.

Ele sentiu os dedos femininos tocando seu órgão crescentemente rígido. Sentiu a Dama brincando com ele por cima da calça, fazendo emanar prazerosas sensações.

O primeiro impulso do menino-monarca foi se curvar em embaraço. Mas as mãos femininas continuaram a carícia. O rosto dela se aproximou. O som sussurrante, próximo de seu ouvido, falou com voz mais sedutora que qualquer garoto de dezesseis anos poderia resistir:

– Eu não agrado a Vossa Majestade? – ela perguntou.

– Sim. Agrada. E muito! –  Em seu nervosismo, o menino monarca mal conseguiu responder.

Essas palavras fizeram a Dama desamarrar os cordões da calça. Os lábios dela desceram até chegar ao rígido órgão masculino. Beijou-o com toda sua excitação. Várias vezes.

Até que ritmo desses beijos fizeram Sua Majestade explodir de prazer.

 

Invasão Holandesa da Bahia por Autor Desconhecido

 

 

O Exército dos Descalços

–Brasileiros–

Capítulo 3

 

14 de Maio de 1623

Os meses se passaram e a discórdia entre o Bispo Dom Marcos Teixeira e Governador-Geral Dom Diogo Furtado foi se agravando cada vez mais. Numa missa solene, conforme a regra, ambos deveriam se sentar apartados na epístola, mas o governador tentou mudar o cerimonial para que ambos pudessem sentar juntos e conversar. Desejava discutir os lugares da igreja e evitar a má situação entre os dois. O Bispo fez questão de evitar a companhia do Governador. Afirmou fazer como manda o cerimonial, ficando definitivamente apartados. Depois disso, não mais frequentaram os mesmos lugares, ficando fundado que um nunca iria onde o outro fosse, e assim se cumpriu.

Numa situação emblemática, o próprio Bispo se excedeu. Ele ordenou que dois homens fossem deportados para Reino, onde todos sabiam que tinham lá suas esposas, mas que na cidade de Salvador estavam amancebados com umas negras formosas. O Procurador da Cidade contradisse o padre. Ordenou que os homens fossem retirados dos navios, permitindo que ficassem em Salvador. O Bispo então excomungou o tal Procurador para mostrar que ninguém deveria lhe contradizer, num claro conflito de poderes.

Os seus próprios sermões nas missas de domingo mostravam claramente essa discórdia, como escutaram Ana Paes e seu noivo Dom Pero.

– O Governador-Geral quer destruir nossa cidade!

O Bispo asseverou seu olhar na assembléia.

– Ele quer que os valores morais que regem nossa sociedade sejam entregues ao Satanás! Quer que nosso povo se entregue ao pecado! Quer transformar Salvador numa Babilônia de mulheres desvirtuadas e homens pecadores! A Igreja da Sé está em ruínas! Esposos abandonam as esposas! A violência está em todas as esquinas! Há mais mendigos nas ruas do que famílias em suas casas! Tenham toda certeza, meus fieis, não são dos hereges holandeses que devemos temer, mas da própria ira divina se continuarmos nesse caminho!

Ele cerrou olhou na assembleia.

– É um caminho que levará a cidade de Salvador ao mesmo destino de Sodoma e Gomorra!

As pessoas escutavam as palavras apocalípticas do Bispo. A popularidade do Governador-Geral, que já estava em baixa, despencou nas últimas semanas, pois, preocupado com as notícias de uma armada inimiga no Oceano, o Governador-Geral buscou tomar as devidas providências. Ele mandou convocar o maior número de pessoas possíveis para ingressar nas defesas da Bahia de Todos os Santos. Enviou o aviso até mesmo à paupérrima população do interior da capitania, no Recôncavo Baiano, que mal conseguia sobreviver em suas atividades de subsistência.

Uma multidão de miseráveis invadiu Salvador. Não foi um exagero do Bispo quando disse haver mais mendigos nas ruas do que famílias em suas casas. Eram duas mil novas pessoas em Salvador, pelo menos metade delas de mendigos, que, sem dinheiro, enchiam os cortiços e favelas. Era a ralé mais baixa da capitania, acima apenas dos escravos e dos canibais. Eram negros alforriados, índios aventureiros e brancos esmolés, todos concentrados no centro da cidade.

A situação dessas pessoas era tão precária que nem dinheiro para se alimentarem possuíam, obrigando o governador a dar-lhes por dia três moedas de cobre, chamado na época de vintém, para poderem pelo menos realizar uma refeição diária. Era em meio a estes novos vizinhos que Ana Paes e seu noivo caminhavam após ouvir o sermão do bispo.

– Obrigado por me acompanhar à missa. Papai não me deixa mais andar sozinha pela cidade – disse Ana Paes ao se desviar de um pedinte.

– Seu pai está certo, Ana. Salvador não é mais a mesma. Está muito perigosa agora – Dom Pero comentou.

Era um comentário muito pertinente. Com um aumento tão grande e abrupto da população adulta masculina, não havia dúvidas de que a criminalidade aumentou, assim como os jogos de azar e a prostituição. Dom Pero, como capitão da guarda da cidade, nunca trabalhou tanto em sua vida.

– Acredita que o Bispo está certo? O Governador-Geral é culpado de tudo isso? – Ana Paes perguntou.

– O Governador-Geral apenas deseja manter seu povo protegido – ele comentou sem muita firmeza na afirmação.

O cenário ao redor de Ana Paes corroborava com seu semblante preocupado. Pedintes maltrapilhos, descalços e descamisados, se sentavam no chão das ruas numa inércia desoladora. Pessoas se enfileiravam fora das tavernas populares para conseguir um péssimo prato de comida a baixos custos. A sensação de perigo era sempre iminente, como se houvesse um assaltante em cada esquina.

Depois de se desviar de outro pedinte, Ana continuou.

– Ainda não entendo essa briga entre o Bispo e o Governador. Não me disse semana passada que a confusão entre os dois já estaria resolvida?

– Era para estar, Ana. O governador liberou o dinheiro para terminar a Sé,  mas não foi o bastante para o Bispo.

Realmente, o Governador-Geral deu seis mil cruzados para a reforma da Sé. Era uma boa quantidade de dinheiro, equivalente a quase vinte mil ducados de ouro. Era o bastante para reformar a pintura, tapar os buracos nas paredes e ainda consertar os assentos quebrados. Mas o Bispo queria mais. Queria alargar a nave, pintar uns murais e comprar itens de decoração. Queria fazer de sua jurisdição na Bahia um marco, transformando a Sé numa obra arquitetônica.

– É só disso que se fala na cidade agora. Bispo para cá. Governador para lá – Ana Paes desabafou. – Não aguento mais ouvir sobre isso.

– Quem não aguenta mais essa situação sou eu – Dom Pero completou.

Infelizmente, a situação se tornaria pior. Todos comentavam que a rixa entre o Bispo e o Governador-Geral estava prestes a se transformar numa guerra civil. Era um cenário que se constatou quando o casal chegou à casa de Jerônimo Paes. Já abrindo a porta para Ana Paes entrar, Dom Pero ouviu alguém gritar.

– Capitão, há uma confusão no porto! Os seguidores do Bispo estão atacando as obras da Fortaleza Nova.

 

***

 

A cena era realmente de guerra uma civil. De um lado, estavam mais de vinte fieis que, instigados pelo sermão do Bispo, desejavam invadir as construções da Fortaleza Nova e destruir os paredões que começavam a tomar forma. Não era algo propriamente fácil, visto que suas fundações foram feitas sobre um arrecife no meio do mar. Não havia ponte, nem deque para chegar lá, mas isso não era o bastante para impedir os católicos fanáticos.

Do outro lado, estavam os pedreiros e carpinteiros. Eram liderados pelo engenheiro-mor da obra, sendo pelo menos uma dúzia de homens que faziam uma barreira humana para evitar a entrada dos fanáticos às embarcações. Se para os fiéis, a Fortaleza Nova era a representação do descaso com a religião em Salvador, para os trabalhadores ela era o seu ganha-pão.

Estes gritavam:

– Saiam daqui, bando de malucos!

– Não queremos confusão!

– Não vão destruir o que acabamos de construir!

Aqueles replicavam:

– Ajudantes do Diabo! Hereges!

– A glória de Deus seja louvada!

– A Fortaleza deve ser destruída!

A coisa toda estava prestes a sair do controle quando o engenheiro-mor da obra tomou a frente do grupo. Este homem era o maior defensor da Fortaleza Nova. Ele quem desenhou seu formato pentagonal, embicado para o mar. Ele quem desejava mais do que ninguém vê-la pronta. Ele quem primeiro avançou contra os fanáticos aos gritos.

– Seus loucos! Só passarão daqui por cima do meu cadáver!

Mal terminou de falar, uma bola de lama lhe atingiu o rosto. O impacto o derrubou no chão. A cena do engenheiro caído elevou ainda mais a moral dos católicos fanáticos. Era a vez deles avançarem contra os trabalhadores, que seguraram suas ferramentas, martelos e machados, com mais força, prontos para se defender de qualquer ataque. A guerra civil entre aquelas dezenas de homens estava para começar.

Felizmente algo os impediu. Primeiro, uma mulher surgiu dentre a multidão. Segurou o engenheiro pelo braço.

– Senhor Francisco Frias! – era a voz da senhorita Ana Paes. – O senhor está bem?

No entanto, foi a voz seguinte, do capitão Dom Pero Correia da Silva, que encerrou o conflito. Ele colocou sua montaria entre os dois grupos de pessoas, puxando as rédeas do cavalo, fazendo-o enterrar os cascos no chão.

– Parem com isso agora!

O capitão lançou o olhar para os fanáticos.

– A Fortaleza é propriedade do governo de Salvador. Se alguém der um passo à frente sofrerá as consequências – disse o capitão, colocando a mão na lateral da cintura, envolvendo o cabo de seu mosquete com os dedos.

Aquele grupo de pessoas deteve o passo.

– Não é louco de atirar em nós! – Um dos fanáticos o desafiou.

– Quer arriscar? – Dom Pero respondeu, apertando mais o cabo do mosquete.

O capitão e o líder dos católicos se entreolharam. O dilema de Dom Pero era terrível. Se os religiosos avançassem, havia apenas duas possibilidades: Atirar ou Recuar. Na primeira possibilidade, matar um cidadão seria um escândalo de grandes proporções. Na segunda, deixar aqueles homens passarem seria vergonhoso. Ambas acabariam com sua carreira.

Exatamente por essa razão, o capitão fez de tudo para não hesitar em sua ação. Encarou o fanático firmemente. Puxou a pedra de fogo do mosquete em posição, preparando-a na posição de tiro. O clique foi ouvido por ambos os lados. A arma no coldre estava pronta para ser disparada.

O cavalo nervoso rinchou, bateu o casco no chão. Simbolizava os ares de urgência da situação. Então, o fanático se manifestou.

– Isso não vai ficar assim, Dom Pero!

O homem que tomava a frente do grupo recuou. Os demais fizeram o mesmo.

– Tomem conselho com seu Bispo – o capitão continuou a baixar os ânimos dos revoltosos. – Ele pode ser contra a Fortaleza, mas nunca seria a favor dessa violência sem sentido!

Enquanto proferia tais palavras, o capitão Dom Pero observava aqueles mais de vinte homens retornando à cidade. Só quando estavam todos longe o bastante, pôde suspirar aliviado e voltar-se ao engenheiro atingido.

– Como está, senhor Frias?

– Eu estou bem – o engenheiro respondeu.

Este, que já se levantara com a ajuda de Ana Paes, bateu na roupa para tirar a sujeira. Passou a mão no rosto para tirar a lama.

– Esses malucos não percebem o esforço que o Governador-Geral tem feito para manter essas obras avançando?

O capitão enfim soltou arma.

– Se essa armada holandesa for verdadeira, só espero que faça logo seu ataque – ele proferiu num semblante taciturno. – Se for em outro lugar, melhor. Se for aqui em Salvador, pelo menos encerrará essa disputa idiota.

Por fim, completou.

– É melhor sermos mortos pelo inimigo do que matarmos uns ao outros!

 

***

 

Cuidado com o que deseja, pois pode se tornar realidade, se o capitão Dom Pero acreditasse nisso, não teria proferido tais palavras. Afinal, a verdade logo viria à tona. E não se podia lamentar da falta de avisos, principalmente dentre os padres e clérigos de toda a Bahia. Mesmo porque o maior desses avisos ocorreu sob o teto do próprio Bispo. Era um aviso cujo autor, segundo a interpretação de cada um, poderia ser Deus ou o Diabo.

Meses depois do confronto no porto, numa madrugada fria e escura, gritos terríveis ecoaram no Convento do Carmo. Eram berros de terror que despertavam todos que dormiam no local.

– O que houve, Vieira? O que está acontecendo?

O Bispo foi o primeiro a chegar aos aposentos de seu assistente. Foi o primeiro a perceber o suor frio que lhe descia a fronte e observar o tremor em suas mãos. Foi o primeiro a constatar o desespero em sua face.

– Graças a Deus! Ainda bem que o senhor está aqui, Bispo! – exclamou o aterrorizado noviço, abraçando seu mestre como uma criança assustada.

As lágrimas percorreram a face do rapaz.

– Aconteceu de novo, senhor!

Todos os pêlos do líder católico se arrepiaram. Uma gélida sensação lhe subiu a espinha. Esta não era a primeira vez que o noviço Vieira acordara assim, tão apavorado no meio da noite. Não era a primeira vez que tivera o mesmo terrível pesadelo. Era um sonho cujo conteúdo profético era inegável. Era um sonho com uma terrível mensagem divina.

– Sonhei outra vez com a espada divina do Senhor, desembainhada, destruindo a cidade de São Salvador.

 

 

Mapa das Ilhas de Cabo Verde por Jacques Nicolas Bellin (1703-1772)

 

A Travessia do Oceano

–Holandeses–

Capítulo 3

 

24 de Janeiro de 1624 

As dezenove embarcações da armada holandesa deixaram o porto de Texel sob o comando do almirante Jacob Wilinkens. O tempo estimado até o arquipélago de Cabo Verde era pouco mais de um mês. Era um curto período para os navegantes já acostumados com o mar. O próprio almirante costumava percorrer quatro meses até chegar às Índias Orientais. No entanto, nada pareceria tão longo quanto este único mês para o capitão Willem Schouten.

Na primeira semana de viagem, um dos seus soldados tomou um bote até o navio Zeelandia, onde seu irmão estava alojado.

– Major Schouten!

O soldado chegou aos gritos nos aposentos do comandante. Então, deu a urgente notícia.

– Seu irmão está doente. O senhor precisa vir comigo.

Escorbuto. Varíola. Pneumonia. Essas foram algumas possíveis doenças que poderiam estar acometendo o capitão. Apressadamente, o Major chegou à embarcação do irmão. Desceu as escadarias que levavam às câmaras internas do navio. Entrou no cômodo do capitão adoentado. No fim, não havia gengivas purulentas, nem marcas no rosto, nem tosses secretivas.

Havia sim um tremor intenso nas mãos de Willem. Um suor frio lhe descia o rosto. Estava com uma palidez mórbida sem igual. No entanto, o mais assustador eram suas palavras desorientadas. Era notório que estava alucinando. Estava vendo coisas que não existiam. Estava conversando com pessoas imaginárias.

– Irmão? Veio me visitar? – Willem perguntou. – Que ótimo! Espero que tenha gostado dessa taverna, assim como dos meus amigos também.

O capitão apontou para o próprio armário com o qual dividia o espaço do apertado cômodo. Falou com voz tremida.

– Chegou bem na hora de ouvir a piada de Ulisses.

Depois, olhou para um dos pilares de madeira que sustentavam as câmaras internas do navio, onde as divisórias do aposentos foram amarradas.

– Aquíles ainda não conseguiu parar de rir até agora.

O Major olhou para os companheiros de farra do irmão: o armário e o pilar. Sentou, acometido por uma grande tristeza. Olhou para Willem com pena e preocupação. Seu sorriso mal era visto por baixo das cobertas com as quais se agasalhava. Parecia estar em pleno inverno de Amsterdã, embora a armada holandesa já estivesse na costa da África, onde o calor era insuportável. Além disso, sob esses lençóis, ele se coçava de forma neurótica e exagerada. Era como se um exército formigas estivessem atacando seu corpo.

O Major pediu para o soldado que o acompanhou se sentar. Ambos ficaram ali, parados, observando as alucinações do capitão. Infelizmente, elas ficaram cada vez mais intensas.

– Por favor, Albert! Não deixem eles me pegarem. Eles querem me levar para o inferno! Prometo que serei um homem bom agora!

A situação foi ficando tão tensa que tiveram de amarrar Willem na cama para ele não se machucar. O Major suspirou. Abriu o casaco. Tirou do bolso uma pequena garrafa. Um odor alcóolico empestou o ambiente. Era uma das garrafas de rum que confiscara do irmão no dia do embarque.

O Major deu alguns goles ao adoentado irmão. Sentou-se novamente. Continuou a observá-lo.

Ali ficou por horas, acompanhado do soldado. Nada falou, nem o soldado se atreveu a comentar. Deu mais alguns outros goles da bebida ao irmão, nada o bastante para embriagá-lo, apenas o mínimo até melhorar os sintomas. Só depois de um longo período de silêncio, o Major Albert enfim conversou com a outra testemunha desta triste cena.

– Qual seu nome, soldado?

– Charles, senhor.

– Percebo pelo sotaque que não é holandês. Pelo sotaque, deve ser francês, eu presumo.

– Sim. Nasci na França, na cidade de Toulon, mas moro na Holanda há anos.

– Obrigado por me chamar, Charles – o Major suspirou.

Encostou nas divisórias que limitavam os cômodos do capitão.

– Alguém mais viu o capitão Willem neste estado? – então perguntou.

– Não, senhor. Seus cômodos são afastados o bastante do resto da tripulação. Eu estava passando quando o ouvi falando sozinho.

– Pois ordeno que não conte o que ocorreu aqui a mais ninguém.

– Ninguém ouvirá nada da minha boca. O senhor tem a minha palavra.

O Major suspirou outra vez. Estendeu a mão. Entregou a garrafa de bebida para o soldado.

– Parece que o capitão adormeceu – por fim, o soldado relatou.

Era notável que os tremores de Willem estavam bem menos visíveis. O rosto adquiriu um semblante mais pacífico.

O Major se aproximou do irmão. Arrumou os lençóis para que ficasse mais confortável. Manteve um olhar genuinamente preocupado. Enfim, retomou as ordens ao soldado Charles de Toulon.

– Se ele voltar a tremer e falar bobagens pode dar mais alguns goles da bebida. Fará com que se sinta melhor, mas só o faça em caso de extrema necessidade.

– Sim, senhor.

O Major caminhou à porta do cômodo. Abriu-a outra vez. Olhou o irmão por mais alguns segundos. A respiração pesada se manteve até realizar a última solicitação ao soldado francês.

– E me mantenha informado de sua situação. Quero saber de tudo o que acontecer com o capitão.

O soldado apenas consentiu com um movimento de cabeça.

 

***

 

Depois de calmarias e tempestades, a Armada percorreu a rota que dista do porto de Texel à ilha de São Vicente no Cabo Verde em exatos um mês e sete dias. Neste período, eles atravessaram o estreito de Dover e Callais, bordejaram a costa da Inglaterra, cruzaram os mares espanhóis e enfim alcançaram a costa africana. Esta era única e última parada de toda a jornada ao Novo Mundo.

A chegada do coronel Van Dorth era esperada para meados de fevereiro. Até lá, as forças holandesas tiveram muito o que fazer na Ilha de São Vicente. A primeira ação foi encontrar mantimento para sua estadia. Felizmente, obtiveram bons refrescos, como peixe e limões, não só na ilha de São Vicente, como na vizinha de Santo Antônio.

A segunda ação era essencial para o plano de invasão. Era necessário garantir o desembarque, com barcos de transportes que levassem toda a tropa dos navios até a praia. Para esse efeito, foram levadas oito chalupas grandes de gávea, que iam desmontadas nos navios.

Chegou o momento de montá-las. E, para inspecionar sua montagem, o Major Albert Schouten, desceu de sua embarcação.

– Como estão as chalupas de transporte?

Ele perguntou ao capitão Kijf. Era outro dos cinco capitães sob seu comando. Ao redor deles, estavam várias estações de montagem, sobre um largo gramado da ilha. Tudo era de improviso. Ferramentas eram jogadas em cima do tapete verde natural. Sobre alguns suportes de madeiras, as tábuas eram posicionadas. Em cada uma dessas estações, havia os carpinteiros para a montagem, rodeados por soldados que os auxiliavam e capitães que inspecionavam tudo. O trabalho já tomava forma de embarcações.

– Não demorará para que fique tudo pronto!

O capitão Kijf chutou o esqueleto da chalupa de sua equipe para mostrar a qualidade do trabalho.

A engenharia nos estaleiros da época para a construção de embarcações era uma grande ciência. Existiam barcos para todo o tipo de missão. As embarcações de guerra eram classificadas em Galeões, Fragatas e Iates. Variavam em tamanho e desenho. Enquanto o primeiro tipo, os Galeões, eram grandes e pesados, perfeitos para colocar muito poder de fogo e suportar muita artilharia inimiga, o último tipo, os Iates, eram menores e rápidos, perfeitos para a tática de fugir e recuar ou para missões de reconhecimento. As Fragatas, com tamanho intermediário, tentavam equilibrar ambas as qualidades.

Para a função de transporte, as Caravelas e Caravelões eram perfeitos para o transporte de mercadorias e de pessoas através do Oceano. No entanto, eram grandes e pesadas demais para navegar em águas rasas, obrigando-as a sempre ancorar em portos naturais, centenas metros de distância da praia, e realizar o desembarque em botes.

As Chalupas e batéis, por outro lado, herdaram o desenho Viking alongado, quase cônico, que permitia flutuar com mínima estrutura submersa. Elas não suportavam as grandes ondas e tempestades do Oceano, mas eram capazes de navegar em qualquer superfície aquática: mares costeiros, praias, até mesmo rios e lagos. Eram perfeitas para um desembarque, sendo capazes de levar mais de vinte pessoas desde o alto mar até a praia.

– Excelente trabalho, capitão – o Major Schouten respondeu.

Depois olhou ao seu redor. Analisou as outras estações.

– Quando o coronel Van Dorth chegar, partiremos de imediato. Ele não ficará nada feliz se nos atrasarmos por causa dessas chalupas.

– Não se preocupe, senhor. Elas estarão prontas a tempo.

O capitão Kijf percebeu que o olhar do major Schouten escapando para uma estação em especial. Era a estação de seu irmão Willem. Era uma das mais atrasadas. No entanto, não era algo para se lamentar. O Major estava feliz em ver o irmão livre da bebida. Nas duas primeiras semanas de viagem, a total abstinência ao álcool foi terrível para ele. O próprio Major temeu por sua vida. Nisso, poderia agradecer ao soldado francês, Charles de Toulon, que tomou conta dele nesses trinta e sete dias de viagem.

Willem estava bem diferente. A postura era melhor. A barba estava bem aparada. Tinha um aspecto limpo e bem-cuidado. Era um exemplar digno de um capitão. Com um pouco mais de músculo, poderia até mesmo se passar pelo Major, seu irmão.

– Como Willem está suportando, major? – o capitão Kijf interrompeu a contemplação silenciosa.

– O que sabe sobre a condição dele? – o major retornou a pergunta, surpreendido pelo conhecimento de Kijf na questão.

– É uma dessas coisas que todos sabem, mas ninguém comenta. Todos os soldados viram a cena no embarque. Ficaram chateados no início. A maioria ainda está, mas se compadeceram com o que ele passou nas últimas semanas.

– Deixei um soldado de olho nele. Ele me disse que Willem se comportou bem durante toda a viagem. É um novo homem agora.

O capitão Kijf bateu nas costas do major, apoiando silenciosamente a decisão.

– Espero que continue assim.

Antes que proferissem alguma nova palavra, a voz do almirante Wilinkens ecoou em suas costas. Trazia uma esperada notícia.

– A flotilha de Piet Heyn acabou de ancorar.

Um sorriso resplandeceu na face do Major.

– Ótimo. E onde está o Coronel? – o Major perguntou

Apesar do resplandecente sorriso do Major, o semblante taciturno nem um pouco alegre do Almirante em nada se modificou. Não tinha boas notícias. Das quatro últimas embarcações que partiram juntas do porto de Texel apenas três chegaram a Cabo Verde. Um galeão se perdeu no caminho, como logo foi constatado pelas palavras de Wilinkens.

– Lamento informar que ventos contrários retiraram o Hollandia do percurso. Ele se perdeu na costa de Serra Leoa.

Era exatamente o galeão do coronel Van Dorth.

 

***

 

A notícia do desaparecimento do Coronel Van Dorth abalou os ânimos das forças holandesas. Ainda havia a esperança do Hollandia retomar a rota. Por esta razão, o major Schouten, o almirante Wilinkens e o vice-almirante Piet Heyn deram a ordem para aguardar. Contra essa afirmação, havia o fato da África ser território espanhol cheio de corsários. Embora fosse uma embarcação de grande poder de fogo, era lenta demais para escapar de algum ataque. Sozinha, era presa fácil.

Um mês se passou. Já era fim de março, e nem sinal do Coronel e seu galeão. Os líderes holandeses já não estavam na mesma concordância.

– Deveríamos ir atrás do coronel em Serra Leoa – o Major sugeriu.

– Fez um mês que desapareceu. Se fosse apenas um desvio de rota, já deveria estar aqui – o velho Almirante respondeu.

– Acredita que ele pode ter sido capturado?

– Pode muito bem ter naufragado também – o gorducho e baixinho Piet Heyn quem citou a outra triste possibilidade. – Lembre-se que os navios Golfinho, Atum e Porco-do-Mar deixaram Texel antes de nós, e também não chegaram.

– Eles podem estar juntos.

– Com certeza… Juntos, no fundo do mar!

– Cala boca, Heyn – a irritação do Major o fez elevar a voz. – Depois de perder o Coronel agora deseja que ele esteja morto!

– Não coloque a culpa em mim – o Vice-Almirante cerrou seus pequenos olhos no Major. – Bastava que Van Dorth tivesse amainado algumas velas para conter os ventos e me seguido! Se quer culpar alguém, culpe a inexperiência do próprio Coronel!

– Tenham calma, os dois! – o Almirante Wilinkens interrompeu.

O velho lobo-do-mar fitou Piet Heyn. Depois fitou o Major Schouten.

– Ficarmos discutindo e colocando a culpa uns nos outros não ajudará em nada a nossa situação. Temos que tomar uma decisão.

Piet Heyn, com seu jeito bonachão e autoconfiante, colocou as opções.

– Ou vamos atrás de Van Dorth em Serra Leoa ou procedemos para o Novo Mundo. Decidam!

– Podemos ficar aqui, aguardando mais um pouco – o Almirante Wilinkens colocou a terceira opção.

No entanto, esta não agradou nenhum dos outros dois homens na mesa.

– Eu me alistei para matar espanhóis, não para ficar sentado numa ilha no meio do Oceano – Piet Heyn foi o primeiro a protestar.

– Heyn está certo – o Major surpreendeu a todos quando o secundou. – Não podemos mais esperar, pois os navios fretados logo terão que voltar para a Holanda.

O silêncio retornou ao aposento.

– A decisão está em suas mãos, Schouten – Wilinkens colocou o peso da decisão no Major. – Sem Van Dorth, o senhor é o novo Comandante Geral de todas as nossas forças!

Eram palavras inquestionáveis. Afinal, ambos Wilinkens e Piet Heyn estavam ali apenas para garantir o desembarque das tropas de infantaria.

O Major aprendeu em seus anos no exército a nunca atrasar uma decisão. Mil considerações ocorreram ao major, mas era seu dever pensar como um dos Dezenove Diretores da Companhia.

– Não haverá atraso – por fim proferiu. – Continuaremos o plano da Companhia. Partiremos já para o ataque ao Novo Mundo!

O vice-almirante Piet Heyn não conseguiu esconder o sorriso. Era exatamente o que desejava.

– Então está na hora de abrir a Carta de Instruções – este não escondeu a empolgação.

O Major voltou o olhar para o velho Almirante. Este balançou afirmativamente a cabeça, concordando com a decisão. Aquele colocou a mão direita dentro do casaco. Retirou o envelope negro da Carta de Instrução.

O local do desembarque foi alvo de muita especulação entre todos os integrantes do exército e da marinha holandesa, até mesmo os três comandantes tinham suas suposições. O vice-almirante Piet Heyn acreditava que o alvo seria alguma ilha do Caribe, talvez até mesmo a rica ilha de Cuba. O almirante Wilinkens apostava no outro lado do continente americano, Peru, Chile, Argentina, algum lugar rico em ouro e prata. O major Schouten imaginou algo neste lado do continente, Pernambuco, Bahia ou São Vicente.

Os três chegaram a apostar entre si. O resultado veio à tona quando o Major abriu a carta. Ele a arremessou no centro da mesa à vista de todos.

– Ganhei a aposta! – Ele falou.

Lá estavam os mapas da cidade de São Salvador na Bahia de Todos os Santos.

 

Inês de Zuñiga y Velasco, esposa do Conde-Duque de Olivares, por Diego Velasquez (1599-1660)

A Educação de El Rey

–Ibéricos–

Capítulo 5

17 de Março de 1623

Era mais um dia de reunião do Triunvirato escolhido por El Rey para ocupar o lugar do valido Baltazar de Zuñiga, que morrera alguns meses antes. Esses três homens escolhidos entre os mais de vinte membros do Conselho de Estado estavam ali para decidir o futuro da sua nação. E, sentado logo à frente, com ares ainda maiores de superioridade, estava o Conde-Duque de Olivares, representando a vontade de Sua Majestade nas tomadas de decisões.

Toda essa situação teve a mão do próprio Olivares para existir. Ele quem idealizou o Triunvirato, inspirando-se numa situação ocorrida duas décadas antes. Ele quem praticamente fez de tudo para que o próprio El Rey participasse das reuniões para conhecer melhor seu Reino. No entanto, o inexperiente menino-rei, sentiu-se tão intimidado de fazer parte de tão importantes decisões que apenas aceitou participar mediante estar atrás de cortinas, como ouvinte, até que tomasse confiança o bastante para um papel ativo nelas.

Por outro lado, não demorou para o Conde-Duque analisar melhor toda a ideia do Triunvirato.

– Que péssima decisão!

O Conde-Duque bradou em certo momento da discussão. A explicação de sua indignação foi logo exposta.

– Então quer dizer que El Rey escolhe os três grandes nomes do Reino e estes nomes nem mesmo conseguem tomar uma decisão importante? – Assim disse, enquanto uma das mãos pressionava a têmpora para amortecer a dor de cabeça que o acometia. – Não acredito nisso! Simplesmente, não acredito!

Os três homens com ares de superioridade, frente às suas resmas de documentos, se entreolhavam.

– Não é uma situação fácil, Olivares. Mas retomo que meu voto é para continuar a atacar os holandeses, marchando nossos homens contra a praça de Breda – disse Dom Augustín Mexia, quem o Conde-Duque colocou no conselho por sua conhecida belicosidade.

Em seguida, falou o velho e coxo general Fernando de Girón, escolhido pelo Conde-Duque por ser veterano das guerras holandesas.

– Breda é uma das cidades mais bem fortificadas da Holanda. Retomá-la será muito custoso aos cofres do Reino. Não recomendo o ataque!

Quando o Conde-Duque escolheu o general veterano Girón para participar do Triunvirato, ele esperava que sua experiência no campo de batalha o fizesse um grande apoiador da manutenção da guerra. No entanto, este se mostrou um dos maiores partidários contrários, sob o argumento de que os políticos castelhanos, que nunca estiveram na Holanda, tinham uma ideia exagerada do poder militar espanhol. A situação lá era bem mais complicada do que pensavam. Por isso, pedia por uma nova trégua imediatamente.

Restava o voto minerva para a decisão do Triunvirato. O último integrante era o Marquês de Montesclaros, cujas palavras tomavam o pior dos caminhos. O da indecisão.

– El Rey precisa entender que dos vinte e cinco Conselheiros de Estado apenas dois são a favor da guerra. Verdade seja dita, gastamos muito e ganhamos muito pouco desde o fim da Trégua.

As palavras do terceiro membro do Triunvirato eram bem reais. O recomeço das hostilidades alcançava seu segundo ano. No primeiro, o orçamento da guerra aumentou para quase quatro milhões de ducados de ouro, sendo conquistada apenas a insignificante cidadela holandesa de Jülich depois de cinco meses de cerco e uma vitória naval em Gilbratar graças à bravura de um capitão estreante chamado Fadrique de Toledo.

No segundo ano, a situação foi bem pior. Depois de gasto os mesmos quase quatro milhões do orçamento, os cinco meses de cerco à Bergen-op-Zoom acabaram em total fracasso, com os exércitos holandeses obrigando os espanhóis a uma vergonhosa retirada.

Com isto em mente, o Marquês de Montesclaros continuava.

– Eu entendo que uma nação tão grande e poderosa quanto nosso Reino, não pode deixar de estar em guerra para manter sua reputação e forças, e que se for para escolher um inimigo que seja a república dos hereges holandeses. Mas, dada a situação, prefiro abster-me do meu voto.

O Conde-Duque se levantou consternado.

– Isso é ultrajante!

Essas palavras causaram uma reação nem um pouco agradável naqueles três homens que deveriam ser os melhores do Reino.

– Se Vossas Excelências não podem decidir sobre esta matéria, sugiro alguém quem possa! Sugiro alguém com muito mais valor que todos aqui sentados! Alguém verdadeiramente preocupado com o futuro do Reino! Alguém capaz de assumir o papel que lhes foi destinado!

Os três homens se levantaram com a insolência dessas palavras. Pensamentos se atropelavam, formando respostas que já estavam na ponta da língua para serem proferidas: Quem esse gordo asqueroso pensa que é para medir nosso valor? Por acaso, ele pensa que é melhor do que nós? Pensa que pode nos substituir?

O ódio acrescia em suas faces. No entanto, quando os três homens estavam prontos para defender seus cargos e esculachar o ministro, este abriu a cortina logo atrás.

– Se os três grandes conselheiros de El Rey não conseguem se resolver, sugiro então que Sua Majestade, o próprio, tome essa decisão!

A visão do soberano espanhol transformou a faces dos integrantes do Triunvirato. De raivosos críticos contra as palavras do Conde-Duque agora exibiam a figura de abobalhados bajuladores. Claro que todos sabiam que El Rey estava ali, escutando tudo o que diziam. Foram avisados disso todas as vezes que se reuniam. No entanto, visto a nula intromissão dele nas discussões, muitas vezes se esqueciam disso.

– A vontade de Vossa Majestade é uma ordem – disse um ao se ajoelhar.

– Vossa Majestade muito nos honrará com sua palavra – disse o outro.

O Conde-Duque de Olivares, já ajoelhado, com os olhos para o chão em respeito ao monarca, foi o primeiro a lançar a pergunta.

– Então, Majestade, como o senhor acredita que devamos proceder com a cidade de Breda?

Era notório que o adolescente Rei Filipe da Espanha não estava preparado para aquele ato do Conde-Duque de Olivares. Era a primeira vez que tomaria a palavra numa reunião depois de meses apenas como ouvinte. Ainda mais numa decisão tão importante. Seu nervosismo era bem perceptível.

– Eu… Eu concordo com o Conde-Duque – falou com voz hesitante. – Devemos atacar Breda o quanto antes.

Um sorriso de orgulho e satisfação brilhou na face do obeso ministro.

 

***

 

A reunião do Triunvirato terminou. Todos partiram para suas residências, tanto aliviados por El Rey tomar a decisão, quanto preocupados com o futuro do Reino. Apenas o Conde-Duque e El Rey se mantiveram no local, tendo Sua Majestade imediatamente abordado seu ministro para falar do ocorrido desta tarde.

– Devia ter me avisado antes, Olivares – o menino-monarca iniciou a conversa. – Eu não estava preparado.

– Claro que estava, Majestade – Conde-Duque retrucou.

– A verdade é que não me sinto preparado.

– É impossível se sentir totalmente preparado de verdade, meu senhor, mas Vossa Majestade foi perfeito. Só precisa de um pouco mais de confiança.

– Eu me considero tão jovem para essas conversas.

– Bobagem. Alexandre, o Grande, tinha dezoito anos quando seu pai lhe deu o primeiro exército! E ele conquistou metade do mundo em menos de uma década!

O menino-monarca suspirou desapontado com a comparação. Com certeza, ele não se considerava o próximo Alexandre, o Grande, que o Conde-Duque enxergava. O sentimento apenas aumentou quando seu principal ministro e conselheiro relembrou do que estava por vir. Uma visita diplomática que era essencial para seus planos futuros.

– Vossa Majestade tem se preparado para a visita do príncipe Charles?

– Tenho tentado ler os resumos que me enviou – o menino respondeu.

O príncipe Charles era o herdeiro da Inglaterra, futuro rei de uma nação. E, com o terrível estado de saúde de seu pai, o atual rei James, cada vez mais precário por problemas renais e nas articulações, tendo já perdido todos os dentes e sofrendo das câmaras quase todos os dias, não demoraria muito para o filho assumir o Reino. Por essa mesma razão, vendo o fim da vida próximo, o atual rei James programou uma turnê pela Europa para Charles conhecer seus principais aliados.

A paz entre a Inglaterra e a Espanha já durava mais de vinte anos, depois de uma sangrenta guerra que quase afundou o Reino Ibérico com a infame Batalha de Gravelines, na qual os ingleses destruíram a então famosa Armada Invencível Espanhola.

Por essa razão, o Conde-Duque já preparava uma negociação de casamento entre o príncipe Charles, de vinte e três anos, e Mariana, a irmã de El-Rei Filipe, de dezesseis. Era uma união que poderia assegurar a manutenção dessa necessária paz por muitos anos adiante. Assim, o Conde-Duque desejava que El Rey Filipe causasse uma boa impressão no herdeiro inglês.

– Se tem realmente lido os resumos, então me diga quantas pessoas residem no Reino? – o ministro o inquiriu.

– Cinco a Sete milhões segundo as estimativas do último censo – respondeu o menino-monarca.

– Quantos Duques existem em toda a Espanha?

– Vinte e cinco, todos com título de grandeza.

– Quantos Marqueses?

– Setenta, sendo nove com título de grandeza.

– E Condes?

– Setenta e três, sendo sete com título de grandeza.

– Muito bem. E quais são os títulos que Vossa Majestade herdou?

– Deixa-me pensar… – El Rey matutou por um segundo antes de começar. – Sou Rei de Castela, Leão, Aragão, Sicília, Nápoles, Portugal, Navarra, Valência, Granada, Mallorca, Cerdeña, Ilhas Canárias, Índias Orientais, Índias Ocidentais e de toda a Terra Firme do Mar Oceano. Também sou Duque de Brabante, Milão, Flandres, Barcelona e… e…

O tempo passou. O rapazote sabia que estava esquecendo algo.

–… Conde de Borgoña e Senhor de Vizcaya. – o Conde-Duques completou. – Não esqueça seus títulos menores, Majestade.

– Eu sei. É que são tantos.

– São sim. Mas a paz com a Inglaterra é essencial para o futuro da Espanha. Para isso, temos que impressionar o príncipe Charles. E Vossa Majestade não conseguirá isso se nem mesmo consegue lembrar os próprios territórios.

O jovem rei baixou a cabeça em consentimento, sem levantar por vergonha. No entanto, antes que pudesse falar qualquer coisa, alguém surgiu à porta. Era a magra esposa do Conde-Duque, Dona Inês, que logo se ajoelhou em respeito à presença de Sua Majestade.

Ela se manteve ajoelhada até o soberano de dezoito anos de idade permitir que ficasse à vontade. Então proferiu palavras com seus lábios finos.

– Desculpe interromper, Majestade.

O jovem rapaz balançou a cabeça.

– Se permitir, preciso falar com meu esposo a sós – ela continuou. – É um assunto urgente.

 

***

 

El Rey assentiu, e o Conde-Duque logo deixou o aposento. Caminhou com a esposa pelos corredores labirínticos do palácio, até encontrar um local privativo o bastante para conversarem. Ele percebeu a urgência na voz da esposa. Percebeu a preocupação em seu semblante. Mesmo porque, Inês não o teria chamado durante uma reunião com Sua Majestade se não fosse importante. Por isso, foi logo perguntando.

– O que houve, Inês? – ele mirou os olhos da esposa. – Sabe que eu preciso preparar El Rey. E infelizmente ele não é muito afeito aos livros, nem aos trabalhos com papéis.

– Não teria vindo se não fosse algo importante.

– Não me diga que a Rainha Isabel aprontou outra vez – ele inferiu, já revirando os olhos.

– Não. Vim por causa de nossa filha.

– Nossa filha?

– Sim. Eu vim para te avisar que nossa filha sangrou hoje pela primeira vez. Vim para avisar que nossa Maria não é mais uma criança.

O Conde-Duque enrugou a fronte, abriu os olhos mais largamente. O primeiro pensamento foi de tristeza ao ouvir que sua adorada e pequenina bebezinha estava crescendo. Estava com catorze anos agora. O segundo pensamento, no entanto, foi mais racional. Pensou de imediato nas ramificações que este acontecimento poderia alcançar. Pensou no futuro da Casa dos Gusmão de Olivares. E foi com este segundo pensamento que os lábios se moveram outra vez.

– Ótimo – um leve sorriso surgiu. – Começarei a procurar um noivo para ela imediatamente.

 

***

 

A noite chegou. O Conde-Duque de Olivares entregou uma série de livros, documentos e manuscritos resumindo tudo o que El Rey deveria aprender até a chegada do príncipe Charles da Inglaterra. Todo esse acervo, no entanto, se manteve intocado sobre a escrivaninha dos aposentos reais. Sua Majestade já tinha outros interesses programados para esta noite.

O balançar dos lençóis de cetim que cobriam a cama de El Rey revelava haver duas pessoas embaixo deles. Os corpos de Sua Majestade e da Dama de Companhia, Maria de Chirel, se entrelaçavam no ritmado vaivém do prazer carnal, como vinha acontecendo regularmente nos últimos meses. Ela, com seu rosto de menina levada, com o queixo protuso e olhos instigantes, deixava o menino-monarca louco de paixão. Os hormônios em ebulição eram aquecidos a todo vapor quando a jovem Dama, como uma fiel serva do Reino, atendia a todos os eróticos desejos de Sua Majestade.

A filha do Conde de Chirel exerceu seu papel de vassala com uma surpreendente devoção neste dia. Fez a noite de paixão atingir seu clímax rapidamente. Os dois deitaram lado a lado, trocavam carícias antes de dormir. Ela alisava a larga fronte quadrada de Sua Majestade, removendo os cabelos quase ruivos que lhe caíam sobre os olhos.

Nesse momento, proferiu as palavras que El Rey nunca poderia esperar.

– Majestade, me perdoe – a moça suplicou, já aterrorizada com o que poderia lhe acontecer.

– Perdoar, Chirel? – El Rey perguntou. – Só tenho que agradecer por todos esses meses que passamos juntos. Foram incríveis!

– Sim. Por todos esses meses, fui apenas de Vossa Majestade. Entreguei-me ao senhor de corpo e alma. Por isso, peço que tenha compaixão.

– O que houve?

As lágrimas da Dama deixaram o monarca ainda mais desconfortável. Nada deixa um homem tão despreparado quanto o choro de uma mulher. Ele então sentou seu corpo esguio, lhe tocou o ombro, repetindo a pergunta. O choro se intensificou até a Dama conseguir forças para lhe responder.

– Meu Senhor, eu… Eu descobri que estou grávida.

 

Ataque Holandês a Bahia por Visscher Gerritsz (1650)

 

 A Chegada dos Holandeses

–Brasileiros–

Capítulo 4

8 de Maio de 1624

O prenúncio de um ataque holandês não ocorreu apenas nos pesadelos do noviço Antônio Vieira. Outro padre disse ter visto, durante o coro, a imagem de três lanças celestiais sendo arremessadas contra a igreja de Salvador. Bem entenderam, os que isto viram, que diagnosticava algum grande castigo. Qualquer que fosse, as conjecturas só foram sanadas no dia de Aparição de São Miguel, a 8 de maio de 1624.

A Casa da Torre, construída dez léguas ao norte de Salvador pelo braço direito do primeiro Governador-Geral do Novo Mundo, cresceu numa povoação com grandes casas de vivenda, uma igreja de Nossa Senhora e uma longa torre que lhe deu o nome, cuja alvenaria branca emanava mata acima, rebuscando a paisagem verdejante. Seus sentinelas foram os primeiros a ver as bandeiras holandesas faiscando ao sol poente nos galeões da armada inimiga.

Sob mando de Francisco Dias D’Ávila, atual senhor da Casa da Torre, um mensageiro galopou as paisagens baianas. Entrou pelos portões da cidade de Salvador. Cruzou os quarteirões das suas bem planejadas mil e quatrocentas residências, incluindo o Colégio Jesuíta de São Francisco, a Prisão Oficial, os dois Guindastes de Carga que conectavam a cidade alta ao porto, até chegar ao Mercado Central, no coração da cidade, da qual já tomava visão o Quartel de Guarda.

Em frente desta estrutura, estava o quarteirão das Casas de El Rey, onde morava o Governador-Geral.

– Senhor Governador!

O rapazote entrou na casa já gritando desesperado.

– Que tanto alvoroço é esse? – Dom Diogo acordou sobressaltado. Caminhou pelo corredor principal de sua morada. Olhou abaixo das escadarias que davam para o salão principal. Encontrou o rapazote. Antes que pudesse reclamar do descanso interrompido, ouviu as palavras que fizeram desaparecer nele qualquer resquício de sono.

– Armada Holandesa à vista, senhor! Os hereges chegaram!

 

***

 

Com os raios da alvorada, apareceu a armada inimiga, que repartida em esquadras, vinha entrando. Tocava-se, em todas as naus, trombetas bastardas ao som de guerra, que com o vermelho dos paveses vinham ao longe publicando sangue. Divisavam as bandeiras holandesas, flâmulas e estandartes, que, ordenando dos mastros mais altos, desciam até varrer o mar com majestade e graça. Para aqueles que não foram acometidos de temor, toda a cena bem podia fazer uma formosa vista.

O Governador-geral, Dom Diogo Mendonça Furtado, já preparava a defesa. Era um homem bom e católico, conhecido como caridoso fornecedor de esmolas. Tinha pouco mais de quarenta anos de idade e deixava no rosto um fino bigode. Trouxe à cidade de Salvador toda sua família, incluindo a esposa, uma filhinha pequena e um filho moço de um casamento anterior.

Veio a Salvador para um termo de três anos. Buscava a notoriedade, importante para alguém que não tinha outro título que não fosse a fidalguia. Se fizesse um bom trabalho no Novo Mundo, quem sabe não estaria a caminho de um Senhorio ou de um Baronato? Se derrotasse os holandeses, por que não sonhar com um Condado? Seu filho varão, Antônio Mendonça, tinha vinte anos de idade, já era hora de pensar em seu futuro.

– Convoque as duas companhias de soldado!

O governador enviou as ordens para as forças sob seu comando.

– Elas ficarão sob o comando do capitão Dom Pero e do meu filho. Ambos estarão comigo na Fortaleza Nova na defesa do Porto da Cidade.

Essa duas companhias eram a elite das forças baianas. Eram formadas por soldados pagos. Consistiam em quase seiscentos homens, dos quais, ninguém ficou surpreso em vê-lo entregar a liderança ao filho.

O resto das forças baianas poderia ser dividida em duas partes. Uma delas era composta de índios nativos. A outra era da massa de miserável convocada no recôncavo baiano, chamada de Companhia dos Aventureiros pelo governo embora a alcunha de Exército dos Descalços fosse mais condizente com sua precária situação.

Logo, veio as ordens para os mais selvagens.

– Os índios, sob o comando de Afonso Rodrigues, da Cachoeira, devem ir ao Forte de São Filipe do Itapagipe, para a defesa do Portão do Carmo. Entreguem arcabuzes a cem voluntários do povo. Duvido que lancem algum ataque daquele lado, mas temos que estar preparados para tudo.

Depois, veio a ordem para os mais miseráveis.

– A Companhia dos Aventureiros, sob o comando de Gonçalo Bezerra, deve partir ao Forte Santo Antônio, para a defesa do Portão de São Bento. É a entrada da cidade pelo lado do Oceano. Tenho certeza que será o local do desembarque holandês.

Estes eram os três pontos chaves do mapa: oeste, leste e sul. Todos os capitão assentiram as ordens. Começaram as preparações nas estâncias onde foram designados. O capitão Dom Pero já estava ao lado do governador e do seu filho. Ele colocou o capacete cônico metálico sobre sua cabeça. Bateu o punho na placa de aço em volta do seu peito. Estava pronto para levar seus seiscentos homens para a Fortaleza Nova, que, embora ainda estivesse em obras, era o melhor posição de defesa da cidade com suas muralhas já alcançando nove pés de altura.

Em meio ao caos do momento, o Governador-Geral lembrou do seu maior desafeto nesses últimos anos.

– Queria ver a cara do Bispo agora. Depois de toda a confusão que fez, enfim Deus nos revela o quanto ele foi um idiota!

– Seu desejo acaba de se concretizar, Governador! – Dom Pedro interrompeu, apontando para uma pessoa ao longe.

– Lá está o Bispo vindo para cá!

 

***

 

O Bispo Dom Marcos estava acompanhado de dezenas de outros clérigos católicos. Eram noviços, padres, monges, jesuítas, beneditinos, carmelitas e tantos outros que faziam parte da vida religiosa de Salvador. Todos caminhavam ordenadamente enfileirados, descendo a ladeira que levava desde o centro da cidade até porto ao nível do mar.

Todos mantinham o ar introspectivo, visivelmente preocupados com a situação. Nada falavam uns com os outros, exceto pelo noviço Vieira, que continuava a questionar o seu superior.

– Tem certeza dessa decisão, Reverendíssimo?

– Não podemos ficar escondidos agora, Vieira.

O noviço engoliu seco. Seu semblante preocupado se intensificou. Voltou a andar cabisbaixo, até chegar ao Porto.

Finalmente, o Bispo e o Governador-Geral estavam frente a frente.

– Veio protestar contra a Fortaleza de novo, Bispo? – Dom Diogo falou num tom de ironia.

A resposta, no entanto, foi algo que nunca poderia esperar.

– Percebo agora que estava errado – disse o Bispo com uma maturidade surpreendente. – Venho, com todos os clérigos de Salvador, oferecer nossa ajuda na defesa da cidade. Viemos todos pegar em armas para lutar!

– Os senhores querem participar da guerra?

– Sim!

– Com espadas e mosquetes?

– Por suposto!

O Governador-Geral caiu na risada.

– Estão loucos? Fazem ideia do quanto isso é ridículo! – continuou.

A resposta do Bispo foi imediata.

– A Ordem dos Templários. A Ordem dos Hospitalários. A Ordem dos Jesuítas, da qual muitos aqui fazem parte. Todas já lutaram na defesa da igreja apostólica romana. Todos sabem que Deus, Nosso Senhor, enaltece aqueles que combatem e matam os inimigos da verdadeira religião. Assim o fizeram contra os mouros nas cruzadas, contra os pagãos nas terras celtas, contra os gentios canibais no Novo Mundo e agora faremos contra a praga deste último século que são os hereges protestantes.

– Já usou armas alguma vez, Bispo? – o governador nem tentava esconder sua incredulidade.

O Bispo se manteve mudo. Não quis externar a resposta negativa.

– Tem pelo menos ideia do que é uma guerra? – o governador continuou no mesmo tom.

Desta vez, o Bispo respondeu com uma certeza inquestionável na voz.

– Deus guiará meu punho e de todos os meus irmãos religiosos!

O Governador mordeu o lábio. Esfregou o bigode com os dedos. Pensou por um segundo. Olhou para o Forte São Filipe de um lado. Olhou para o Forte Santo Antônio do outro. Enfim para a Fortaleza Nova, à frente.

– Tudo bem – suspirou. – Será minha Reserva então.

O Bispo assentiu embora sua face tenha ficado mais parva.

– Sabe o que é a Reserva de um exército, Bispo? – o governador o questionou outra vez.

– Na verdade, não – o Bispo respondeu.

– Quer dizer que não os colocarei no fronte de batalha. Ficarão todos na Cidade Alta. Podem me agradecer depois. Apenas entrarão em combate se solicitados, seja em São Filipe, seja em Santo Antônio, seja aqui na Fortaleza Nova.

– Tudo bem, Governador. Apenas desejo ajudar!

Não houve dúvidas que Dom Diogo ficou surpreso com a atitude do Bispo. Apesar da barriga inchada pelo sedentarismo e dos cabelos calvos pela idade, havia uma grande certeza na sua voz. Era algo que trazia alguma esperança. Nada melhor que a benção de Deus para elevar a moral dos soldados.

– Dom Pero?

O Governador chamou seu capitão.

– Entregue espadas e mosquetes a esses padres. Quero-os muito bem armados.

 

***

 

Na Cidade Alta, alguns dos cidadãos também tocaram as armas. Esse foi o caso do escrivão Rui Carvalho que integrou a defesa do Forte São Filipe, do vendedor Pero Garcia que se armou com seus criados para defender a própria loja e de Henrique Álvares que escrevia cartas ao custo de um tostão de prata, trocando agora a caneta pela espada. Estas, no entanto, eram as exceções.

A grande maioria da população estava desesperada, temente por sua vida, como era o caso da família Paes.

– Peguem tudo o que puder – Jerônimo gritava aos seus dependentes. – Temos que sair daqui rápido!

A matriarca Isabel não soltava o terço da mão enquanto juntava as redes de dormir e lençóis do enxoval. Ana Paes jogava suas melhores roupas numa sacola. Toninho escolhia a melhor comida da despensa. E o patriarca colocava um arcabuz na cintura e muitas facas nos bolsões de sua roupa. Cada pessoa tinha uma ideia diferente do que seria necessário para sobreviver.

– E para onde vamos? – perguntou Toninho.

– Primeiro, temos que sair da cidade – respondeu o pai.

Deveriam ir para o meio da mata? Para a cidade mais próxima? Para onde?, essa era uma pergunta a qual Jerônimo não tinha resposta. Tinha que levar essas pessoas, que dele dependiam, para um lugar seguro. Era o patriarca da família, o provedor, o responsável por sua esposa e filhos.

O pensamento foi interrompido por estrondos, que foram se multiplicando em número. Um, dois, três, dez, cinquenta, centenas… Eram tantos de uma só vez que se tornou impossível de distingui-los entre si. Era um escarcéu tamanho que o céu parecia desabar.

A matriarca Isabel apertou o terço. Fechou os olhos. Começou a rezar. Os outros três integrantes da família, Jerônimo, Ana e Toninho correram para a sacada da sua casa. Perceberam que os estrondos não eram de uma tempestade. Nem sequer vinham dos céus. Vinham da baía da cidade. Ela já estava infestada de navios holandeses que disparavam contra o Porto.

– Meu Deus! – Ana Paes exclamou.

Os olhos verdes da menina-moça eram ligeiros e aguçados. Dali, de cima do monte, onde foi construída a povoação, era possível ver toda a cena de guerra. Como previu o Governador-Geral, a entrada pelo Portão do Carmo fora deixada de lado pelos holandeses. Nenhuma nau foi naquela direção. A batalha ficou nos portões de São Bento, do lado do oceano, onde cinco navios faziam a escolta marinha das forças de infantaria que desembarcariam nas praias circunvizinhas.

Os outros vinte e um navios inimigos descarregavam sua artilharia na Fortaleza Nova, que era a entrada sul da cidade pelo porto. E lá estava noivo de Ana Paes, o capitão Dom Pero, junto com o Governador-Geral. Foi um choque para a moça perceber a grande maioria da armada inimiga navegava diretamente na sua direção.

– Atacar! – ouviu-se o grito do porto.

Os catorze canhões da Fortaleza Nova e quinze naus mercantes convertidas para guerra começaram a revidar do lado baiano. Disparavam desigualmente, por ser a artilharia em menor número que as holandesas e estas andarem já quente com o avantajado emprego. Foi tal a tempestade de fogo e ferro, tal estrondo e confusão, que muitos, principalmente os inexperientes, se encheram de perturbação e espanto.

Os muitos relâmpagos, fuzilando dos canhões e mosquetes, feriam os olhos e com a nuvem espessa do fumo não havia quem visse coisa alguma. Por outra, o contínuo trovão da artilharia tolhia o uso da fala e da audição. Tudo isso ao mesmo tempo, misturados com as trombetas e mais instrumentos bélicos, causou terror a muitos e confusão a todos.

– Não podemos perder mais tempo! Temos que sair daqui agora! – Jerônimo interrompeu o contemplar de seus filhos.

Eles deixaram sua morada para trás, com tudo o que podiam carregar.

 

***

 

Os quatro integrantes da família Paes percorreram os quarteirões bem planejados da cidade de Salvador, através das ruas de terra batida que as entrecortava. Buscavam a saída mais próxima em meio a chuva de canhonaços. Os holandeses concentravam seu fogo na Fortaleza Nova e nas quinze naus mercantes convertidas, mas os tiros de morteiros facilmente se desviavam do alvo. Bastava uma marola mais forte atingindo seus cascos no momento errado e Bum, acertavam dentro da povoação civil erguida sobre o monte.

Os muros das casas atingidas caíam em ruínas. Os tijolos voavam para todos os lados. Os prantos desesperados estribulavam a cada esquina. Havia centenas de pessoas correndo para todos os lados. Eram velhos, mulheres, crianças e todos aqueles que não participaram da defesa da cidade. Todos desejavam fugir daquele inferno.

– Por aqui! – Toninho gritou.

O rapazote caminhava à frente dos demais. Percebeu que chegara ao mercado da cidade, já próximo da casa do Governador. Faltavam apenas cinco quarteirões para o Portão de São Bento. Apenas cinco quarteirões, pensou aliviado. No entanto, este pensamento foi interrompido abruptamente. Um estrondo ocorreu no segundo andar de um edifício, alguns metros acima de sua cabeça.

– Cuidado! – Ana Paes gritou.

– Meu Deus, não! – A mãe exclamou.

Toda a alvenaria deste edifício começou a se arquear. Os tijolos começaram a cair sobre o primogênito da família Paes. Infelizmente, suas pernas não obedeceram. O medo as paralisou.

O primogênito da família estaria morto se não fosse pelo heroico feito paterno. Imbuído de uma força inesperada, daquela que os pais adquirem quando veem os filhos em perigo, Jerônimo Paes correu na direção de Toninho. Conseguiu empurrá-lo para longe dos escombros. No entanto, se sua ação salvou o garoto, a reação o colocou numa situação pior. O patriarca ficou caído bem no lugar onde a parede de pedra despencou em ruínas.

Ana Paes só pode observar as ruínas caírem por cima do pai, que, soterrado, desapareceu da visão de todos.

 

 

Planta da Bahia por João Teixeira Albernaz, o Velho (1500s – 1662)

A Batalha pela Bahia

–Holandeses–

 Capítulo 4

 

8 de Maio de 1624

As forças holandesas permaneceram na ilha de São Vicente, que ficava a 17 graus acima da linha do Equador, até o dia 26 de março de 1624. Atravessaram o Oceano tendo alcançado a altura de 13º abaixo da linha do Equador, onde estava a cidade Salvador, no dia 8 de maio de 1624 quando a avistaram. Eles lançaram âncoras ao mar, arredados da costa cerca de nove léguas para não serem vistos pelo inimigo. E começaram a aprestar e ordenar sua estratégia segundo o modo que foi anteriormente assentado pelos mapas contidos nas Cartas de Instruções.

A cidade de São Salvador era uma das mais antigas e afamadas de todo este lado do continente. Era suntuosamente edificada sobre um monte, compreendendo em seu circuito coisa de mil e quatrocentas casas, além de vários conventos, um de minoritas, outro de carmelitas e um terceiro de beneditinos. Tinha também um excelente colégio dos jesuítas e doze igrejas paroquiais, a maior das quais estava inacabada. Possuía dois portões, um para o lado do oceano, o outro para o lado do continente. A terceira entrada era através do porto, que ficava ao pé do monte onde foi edificada a cidade.

Em conselho realizado pelo Major, pelo Almirante, pelo Vice-Almirante e pelos Capitães, foi determinado que todos os homens de armas passassem para cinco navios, que dariam fundo numa enseadazinha, na ponta de terra que faz entrada para a baía, onde estava o forte chamados pelos espanhóis de Santo Antônio. Esta enseada dava caminho para o portão da cidade que ficava para o lado do oceano: o Portão de São Bento. Os demais navios entrariam pela baía adentro, diretamente contra o Porto, não só para distrair o inimigo, mas também para tolher as embarcações espanholas que estivessem surtas diante da cidade.

– Eu fico com o Porto da Cidade – o baixinho e gordinho vice-almirante Piet Heyn foi o primeiro a clamar o seu papel.

– Fique a vontade, Heyn – o velho Almirante Wilinkens concordou. – Eu levo o Major até a praia.

Mil e seiscentos soldados deixaram o porto de Texel, mas este número caiu bastante em razão das mortes e convalescências do percurso. No tempo em que estava ancorados nos mares baianos, ao todo não havia mais que mil e duzentos soldados válidos, que na ausência do seu coronel, eram capitaneados pelo major Albert Schouten. A estes, se juntaram duzentos e quarenta marinheiros, que ficaram responsáveis pelas peças de campanha, vitualha e munições de guerra.

Toda essa gente desembarcaria das chalupas na enseada arenosa, que ficava na entrada da baía, sob o fogo do Forte Santo Antônio, onde cada qual das companhias se juntaria à bandeira do Major. Era com esse plano em mente, que se procedeu a nova ordem:

– Tudo certo então – o Major ditou. – Está na hora do ataque!

 

***

 

Quando veio o outro dia, toda a armada endireitou para a baía pelas nove da manhã e por volta de meio-dia, era chegada à sua entrada, diante da cidade. Tanto que o inimigo viu os navios holandeses montando ponta, começou a jogar sua artilharia grossa com fúria contra eles. Particularmente de uma bateria em frente da cidade, chamada Fortaleza Nova, colocada na plataforma que fora recentemente construída de brancas pedras de cantaria, acima d’água sobre uma laje, na qual havia pelo menos oito peças de bronze e três de ferro.

Não obstante, os holandeses foram avançando intrepidamente. Adentraram a Bahia de Todos os Santos. Ocuparam seus postos de ataque. Por um lado, o vice-almirante Piet Heyn avançou diretamente ao porto, até ficar à distância de um tiro de mosquete da Fortaleza Nova e dos navios espanhóis. Estes navios, entre grandes e pequenos, eram em número de quinze. Estavam antes ancorados ou abicados na praia. Em respostas, os galeões holandeses logo se viraram, descarregando a artilharia dos costados nos espanhois.

Quando tal combate no porto começou, causando tal tempestade de fogo e ferro, uma bandeira foi içada no mastro de velacho do navio Zeelandia. Era parte do plano do almirante Wilinkens.

– É o sinal!

O Major Schouten primeiro exclamou, depois gritou alto para que todos pudessem ouvir.

– Lançar chalupas ao mar! Iniciar o desembarque!

Mal terminou de proferir suas ordens, as oito chalupas largaram das cinco naus. O major estava entre eles, sob a proteção do almirante Wilinkens que enviou mais alguns galeões para a escolta. Os olhares estavam concentrado para a terra firme na sua frente, para o Forte Santo Antônio.

– Parece que os espanhóis prepararam um comitê de boas vindas – o capitão Willem comentou ao irmão.

Ele percebeu um exército de quase dois mil espanhóis armados com mosquetes, arcos e azagaias, e um oficial a cavalo vagando pela praia, esperando o desembarque adversário naquelas alvas areias.

– Parece que sim – o Major respondeu. – Felizmente nós também estamos preparados!

O interesse de Willem na ameaça que se aproximava alegrou o Major. A voz estava firme. As mãos não tremiam. O álcool pareceu ter deixado completamente o seu sistema. E, com as chalupas cada vez mais próximas da enseada, um olhar fraternal vindo do Major atingiu os olhos do irmão caçula. Um sentimento de orgulho retirou palavras de sua boca.

– Estou feliz de tê-lo ao meu lado, Willem.

– Também estou feliz, Albert. Sinto-me acordando de um pesadelo.

O Major voltou a face para a terra firme. Estavam agora distante dela apenas por alguns poucos metros.

– Então entremos juntos em um novo pesadelo – este sorriu.

O solavanco impeliu os homens da chalupa para frente. O arrastar da quilha na areia foi sentida por todos. As marolas começaram a bater no casco. Os soldados da linha de frente foram os primeiros a saltar. Empurraram o transporte ainda mais adentro na areia. O capitão Willem e o Major saltaram em seguida.

Todos empunharam seus mosquetes na direção da vegetação costeira. Era ali onde se avistara os dois mil soldados inimigos.

O Major se aproximou lentamente. Estava cada vez mais perto do limite entre a areia e a mata. O dedo no gatilho se mantinha tão retesado que bem poderia dar-lhe uma câimbra. O som das gaivotas, o farfalhar das palmeiras, o quebrar das ondas, tudo era ouvido em meio àquela tensão angustiante.

– Ali! O inimigo está ali! – Uma voz rompeu o silêncio.

Cerrando os olhos, o Major conseguiu ver alguns homens adentrando a vegetação com uma pressa desesperada, sumindo em meio ao verde da mata.

– Eles estão fugindo? – o capitão Willem perguntou confuso.

– Pode ser uma armadilha – o major levantou a questão.

Não houve um único disparo do inimigo. Nenhum daqueles dois mil homens, avistados ao longe, lançou ataque. O Major continuou a caminhar em passos lentos, com seus homens ao lado. Chegou ao termo da praia, não mais pisando na areia, e sim nos primeiros ramos verdes da grama costeira.

Ainda assim, não houve qualquer movimento ou ação do inimigo.

– Não sei o que está acontecendo – o major proferiu num único fôlego.

Por fim, explicitou sua dúvida em alta voz.

– Está tudo calmo demais por aqui!

 

***

 

Nas águas do porto, o vice-almirante Piet Heyn continuou a acercar, com os navios Gelderlandt, Groeningen e Nassauw, até a distância de um tiro de mosquete da Fortaleza Nova e dos navios espanhóis, que em número de quinze, entre grandes e pequenos, estavam cosidos com a praia e uma fortaleza a bombordo. Ali se travou uma renhida peleja, que durou até próximo do anoitecer.

Os sons explosivos se somaram. A fumaça encobriu a visão, tão constante e intensa, que nem os ventos fortes eram capazes de a dissipar.

– Nossos disparos não estão adiantando grande coisa! – gritou o primeiro imediato da embarcação.

– Nossos navios não vão aguentar! – constatou outro tripulante.

O galeão Groeningen recebeu grande dano. Estava mais próximo dos inimigos e tão varado de balas que não tardaria a ficar reduzido à última extremidade. O próprio capitão deste navio, Andries Niew-Kerck, o paciente, bom capitão e soldado valente, perdeu a vida com muitos dos seus homens, lutando muito galhardamente nesta ocasião.

No entanto, Piet Heyn não era um homem de desistir tão facilmente de um combate, principalmente contra os odiados espanhóis.

– Continuem a atacar! – ordenou o vice-almirante.

Era notório que seu semblante bonachão e engraçadinho se transformou da água para o vinho. Com os olhos flamejando um antigo ódio, estava tomado pelo furor do combate.

– Esses espanhóis nunca terão a satisfação de me ver recuar! – Ele bradou alto e nervoso.

O ódio do vice-almirante Piet Heyn tinha longas raízes. Ele tinha três anos de idade quando os holandeses se revoltaram contra os espanhóis. Seu pai foi um dos militares que aderiram à rebelião. Levou consigo o jovem Heyn para a guerra quando este tinha catorze anos de idade. No entanto, o verdadeiro ódio pelos espanhóis lhe acometeu seis anos depois.

Um vil ataque espanhol mudou a sua vida. Seu pai foi morto. Ele foi feito prisioneiro. Foram quatro anos de trabalhos forçados nas galés espanholas. Dia após dia, remando e remando, o jovem Piet Heyn foi impulsionado pelo chicote amaldiçoado de um sádico capataz e pelo desejo de vingança cultivado no interior úmido de uma inóspita embarcação.

O desejo de vingança dos tempos das galés impulsionou a nova ordem aos seus homens na batalha da Bahia.

– Enviem os botes de abordagem!

Imediatamente, dezessete botes, guarnecidos cada um com vinte marinheiros, foram arremetidos na baía contra os quinze navios espanhóis, para efeito de escalá-los.

Piet Heyn tinha quase trinta anos de idade quando se viu liberto dos grilhões espanhóis, mas se enganaram os que pensavam que esses duros anos de prisão fariam o jovem marinheiro desistir da guerra. Ele retornou aos combates tomado por mais ódio. Esse ódio o levou até a Ásia onde continuou à atacar navios espanhóis naquela parte do mundo. Fez tamanho estrago no inimigo e com tamanha competência, que retornou dois anos depois como capitão de seu próprio navio e com uma fortuna pessoal de duzentas mil moedas de ouro saqueada do inimigo.

– Avance este galeão contra a Fortaleza Nova! Agora! – a ordem fez as velas da sua embarcação se estenderem mais largamente. – E mande o sinal para todos os outros capitães me seguirem!

Depois de anos nas Índias Orientais, o jovem Heyn ainda desejava continuar a guerra. Assim o faria se não fosse o infame tratado de paz entre o Reino da Espanha e a República Holandesa. Ele foi obrigado a retornar à Holanda, onde se casou com uma boa mulher e comprou uma confortável casa. Todos pensaram que, com a Trégua dos Doze Anos, ele enfim se aposentaria. Pensaram que começaria a gozar da fortuna adquirida no Oriente. Estavam enganados! Não demorou para que comprasse um navio próprio e fizesse incursões em território espanhol, mesmo sem o aval do governo holandês, tornando-se assim um pirata no verdadeiro sentido da palavra.

Depois de nove anos em atividade nos mares espanhóis e mais dois na marinha veneziana que estava em guerra com a Espanha, o coronel Van Dorth surgiu no camarote do seu navio com uma proposta: – Quero convidá-lo para liderar uma armada holandesa contra as terras espanholas na América! Aquelas palavras soaram como música nos ouvidos do capitão Piet Heyn.

Depois de tudo isso, hoje, na Bahia de Todos os Santos, com certeza a ideia de recuar era inconcebível para Piet Heyn.

– Senhor? – o primeiro imediato falou com voz questionadora. – Estamos nos aproximando rapidamente da fortaleza inimiga. Devo diminuir a velocidade?

A resposta do vice-almirante surpreendeu a todos.

– Não! Jogue este galeão em cima dela!

A ordem de Piet Heyn detinha uma espetacular audácia e coragem. Era um feito atrevido e heroico. A muralha de calcário da Fortaleza Nova elevava-se acima da água a obra de oito ou nove pés. Era defendida, segundo geral estimativa, por quinhentos ou seiscentos soldados. Sem embargo disto, os navios holandeses avançaram sobre ela, colidindo contra sua plataforma.

O som de madeira repartida ecoou. Os marinheiros foram jogados à frente pelo impacto.

Os croques, nome dado às varas que ficam na extremidade frontal dos navios, avançaram acima da muralha. Tornaram-se pontes entre os galeões e o interior da Fortaleza Nova. Os valorosos marinheiros holandeses galgaram ao seu interior, usando esses croques e se ajudando dos ombros uns dos outros. Cercaram-na com soldados em pinha nos navios.

Assim, um combate valoroso teve início.

– Avancem! Avancem!

O vice-almirante bradava aos soldados, com um sorriso lhe crescendo na face a cada novo homem que saltava ao interior da fortaleza.

Logo, procurou ver o efeito dos botes de abordagem contra os quinze navios inimigos. O intento saiu às mil maravilhas. Os espanhóis, vendo os holandeses sobre si com tanta bizarria, acudiram ao último remédio, que foi afundar uns navios e queimar outros, carregados como estavam, tendo por melhor entregá-los ao mar e ao fogo que ao inimigo holandês, cujo incêndio se comunicando a outros três, os devorou inteiramente.

Olhando de volta à Fortaleza Nova, Piet Heyn observou os espanhóis resistindo bravamente. No primeiro momento, não deixaram os holandeses pôr o pé em cima. Antes, lançaram todos fora, matando e ferindo a muitos. Houve soldados, com espada feita, indo atrás do inimigo, que por debaixo da água lhe fugia. Não desistiram com isso os holandeses. No segundo momento, animados com novos socorros vindos do mar, insistiram com maior força, que os defensores da fortaleza não puderam ter encontro.

Com a chegada do crepúsculo, as embarcações espanholas que queimavam, tendo sido ateadas com breu e açúcar, lançavam grandes labaredas. Davam tão grande luz a todo o porto que se podia muito bem ver e atirar de parte a parte. E assim o fizeram enquanto durou esse fogo. Enfim, depois de sete horas de batalha pela Bahia, sendo uma hora de disputa no interior da Fortaleza Nova, as hostilidades se encerraram.

O dia terminou com as chamas iluminando a bandeira holandesa hasteada no Porto de São Salvador.

 

***

 

Se a batalha foi ferrenha no porto de Salvador, o mesmo não ocorreu em terra firme. O Major, cautelosamente, percorreu o caminho da praia, atravessou as matas costeiras e chegou até um povoadozinho que ficava naquele pontal na entrada da baía. Era uma cidadela sob a defesa do Forte Santo Antônio, a cerca de uma légua de distância da cidade de Salvador, chamada de Vila Velha, que foi a primeira povoação da Bahia de Todos os Santos.

– Onde está todo mundo? – um dos capitães perguntou.

Ambos o major Schouten e o capitão Willem davam passos hesitantes por aquela cidade fantasma. Até mesmo o Forte Santo Antônio, que não distava mais que um tiro de pistola da vila, estava em total silêncio.

O Major ordenou a entrada de seus homens nas casas. Não havia alimentos, nem armas, nem ferramentas, nem coisa alguma de valor. Tudo pareceu retirado às pressas. Os holandeses então marcharam sobre o Forte Santo Antônio. Também não havia ninguém ali. Os holandeses tomaram controle da fortificação, hastearam a bandeira holandesa. Só então confirmaram o que havia acontecido.

– Que bando de covardes! Não acredito que os espanhóis abandonaram seus postos sem luta e fugiram para a mata!

 

 

Charles I da Inglaterra por Anthony van Dyck (1599-1641)

 

 

O Príncipe Inglês

–Ibéricos–

Capítulo 6

7 de Setembro de 1623

Era tarde da noite em El Alcázar. O Conde-Duque dormia profundamente em seus aposentos palacianos quando acordou abruptamente com alguém batendo à sua porta. Logo vestiu o roupão para encobrir as roupas de dormir enquanto as batidas se tornaram aceleradas e urgentes.

– Olivares! Rápido!

O Conde-Duque apressou o passo. Abriu a porta. Logo reconheceu o Embaixador da Inglaterra na sua frente. Depois de limpar as remelas dos olhos, perguntou.

– Pelo amor de Deus, Embaixador, o que traz Vossa Senhoria aqui, a esta hora da noite? Parece até que o Rei da Inglaterra está em Madri.

– Se não é o Rei, pelo menos é o Príncipe!

A resposta surpreendeu o Conde-Duque.

– O Príncipe Charles está em Madri? – Ele exclamou assustado.

– Sim. Chegou hoje a noite!

– E por que não fomos avisados com antecedência? Pelo amor de Deus, não temos nada preparado!

– O príncipe tem viajado ocultamente pela Europa há alguns meses. Não revelou sua identidade por motivos de segurança. Só fiquei sabendo de sua chegada agora.

O Conde-Duque se colocou a pensar. Nem tomou uma nova respiração já percorria os corredores do palácio em passos apressados. Primeiro, despachou o Embaixador ao local onde hospedar o ilustre visitante. Enfim, partiu sozinho aos aposentos do soberano espanhol.

Os guardas que defendiam as portas dos aposentos de Sua Majestade abriram passagem para o Conde-Duque. Ainda vestido em seu velho pijama, ele bateu na porta algumas vezes.

– Olivares? O que faz acordado tão tarde? – o monarca perguntou.

– Tem que vir comigo, Majestade. Eu explico no caminho.

– Tudo bem, mas antes espere um pouco. Há algo que desejo lhe falar.

El Rey não se moveu. Apenas olhou para trás. Fez o Conde-Duque enxergar, por cima do seu ombro. A Dama de Companhia Maria de Chirel estava deitada em sua cama. Estava coberta pelos lençóis reais, mas chamava a atenção os prantos desesperados da moça.

– O que quer que seja poderá esperar, Majestade – o ministro retrucou, sem querer saber do drama adolescente que ocorria naquele quarto. – O príncipe Charles da Inglaterra chegou em segredo na cidade de Madri. Vista uma roupa, Majestade, pois temos que nos preparar para recebê-lo.

Sua Majestade estava claramente insatisfeita. Desejava falar algo mais. Mas se conteve. Entrou no quarto. Deixou-o já vestido com uma roupa mais adequada para um soberano.

O Conde-Duque estava num intenso estado de agitação, de forma que sua voz não era tão rápida quanto seus pensamentos em ebulição. Por outro lado, o rapazote de cabeça quadrada tinha outros problemas em mente.

Na verdade, estava retomando coragem para expor sua preocupação.

– Por favor, Olivares, antes de partirmos tenho algo a dizer!

O rapaz deteve o passo. Tomou um novo fôlego. O Conde-Duque fez o mesmo. Parou um pouco mais à frente no corredor. E, olhando na direção do angustiado monarca, perguntou.

– Então diga, Majestade. O que lhe causa tanta preocupação?

El Rey respondeu num único fôlego.

– É Maria de Chirel! Ela está grávida!

A angústia lhe tomou o semblante.

– Ela está grávida do meu filho! – repetiu, quase sem acreditar.

O Conde-Duque nada falou no primeiro momento. Apenas percebeu o desespero nos olhos do jovem Rei Filipe, que imaginava as consequências de uma relação fora do casamento. Calculava a preocupação em ter um filho bastardo. Sentia o seu pavor de um possível escândalo. No entanto, a resposta que deixou boca do Conde-Duque não poderia ter surpreendido mais o monarca.

– É só isso que está lhe preocupando, Majestade? Nada mais? – ele respondeu com semblante entediado. – Pode deixar que eu resolvo isso depois. Primeiro, temos que nos preocupar com problemas de verdade!

Ignorando o assunto, o obeso ministro já voltava a falar dos preparativos para a recepção do príncipe inglês.

 

***

 

A eficiência do Conde-Duque de Olivares era enorme. Antes mesmo do dia amanhecer, já havia preparado uma recepção digna do inesperado visitante. El Rey Filipe, a Rainha Isabel, o próprio Conde-Duque, o Embaixador Inglês e grande parte dos fidalgos palacianos receberam o príncipe Charles no grande salão de El Alcázar. Uma programação de atividades foi realizada para que ambos El Rey e o visitante pudessem passar a manhã juntos. A pouca diferença de idade aproximou os dois, tendo El Rey dezoito anos de idade e o jovem príncipe, vinte e três.

El Rey passeou pelo interior do palácio real, mostrando seus infindáveis corredores. Inicialmente, o jovem inglês estranhou a arquitetura labiríntica e pouco intuitiva do lugar, mas não deixou de traçar inúmeros elogios à decoração. Ao todo, eram quase duas mil pinturas coletadas nos quase mil anos do Reino Ibérico e condensadas naqueles corredores que não tinham mais que um século. O príncipe inglês mostrou conhecer muitos dos pintores e eventos retratados na obras, assim como traçou bem acertados comentários sobre o estilo próprio de cada um. Seja dos grandes artistas ingleses como Peter Paul Rubens quanto dos espanhóis como Diego Velásquez.

Depois do banquete da tarde, ambos cavalgaram pelos arredores do  palácio, em especial, por seus bosques e jardins. O príncipe inglês era igualmente habilidoso na equitação. El Rey ficou impressionado com sua elegância e sofisticação. Nem era rei ainda e já se destacava na maneira como se postava e se pronunciava. A inveja atingiu o jovem Filipe. Já era Rei e não tinha nenhuma dessas qualidades.

– Estou muito surpreso com o vosso Reino – o príncipe Charles falou, em perfeito espanhol e sofisticada eloquência.

– Obrigado – o acanhado Filipe agradeceu.

Já era noite. O Conde-Duque de Olivares se apressou em chamar a corte real para a recepção. O resultado foi melhor do que esperava. Quando os nobres e fidalgos de Madri souberam da presença da chegada do príncipe estrangeiro, todos se prepararam para recebê-lo.

O herdeiro do trono inglês não era belo, mas transmitia elegância através da longa cabeleira, do cavanhaque à moda e da postura perfeita. Possuía um charme ostentoso capaz de anular seus defeitos estéticos. As damas solteiras da corte o olhavam com expressões convidativas, mas o príncipe Charles parecia estar interessado numa pessoa em particular.

– Foi muito acertada a minha decisão de conhecer o Reino Espanhol, meu caro Filipe – o príncipe continuou os elogios. – Mas devo admitir que estou muito mais ansioso por conhecer sua irmã, minha futura noiva.

– Mariana logo estará aqui – o monarca espanhol respondeu. – Estou reservando o melhor para o final.

Não demorou mais que uma hora. A música no salão foi encerrada. Todos olharam a majestosa entrada, próxima ao trono onde sentavam a Rainha e o Rei da Espanha. Primeiro, entraram os dois irmãos caçulas do Rei Filipe: Fernando, o cardeal-infante, e Carlos, o político-militar. Depois entrou o motivo para toda aquela celebração: a Infanta Mariana.

Ela era realmente linda. Toda a beleza que inexistia no monarca espanhol fora deixada para a irmã. Rivalizava até a beleza da popular Rainha Isabel. Quando viu a pretendente, o queixo do príncipe Charles caiu. Pareceu que fora domindado pelas sereias do mar Oceano.

–– Ela é muito mais bela do que eu esperava! – por fim, revelou.

 

***

 

Enquanto ambos o Rei e o Príncipe, conversavam, em outra parte do festivo salão, o Conde-Duque de Olivares realizava uma discussão com sua contraparte inglesa. Isso porque, da mesma forma que El Rey Filipe da Espanha conviveu com seu ministro desde antes de assumir o reino, o príncipe Charles também tinha seu braço-direito. Era o Duque de Buckingham. Um homem, que acabara de completar seus trinta anos de idade, utilizava estilosos cabelos longos e barba bem aparada.

Diferente de sua obesa contraparte espanhola, o Duque de Buckingham era magro e belo. Os olhos eram igualmente penetrantes, mas diferentes dos de Olivares, que eram intimidadores, os de Buckingham eram encantadores. Os trejeitos do ministro Espanhol eram rudes e grosseiros, enquanto os do Inglês eram suaves e delicados. Na verdade, delicados até demais, na machista opinião do ministro espanhol.

– Vejo que o Príncipe Charles se encantou pela Infanta Mariana – o Conde-Duque falou, continuando a frase com seu jeito gráfico e objetivo. – Mais parece um gato com olhos sobre uma suculenta ratazana!

– É verdade – o Duque de Buckingham consentiu.

No entanto, embora a voz do duque inglês possuísse uma polidez política excepcional, os treinados ouvidos do Conde-Duque perceberam um sentimento de repulsa do afeminado homem.

Não obstante disso, o obeso ministro falou:

– A Infanta Mariana com certeza é uma mulher e tanto. Valiosa o bastante para trazer o Príncipe mais para perto da Santa Igreja Católica – por fim, tentava colher informações importantes para o futuro do Reino Ibérico.

Infelizmente, o comentário fez o semblante do Duque de Buckingham.

– E por que meu Príncipe desejaria se aproximar de uma tão antiquada e corrupta instituição como a Igreja Católica, se a Igreja Anglicana atende todos os nossos anseios.

O comentário do duque inglês foi um balde de água fria em especulações mais ambiciosas do Conde-Duque de Olivares. Concluiu assim que o Príncipe Charles não veio a Madrid em busca de mudar de religião, como chegou imaginar nos seus planos para o futuro espanhol.

– Uma viagem tão longa até aqui é tão pouco usual para alguém na posição do Príncipe Charles – o Conde-Duque continuou. – Pensei que poderia haver alguma razão especial nela.

– Pensou que Sua Alteza, o príncipe Charles, pudesse talvez se converter ao Catolicismo? Virar um Papista? – O tom esnobe de Buckingham machucava os ouvidos do Conde-Duque. – Pelo amor de Deus, é claro que não!

A negativa de Buckingham era algo esperado por Olivares, sempre tão preparado para todas as possibilidades. No entanto, a risada esnobe que a acompanhou era algo que o Conde-Duque fez um esforço enorme para engolir. E, tendo gasto todas as suas forças para suprimir uma resposta explosiva, não conseguiu suportar o comentário seguinte de Buckingham.

– Na verdade, o motivo para nossa vinda, foi para garantir o apoio espanhol para as campanhas futuras da Inglaterra contra o Império Romano-Germânico. Logo estaremos enviando nossas forças para a região.

Essa foi a vez de Olivares gargalhar alto e largo, num tom ainda mais esnobe que de sua contraparte inglesa.

– O Império Romano-Germânico tem sido o mais fiel aliado de nosso Reino por mais de um século – o Conde-Duque inferiu. – O Imperador Ferdinando e El Rey Filipe são primos! E Vossa Excelência espera que troquemos isso por uma aliança sem garantias com um inimigo que já jurou ódio eterno à Espanha e quase nos arruinou vinte anos atrás?

Em tom mais sério, o duque inglês respondeu com um ultimato.

– Se deseja casar a Infanta Mariana como o futuro Rei da Inglaterra, espero que sim.

De imediato, Duque de Buckingham deu as costas ao espanhol de forma desrespeitosa. O Conde-Duque então lhe tocou o ombro, praticamente puxando-o para que ficassem de frente novamente.

Então bradou.

– Responda-me, Buckingham, vieste negociar um casamento ou sabotá-lo?

Os olhos de ambos ministros se fitaram. Todos perceberam a tensão crescente. Observavam os dois homens se digladiarem como o olhar.

– Tire as patas de mim, seu porco nojento! – disse o duque inglês, empurrando-lhe a mão dos ombros e dando-lhe as costas outra vez.

– Então saia da minha frente, seu maricas idiota! – respondeu o Conde-Duque no mesmo tom.

Certamente, esta discussão era o prelúdio de um desastre diplomático.

 

Invasão da Bahia por Andries van Eertvelt (1590-1652)

 

O Governador Abandonado

–Brasileiros–

5

10 de Maio de 1624

A cena era desoladora. O combate pelo controle do Porto da Cidade, que começou ao meio-dia, atravessou toda a tarde. Terminou às sete horas da noite, com a completa vitória holandesa. Das quinze embarcações baianas, três ardiam em chamas, cinco estavam no fundo do mar e as sete restantes estavam em poder do inimigo. Não restou nada para defender o Porto de Salvador. A Fortaleza Nova estava em tal estado de destruição que era difícil descrever.

Os armazéns do Porto, os últimos obstáculos para a conquista completa da enseada, ardiam em chamas, desmoronavam em cinzas. O mesmo fogaréu tomava conta das árvores e da vegetação que crepitava queimada ao longo litoral. Treze defensores mortos jaziam espalhados e um número ainda maior de feridos urrava gritos de dor.

– Onde está o Bispo?

O pergunta veio do Governador. Horas atrás, um mensageiro fora enviado para a cidade exatamente para convocar a companhia de clérigos. Não houve qualquer resposta. Dom Diogo mandou então um segundo mensageiro, que só trouxe mais desesperança.

– O Bispo abandonou seu posto, senhor – disse o novo mensageiro, pois o anterior também se escafedeu para os matos.

A moral dos soldados não poderia estar pior.

 

***

 

Os defensores da Bahia deveriam agradecer aos céus por anoitecer cedo nos trópicos. Pouco depois das seis horas da noite já estava escuro. Às sete, não desejando manter o combate na escuridão e imaginando que o governador poderia ter mais gente na povoação, os galeões holandeses recuaram. Abandonaram a Fortaleza Nova que conquistaram, não sem antes levar todos os canhões e navios que ali conquistaram.

Deixaram apenas o sentimento desolador em Dom Diogo e em todo seu exército. Dos seiscentos soldados pagos sob seu comando, quase cem estavam fora de combate, mortos ou sem condições de continuar. Dos que restaram mais de dois terços fugiram para os matos. O abatimento era completo, principalmente quando chegou a notícia do outro fronte de batalha.

– Como foi no forte Santo Antônio? – o Governador perguntou.

– Eu sinto muito, senhor. Toda a Companhia dos Aventureiros fugiu. Também se acovardou frente ao inimigo.

Aqueles esmolés do Recôncavo Baiano deveriam estar com seus arcabuzes prontos, armados detrás do mato, para os dispararem contra os batéis holandeses. Porém vendo ser muito maior o número dos inimigos não os quiseram esperar. Seu capitão Gonçalo Bezerra quis detê-los animando-os para o ataque, ainda que velho e aleijado. No entanto, o Exécito dos Descalços ia tão resoluto em fuga, que nem bastou esta admoestação.

Nada disto bastou para tirar-lhes o medo, antes como um mal contagioso, veio se espalhar pelos defensores da cidade. A única razão para os holandeses ainda não terem chegado à cidade era a cautela em relação à noite. Sem saber quantos soldados baianos ainda defendiam a cidade, decidiram fortificar na igreja de São Bento, do lado de fora dos portões de mesmo nome. Nem imaginavam que a cidade já estava abandonada.

O Governador-Geral olhou novamente em sua volta, vendo menos de duzentos homens ao seu redor. Eram números que diminuíam a cada nova hora, a cada nova notícia, a cada movimento do inimigo. No entanto, o governador só realmente se desperou na madrugada, já quatro da manhã, quando viu o capitão Dom Pero, seu melhor homem, subindo numa montaria para abandonar seu posto.

– Onde pensa que vai, Dom Pero? – ele interveio.

– Tenho que ir à cidade, senhor – Dom Pero respondeu. – Meu sogro Jerônimo está ferido, sofreu algum tipo de acidente. Tenho que ajudá-lo!

– Não ouse sair daqui – então ameaçou.

Os olhares se mediram. Por fim, as esporas das botas de Dom Pero bateram no dorso do cavalo. As rédeas balançaram. O animal partiu.

– Sinto muito, governador.

– Maldição! – Dom Diogo praguejou, depois de muito tempo mantendo a arma apontada para o capitão, mas nunca conseguiria atirar no seu melhor soldado.

Consternado, chutou a areia da praia num reflexo de sua impotência.

 

***

 

Não demorou a Dom Pero chegar até Jerônimo ao centro de Salvador, já era uma cidade fantasma naquelas últimas horas da madrugada. Alguns poucos cidadãos tentavam amealhar o que conseguiam encontrar nas casas vazias. Estes mesmos, na escuridão da noite, nem mesmo se reconheciam. Fugiam uns dos outros, e, quantos cada um via, tantos holandeses lhes representavam. Os gritos enganados, anunciando a falsa entrada dos holandeses na cidade, começaram e se espalharam rapidamente. O caos era completo.

– Ana! – O capitão Dom Pero gritou assim que pôs os olhos nela.

O alívio imediato que Dom Pero sentiu ao ver Ana Paes ilesa, sem ferimentos, foi logo substituído pela mórbida preocupação ao vê-la ainda ali, já tão próximo do amanhecer. Afinal, com os raios da alvorada, as tropas holandesas retomariam seu avanço.

– Onde está seu pai? Soube que ele está ferido.

– Sim! Por favor, ajude-o!

A menina de catorze anos de idade apontou para a lateral. Toninho, o vendedor Garcia e alguns criados se postavam ao lado de Jerônimo Paes. Este mal conseguia se manter acordado em razão do impacto que sofrera horas antes. Tinha profundas escoriações por todo o corpo, uma camada de sangue e poeira sobre a face e metade do corpo ainda estava soterrada, impedindo-o de se levantar. Uma das pernas, presa na rocha, estava quebrada.

– Jerônimo, vamos lhe tirar daí – disse o capitão quando se aproximou do sogro.

O fidalgo pegou uma das pedras que o soterravam, repetindo a mesma ação de Toninho, de Garcia e de seus criados. No entanto, foi o próprio Jerônimo quem, segurando o braço do genro, o impediu de continuar.

– Leve minha família para fora da cidade! – disse o patriarca da família Paes. – Leve todos para algum lugar seguro, por favor.

Dom Pero olhou para trás. Viu Ana Paes com sua mãe. Depois, fitou o horizonte, com a auréola solar surgindo sobre os montes. Anunciava a alvorada próxima. Prenunciava a chegada do exército holandês a qualquer momento.

Dom Pero nada falou. Apenas se levantou em silêncio, determinado a fazer a vontade do patriarca. Caminhou na direção de Ana Paes. A moça não aceitava a decisão paterna. Tentou impedir o noivo de se aproximar. Colocou os braços à frente, empurrando-o para longe.

– Não deixarei meu pai para trás – as lágrimas desceram sobre suas bochechas.

– Eu sinto muito, Ana – a voz monocórdica estava cheia de pesar.

Ana tentou empurrá-lo outra vez. Não obstante, Dom Pero segurou seus braços. Colocou-a sobre os ombros. O debater dos braços femininos não o impediu que a carregasse para longe do pai. Não sem antes falar para Toninho que o seguisse, levando também sua mãe. Os quatro assim partiram.

Ana Paes, carregada nos braços do noivo, só parou de se debater quando sua visão já não alcançava a imagem paterna.

 

***

 

No Portão do Carmo, do lado oposto onde os holandeses desembarcaram, já havia vários refugiados fora da cidade. Eles se aglomeravam na igreja do Carmo, que nomeava o portão. Exatamente ali que o noviço Vieira exortava todos a fugir. O Bispo Dom Marcos estava ao seu lado, numa imagem ao mesmo tempo cômica e trágica. Sobre a túnica folgada, a proeminente barriga tornava impossível a apropriada colocação do peitoral metálico. O capacete de ferro ficava sempre torto sobre sua grande cabeça. Sua empunhadura na espada, muito alta no cabo, era tão errada que mesmo uma criança teria a autoridade de corrigí-lo. E o escudo colocava seu inexperiente portador numa postura escoliótica, tamanha era sua incapacidade de compensar o peso.

– Venham por aqui! Rápido, antes que amanheça! – O Bispo acenou para os recém-chegados no portão.

– E o Governador-Geral, senhor Bispo? Vamos mesmo abandoná-lo? – perguntou o noviço.

– Por acaso, não viu o que aconteceu no Porto? Acredita que a gente poderia ajudar em alguma coisa naquele inferno? – o Bispo olhou para sua espada. – Eu estava louco em pensar que poderia empunhar essa coisa.

Jogou-a no chão. Deixou o escudo cair,

– Que Deus me perdoe – continuou. – Eu errei, Vieira. Fiz tudo errado desde que cheguei a Salvador. Tenho pensado só na minha reputação, na minha ascensão e em mim mesmo. Que Deus não me abandone pelo meu egoísmo!

O surgimento de mais quatro pessoas interrompeu o lamento do Bispo. Era a chegada de um homem que carregava nos ombros uma moça aos prantos, de uma senhora desorientada e do seu filho cabisbaixo. Era o capitão Dom Pero. Ele continuou seu percurso até chegar ao clérigo. Só então o capitão colocou Ana Paes no chão.

– Eu nunca te perdoarei por isso – a revolta de Ana recomeçou.

– Vá com o Bispo – o capitão a interrompeu. – Eu voltarei para buscar seu pai. Farei tudo ao meu alcance para trazê-lo de volta.

O pranto revoltoso de Ana se silenciou. Ficou apenas o choro mudo, escorrendo lágrimas por sua face.

– Eu prometo, Ana.

Dom Pero voltou o olhar para o Bispo, que observava atônito a triste cena. Era mais uma das tantas que presenciou nesta noite.

O capitão foi quem primeiro perguntou.

– Onde estão levando os refugiados?

– Para a Aldeia do Espírito Santo, ao norte do Rio Vermelho, onde há anos os jesuítas têm uma Missão no local.

O olhar do capitão voltou para Ana Paes.

– Nós nos encontraremos lá.

Esperou apenas Ana assentir, então partiu pelo portão adentro.

 

***

 

Quando Dom Pero chegou até Jerônimo, grande parte das pedras que o soterravam já haviam sido retiradas pelo vendedor Garcia e seus criados. Estava prestes a ficar totalmente livre. No entanto, o sol da manhã se descobriu por trás dos montes, com os fúlgidos raios iluminando toda a cidade. Embora fosse um belo dia, cujos mares refletiam os brilhos solares no assanhar das ondas, não demorou a surgir o maior temor de Dom Pero.

O grito de um dos moradores desesperado de Salvador ecoou enquanto este atravessava a cidade na direção do portão do Carmo. Ele trazia informações terríveis do outro portão no lado contrário da cidade. Era o reinício da marcha invasora nesta nova manhã.

– Os holandeses já entraram! Os holandeses já entraram!

O portão próximo da Igreja de São Bento, onde os holandeses passaram a noite, não ficava mais que cinco quarteirões de distância. Mesmo que os holandeses viessem em marcha lenta cautelosa, não demoraria mais que alguns minutos para chegar onde estavam Jerônimo e Dom Pero.

– Vá embora, Pero! Vossa mercê ainda pode se salvar.

O pedido partiu do patriarca da família Paes.

– Prometi à sua filha que o levaria de volta. Não vou desapontá-la – Dom Pero estava irredutível.

A situação era lamentável e desesperadora. Felizmente, a benção de Deus pareceu cair sobre aqueles homens. Dom Pero enxergou algo além do mercado. Já nas Casas de El Rey que ficavam ali vizinhas. Era o próprio Governador-Geral, Dom Diogo, que vinha acompanhado do seu filho e mais alguns homens, já entrando na própria morada.

Dom Pero tocou ombro de um dos criados do vendedor Garcia já dando as urgentes ordens.

– O Governador está ali, rapaz. Vá até ele. Diga que os holandeses estão na cidade. Diga que chame um socorro da praia para cá!

O rapaz assentiu, já se levantando. Correu na direção do Governador-Geral com toda a urgência do momento.

Era realmente uma benção o Governador chegar ali, logo no momento que mais precisavam. Ele poderia chamar os homens que estavam na praia para ajudar. Mesmo que não fossem capazes de deter os holandeses, era possível ganhar tempo até libertar Jerônimo dos escombros.

O rapazote não precisou correr mais que meio quarteirão até chegar a Dom Diogo. Chamou-o com todo o fôlego de seus pulmões.

– Governador!

Dom Diogo, seu filho Antônio e três homens que o acompanhavam, que eram Francisco Brito, Lourenço Brito e Pedro Casqueiro, volveram na direção daquele rapazote que os chamava.

– Os holandeses estão entrando na cidade! Estão passando pelo portão de São Bento neste minuto – a urgência na voz do criado aumentava. – O senhor tem que chamar os exércitos da praia até aqui! Rápido!

No entanto, a resposta do governador foi desoladora.

– Não sobrou ninguém para chamar, meu rapaz. Todos fugiram, abandonaram seus postos, somos tudo o que restou.

A verdade era que o governador, não querendo ser cúmplice de tão vergonhosa fuga, nem infiel a El Rey, aguardaria a chegada do inimigo em sua casa. Estava determinado a se render. No fim, terminou seu lamento com palavras que condiziam com seu estado de espírito.

– Acabou, meu rapaz. Não há mais o que fazer. A cidade de Salvador pertence agora aos holandeses.

 

***

 

Enquanto o rapazote não retornava com a péssima notícia do governador, Dom Pero se manteve no trabalho de libertar o sogro. Levantava as rochas o mais rapidamente que conseguia. Já o solicitava que puxasse a perna presa. Infelizmente, antes de completar a ação, todos que trabalhavam neste esforço foram interrompidos.

– Maldição!

O vendedor Garcia primeiro exclamou. Depois, seus criados tocaram os mosquetes. Começaram a atirar.

Eram os holandeses. Eles surgiram dentre as casas e construções, por uma estrada secundária da cidade. O estampido das armas inimigas também começou. Nos primeiros dez segundos de tiroteio, três holandeses caíram mortos, o vendedor Garcia foi atingido no abdômen, quase ao mesmo tempo que um de seus criados foi atingido no rosto.

O capitão Dom Pero soltou o escombro que segurava. Ergueu-se de imediato, tocando seu mosquete. Voltou-se contra inimigo. No entanto, antes que pudesse sequer encontrar um alvo, sentiu o forte impacto no peito que o jogou para trás. Caiu ao lado do sogro semi-soterrado.

– Dom Pero – Jerônimo gritou.

Mais desesperado ficou ao ver o buraco na roupa do genro jorrar sangue desde um pontinho vermelho na roupa acrescendo à uma grande poça que se formou sobre o chão.

Às custas de mais quatro holandeses, os outros dois criados tiveram o mesmo fim do patrão Garcia. Tornaram-se parte da funesta e sangrenta imagem que tomou conta do cruzamento em frente ao mercado central de Salvador. Ainda soterrado, Jerônimo escutou os passos do inimigo se aproximando. Alcançou a arma do genro, caída ao chão.

Ignorando a dor de suas escoriações, levantou-a na direção dos invasores. Ainda viu o vulto holandês que, de tão próximo, fez sombra sobre ele. Tentou disparar. Mas foi em vão. Sentiu apenas a dor nos dedos da mão, causada por um chute. Sua arma voou para longe com o golpe. Por fim, ouviu as ultimas palavras do inimigo antes de tudo se tornar escuridão.

– Acabou, espanhol! A cidade é nossa! – disse o holandês antes de acertar um tiro bem no meio de sua testa.

 

Dois Navios Ancorados por Andries van Eertvelt (1590-1652)

 

A Conquista da Cidade

–Holandeses–

Capítulo 5

 

9 de Maio de 1624

Após dominarem o Forte Santo Antônio, sem encontrar qualquer resistência, os holandeses avançaram. Dois soldados, chamados Colver e Dirck, que já haviam estado neste lado do Novo Mundo e conheciam bem as estradas e avenidas até a cidade, guiaram as tropas do Major Schouten por um estreito caminho. Nestes lugares, bem podia o inimigo com pouca gente tolher o passo dos holandeses, colocá-los em grande embaraço e fazer-lhes muito mal, mas tamanho era o desânimo dos espanhóis que não ousavam sequer encará-los. A ideia de uma debandada geral de suas forças se confirmava a cada novo passo.

Ao romper o dia, os holandeses abalaram em direção ao portão de São Bento, com duas peças de campanha dispostos a deitá-lo por terra. No entanto, nem chegaram a proceder com a tal violência que antes julgaram necessária. Antes, viram algo estranho acontecer ali.

– Aquilo é uma bandeira branca?

Sobre o portão, acima da muralha que fechava aquela lateral da cidade, havia um espanhol flamulando uma bandeira de paz. Avisava-os que a cidade fora abandonada pelos seus habitantes e que portanto podiam entrá-la sem queimar cartucho. Os holandeses não puderam acreditar. Ainda por temerem alguma cilada, ao abrirem o portão, foram entrando a cidade em ordem de batalha. E assim foram até à praça do mercado, sem encontrarem resistência em parte alguma, nem sequer deram fé de alguma gente espanhola.

Em seguida, se dirigiram ao subúrbio, onde a princípio encontraram alguma resistência. Um disparo sem aviso ecoou ao entrarem na primeira ruela, depois mais alguns seguiram. Era apenas um bando de meia dúzia de moradores assustados, crentes na imagem fanática que seus padres pintaram dos holandeses em cores demoníacas. Acreditavam que a defesa de suas casas era uma missão religiosa. Houve a perda da vida de alguns holandeses, entre eles, um tenente; e facilmente se houvera desordenado a tropa, se o Major não os contivesse.

O capitães avançaram bravamente matando a todos. O Major, que vinha logo atrás com sua companhia, atirou no meio da testa do último deles.

– Acabou, espanhol! A cidade é nossa! – então declarou.

Com um sorriso no rosto, o capitão Willem se aproximou do irmão.

– Não sabia que falava espanhol – comentou.

– Na verdade, é português – respondeu o Major. – Foi Portugal quem primeiro colonizou este lado do continente, mas estes também foram conquistados pelo rei espanhol anos atrás.

O Major observou em sua volta. Estava na praça do mercado, no centro da cidade. De um lado, na direção por onde vieram, estava o quarteirão destinado aos funcionários públicos, as chamadas Casas de El Rey, ali ficava a Casa do Governador. Do lado oposto, estava a Igreja da Sé, matriz da cidade. Em frente à baía, estavam os guindastes que transportavam a carga do Mercado Central ao Porto, de onde tinham a visão da praia, dos armazéns portuários e da fortaleza conquistada pelo vice-almirante Piet Heyn.

Vendo o glorioso cenário da vitória holandesa, o Major proferiu novas ordens seguintes aos seus capitães.

– Revistem todas as casas. Tragam comida, bebida, ferramentas, açúcar e tudo mais que possa ter alguma utilidade. Quero toda a pilhagem nesta praça!

Com as ordens do Major, os capitães se dividiram para fazer uma melhor presa. Basselvet, Kijf, Ysenach, Willem e Dirk tentaram controlar seus soldados que entravam nas residências com grande desejo de ver o que os espanhóis haviam deixado. As barracas do mercado, os templos religiosos, os armazéns do porto, os lares dos moradores, todos esses locais foram invadidos, em cada rua e aposento.

Como a cidade era uma riquíssima praça, o governador espanhol proibira que, sob pena de castigos corporais, que nenhum morador levasse para fora suas fazendas para fazer fundamento de que assim não fugissem. Desejava que ficassem para defender a cidade. A ideia não funcionou. Os moradores fugiram todos. Levaram consigo o que puderam carregar nos braços. Mas acabaram deixando maior parte de seus bens para trás, para os holandeses.

Willem passou anos de sua vida na sarjeta. Pernoitou em todo tipo de ambiente. Conviveu com o pior tipo de gente. Frequentou os mais sujos bordéis. Embriagou-se nas mais inóspitas tavernas. E, ao longo desses anos, parece ter desenvolvido um tipo de faro. Adquiriu um sexto sentido surpreendente para suas necessidades. Por isso, quando o soldado Charles de Toulon entrou numa residência em especial, algo chamou a atenção de Willem.

O capitão caminhou diretamente para lá.

– Senhor Willem, por favor, não entre aqui! – o soldado francês suplicou à porta da residência, tentando impedir a entrada do capitão, mas a voz contrária o sobrepujou.

– Sai da frente, soldado!

Não houve nada que o francês pudesse fazer. O capitão Willem o empurrou para lateral com uma violência desproporcional. Nada impediria o capitão de continuar seu passo.

Os olhos do capitão constataram que o local não era uma residência, mas um depósito. Constatou haver dezenas de jarras de vinho e garrafas de aguardente de cana ali empilhados.

Toda essa bebida estava ali, bem na sua frente, à sua disposição.

 

***

 

Enquanto isso, o major Albert Schouten deixou para si a honra de revistar o quarteirão mais rico da cidade. Reservou as Casas de El Rey para sua companhia de soldados. Foi direto ao palácio da cidade de Salvador: a Casa do Governador.

Logo que abriu a porta, o Major encontrou cinco homens em seu interior. Estavam deitados em sofás e colchões, no salão de entrada, com semblantes insones e cabisbaixos. Um deles, de cabelos curtos castanho-escuros, um fino bigode e mais bem vestido, primeiro lhe dirigiu a palavra no idioma ibérico.

– Demando falar com o comandante geral do exército holandês.

– Quem deseja falar com ele? – o Major arranhou seu espanhol enquanto mantinha o mosquete empunhado.

Os outros quatro espanhóis se levantaram. Uma mulher, acompanhada de duas pretas domésticas, apareceu das partes internas da larga morada.

O Major analisou o espanhol que tomou a frente. Estava abatido como se não tivesse dormido a noite toda. A roupa, suja e amassada, exalava um fedor de fumaça. Mantinha a espada na cintura enquanto segurava seu chapéu de pluma no peito. Mesmo em tal estado de cansaço, ainda mantinha uma respeitosa figura.

– Meu nome é Dom Diogo Mendonça Furtado – por fim, se identificou. – Sou o governador desta cidade.

O espanhol proferiu essas palavras mantendo algum grau de sua autoridade perdida. Antes que o major respondesse, continuou.

– Aquela é minha esposa. Este é meu filho Dom Antônio, também fidalgo de Sua Majestade. E estes são importantes oficiais do governo baiano.

Por fim, desabafou.

– Nós nos rendemos.

O Major escutou. Respondeu à capitulação.

– Respeitaremos sua fidalguia e seu posto, Dom Diogo. Daremos prisões adequadas enquanto esperamos a resposta da Coroa Espanhola e da República Holandesa sobre seu destino.

O ex-governador espanhol assentiu. O Major completou.

– São boas condições com as quais deve ficar grato, visto a situação em que se encontra, só não tente nada estúpido e serão todas mantidas.

Dom Diogo desafivelou o cinto. Entregou sua espada ao comandante holandês. Seus companheiros fizeram o mesmo. Todos foram escoltados dali para suas prisões, no camarote do Zeelandia e de outros galeões da armada.

O capitão Kijf, que acompanhara o Major na entrada da Casa do Governador, comentou no idioma holandês.

– Este Dom Diogo parece um homem honrado. Preferiu ficar nas mãos do inimigo a ser cúmplice na fuga de seus soldados.

– É um imbecil, isso sim! – O Major lançou seu parecer. – Que bem ele poderá fazer agora estando preso agora? Como se esse mal-entendido orgulho fizesse algum serviço ao seu rei.

Na concepção do Major, o governador espanhol lhe entregara a cidade duas vezes. Uma, quando deixou seus homens debandarem. Outra, quando desistiu de lutar ao se render.

– Senhor major – uma voz irrompeu pela porta, interrompendo seu pensamento.

Era o soldado Charles de Toulon.

– Eu tentei impedir Willem, mas não consegui – ele proferiu num desabafo. – Eu sinto muito.

 

***

 

Não, não é possível!, o major exclamou em sua mente. Não foram necessárias novas palavras do soldado francês. Afinal, Charles de Toulon tinha apenas uma missão: cuidar do seu irmão. Quanto mais imaginava as consequências do que estava ocorrendo, mais se desesperou pelo irmão. Caminhou em passos apressados pelas ruas de Salvador. Atravessou alguns quarteirões. Chegou à residência onde, minutos antes, seu irmão entrara.

Lá estava o capitão Willem, sentado no chão, escorado numa parede. Seu mosquete, seu chapéu e dezenas de garrafas do aguardente de cana estavam espalhadas no chão ao redor. Uma dessas garrafas estava sendo emborcada pelo capitão. O álcool lhe enchia as bochechas. E, quando enfim desceu goela abaixo, o Major percebeu que o forte álcool não lhe causou sequer um suspiro.

– Está colocando tudo a perder, Willem.

A comiseração encheu os olhos do Major. O irmão não dera mais que alguns goles da bebida, no entanto, foram tão sedentos e desesperados, que a garrafa em suas mãos já estava pela metade.

– Entregue a garrafa agora! – o Major gritou enfurecido com a cena, ao dar um passo na direção do irmão.

Willem se sobressaltou de imediato com a aproximação de Albert. Segurou a garrafa mais firmemente ao seu corpo, a escondendo embaixo do ombro, enquanto a outra mão alcançou o mosquete ao lado.

O Major deteve o passo.

– Por acaso, vai atirar em mim?

O capitão embriagado não empunhou o mosquete, mas o manteve imóvel, abaixo de sua mão, pronto para ser sacado. Os desesperados olhos azuis do Major já perdiam qualquer esperança pelo irmão caçula. Viu ali um Willem diferente daquele com quem conviveu nos últimos cinco meses. Viu ali apenas o vício incontrolável de um degenerado que há anos envergonhava a família Schouten. Antes, ele tivesse morrido em batalha.

– Faça como quiser – disse, se virando de costas para o irmão. – Cansei de tentar ajudá-lo!

E assim deixou o local enquanto Willem emborcou outro largo gole.

 

***

 

Com a conquista de Salvador, os holandeses arrecadaram muita lã, seda, linho e outras mercadorias, e as depositaram no colégio dos jesuítas. Da cidade, dos fortes e de seus arredores, recolheram 23 peças de artilharia de bronze e 26 de ferro. Dos navios tomados, encontraram passante de 1400 caixas de açúcar, algum melaço e couros. Havia outros quatro navios mais chegados à terra, dois dos quais continham cerca de 400 pipas de vinho; o terceiro estava carregado de farinha, vinho e bolacha; e o quarto continha somente sal. Nos armazéns situados à praia foram encontradas cerca de 1500 caixas açúcar, uma grande quantidade de tabaco e 140 pipas de óleo de baleia.

A pilhagem não parou por aí. Muitas riquezas foram conseguidas nos dias seguintes. Isso porque, como era o porto de Salvador de tanto comércio, chegando nele navios mercantes de partes tão remotas, que nem daí a quatro meses se pôde nelas saber que a cidade estava conquistada. Regularmente, muitos navios vinham entregar e ancorar entre os inimigos, cheios de farinha de trigo, biscoito, azeite, vinho, sedas, e outras ricas mercadorias.

– Lá vem mais um!

O vice-almirante Piet Heyn, com um belo sorriso no rosto, anunciou aos marinheiros.

Logo nos primeiros dias, capturaram um navio de Lisboa, carregado de azeite, farinha, bolacha e outras mercadorias, que segundo estimou o vice-almirante, valiam 30 mil ducados de ouro. Dias depois, outro de Pernambuco continha 26 caixas de açúcar. Hoje, entrava na baía um desavisado naviozinho proveniente das capitanias do Rio de Janeiro e Espírito Santo.

Os holandeses já estavam tão práticos no apresamento desses navios que haviam criado uma rotina nisso. Eles mantinham fora da barra e em suas cercanias dois navios, um iate e duas chalupas de vela. Estes impediam qualquer navio de sair se já tivessem entrado ou de fugir se desconfiasse do que o esperava lá dentro. O desavisado naviozinho deste dia, no entanto, nem sequer percebeu os navios fechando a baía após sua passagem. Ancorou no porto para começar o desembarque. Logo foi abordado por duas lanchas e uma nau, desdenhosamente, sem as bandeiras holandesas.

– Olá, amigos.

O capitão do naviozinho desavisado saudou o sujeito gordinho e baixinho, com olhos pequenos de rato do mar, que liderava o grupo que o abordou. Ainda pensava estar na companhia de seus compatriotas espanhois.

Por isso, avisou sobre os passageiros que transportava.

– Mande aviso ao Bispo Dom Marcos. Diga-lhe que trago os seus convidados para que Vossa Reverendíssima prepare uma recepção digna.

– Seja bem vindo, meu amigo – o sujeito baixinho e gordinho o respondeu num espanhol perfeito, capaz de ocultar sua verdadeira origem. – Se traz tão ilustres passageiros, devo assumir que sua carga seja muito boa também.

– Sim. Quarenta caixas de açúcar e sete mil ducados de prata.

– Ótimo – um sorriso se abriu na face do sujeito gordinho e baixinho.

Ele tirou a pistola do coldre, colocou-a na cabeça do capitão. Só depois ele soube que seu anfitrião era o infame pirata Piet Heyn. Só depois soube que São Salvador estava sob o domínio holandês. Só depois soube que caíra numa armadilha.

– Homens! Podem começar o saque!

A tripulação do naviozinho que ia desarmada foi assim rendida. Os holandeses adentraram seu interior em busca da carga descrita pelo capitão espanhol e logo deram de cara com os passageiros mencionados. Eram dezesseis clérigos católicos sendo dez jesuítas com seu provincial, dois frades franciscanos e quatro frades beneditinos.

– Senhor o que fazemos com estes monges? – um dos marinheiros perguntou.

– Ferrem eles. Ponham os grilhões. O Major que decida o destino deles.

Mal terminou de proferir essas palavras, um feliz anúncio revelou ao Vice-Almirante que o dia seria ainda mais proveitoso que imaginara.

– Senhor, lá vem outro navio!

Um dos marinheiros apontava para a entrada da baía. Lá estava uma grande embarcação. Um verdadeiro galeão de guerra. Era tão grande quanto o Zeelandia do almirante Wilinkens, talvez maior, e tinha muitas bocas de artilharia em seu costado. Era uma imagem que surpreendeu a todos. Afinal, galeões de guerra sempre andam em bandos.

– Espere um pouco – o vice-almirante Piet Heyn analisou com mais cuidado a imagem que surgia no horizonte.

Tomou uma luneta em suas mãos, ajustou-a para que melhor tomasse nota. As velas. O casco. O desenho. Todo o navio lhe era familiar. Só quando conseguiu ler o nome no casco foi que entendeu o porquê da sensação.

– Meu Deus! É o Hollandia! É a embarcação do coronel Van Dorth!

Primeiro riu ironicamente. Só depois fez seu maldoso comentário.

– Que klootzak! Chegou tarde demais para a batalha, mas cedo o bastante para tomar as glórias dela!

 

Caravana de mercadores por Johan Moritz Rugendas

 

O Lamento dos Derrotados

–Brasileiros–

Capítulo 6

13 de Maio de 1624

Na capitania de Pernambuco, o capitão-mor Matias de Albuquerque acordou nervoso. Deixou logo cedo sua casa para caminhar pela vila de Olinda. Desejava espairecer de uma sensação ruim que tomava sua mente. Os madrugadores abriam suas lojas e comércios. Carregavam seus produtos. Preparavam seus balcões. Todos davam bom dia ao capitão-mor. Acenavam para o homem que já os governava há quatro anos com boa dedicação.

Dom Matias, enfim, chegou à Igreja da Sé de Olinda, mas não teve vontade de entrar. Preferiu ficar ali, escorado numa cerca de frente aos mares pernambucanos. Era um dia lindo. Os mares estavam mais azuis do que nunca. O céu estava claro, sem nuvens. E o sol ascendia com sua aura dourada por trás dos horizontes oceânicos. Os primeiros pescadores já lançavam seus barquinhos ao mar. Era um dia bem agradável. Ainda assim, Matias não se sentia bem.

A razão do mau sentimento logo se revelou. O galope de um cavalo era escutado ao longe. Quem poderia vir tão apressado tão cedo do dia, numa manhã tão calma?, Matias se perguntou.

Era seu parente e braço-direito: Pedro de Albuquerque Melo.

– Terríveis notícias, Dom Matias – disse quando próximo, já desmontando do ofegante cavalo.

Tinha uma carta nas mãos. Era um aviso que chegara naquela manhã. O capitão-mor nem mesmo lançou perguntas. Apenas contraiu sua face numa preocupação curiosa. Estendeu a mão para ver a carta.

– Os holandeses chegaram! – O braço-direito já se adiantou. – Eles desembarcaram e conquistaram a cidade de Salvador. Aprisionaram o Governador-Geral, deixando nossas terras sem sua cabeça.

Pedro desabafou sua inquietude. Exalou preocupação.

Enfim, completou:

– Por isso, escolheram a ti, Matias, para tomar seu lugar. És agora o novo Governador-Geral.

 

***

 

Na Bahia de Todos os Santos, era o terceiro dia desde a conquista de Salvador. Depois de saqueadas as casas dos moradores, os holandeses foram aos templos. Nas casas de Deus, seus horríveis sacrilégios fizeram o maior estrago. Antes de qualquer coisa, arremeteram com furor diabólico às sagradas imagens dos santos. Àquela cortaram os pés e mãos, a umas encheram de cutiladas, a outras lançaram ao fogo. Desarvoraram e quebraram as cruzes, profanaram os altares, vestiduras e vasos sagrados. Usaram cálices, onde se consagrou o sangue de Cristo, para em suas desconcertadas mesas servirem a Báco.

Os templos que ficavam juntos aos portões foram pilhados e depredados no dia seguinte à conquista. Neste terceiro dia, um grupo de sete gananciosos soldados se adiantou aos seus líderes. Ouviram sobre um templo religioso que ficava a meia légua da cidade, decidiram roubar os ornamentos de prata e ouro antes que seus líderes o fizessem. Era a Quinta dos Jesuítas, onde nos últimos três dias sua casa-grande era usado como abrigo aos refugiados.

Infelizmente, sem ninguém para a proteger, os sete holandeses tiveram um prato cheio. Invadiram o lugar. Renderam os abrigados, na grande maioria crianças, velhos, mulheres e feridos.

– Por favor, não o destrua! – Um padre jesuíta suplicava, com o desespero enchendo seus olhos de lágrimas.

Os sete holandeses eram da ralé do exército invasor. Eram os piqueteiros com lanças na mão. A infantaria rasa. Nem mesmo tinham armas de fogo. Eles andavam de canto em canto da casa-grande, com grande fúria quebrando tudo e deitando com desprezo as imagens, relíquias e ornamentos dos altares. Fizeram presa nos cálices, lamparinas e outras pratas, jogando tudo em sacos, para levarem consigo.

Os gritos de desespero, no entanto, ocorreram com o avanço de um holandês contra uma cruz de madeira que tinha a imagem do Cristo sacrificado.

– Stap opzij, vader!

O grito do holandês foi proferido no seu estranho idioma, muito embora, fosse fácil entender que mandava o padre sair da frente.

– Por favor – o padre continuou a súplica. – Essa é a imagem verdadeira de Jesus Cristo, o filho de Deus, digna de toda a veneração. Lance a espada contra mim, mas não o faça contra o Nosso Senhor!

O holandês fez o movimento de ataque. O padre se jogou para trás em reflexo, vendo a morte tão próxima. O holandês se pôs a rir, não sem antes o novo golpe arrancar o Cristo ali representado. Lágrimas deixaram os olhos do padre ao ver o seu Deus despedaçado no chão e nada podia fazer.

Enfim, os saqueadores fizeram gestos à saída. Colocaram as mochilas cheias nas costas. Caminharam para fora da casa-grande. Apesar de todo o estrago, os refugiados e clérigos estavam felizes por vê-los indo embora. Saiu o primeiro, o segundo e os outros em seguida. Quando o sétimo e último holandês saiu do local, algo inesperado aconteceu.

Através da porta entreaberta, ouviu-se o som grave de um impacto. Viu-se no relance da porta um dos holandeses cair no chão. Os gritos desesperados dos saqueadores começaram. Barulhos de carne rasgando e gemidos de dor vieram em seguida.

No interior do templo, sem também entender o que acontecia, os jesuítas e enfermos apertaram suas mãos juntas, fecharam os olhos e continuaram em orações murmurantes. Como que Deus os estivesse escutando, os sons foram ficando mais raros e espaçados, até cessarem por completo. Um silêncio completo persistiu. Ninguém sabia o que estava acontecendo.

A porta se abriu. Um negro, empunhando um arco na mão, vestindo uma aljava de flechas nas costas adentrou o recinto.

– Por favor, não nos machuque – o padre quem primeiro suplicou.

Bem poderia ser um escravo fugido buscando seus próprios espólios. Bem poderia ser um assaltante do recôncavo. Felizmente, as palavras do negro trouxeram um grande alívio a todos.

– Não temam. Meu nome é Bastião – disse o negro. – Vim aqui para protegê-los em nome do Bispo Dom Marcos.

 

***

 

Enquanto os holandeses se ocupavam nos seus sacrilégios, os refugiados de Salvador cobriram os matos e as praias de toda a capitania. Eram entre dez e doze mil almas. A uns, as árvores agrestes serviam de casa. A outros, apenas o céu, sem mais algum abrigo das chuvas e do sereno da noite. Todos em pé, muitos descalços e despidos, morriam de fome e sede. Os mais esforçados chegaram ao mesmo dia à aldeia do Espírito Santo. Distava seis ou sete léguas ao norte da cidade, às margens do Rio Vermelho. O restante, pouco a pouco, ali foi se juntando com muito trabalho.

Ficaram todos em grande aperto e incomodidade. Antes da chegada de tantos milhares de refugiados, os índios e padres jesuítas moravam ali em apenas setenta casebres, repartidos para quatro pessoas cada. De cerca de trezentas pessoas, a aldeia passou para mais de dez mil numa única semana. Ainda assim, a missão jesuíta acolheu e recolheu toda a gente, à qual acudiu a caridade dos habitantes com o que podia, não faltando a ninguém carne, nem farinha, que era o pão da terra e neste tempo era o maior regalo.

– Deus seja louvado por trazê-los até nós – o Bispo agradeceu a chegada do negro Bastião.

Este negro, com seus três companheiros de cor, que empunhavam semelhantes arcos, trouxeram consigo aqueles ornamentos que os sete holandeses tentaram roubar e aquelas dezenas de enfermos desamparados na Quinta dos Jesuítas. Era uma grande temeridade que ficassem ali tão próximos do inimigo. Agora, todos tinham seu lar na Aldeia do Espírito Santo, às margens do Rio Vermelho.

– Venham todos!

Dom Marcos clamou aos feridos, que coxeavam doentes em meios às suas tosses e choros.

– Serão improvisadas cabanas para se abrigarem, distribuídos alimentos para saciarem sua fome e entregues mezinhas para suas feridas. Faremos tudo o que estiver ao nosso alcance para acomodá-los da melhor forma possível.

O Bispo apresentava profundas olheiras e ares de cansaço. Pareceu tão doente quanto aqueles que acolhia. No entanto, por trás do peso da fadiga, alegrou-se em ver tanta gente a salvo. O mesmo acolhimento também fizeram os moradores da Bahia que tinham fazendas e engenhos afora. Todos agasalharam com muita caridade, por muitos dias, quer cem, quer duzentas ou trezentas pessoas, dando-lhes todo o necessário.

A população foi aos poucos atendendo o chamado do Bispo, sendo toda ela repartida nesta aldeia, em outras próximas e em alguns currais. Fizeram com assaz incomodidade, porque as cabanas eram minúsculas, a cama era o sobrado e, quando muito, tinham uma rede. A mesa era tão apertada e pobre, que muitas vezes não havia mais que ervas e legumes, e estes, às vezes sem sal, nem azeite, e cozidos somente na água.

Sempre que chegava mais gente, como estes refugiados da Quinta dos Jesuítas, Ana Paes era a primeira a procurar o Bispo ou o noviço Vieira.

– Alguma notícia? – outra vez, perguntou em sua tristeza.

– Sinto muito – outra vez, o Bispo aumentava o mau sentimento. – Ninguém teve notícia nem do seu pai, nem do capitão seu noivo.

Outra vez, a menina de quatorze anos partiu. Tentou engolir o choro.

– É uma pena – desabafou o noviço. – Que Deus tenha piedade de sua alma e lhe dê conforto.

– Ele dará – respondeu o Bispo com certeza na voz.

Mal conseguiu terminar essas palavras, uma tosse rouca e doente lhe acometeu, o fez arquejar sobre os joelhos, quase o derrubou. O noviço se apressou em segurar seu mestre pelo braço. Ao toque de sua pele, sentiu o emanar de um estranho calor.

– Seu corpo está fervendo, Reverendíssimo! – o jovem exclamou

– Não é nada. Eu estou bem – o Bispo retrucou.

– Há quantos dias o senhor não dorme?

– De que adianta tentar dormir, Vieira. Desde que os holandeses surgiram no horizonte, apenas reviro de um lado para o outro da cama, sem que o sono chegue. Nem tento mais.

– Mas, senhor, já se passaram quatro noites.

O semblante do Bispo estava pior que nunca. Cansado e doente, até mesmo seu corpo largo pareceu murchar. Sofria a magreza dos enfermos. Mesmo que desejasse redimir os erros passados, o fazia às custas de sua saúde.

– Agora vamos. – resfolegou, fatigado. – Tenho muito o que fazer.

 

***

 

Sem dormir, nem descansar, nem se alimentar como deveria, a saúde do Bispo se deteriorou rapidamente. Esgotou-se por completo numa reunião entre os desembargadores, delegados, oficiais da câmara e outras pessoas de valor. Era um grupo de sobreviventes a que chamaram Conselho da Bahia. Realizavam uma reunião de ares ressaltados, com o comerciante Melchior Brandão e Lourenço Cavalcanti tomando a palavra.

– Temos que tomar as armas. Os holandeses já não se contentam só com a cidade, estão fazendo saques fora dela também – disse um.

– Não podemos deixar a defesa de nossas terras só nas mãos dos índios de Afonso Rodrigues e dos negros de Bastião – completou o outro.

Todos então fitaram um homem chamado de Antão de Mesquita de Oliveira, que como ouvidor-mor e chanceler da Bahia, era o segundo em comando da capitania. Assim, foi eleito para substituir o governador Dom Diogo no cargo. Era um homem honesto, bom administrador e tesoureiro, mas não estava preparado para essa situação. Não estava preparado para a guerra.

– Eu…

O chanceler balbuciou, o suor escorreu a fronte, enquanto a indecisão hesitou sua fala. Por fim, desabafou.

– Eu não tenho condições de continuar.

Era uma difícil situação, ainda mais chegando assim, de forma tão desprevenida. Depois de despachar o comando do Novo Mundo para Pernambuco, era a vez do chanceler despachar o comando da própria Bahia.

– O Bispo já está cuidando de todos os assuntos da população. Sugiro que ele mesmo trate os assuntos militares também.

Todos voltaram o olhar imediato para o Bispo. Ele estava ali no cantinho da mesa, envolto numa manta, com o rosto pálido adoentado, olhos fundos de desidratação e tremor febril incontrolável. Mesmo com os movimentos engessados pelas dores no corpo, ainda tinha um ímpeto de liderança dentro de si. Aceitou a sugestão do ouvidor-mor.

– Se for da opinião de todos, trocarei o anel pela lança, o roquete pela saia de malha e, de prelado eclesiástico, me farei capitão de soldados.

Ele se levantou tão forte em espírito quanto frágil em corpo. A tosse o quase não o deixou continuar. Mas, vencendo-a, logo bradou.

– Já solicitei auxílio de armas à Casa da Torre. E não mais fugirei da minha missão. Aprendi com meus erros passados. Pela santa fé católica e a lealdade à coroa real, eu vou…

O discurso foi novamente interrompido pelo seu tossir.

– Eu…

Continuou a balbuciar, mas, diferente do ouvidor-mor, não balbuciava por medo, nem por preocupação, mas em razão da própria doença.

Tomando todos desprevenidos, o Bispo não mais se aguentou em pé. Caiu sobre a mesa, se apoiando pelos braços. Tentou se reerguer. Não conseguiu. Seus olhos se reviraram pelo poder da inconsciência.

Enfim, a única pessoa que, na Bahia deste tempo, detinha alguma aptidão para a liderança desabou inerte no chão.

 

***

 

Enquanto a reunião do Conselho da Bahia tomava os ares trágicos com a doença do Bispo Dom Marco, Ana Paes se sentava à margem do Rio Vermelho, sozinha, desolada. As lágrimas corriam pelo seu rosto. Poucas horas antes, tendo chegado mais alguns refugiados, voltou a perguntar ao noviço se houvera alguma notícia de seu pai. Outra vez, a resposta foi negativa.

Vendo-a naquele estado, seu irmão Toninho se aproximou. O cenho sofrido pela perda do pai era bem semelhante ao da irmã. No entanto, estava mais conformado, como suas próprias palavras puderam evidenciar.

– Nosso pai está morto Ana! – o primogênito desabafou.

– Não diga isso, Toninho. Não desistirei dele ainda – a moça retrucou.

Ambos ficaram em silêncio por um longo tempo. Olhavam juntos as correntezas do Rio Vermelho. Compartilhavam a mesma solidão, a mesma dor. Era um triste sentimento que foi interrompido por Ana Paes, ainda com palavras de esperança.

– Não descansarei até descobrir onde ele está – por fim, completou.

A esperança, no entanto, não era algo que o irmão partilhava.

– E se ele realmente estiver morto, Ana? – Toninho engoliu seco. – O que faremos?

Ana Paes suspirou fortemente. Mais lágrimas deixaram seu rosto. Caíram do queixo até o chão. O simples pensamento nesta possibilidade era terrível demais para suportar, mas a moça detinha forças além de sua própria imaginação. Uma determinação acrescia, a cada negativa recebida do noviço.

Essa determinação impulsionou sua voz ao irmão e ao próprio Rio Vermelho à sua frente.

– Se nosso pai realmente estiver morto, sei bem o que farei.

Os olhos da tristeza passaram ao ódio.

– Eu buscarei vingança!

 

 

George Villiers, o Duque de Buckingham, por Anthony van Dyck (1599-1641)

 

A Nuvem Antes da Tempestade

–Ibéricos–

Capítulo 7

 

10 de Maio de 1624

O Conde-Duque de Olivares se sentava num dos pequenos escritórios privados de El Alcázar, numa cadeira que mal comportava seu largo corpo. Estava mais desconfortável com o assento do que com a incômoda situação. A Dama de Companhia, Maria de Chirel, estava do outro lado da mesa. As roupas largas já não conseguiam esconder essa tal situação.

A larga barriga de muitos meses de gravidez, com o filho bastardo de Sua Majestade, já começava a se tornar evidente.

– Eu preciso mesmo deixar a corte?

A angústia da Dama aumentava a cada palavra.

– Preciso mesmo viver num convento?

O Conde-Duque se inclinou. Tentou transmitir um olhar de amizade. Voltou a explicar tudo que conversaram há mais de uma hora.

– A revelação de um bastardo de El Rey seria de um escândalo para todo o Reino. Da mesma forma, a senhorita aparecer grávida, sem estar casada, seria uma desonra ainda maior para sua família.

– Mas eu não quero ser uma freira.

– A situação será temporária, pelo menos até o nascimento da criança. Depois poderá dizer que aquela não era sua vocação e voltar para a corte. Temos conventos preparados para lidar com esse problema com a maior discrição.

– Mas, senhor…

– Se a senhorita fosse casada, o seu esposo poderia assumir o filho. El Rey certamente daria uma gorda compensação financeira pelo ocorrido. No entanto, como a senhorita não é casada, a mesma gorda compensação será entregue ao seu pai. Uma compensação que fará da sua Casa, uma das mais ricas de Valência, talvez seu pai até agradeça o seu bom serviço ao palácio.

– E quanto ao meu filho? – ela questionou.

O Conde-Duque se inclinou mais sobre a mesa.

– Tudo dependerá da decisão de El Rey. Se Sua Majestade assumir sua paternidade, a criança receberá fidalguia e algum título de nobreza: Conde, Marquês e, quem sabe, até Duque, com um bom castelo onde vossa mercê poderá cuidar dele. Caso contrário, ele será entregue a uma casa de caridade, na qual vossa mercê poderá acompanhar seu crescimento e educação como uma das freiras do lugar. Ele ainda receberá toda educação necessária para um nobre, assim como o título de fidalgo, e, quem sabe poderá ser feito Cavaleiro para que siga seu próprio caminho na corte.

Os prantos da Dama caíram com mais intensidade.

A mão direita do Conde-Duque acenou para o guarda à porta. Solicitava que levasse a moça embora. Já não aguentava mais a conversa. O estribeiro-mor do Reino, o fidalgo responsável pelos transportes e cavalariças do palácio, se aproximou enquanto ministro se levantava.

Por fim, uma última súplica deixou os lábios da antiga Dama que agora seguia seu Chamado de Deus.

– Por favor, Olivares, não deixe que El Rey se esqueça de mim.

Olivares respondeu de imediato.

– A senhorita não será esquecida.

A dama deixou o escritório na companhia do Estribeiro-Mor. O Conde-Duque suspirou ainda mais intensamente, pois, como disse a El Rey, esse era um problema fácil de resolver. A reunião seguinte seria certamente bem pior.

– Por favor, pode chamar o próximo.

A figura cabeluda e elegante do Duque de Buckingham atravessou a porta em suas roupas brancas e azuis, sempre bem cortadas, quase angelicais. No entanto, o Conde-Duque tinha uma visão bem diferente. Enxergava o próprio demônio sob a pele de um afeminado inglês.

A pauta da reunião era a dispensa papal para o casamento  entre a irmã de El Rey, a católica Infanta Mariana, e o protestante Príncipe Charles, herdeiro da Inglaterra. O Papa permitiu o matrimônio desde que os católicos residentes da Inglaterra não fossem mais perseguidos pelos protestantes, nem proibidos de exercer seus ritos eclesiásticos. Ambos deveriam esperar um ano para saber se as condições foram cumpridas, para então trocar os votos.

Infelizmente, mesmo com a permissão papal, desde o começo, o Conde-Duque percebeu que nunca fora intenção dos ingleses que o casamento prosperasse. Sempre soube que o maldito Duque de Buckingham nunca desejou essa união. Sempre soube que tudo não passou de um teatro. Ele sempre soube que os acordos de matrimônio, no fim, seriam infrutíferos.

Mesmo assim, quando a porta se fechou com a entrada do ministro inglês, ele manteve a farsa das negociações e uma máscara de boa educação.

 

***

 

Em outra parte do palácio de El Alcázar, o El Rey Filipe adentrava os aposentos da Rainha Isabel. O Conde-Duque disse que resolveria o problema da gravidez de Maria de Chirel. No entanto, para o bem da nação, El Rey precisava se deitar com a infiel Rainha. Precisava fazer um filho nela. Precisava de um herdeiro legítimo. E o mais urgente possível, pois já se passara quase um ano sem ele entrar nos aposentos dela.

– Aonde quer que eu fique? – a Rainha proferiu sem qualquer emoção.

El Rey apenas apontou. Era uma situação difícil para ambos. Depois de traições mútuas, não sabiam se sentiam raiva, desprezo ou indiferença um pelo outro. De qualquer forma, a Rainha levantou a saia, tirou as roupas de baixo enquanto El Rey arriou as calças.

O ato demorou a começar com El Rey apalpando por vários minutos o órgão entre as pernas, de olhos fechados, certamente pensando em alguma outra pessoa que não fosse a Rainha, provavelmente Maria de Chirel.

A ereção não foi completa, mas era suficiente. A penetração foi fria e dolorida. O ato começou, num indo e vindo mecânico, pois ele se esforçava para realizar esse seu dever como Rei. Certamente, preferia estar escondido atrás das cortinas da sala de reunião, escutando horas entediantes de discursos.

Os olhos da Rainha se mantinham fixos no relógio sobre a escrivaninha do quarto. Estava deitada de pernas abertas. Sentia as batidas nas coxas enquanto observava o tique-taque interminável do pêndulo. A mente divagava sobre os compromissos de sua agenda para o resto do dia.

– Pronto. Terminei. – Filipe avisou.

Em seguida, balançou o órgão em suas mãos, levantou a calça e fechou o cinto. Ela nem olhou para seu esposo enquanto este deixava o quarto. Apenas fechou as pernas e se ajeitou na cama, encostando a cabeça no travesseiro para dormir. A porta se fechou.

O pensamento de ambos era o mesmo: o quanto era insuportável precisar fazer tudo aquilo novamente no dia seguinte.

 

***

 

O Príncipe Charles e o Duque de Buckingham chegaram a Madrid no dia 17 de março de 1623. Foram muitos meses de aguardo pela dispensa papal e reuniões para definir as cláusulas do acordo matrimonial. O fim da estadia terminou no dia 7 de setembro do mesmo ano. Este foi um dia marcante para o jovem soberano da Espanha. Foi o dia em que aprendeu a importância sobre sua pessoa durante a festa de despedida aos ilustres hóspedes.

– Agradeço a todos!

O príncipe inglês discursou na sua despedida para uma plateia de fidalgos madrileños.

– Agradeço todo o cuidado que os espanhóis tiveram para me dar a mais perfeita noiva. As negociações não evoluíram durante o tempo em que estive aqui, mas estou encantado com a bela Infanta Mariana. Mal posso esperar para recomeçar as negociações no meu retorno à Inglaterra.

Todos os presentes aplaudiram de pé, com o príncipe mantendo o mesmo tom diplomático.

– Quero dar um especial agradecimento ao Conde-Duque de Olivares que, apesar do resultado final, tanto lutou para tornar essa união uma realidade.

O príncipe tinha em sua mão uma bela joia de oito diamantes, avaliada numa pequena fortuna de vinte e cinco mil ducados de ouro. O Conde-Duque abaixou a cabeça. A joia foi colocada em seu pescoço.

– Fico muito agradecido, Alteza – o Conde-Duque respondeu. – Deus sabe que eu desejei que essa união mais do que qualquer pesssoa.

– Eu sei disso, Olivares – o Príncipe retrucou em baixa voz.

Em seguida, ele caminhou até o Rei Filipe, com o Duque de Buckingham o seguindo logo atrás. O futuro monarca inglês já tinha nas mãos outra joia. Era ainda mais valiosa que a primeira e, da mesma forma, a colocou ao redor do pescoço do rei espanhol.

– Fico muito honrado com este presente, Charles – El Rey quem primeiro tomou a palavra para agradecer. – É uma pena que não tenha conseguido o que queria aqui.

– Pelo menos a viagem não foi totalmente em vão – o príncipe respondeu.

Tendo posto o colar no pescoço de El Rey, o Príncipe Inglês se afastou, mas pareceu que uma nuvem sombreou sua face de forma malévola quando o visitante retomou suas palavras em outro tom.

Externava agora zombaria e insultos.

– Aprendi, em minha viagem por terras castelhanas, o quão fraco é o rei delas. Não é inteligente, nem forte, nem esperto. Não entende de arte, nem de estratégia, nem de diplomacia, nem de guerra. Nem mesmo conseguiu casar sua irmã comigo, mas deixou que eu a seduzisse e a desflorasse durante minha estadia, bem debaixo do seu nariz. Não passa de um idiota com um grande cabeção. E levarei isso em consideração quando eu for rei!

El Rey ficou pasmado. Não soube como responder. Teria aceitado o insulto calado se o Conde-Duque não o defendesse.

– E nós tivemos a prova hoje de que o Diabo tem assento cativo na Inglaterra, e bem ao lado do maldito Buckingham!

O insulto foi escutado pelo Príncipe Charles, cuja reação foi um simples sorriso. Não se dignou a responder. Apenas virou suas costas e caminhou para sua carruagem. O Duque de Buckingham fez o mesmo percurso logo atrás. Não sem antes digladiar outra vez com o Conde-Duque de Olivares e dizer suas últimas ofensas ao rude ministro espanhol.

– Logo nos encontraremos nos campos de batalha, porco papista!

Não sem ouvir outra resposta de Olivares.

– Estarei esperando, herege maricas!

 

***

 

As palavras do príncipe inglês ecoaram na mente do rei espanhol. A mente divagava em busca de respostas. Qual era o verdadeiro propósito da visita de Charles? Ele desejava mesmo se casar com Mariana? Estava mesmo tão apaixonado quanto aparentava? Ou o casamento estava fadado ao fracasso desde o começo? E por quê? Só para causar a discórdia entre duas nações?

As relações diplomáticas entre a Inglaterra e a Espanha se deterioraram rapidamente após a visita. A paz era mantida apenas pelo moribundo pai de Charles. Era um rei avesso às guerras. No fim, a impressão que El Rey Filipe da Espanha deixou para o futuro soberano inglês era a mesma impressão que  tinha de si mesmo. Era um rei incapaz, ignorante e sem liderança.

As semanas seguintes atormentaram as noites de El Rey Filipe. Causaram-lhe um persistente sentimento de vergonha. Um sentimento que durou até uma silenciosa noite em El Alcázar quando o insone monarca entrou nos aposentos do Conde-Duque.

– Olivares, preciso de sua ajuda!

Apesar das altas horas da noite , o ministro estava acordado. Revisava documentos recém-chegados.

– Tudo o que Vossa Majestade desejar – o ministro respondeu, ainda que com lúgubre semblante.

El Rey desabafou toda a frustação consigo mesmo.

– Fui traído por Isabel. Fui insultado por Charles. Sou motivo de chacota em minha própria corte.

– Isso não é verdade, Majestade.

O Conde-Duque tentou interromper a demonstração de autodepreciação. Não obstante, El Rey continuou.

– Devo apenas agradecer a tudo o que fez por mim, a tudo que vem tentado me ensinar. Consigo enxergar agora o terrível aluno que fui. Consigo ver quanto tempo perdi pela minha própria falta de interesse.

O rei suspirou.

– Não quero mais ser essa pessoa fracassada!

O silêncio ressonou outra vez.

– Quero que seja o meu Valido, Olivares – enfim disse, oferecendo o maior cargo do seu Reino ao obeso ministro. – Quero que me ensine, me deixe tão bem preparado para reinar quanto o Príncipe Charles!

A resposta veio de imediato.

– Não aceitarei o cargo, Majestade!

A resposta surpreendeu o monarca.

– Não aceitarei porque Vossa Majestade não precisa de um Valido! Eu lhe ensinarei a ser muito melhor que Charles! Melhor do que todos os Reis da Europa! Vossa Majestade será o melhor Rei de toda a história espanhola!

O Conde-Duque se levantou. Caminhou três passos. Ficou de frente à Sua Majestade, com um documento nas mãos. Em seguida se ajoelhou. Ergueu-o no punho enquanto Sua Majestade o tomou para si.

Olivares continuou suas palavras.

– Deus colocou as atribulações recentes em nosso caminho por uma razão especial. Deus colocou hoje esses pensamentos em sua mente porque tem um plano para nós. Tamanha determinação de Vossa Majestade não poderia ter vindo em melhor hora, em momento mais necessário.

El Rey realizou a leitura do documento. Lá estava descrita uma terrível notícia vinda do Novo Mundo, do outro lado do Oceano.

– Esse é um momento crítico na história da Espanha. Os holandeses lançaram sua ofensiva no Novo Mundo. Conquistaram a Bahia de Todos os Santos. Dominaram a cidade de São Salvador, a capital da parte leste do continente.

El Rey apenas conseguiu enxergar a péssima notícia no relato. Depois de derrotados no cerco de Bergen-op-Zoom, em território Holandês, os espanhóis também perdiam terreno em outros campos de batalha.

Era uma grande perda de reputação. Era uma grande preocupação ao Conde-Duque de Olivares, assim como a El Rey. Era certamente um momento crucial na guerra contra os hereges. Eles teriam que reerguer para não cair, tomar força para não serem derrotados.

As palavras seguintes do Conde-Duque traziam um peso profético.

– Esta é a hora de lançarmos a ofensiva! Tanto na Holanda quanto na Bahia! Vossa Majestade quem nos resgatará nesse momento de crise.

Ele inspirou fortemente.

– É a hora de Vossa Majestade se tornar o Grande Líder que nosso Reino tanto precisa para vencer esta guerra!

 

 

 

Parte II

 

 

 

Assalto da cavalaria com dois soldados caídos por Jan Martszen de Jonge (1626–1647)

 

A Bahia Holandesa

–Holandeses–

Capítulo 1

12 de Maio de 1624

Era uma bela manhã cujo brilho matinal espelhava as águas costeiras da Bahia de Todos os Santos. O mar ressonava o bater repetitivo nos costados das embarcações ancoradas no porto de Salvador. Eram vinte e seis galeões de guerra vindos da Holanda. Doze embarcações improvisadas conquistadas dos espanhóis. E trinta embarcações mercantes que ali foram saqueadas e apresadas.

Em uma dessas embarcações, um homem contemplava a cena através das pequenas escotilhas de seus aposentos. Era um belo quarto, com cama confortável, mesa de jantar, cadeira para sentar, até alguns livros e papéis para ler e escrever. Era na verdade um camarote com todos os confortos que um capitão poderia sonhar em alto-mar. O homem, no entanto, sabia que o conforto só abafava a triste verdade: o fato de que ele era um prisioneiro.

Era o governador espanhol Dom Diogo Mendonça Furtado, que nesta manhã percebeu algo diferente em sua prisão. O marinheiro que lhe servia diariamente não trouxe a papa costumeira e horrível. Trouxe um bom bife, com farinha e favas. Não havia só um prato na mesa, mas dois. Ele certamente receberia um visitante em seu desjejum.

– Espero que tenha dormido bem, Dom Diogo.

Um homem, vestido nobremente numa roupa avermelhada de algodão com detalhes em bordado e cetim, abriu a porta do camarote. Tinha longos cabelos encaracolados ao ombro e olhos azuis profundos.

– Eu sou o coronel Van Dorth – o homem se apresentou. – Sou o líder maior das forças holandesas e agora serei seu anfitrião, por isso espero que as acomodações estejam do seu agrado.

Dom Diogo analisou o holandês na sua frente, procurando entender porque não o vira no dia da batalha. No entanto, antes que pudesse dizer algo, o coronel primeiro tomou a palavra.

– Se incomoda de eu acompanhá-lo na refeição desta manhã?

Dom Diogo apenas assentiu com o mover de sua cabeça e quando ambos se sentaram à mesa, ele mesmo iniciou a conversa.

– Fala muito bem minha língua, melhor que o outro holandês, a quem entreguei minha rendição.

– Aprendi na minha infância, no tempo em que Portugal e Holanda eram grandes aliados, quando meu avô fez muito comércio com seus antepassados – Van Dorth colocou o bife a boca, mastigando a comida. – Quanto à sua rendição, Vossa Senhoria entregou ao major Schouten, meu subordinado, mas não se preocupe. Todas as condições que foram acertadas com ele serão cumpridas.

– À minha família também?

– Todos estão recebendo o mesmo bom tratamento que vossa mercê.

Dom Diogo respirou aliviado. Fez mais algumas perguntas sobre seus familiares, prontamente respondidas pelo coronel holandês. Só então questionou aquilo que estava em sua mente.

– E por que não o vi no dia da batalha?

– Ventos contrários me desviaram do percurso até aqui – o coronel respondeu. – Meus homens chegaram primeiro e conquistaram a cidade sem mim.

A história longa da rota marítima de Van Dorth, depois de se apartar de Piet Heyn, foi navegar ao porto de Serra Leoa. Lá, ficou por alguns dias para se abastecer de água e comida. Demorou mais do que esperado, por isso, imaginou que o Almirante e o Major não o esperariam em Cabo Verde. Decidiu partir direto para a Bahia na esperança de encontrar a armada no caminho. Nem pudera imaginar que eles o aguardaram por mais de um mês no arquipélago.

Ele chegou ao Novo Mundo um mês antes da armada holandesa. Manteve-se navegando pela costa da Bahia, sem ter notícia dos seus homens. Nem mesmo desembarcou na costa para desaguar. Antes, tomou um navio com negros, o qual vinha de Angola para tomar mantimentos, largando o navio com os negros. E assim continuou até os sons da batalha no porto de Salvador chegarem aos seus ouvidos.

– Sei bem como as águas do Oceano podem ser traiçoeiras… – Dom Diogo respondeu, claramente sem interesse em escutar a história toda.

– Não tão traiçoeiros quanto os seus soldados, pelo que ouvi – o coronel deliberadamente tentava ser desagradável, desejava evidenciar sua superioridade.

Não havia dúvidas de que a diferença na disciplina das forças de ambos os lados era absurda. Se Van Dorth não encontrou seus soldados pela fidelidade que o tinham, Dom Diogo não encontrou os seus por ter sido abandonado frente ao inimigo.

– Fomos pegos de surpresa, coronel – Dom Diogo tentou se defender. – Tenho certeza que os fugitivos de hoje, serão os combatentes de amanhã.

Eram palavras fortes vindas de Dom Diogo, mas o coronel holandês destruiu sua bravata com uma única frase.

– Se realmente acreditasse nisso, Vossa Senhoria os teria acompanhado na fuga.

O semblante do governador espanhol decaiu. As palavras eram verdadeiras demais para contra-argumentar.

– Felizmente, ninguém mais precisará lutar – Van Dorth continuou, tentando demonstrar cordialidade. – Meu desejo é transformar a cidade de Salvador num santuário para todas as nacionalidades e religiões. Quero transformar estas terras num centro de comércio aberto para todos.

O coronel holandês lançou um sorriso cordial. Então, completou:

– E quero convidá-lo a participar de tudo isso, Dom Diogo.

Terminou de falar, o holandês retirou da cintura uma espada. Colocou sobre a mesa. Era a espada do governador espanhol, que lhe fora tomada no momento da rendição.

– Quero alguém com seu conhecimento e contatos com o povo desta terra ao meu lado. Prometo-lhe uma posição de destaque no novo governo e um ordenado muito maior do que lhe foi oferecido para governar esta cidade.

A surpresa surgiu na face do governador espanhol.

– O que me diz, Dom Diogo?

As palavras do coronel fizeram o governador espanhol colocar os olhos na espada. Sentiu a vontade de tomá-la de volta. Sentia-se nu sem o peso dela na cintura. Milhões de possibilidades lhe passaram a cabeça.

No fim, teve apenas uma resposta.

– Sinto muito, coronel. Não faltarei com fidelidade ao meu Rei.

A decepção estampou a face de Van Dorth. Era um sentimento que se agravaria com as palavras seguintes.

– E coronel – o governador espanhol, cabisbaixo, retomou. – Da mesma forma que não aceito mudar de lado, o povo de Salvador também não aceitará.

Eram palavras que professavam tudo o que Van Dorth não desejava escutar.

 

***

 

No começo de julho, os navios Haen, Eendracht, Orangnien-Boom de Roterdã, Orangnien-Boom de Hoom, que tinham de seguir para a República, foram carregados de açúcar, couro e tabaco. Levaram consigo o governador da praça, Dom Diogo, seu filho Antônio, seu sargento-mor e outros prisioneiros principais. Quatro dias depois, seguiu-os o almirante Jacob Wilinkens com seu navio e mais três mercantes, que tomariam viagem para as ilhas das índias ocidentais, e depois se tornariam para a República Holandesa.

Poucos dias depois, foi a vez de Piet Heyn partir em cinco galeões e dois patachos. Seu destino era a segunda capitania mais importante do Novo Mundo, pois as Cartas de Instruções eram taxativas em dizer: Depois da conquista da Bahia, os preparativos para conquistar Pernambuco devem começar. Sua missão era conseguir informações sobre o terreno e as defesas da capitania para um futuro ataque.

Enfim, o coronel Van Dorth se dirigiu à cidade, onde foi seu primeiro cuidado chamar os soldados em ordem, sujeitá-los à disciplina militar. Observada cuidadosamente a disposição da cidade, ordenou algumas fortificações necessárias e que lhes desse o andamento que fosse. Em obediência às ordens da metrópole, o coronel ainda mandou lançar proclamações ao povo baiano, transmitindo-lhes o seguinte anúncio.

 

As senhores exilados e fugitivos da cidade de Salvador,

Uma vez que estão a obediência dos senhores dos Estados Gerais das Províncias Unidas da Holanda, se prestarem costumado juramento de fidelidade, assim a eles como à Companhia das Índias Ocidentais, poderão voltar a salvo à cidade e entrar na posse de suas casas e terras, gozando das mesmas imunidades e isenções que tinham sob o governo do Rei da Espanha e, em nome daqueles altos senhores e de sua Alteza o sereníssimo Príncipe de Orange, bem como da Companhia, prometo defendê-los e guardá-los contra toda violência da parte do verdadeiro inimigo.

Assinado, o coronel Johan Van Dorth.

 

O coronel Van Dorth era realmente um homem pacífico. Mostrava-se pesaroso do dano feito aos portugueses. Desejava paz e amizade. E assim aos que quiseram retornar à cidade entregou passaportes. As cartas aos moradores de Salvador surtiram algum real efeito. Em especial, chegou a notícia do homem mais rico da Bahia, Francisco Dias d’Ávila, detentor de terras tão largas quanto à Holanda. Ele desejava se encontrar com o coronel para formar uma aliança. Agendou-se um encontro alguns dias para frente.

O surgimento de toda uma família branca defronte aos portões era outra prova que seu plano estava funcionando.

– Desculpe-me pelas armas, senhores.

Ele recebeu a todos com um sorriso no rosto.

– É um mal necessário – continuou. – Como sabem, ainda há alguma resistência ao novo governo holandês.

– Nós entendemos, senhor – o patriarca respondeu hesitante.

Van Dorth entregou alguns papéis com escritos à mão, seguido da sua própria assinatura. Eram os passaportes holandeses.

– Ótimo, pois desejamos nada além da paz.

Para a felicidade de Van Dorth, estes não foram os únicos moradores que surgiram aos portões da cidade. Muitos outros vieram pedir os mesmos passaportes nos dias seguintes.

Sua correspondência começava a surtir efeito.

 

***

 

Nas semanas seguintes ocorreram os primeiros focos de resistência. O primeiro deles ocorreu ao quarto dia depois da tomada da cidade. Um grupo de holandeses adentrou na várzea de Tapuípe que dista pouco mais de meia légua. Lá, mataram uma vaca, mas, enquanto a esfolavam para fazer um bom churrasco, caíram sobre eles sete homens brancos e doze índios. Cinco holandeses foram mortos no primeiro momento, mais quatro em perseguição.

Melhor fez o negro chamado Bastião, que antes servia aos espanhóis na horta. Ele encontrou seis holandeses, à Fonte Nova na saída da cidade, que quiseram lhe roubar o facão na cinta e o ameaçaram de enforcamento. Quando começaram a buscar as algibeiras, o negro Bastião fincou o facão no peito de um. Matando-o, lançou a fugir pelo caminho, que vai para o rio Vermelho.

Não obstante, o coronel continuou a receber cidadãos aos portões da cidade. Era necessário considerar, de cada um, a origem, a profissão, a família, a personalidade, dentre outras características. Infelizmente, nem todos os moradores que aceitavam os passaportes possuíam essas boas características, como o major Schouten evidenciou.

– Temos um problema com o homem que chegou hoje pela manhã.

– O comerciante? – Van Dorth questionou. – O que me pediu ajuda de custo para ele e sua família?

– Sim. Ele mostrou onde era sua antiga casa, mas desde o começo soube que estava mentindo. Ele me levou à mansão que sabemos ser do ricaço Melchior Brandão. Um dos padres me confirmou isso.

Van Dorth tocou o ombro de Albert.

– Melchior não é um dos comandantes da resistência inimiga? Tenho certeza que não voltará à cidade tão cedo.

– Então, aceitará a mentira do comerciante? – o Major questionou.

– Entregue a mansão – Van Dorth manteve a ordem. – E os próximos que quiserem as casas de Lourenço Cavalcanti, de Francisco Padilha ou de algum outro comandante da resistência inimiga, pode entregar com um bom sorriso no rosto.

O major suspirou sua discordância.

– Mas, senhor, esse mentiroso receberá mais do que os nossos capitães receberam no butim da pilhagem!

– Não importa – o coronel encerrou. – Ele é um comerciante. É desse tipo de gente que preciso para erguer uma terra próspera.

 

***

 

As semanas foram passando. Alguns novos confrontos ocorreram. Em Vila Velha, doze índios confrontaram alguns soldados holandeses numa casa de palha, que pegou fogo devido os disparos dos próprios holandeses, o que lhes dobrou o perigo, porque os que fugiam do fogo não escaparam às flechas e os que ficaram morreram abrasados. Em outra situação, numas casas periféricas da cidade, distantes não mais que um tiro dos portões, um capitão espanhol, chamado Padilha, com mais dez companheiros, entraram nelas à noite e à espada mataram quatro holandeses. Depois, puseram fogo a todas, nos arrebaldes.

Apesar destes ataques, o coronel Van Dorth estava muito contente com o renascer da cidade. Sempre esperava o dia de domingo com animação. Aguardava ansioso pela missa do velho frei Vicente Palha. Não por desejar a conversão, mas porque era possível observar ali todos os dezesseis padres que Piet Heyn capturou e as centenas de pessoas que recebeu pelos portões da cidade.

O plano de aproximação com a população, usando os padres, começava a fazer efeito. O próprio ministro da missa foi ao seu encontro ao fim do sermão.

– Vejo que a reforma da igreja ficou ótima – o coronel gracejou.

Frei Vicente tinha sessenta anos de idade e chamava a atenção pela larga calvície e pela barba branca espessa, tão longa que alcançava o peito.

– E isso é só começo – o coronel continuou. – Tenho muitos homens para reconstruir essa cidade. Comecei com a parte interna da igreja. Essa semana, quero reformar a parte externa.

O frade tentou colocar um bom semblante, mas não conseguiu.

– Desculpe as minhas ressalvas, coronel, mas a situação não favorece a confiança.

– Logo hei de liberar seus passaportes para que possam andar pela cidade – Van Dorth falou com voz pacífica e acalentadora. – Quando isso acontecer, garanto que já terei convencido o senhor e os outros clérigos de que ficar conosco é a melhor opção.

A desconfiança por parte dos padres era algo que Van Dorth desejava mudar a todo o custo. Era a razão pela qual o coronel ainda os mantinham aprisionados nos camarotes dos navios. Permitiu-lhes sair apenas nos dias santos e para fazer confissões.

Antes que o frei pudesse responder, uma voz irrompeu a conversa.

– Coronel Van Dorth!

Era o major Schouten quem o convocava.

– Uma situação surgiu no Porto. Precisamos de sua presença imediatamente, senhor!

– O que pode ser tão urgente?

O Major engoliu seco. Então continuou.

– É a senhora Haringe. Ela chegou ao porto essa manhã.

A mente de Van Dorth percorreu as lembranças de antes mesmo do coronel chegar ao Novo Mundo. Antes mesmo da armada sequer deixar a Holanda, três embarcações foram enviadas para a África. Era o Golfinho, o Atum e o Porco-do-Mar. Tinham a missão de avaliar a situação do arquipélago de Cabo Verde. Percorrer aqueles mares em busca de inimigos.

O Porco-do-Mar era comandado pelo capitão Cornelius Haringe, que nunca chegou ao Novo Mundo. A sua morte, por uma enfermidade desconhecida, ocorreu na costa de Serra Leoa. O coronel soube da morte do capitão. Soube que Haringe tinha uma esposa que deveria encontrá-lo no Novo Mundo. Assim, enviou um aviso à Holanda para comunicar os Dezenove Diretores do ocorrido, para que eles avisassem à sua viúva.

– Isso não é possível – a notícia conseguiu chamar a atenção do Coronel, fez com que exclamasse: –  A senhora Haringe não deveria estar aqui!

– Ela está, senhor. E não parou de perguntar por seu marido.

Uma figura taciturna e séria tomou o semblante do coronel. Sua voz se tornou gélida como o inverno holandês.

– Alguém a avisou da morte de Cornelius?

O major balançou a cabeça negativamente. Os olhos do coronel caíram ao chão. Ficaram tão gélidos quanto sua voz.

– Deixe que eu cuide disso.

O coronel suspirou o peso de seu dever.

– Quando eu retornar do encontro com Dias D’Ávila, eu mesmo contarei a senhora Haringe sobre o falecimento de seu marido.

 

***

 

O coronel estava verdadeiramente ansioso pela possibilidade de ter Francisco Dias D’Ávila como aliado. Era o senhor da Casa da Torre, cujas terras de tão extensas bem poderiam ser consideradas uma capitania à parte. Sua história começava com a morte dos pais. Ele perdeu a mãe aos dois anos de idade e o pai aos seis. Foi criado pelo avô materno, chamado Garcia D’Ávila, o fundador da já renomada Casa da Torre.

O tamanho dos seus domínios era surpreendente. Suas terras se iniciavam dez léguas ao norte de Salvador, a partir de uma mansão construída em pedra e cal ao estilo manuelino de arcos, cuja alta torre de baluarte na lateral, de tão grande quanto quatro homens, a nomeou. Deste ponto em diante, adentrava o recôncavo baiano para o norte até as terras da capitania do Sergipe. O velho Garcia começou seu império com dois bois apenas, agora seu neto já amealhava milhares.

O encontro estava marcado para o meio-dia. O local era a pouco mais de uma légua da cidade, pelo portão do Carmo, já próximo ao Forte São Filipe.

– Estou com um mal pressentimento – disse o major Schouten com vozes de preocupação.

Ele foi logo repreendido pelo seu superior.

– Não seja pessimista, Albert – o coronel logo o admoestou. – Esse será um encontro que ficará para a história.

O coronel nem tentava esconder sua empolgação.

– Lá está o D’Ávila – a visão do futuro aliado no horizonte interrompeu a conversa.

O major mirou os olhos na direção da terra firme do continente, sobre um pequeno monte. Analisou a silhueta sobre um cavalo no horizonte ocidental. Lá estava Francisco Dias D’Ávila. Era baixinho, quase um anão. Também barrigudo e feio. Da herança indígena de seu lado paterno, herdou os olhos negros e o cabelo retinto. Ele estava acompanhado por um punhado de homens.

– Espere aqui com os soldados, major.

– Não é melhor esperar que venham até nós? – o major questionou.

O coronel balançou a cabeça negativamente. Mantinha o sorriso cheio de entusiasmo no rosto.

– Quero começar essa aliança com um gesto de confiança.

Van Dorth partiu com não mais que um mensageiro que levava consigo sua trombeta e outros soldados a cavalo. Tinha consciência da importância do momento. Adiantou-se à frente dos seus homens ao encontro do Senhor da Casa da Torre. No entanto, logo descobriu que isso foi um grande erro!

– Atacar – o grito no idioma ibérico ecoou por uma lateral.

As explosões de mosquetes inimigos vieram em seguida. Não deu tempo nem de se virar, nem conseguiu enxergar o autor dos disparos. O coronel Van Dorth sentiu sua montaria relinchar dolorosamente. Sentiu o corpo do animal desabar no chão. Não viu mais que vultos de tudo ao seu redor rodopiando através de seus olhos. Quando voltou a si, já estavam ambos, cavalo e cavaleiro, caídos no solo arenoso do descampado.

– É uma armadilha! – o major gritou.

Van Dorth tentou se levantar. Foi em vão. Sua perna estava presa ao estribo, debaixo do animal caído. Mesmo no chão, preso e imóvel, ele procurou ver o inimigo que se aproximava. Viu pouco mais de uma dezena de homens. Reconheceu o capitão Padilha entre eles com uma arma fumegante em mão.

Antes que novamente pudesse tentar se levantar, outro tipo de som ecoou na lateral oposta. Eram berros animalescos, intercalados pelas batidas das palmas da mão na boca. Era o aterrorizante grito de guerra dos indígenas canibais vindo na sua direção.

– É tarde demais! – o major praguejou.

Como uma onda marinha engolfando as areias da praia, os selvagens surgiram de esconderijos na mata. Caíram sobre o coronel caído. Ele ficou submerso no mar de indígenas selvagens que avançaram sobre seu corpo.

O coronel holandês foi surgindo aos poucos. Primeiro surgiu um braço decepado. Depois, surgiu uma perna arrancada. Em seguida, surgiram as outras partes do seu corpo.

Por fim, a cabeça decapitada de Van Dorth foi elevada ao alto como um macabro troféu.

 

Ruínas da Casa da Torre, o Palácio de Dias d’Ávila, na Bahia (domínio público)

 

O Arraial do Rio Vermelho

–Brasileiros–

Capítulo 1

12 de Julho de 1624

O capitão-mor de Pernambuco, Matias de Albuquerque, recebeu a provisão do Governo-Geral do novo continente na vagante de Diogo Mendonça Furtado. Logo, reuniu uma junta dos oficiais, militares, prelados e outras pessoas qualificadas para os procedimentos necessários. Iniciou as fortificações na vila de Olinda com muita diligência, cercando toda a praia e pondo nela soldados com seus capitães nas estâncias necessárias.

Como o Recife era o principal porto onde estavam os navios e duas fortalezas, que são as chaves de toda a Pernambuco, pediu a Coelho de Carvalho, governador do Maranhão, que há pouco chegara ali do Reino, para não seguisse sua viagem naquela ocasião, encarregando-lhe do dito porto e povo do Recife, com as três companhias de soldados que trouxera consigo.

Resolveu mandar Nunes Marinho de Sá como comandante do socorro à cidade de Salvador, com a patente de capitão-mor da Bahia para assumir as funções de guerra e administração. Era pessoa de muita confiança e experiência, que serviu a El Rey na Índia e fora dela, e que fora capitão-mor da Paraíba em cujos rebaldes vivia sua aposentadoria.

Antes de partir, no entanto, Matias foi abordado por um dos soldados da guarda pernambucana. Era André Vidal de Negreiros que há dias continuava a lhe fazer a mesma solicitação.

– Capitão-mor, por favor, me permita ir à Bahia.

Matias de Albuquerque escutou o soldado. Sentiu nele o desejo de livrar o Novo Mundo dos hereges holandeses. Ao fim, deu a indesejada resposta.

– Sinto muito, André, mas não posso lhe enviar à Bahia. As guarnições de Pernambuco ficarão em Pernambuco.

– Mas, senhor…

– Além disso, sou grande amigo do seu pai. Ele é um bom homem e está preocupado com vossa mercê. Ele me enviou um pedido para que eu não enviasse seu filho à Bahia. Disse que vossa mercê herdará o seu engenho São João e carregará o nome Vidal de Negreiros. E ele não quer arriscar isso.

– Eu quero ir, senhor – o garoto retrucou.

Era a vez do semblante do Governador-Geral esmorecer.

– Sinto muito, André – repetiu-se a recusa. – Eu também gostaria de ir. Queria levar todas as forças que tenho à minha disposição para dar um chute na bunda desses malditos hereges, mas isso também me foi contradito.

As palavras traziam um pesar verdadeiro. Matias de Albuquerque reuniu a junta dos oficiais da câmara, militares, prelados e outras pessoas qualificadas para planejar a reconquista da Bahia. Estava irredutível em sua decisão de enviar uma poderosa força de ataque. Acreditava que poderia juntar mais de mil homens. Bateu o punho na mesa. Exclamou com todas as forças de sua voz. Infelizmente, ordens superiores vieram de Sua Majestade. As ordens eram para esperar o socorro do Reino.

– É o melhor para seu futuro, André – então continuou. – Poucos nesta capitania já estiveram numa guerra com inimigos que podem nos revidar em igual poder de fogo. Nessa conta só eu estou incluso, nas guerras da África, e o capitão Nunes Marinho, nas guerras da Índia. Nem Pedro tem experiência com um inimigo diferente dos índios selvagens e dos piratas oportunistas.

A mão do Governador-Geral tomou o ombro de André Vidal.

– Espero que entenda que estou fazendo o melhor para ti.

Como esperado, o soldado rompeu pela porta de saída com o inconformismo em sua face.

 

***

 

Nos quatro meses seguintes à conquista da Bahia, o novo Governador-Geral, Matias de Albuquerque, manteve em Pernambuco uma guarnição das três companhias inicialmente destinadas ao Maranhão, outras três de Olinda e mais alguns homens convocados. Eram pouco mais de quinhentos soldados para defender sua capitania.

Em seguida, preparou o socorro à Bahia. Deu a Nunes Marinho dois caravelões, levando consigo as companhias de Antônio Moraes em um e no outro de Antônio Carneiro Falcato. Cada embarcação com trinta soldados, pólvora, munições, vitualhas de vinho, azeite e farinha.

– Gostaria de poder enviar mais recursos, Nunes – o novo Governador-Geral lhe tocou o ombro na despedida.

– Tão importante quanto reconquistar a Bahia, é manter Pernambuco, Dom Matias – Nunes Marinho o relembrou das responsabilidades. – Mantenha esta capitania livre da praga herege que tentarei fazer o mesmo com a outra.

Em seguida, Matias de Albuquerque caminhou na direção dos outros dois capitães que acompanhariam o novo capitão-mor da Bahia nessa missão. Primeiro, deu suas últimas orientações a Antônio Carreiro Falcato sobre como proceder na guerra. Depois, foi a vez de agradecer ao bravo Antônio Moraes por levar soldados à sua custa.

No entanto, a surpresa o acometeu quando reconheceu um dos soldados convocados por esse homem. Era alguém que certamente não deveria estar ali.

– André Vidal?

– Senhor.

– O que está fazendo aqui? – Matias questionou. – Não lhe disse que os soldados das companhias pernambucanas não poderiam ir à Bahia?

– Entreguei minha resignação do exército pernambucano ao capitão Pedro de Albuquerque. E me alistei nas forças de Antônio Moraes.

Nesse momento, o Governador-Geral abriu um sorriso. Lembrou que, há pouco menos de uma década, quando decidiu se alistar nos exércitos de El Rey, para enfrentar mouros na África, encontrou grande resistência por parte de familiares e amigos. Ninguém foi capaz de demovê-lo da ideia.

Matias decidiu embarcar na vida militar pelo desejo de servir à Sua Majestade, de honrar seus antepassados e de viver as experiências de uma vida de perigos. Assim, enxergava em André Vidal uma imagem refletida de si mesmo dez anos mais jovem.

– Bem jogado, André – o sorriso de alargou. – Espero que encontre o que tanto deseja na Bahia de Todos os Santos.

 

***

 

As duas embarcações sob o comando de Nunes Marinho de Sá partiram nos últimos dias de setembro deste ano de 1624. Não foi uma viagem tranquila. No mar, tiveram uma grande tormenta, que os obrigou a entrar no rio de Sergipe Del-Rei com vergas e mastros quebrados, de onde, depois que os refizeram, seguiram viagem. O percurso durou mais alguns dias pelos mares costeiros da Bahia onde cobriram as últimas quarenta léguas das cento e vinte léguas totais que separavam a vila de Olinda da Casa da Torre.

Numa bela manhã de fúlgidos raios solares clareando o céu azul límpido, com bons ventos carregando os dois caravelões através dos mares baianos, André Vidal enxergou algo no horizonte. Bem ali rompendo a copa das densas matas, uma estrutura branca emergia. Era uma plataforma de tijolos, de onde um sinal de fumaça ascendia até as nuvens e uma bandeira ibérica flamulava aos braços de um sentinela.

Dois negros deixaram o edifício. Correram para a praia. Balançaram os braços. Davam sinais para desembarcar, clamando aos navios para ancorarem e colocarem seus homens em terra.

André Vidal logo soube quem eram aqueles homens. Eram os homens da Casa da Torre enviados pelo senhor D’Ávila para dar aviso aos navios sobre a conquista de Salvador. Tentavam evitar que os navios desavisados viessem a ancorar no porto da cidade conquistada. Afinal, muitos foram navios que vieram a cair na mão do inimigo nesse desengano.

Algumas horas depois, tendo jogado as âncoras ao mar, o jovem soldado desembarcou junto com seus líderes na Bahia de Todos os Santos.

 

***

 

A Casa da Torre era de uma cor tão alva que contrastava a paisagem verdejante ao redor. Era larga e comprida, maior do que o quarteirão de uma cidade. Era grande o bastante para caber mais de dez cômodos e imensos salões, também toda uma capela e aposentos para um grande número de criados. Era marcada pela arquitetura manuelista barroca de arcos e escadas contrapostas nas entradas principais. Era realmente uma maravilha, uma joia escondida no Novo Mundo, que ficou conhecida não apenas como Casa da Torre mas também de Castelo dos D’Ávila em homenagem ao seu fundador e seus sucessores.

Matias de Albuquerque se tornou o décimo-sétimo Governador-Geral, mas a história da Casa da Torre começou com o primeiro deles, também fundador da cidade de Salvador, chamado Tomé de Souza. Era uma história que ocorrera sete décadas antes, com o Protegido deste primeiro Governador-Geral, chamado Garcia D’Ávila, cujos rumores diziam ser seu filho bastardo. Este homem tomou a decisão de ficar no continente recém-descoberto, se apartando de Tomé de Souza que retornou ao Reino. Ele quem colocou a primeira pedra do castelo que hoje está nas mãos de seu neto.

Na manhã seguinte, o senhor da Casa da Torre, detentor de um grande haras, entregou alguns cavalos aos visitantes para que pudessem realizar o percurso de catorze léguas até o Bispo. Todo o percurso formava a mais formosa enseada. Tinha mais esteiros que se conhece desembocar no Oceano, porque a natureza retalhou a capitania com rios por suas vinte e cinco léguas de roda. A terra que nela batia era de excelente frescor de águas, arvoredos, canas de açúcar e engenhos de muito apreço.

Por estas terras se recolheu a gente da cidade de Salvador, ficando alguns moradores com os holandeses por seguirem a fortuna dos vencedores. O líder holandês, o coronel Van Dorth, propalava mentiras de amizade e de um futuro melhor. Felizmente, foi morto pelas forças baianas, o que fez com que muitos dos que receberam os passaportes holandeses voltassem ao caminho certo. E, com as vitórias que se seguiram, o Bispo assentou seu arraial, a meia légua do inimigo, no chão de um monte que tinha acesso por três caminhos, os quais mandaram fazer três trincheiras.

– Sejam bem vindos ao Arraial do Rio Vermelho.

O anúncio foi dado pelo secretário do Bispo, o rapazote de dezesseis anos e noviço jesuíta, chamado Antônio Vieira.

Os pernambucanos atravessaram uma das entradas entrincheiradas chamada de Paraguaçu, sob o comando do capitão Melchior Brandão, um rico comerciante que tomou armas para defender sua terra dos holandeses. Apesar da idade avançada e barriga proeminente, este homem fazia uma perigosa figura no comando de sua gente de guerra. As outras entradas estavam sob o comando de Pero Coelho, na trincheira chamada Tapuípe, e de Diogo Moniz Teles, na trincheira chamada do Sertão.

Cada trincheira tinha seu corpo da guarda, que se fazia junto à tenda e à casa de palhoça do seu capitão, assentando assim todos os soldados do presídio. Ao todo, eram duzentos homens só para a defesa do Arraial.

Os homens de Melchior abriram espaço. A passagem dos líderes pernambucanos fez o noviço Antônio Vieira explicar a povoação-fortaleza.

– O lugar foi erguido pelo Bispo Dom Marcos, que fez de tudo para conservar as fazendas e apertar os inimigos. Fez de uns, freio para não o seguirem; de outros, espora, para os perseguirem. Gastava ainda o pouco que tinha em premiar os esforçados. Juntou aqui a gente de guerra, clérigos religiosos e os oficiais de justiça que pôde.

André Vidal observou o povoado com centenas de casebres, construídos de folhas de palmeiras e troncos retirados da mata.

O noviço continuou a explicar o local. Disse que foram recrutados da população um total de 27 companhias, cada uma com 25 a 40 soldados, às quais aplicavam nos assaltos mais seiscentos homens determinados a apagarem com sangue a nódoa das injúrias cometidas contra o povo baiano. Assentou o capitão Padilha para atacar o portão de São Bento; Manoel Gonçalves para atacar o Portão do Carmo; e outros seis capitães em diversos lugares para frear o avanço dos invasores, com constantes assaltos. Nomeadamente, eram: Lourenço de Brito, Lourenço Cavalcanti de Albuquerque, Francisco de Barbuda, Belchior da Fonseca, Melchior Brandão, e Diogo da Silva.

Enfim, o noviço anunciou a chegada numa casa igualmente feita de palha de palmeiras, pouco maior que as demais. Era o atual centro político da Bahia.

– Chegamos à Igreja Central – disse o rapaz.

As explicações continuaram

– Aqui se administram os sacramentos e a justiça. Aqui se curam enfermos. Aqui se guarda e distribui todo o mantimento dos soldados. E é aqui que se encontra o Bispo Dom Marco Teixeira.

Mal terminou de falar, o noviço se deteve à porta. Esperou Nunes Marinho de Sá e os capitães Carreiro Falcato e Antônio Moraes entrarem.

No entanto, André Vidal que vinha logo atrás foi impedido de continuar.

– Calma aí, garoto.

Um dos quardas do templo tocou o ombro de André Vidal. Externou as limitações à sua pessoa. Explicou em seguida

– A igreja só é permitida para gente importante.

 

***

 

André Vidal de Negreiros aguardou do lado de fora da igreja. Enquanto isso, todos os soldados do socorro pernambucano buscavam suas acomodações na cidade improvisada. Era prudente que o soldado buscasse o seu, mas este preferiu ficar ali, esperando a vinda do capitão Antônio Moraes para saber qual seria o seu papel na guerra.

Antes, no entanto, outra pessoa surgiu à entrada da igreja demandando aos soldados entrar no local. Era uma voz feminina.

– Preciso falar com o Bispo.

O soldado André reconheceu a voz de imediato e ao se virar percebeu os olhos verdes de uma bela donzela com não mais que quinze anos de idade.

Era a jovem Ana Paes.

– Posso saber o que a senhorita quer falar com o Bispo? – o guarda perguntou.

– Venho da cidade de Salvador – Ana Paes respondeu. – Passei as últimas semanas entre os holandeses e preciso reportar ao Bispo o que descobri.

A resposta da jovem moça surpreendeu o rapaz recém-chegado. Da cidade? Entre os holandeses?, André se questionou no desejo de entender a situação. Depois, ele tomaria conhecimento que o Bispo solicitara a algumas pessoas para aceitarem os passaportes holandeses e entrarem na cidade para contar tudo o que descobrissem. A jovem Ana Paes foi uma das primeiras voluntárias. Era uma inteligente artimanha, pois era de grande ajuda para saber as saídas dos inimigos visto que, com o passaporte holandês, entravam e saiam livremente da cidade.

No entanto, após a morte do coronel Van Dorth a coisa não ficou tão simples. Em especial, houve a história de dois portugueses que fizeram tal missão, sendo um deles bem exercitado na língua holandesa. Os inimigos encontraram cartas do Bispo entre seus pertences. Mataram ambos na cidade. Depois, os penduraram no portão de São Bento numa picota, por cadeias de ferro. Em cima, estava a sentença escrita em pergaminho, a qual dizia: Condenamos à morte a Manoel Gonçalo de Almeida e Francisco Figueiredo por serem traidores da República Holandesa por entrarem e saírem da cidade com seus passaportes a tratar negócios dos portugueses.

– Infelizmente chegou tarde, Ana – o guarda continuou. – A partir de hoje, o Bispo não mais governará a Bahia. Ele está conversando agora com Nunes Marinho de Sá, seu substituto, que veio no socorro de Pernambuco.

Ana manteve o silêncio por um instante. Só então respondeu.

– Então o avise que tenho importantes informações.

O guarda assentiu.

A bela moça começou a se afastar, caminhando para sua própria casa no Arraial. Não deu mais que alguns passos, foi abordada por André Vidal.

– Espere – o rapaz tocou a moça no ombro. – Lembro-me da senhorita na vila de Olinda.

O seu olhar se elevou, atingindo as pupilas esmeraldas de Ana Paes. Abriu seu sorriso mais galanteador.

– Nunca poderia me esquecer de um sorriso tão bonito!

Agir assim, frente a uma bela mulher, era um impulso natural para André Vidal, quase incontrolável. Instintivamente, se curvou frente a ela. Segurou sua mão. Beijou-a em seguida. Os olhos sedutores de André, que fizeram dezenas de outras mulheres se apaixonarem, buscaram causar o mesmo impacto na senhorita Ana Paes.

A resposta não poderia ter vindo da forma mais negativa.

– Infelizmente, já não tenho mais motivo para sorrir – ela falou, deixando-o para trás.

 

  

 

A Contra-Ofensiva Espanhola

–Ibéricos–

Capítulo 1

21 de Julho de 1624

Era o início de mais uma bela noite de festa nos salões do palácio real de El Alcázar. Nunca antes se viu tanta gente reunida, festejando, bebendo e comendo em seus luxuosos e ricamente decorados átrios. A presença de tanta gente tinha uma razão especial. Nesta noite, os nobres da corte não foram apenas convidados para se deliciarem nas festividades. Eles foram convocados para um importante anúncio. Era uma conclamação que mudaria para sempre o rumo de seu reinado.

El Rey Filipe da Espanha, agora com dezenove anos de idade, sentado em seu trono, recebeu a todos. Como era praxe, ao entrar no palácio, todos se ajoelharam perante ele. Entregaram presentes de cortesia. Proferiram frases de bajulação. Misturaram-se à jubilosa celebração. O anúncio veio tarde da noite. As cornetas fizeram uma sonora marcação. El Rey se levantou. Caminhou alguns passos à frente de seu trono. Ficou frente aos convidados.

– Meus amados súditos e vassalos!

O suspense permeou o salão. Todos perceberam algo diferente na voz de Sua Majestade. Estava mais firme. Trazia uma impostação que poucos haviam visto no tímido rapaz que comandava o maior reino da Europa.

– Eu anuncio a dissolução do Triunvirato – ele declamou.

Os rumores entre os nobres, discutindo esta decisão, começaram a acrescer pelo salão. Todos olharam para os três braços direitos de El Rey, que agora perdiam suas funções. Fernando de Girón, Dom Augustín Mexia e o Marquês de Montesclaros estavam calados e impassíveis em suas mesas. O olhar estoico na direção de Sua Majestade revelava que já sabiam da decisão.

Antes que os três pudessem ser abordados, El Rey continuou.

– O Reino está num momento crítico. Estamos cercados de inimigos. Nossas forças estão sofrendo baixas de todos os lados. O fim da Trégua com a Holanda. A iminência da guerra com a Inglaterra. Os ataques impertinentes da França aos nossos territórios italianos. E, como todos já devem estar sabendo, também houve a perda da cidade de Salvador, no Novo Mundo.

O rei suspirou.

– É um momento difícil. Por isso, anuncio o fim do Triunvirato para me colocar pessoalmente a frente da situação, havendo por bem de diretamente resolvê-la.

Ele deu mais um passo a frente.

– Resolvo que, na Armada do Mar Oceano, se junte a maior força que for possível, ficando só para a guarda da costa, dez ou doze navios. Os demais devem ir a Salvador levando para essa empresa mais de três mil soldados. Não tenho dúvidas que meus vassalos, em obrigação, amor e valor, acudirão nesta ocasião a me servir e volver para si mesmos com veracidade, para que haja maior trabalho em empreendê-la, animando aqueles que não vão, para que o façam, pois é certo que os estimo muito.

O olhar de El Rey percorreu o salão. Fitou cada um dos nobres ali presentes. Concluiu com palavras que exaltaram os ânimos presentes.

– Em verdade, eu os amo tanto, que me regozija que eu vá, em pessoa, nesta jornada para mostrar-lhes o quanto desejo essa vitória. Não apenas para a conservação dessa coroa, mas também para aumentá-la e engrandecê-la como os meus vassalos merecem!

Os gritos de exclamação ecoaram pelo salão. Os nobres presentes nem conseguiam acreditar no fervor de Sua Majestade. Era surpreendente participar de tamanha empresa. Era inspirador que ele próprio fosse ao Novo Mundo lutar contra os holandeses

Por fim, completou.

– E assim saberei quem são meus mais verdadeiros e fieis vassalos, pois os terei ao meu lado nesta jornada!

Todos estavam estupefatos com a bravura do jovem monarca. Todas as características de um grande líder eram emanadas por sua voz. Não demorou aos nobres presentes externarem ruidosamente suas próprias exaltações. O primeiro deles gritou, confirmando sua presença na armada.

– Eu sou um verdadeiro vassalo de El Rey!

O segundo fez o mesmo brado. O terceiro também. O quarto. O quinto. O décimo. E assim por diante.

Eu sou vassalo de El Rey! Essa frase se repetiu dezenas de vezes entre a multidão de presentes cada vez mais exortados pelo sentimento de fidelidade e de amor à Sua Majestade. O Conde-Duque de Olivares percebeu, nesse momento, que haveria muito mais do que três mil infantes na expedição. Deus! Faltarão navios para tanta gente! Ele exclamou em pensamento.

Seu sorriso ficou impossível de conter. Principalmente, quando todos os nobres numa única voz, brindaram alegremente.

– À Jornada dos Vassalos!

 

***

 

O cativante discurso de El Rey fez todos se exasperavam nos relatos de seus próprios feitos heroicos prévios e em quão importante seriam na nova expedição. Quase como um leilão, os mais ricos do Reino disputavam somas de ouro e número de soldados que entregariam para a já lendária Jornada dos Vassalos. Quanto mais bebiam e comemoravam, mais essas somas se avultavam e mais acrescia a importância que davam a si mesmos. Este seria o melhor comandante. Aquele levaria mais soldados. Um doaria mais ouro. Outro forneceria mais navios. Todos desejavam participar. Todos desejavam se destacar perante Sua Majestade.

A Rainha Isabel se mantinha tão afastada de toda a exaltação. A mágoa ainda a acometia. Sua única alegria era não ter mais a obrigação de esperar o esposo nos seus apensentos nessa noite. Após meses do martírio para cumprir o dever matrimonial, enfim estava grávida novamente. A barriga de quatro para cinco meses começava a se tornar evidente sob seu vestido.

Ao fim do discurso de El Rey, a Rainha deixou seu trono. Buscou a saída do festejado salão. Tinha a gravidez como desculpa. No entanto, antes de chegar a porta de saída, foi abordada por um dos convidados.

– Já vai tão cedo, Majestade?

O homem estava em meados de seus cinquenta anos de idade. Transparecia um rosto sereno e austero. Tinha cabelos escuros curtos e vestia uma fina roupa negra de couro sobre o corpo esguio.

– Deixe-me pelo menos parabenizá-la pelo herdeiro que carrega no ventre – ele se ajoelhou para beijar a mão da Rainha.

– Obrigado, mas realmente preciso ir – a Rainha desejou encerrar a conversa o quanto antes. – Não posso expor o bebê a esse tipo de agitação. Mas agradeço a atenção, senhor… senhor…

As reticências foram percebidas pelo esguio nobre. Ela devia conhecê-lo, afinal, como anfitriã da festa, recebeu todos os convidados à entrada.

O nobre de vestimentas negras logo a lembrou.

– Dom Teodósio, Duque de Bragança.

– Sim. Dom Teodósio – o nome lançou fagulhas de lembrança na mente da Rainha. – Vossa Ecelência era amigo de Dom Juan de Tassis, Conde de Villamediana, não? Ouvi Dom Juan falar seu nome algumas vezes.

O nobre português assentiu com o amainar da cabeça.

– Sim. Dom Juan tinha raízes portuguesas e nós nunca deixamos de nos corresponder durante todos esses anos.

Apesar do alegre semblante inicial, o visitante esmoreceu.

– É uma pena que não esteja mais entre nós.

– É uma pena sim – a Rainha desabafou, suspirou mais lúgubre do que se deixava permitir.

– Dom Juan falava com grande estima de Vossa Majestade – o nobre continuou. – Pelo menos, podemos nos confortar sabendo que seu assassino foi julgado e preso.

As palavras de Dom Teodósio, no entanto, não a trouxeram qualquer conforto à Rainha. Ela acabou externando mais sua tristeza, desabafando mais do que deveria.

– Ah, Dom Teodósio… – ela manteve um olhar desolado ao chão. – Gostaria que o verdadeiro assassino de Dom Juan realmente estivesse preso. Gostaria que ele não fosse o homem mais alegre neste salão!

O rosto do Duque português medrou incertezas.

– O que quis dizer com isso, Majestade?

Sem perceber, os olhos dela acabaram fitando o Conde-Duque de Olivares.

– Não é nada, Dom Teodósio – Isabel já externava involuntários sentimentos de raiva. –  Apenas pensamentos altos, nada mais. Agora se me dá licença, realmente preciso ir.

E assim a Rainha partiu, acendendo uma centelha no nobre português.

 

***

 

O Conde-Duque de Olivares era sim o homem mais alegre nos salões de El Alcázar. Todo seu plano na busca por uma União de Armas entre todos os nobres do Reino estava funcionando às mil maravilhas. Nunca antes se viu tamanho desejo a uma causa comum na busca pela glória e reputação da monarquia. Tudo graças ao garoto de dezenove anos que Olivares tanto acreditou e apostou em sua preparação.

– Parabéns, Majestade.

O Conde-Duque disse ao encontrar El Rey nos fundos do salão. Era ali que o jovem rei se reteve, longe do olhar dos festivos nobres. Escondeu-se após palavras tão exaltadas. Suas mãos tremiam como vara verde e o rosto empalidecia como que perdendo todo o sangue.

– O meu discurso foi satisfatório, Olivares?

A verdade é que toda a confiança e altivez no discurso de El Rey foram jorjadas por semanas de treinamento. O Conde-Duque escolheu cuidadosamente cada palavra e determinou cada nuance nos timbres vocais, para esconder o medo e a insegurança do rapaz.

– Satisfatório? – o Conde-Duque sorriu orgulhoso, depois apontou na direção do salão. – Ouça seus súditos regozijarem e celebrarem o amor ao seu Rei! Ah, Majestade, devo dizer que, nem em minhas mais altas expectativas, esperava tamanha magnâmia em suas palavras!

– Obrigado, Olivares. Não teria conseguido sem Vossa Excelência.

El Rey Filipe fitou o vazio.  Precisava assimilar as palavras do Conde-Duque. Então se levantou, observando todos os nobres no salão. para se deixar enxergar além de suas inseguranças e percepções pessimistas. O Conde-Duque estava certo, sua atuação foi perfeita.

– Só gostaria que Maria de Chirel estivesse aqui para ouvir o meu discurso – ele continuou.

O lamento fez o semblante do Conde-Duque se desapontar. Odiou o fato de El Rey estar pensando em assuntos tão banais neste momento tão importante.

– Devo aconselhar, Majestade, que esqueça Maria de Chirel. Ela não poderá mais voltar à capital. E, verdade seja dita, ela não era nem a mais charmosa, nem a mais inteligente, muito menos a mais bonita do séquito da Rainha.

– Maria sempre estava lá para me agradar. Eu nem precisava pedir, já estava fazendo tudo por mim. Às vezes, fico me perguntando se era amor?

O Conde-Duque ficou ainda mais consternado. Tocou o braço de El-Rey e estendeu a outra mão na direção das Damas de Companhia.

Então perguntou.

– Olhe todas as damas e senhoritas de sua corte! Qualquer uma delas terá sorte em conseguir o interesse de Vossa Majestade.

– Acredito que elas prefiram tipos como Dom Juan, mais belos e galanteadores. E não cabeçudos tímidos como eu.

– Escolha uma das Damas, Majestade, e a corteje! – O Conde-Duque abriu um sorisso encorajador. – Apenas diga qual das mulheres de toda a corte o senhor considera a mais bela. Por qual sente mais atração?

– Prefiro não falar.

– Apenas um nome, Majestade.

El Rey, acanhado como sempre, olhou todo o salão.

– Não sei. A senhorita Beatriz, talvez… – proferiu em voz hesitante, lançando o olhar para uma jovem mulher de olhos azuis radiantes, feições delicadas na alva tez e longos cabelos loiros cintilantes.

O Conde-Duque se aproximou do ouvido de El Rey.

– Pois vá até ela – sussurrou. – Corteje-a. Seduza-a. Aposto um dos meus braços que nem precisará de frases bonitas ou poesias românticas. Ela desejará deitar-se na cama de Vossa Majestade antes mesmo que diga uma só palavra. Confie em mim, Majestade.

– E se ela disser não?

– Pelo menos tente, meu senhor.

Os pensamentos introspectivos de El Rey voltaram para si mesmo. Chegou a colocar um passo hesitante à frente, mas foi tomado pelo medo. Era o medo da rejeição, medo de se envergonhar. Era o medo adolescente. Afinal, a senhorita Beatriz era bonita demais.

– Eu sinto muito, Olivares. Eu não consigo! – desabafou raivosamente, mais para si mesmo que ao Conde-duque.

Afastou-se do ministro por vergonha, sentindo-se humilhado.

 

***

 

Horas depois, ainda se sentindo diminuído pela situação em que o Conde-Duque o colocara, o jovem monarca atravessou os corredores de El Alcázar, sozinho. Desejava esquecer as palavras do seu obeso servo, cujos ensinamentos nunca se mostraram falhos, cuja vontade nunca foi outra senão o seu melhor. Idiota! Por que não foi até a senhorita Beatriz? Do que tem tanto medo?, o jovem rei se crucificava em mente. Desejava ser uma pessoa diferente.

Enfim, chegou aos aposentos reais, desejava dormir de imediato. No entanto, o abrir da porta mostrou algo surpreendente em seu interior.

– Soube que desejava me ver, Majestade.

A voz era da senhorita Beatriz, sentada na cama de Sua Majestade, o aguardando.

– Soube que desejava me ver em seus aposentos a sós. – ela continuou.

A mais formosa Dama da corte se levantou. Caminhou na direção do jovem monarca, sem dizer nada mais, já desamarrando os cordões de seu vestido e revelando seu corpo magnífico.

– É verdade que me deseja, meu senhor?

Ela sussurrou ao ouvido de Filipe quando próxima o bastante enquanto seu braço fechava a porta do quarto. Seus seios tocaram o corpo de Filipe. Os sedutores lábios se afastaram do ouvido para se aproximar de sua boca.

A pergunta se repetiu noutro devasso sussurro.

– É verdade, meu senhor?

– Sim – El Rey mal conseguiu responder de tão extasiado.

Os sedutores lábios de Beatriz então se afastaram de sua boca. Desceram ao longo do corpo, ao pescoço, passando pelo tórax e abdômen, até enfim chegar à virilha, cujo órgão ali, entre as pernas mal cabia em suas calças. Ela as desabotoou. Colocou para fora o enrijecido conteúdo. Os sedutores lábios começaram a lhe proporcionar incríveis sensações de prazer. Não demorou para ficar impossível de segurar o desejo. A explosão de êxtase atingiu a face da mulher.

A presença da mulher, ali, em seu quarto, tão disposta a tudo para lhe agradar, era um belo presente. Na verdade, era uma importante lição para que que Sua Majestade sempre soubesse:

Nada estava fora do alcance de seu poder.

 

Mapa de Salvador do Livro que Dá Razão ao Brasil por João Teixeira Albernaz, o velho (1609)

 

Um Novo Mundo de Infortúnios

–Holandeses–

Capítulo 2

 

24 de Julho de 1624

A senhora Haringe observava o escurecer do dia e o surgimento da lua crescente sobre os mares baianos. Era jovem, com pouco mais de vinte anos de idade. A pele era alva como leite. Os olhos, azuis como o céu. Os cabelos, loiros como o ouro. Apesar do cenho cansado pelos meses de viagem e a solidão de sua situação, ainda irradiava uma beleza inocente e simplória.

Ela estava no salão principal da casa do governador há horas. Esperava ansiosa a chegada do coronel Van Dorth com notícias de seu esposo, que partira da Holanda meses antes dela. Ambos deveriam se encontrar na cidade conquistada de Salvador, mas até o atual momento nenhuma notícia chegara aos seus ouvidos. Onde estaria ele? Ela se perguntava. Teria acontecido alguma coisa? Sua mente se desesperava com a possibilidade.

A lua já estava alta o bastante para espelhar uma mancha tremeluzente nas águas da baía que alcançava a Ilha de Itaparica no horizonte. A espera era insuportável. A mulher já caminhara muitas milhas em círculos pelos móveis do salão. As unhas roídas já estavam em carne viva quando enfim alguém abriu a porta. Ela se voltou desesperadamente para o homem que adentrou o aposento.

Não era o coronel Van Dorth que ela tanto esperava. Era o major Albert Schouten, o mesmo homem que a recebera pela manhã no porto da cidade.

– Onde está Van Dorth?

A voz carregava preocupação. Alcançou sentimentos raivosos consternada quando retomou seus questionamentos.

– O senhor disse que ele viria ao meu encontro depois do almoço. Já passou a hora do jantar! E onde ele está?

O major Schouten nada falou. Caminhou à poltrona no centro do salão. Desabou bruscamente em seu acolchoado. As sombras da noite tomaram conta do seu rosto. Delineavam-se nas suas fortes feições ósseas. O semblante lúgubre era sufocante. Sua voz foi proferida em tom tão doloroso quanto suas lembranças recentes.

– O coronel Van Dorth está morto.

Os olhos da senhora Haringe se abriram largamente. Durante a hesitação silenciosa que estas palavras lhe causaram, o major continuou.

– Foi morto numa emboscada do inimigo hoje ao meio-dia. Foi morto diante dos meus olhos e eu não pude fazer nada. Por muito pouco, não conseguimos resgatar seu corpo. Faremos o sepultamento amanhã.

A senhora Haringe colocou a mão sobre os lábios para esconder o queixo caído com a surpresa.

– Eu sinto muito – ela falou.

O major Schouten estava tão amortizado pelo ocorrido que nem mediu as palavras quando retomou.

– Não se lamente, pois a senhora não terá lágrimas para chorar pelo coronel – o olhar caído do major nem mirou os olhos da mulher à sua frente. – Tenho a infelicidade de informar que seu marido também está morto.

– Morto? – o desespero acresceu.

– O capitão Cornelius Haringe morreu na costa da África, antes mesmo de chegar em Salvador, por motivo de alguma enfermidade desconhecida.

– Não pode ser verdade…

– Era obrigação do coronel Van Dorth informá-la do ocorrido, por isso nada contei hoje pela manhã. Mas, com o infeliz infortúnio desta manhã, assumi suas funções. Tornou-se agora o meu dever informá-la.

A senhora Haringe nem mais escutava as palavras do major. Era sua vez de desabar o corpo no acolchoado da poltrona mais próxima com a face tomada pelos prantos.

Não obstante, Albert Schouten continuou.

– O finado coronel Van Dorth me assegurou que enviou uma carta à Holanda para avisar do triste destino do seu esposo. Não sei o que ocorreu para ela não ter chegado às suas mãos, mas asseguro que tomarei as providências do seu retorno.

Neste momento, a senhora Haringe fungou o nariz choroso. Limpou-os das lágrimas. Os olhos úmidos se moveram timidamente. Fitaram o comandante. Mesmo em seu estado, algumas palavras conseguiram chegar aos ouvidos da moça.

– Eu não posso voltar para a Holanda – por fim, ela falou.

O major manteve o silêncio. Estava confuso com a negativa.

– Quando embarquei eu não sabia, mas…

O choro lhe roubou a voz. Ela engoliu seco. O Major sabia que nada de bom poderia vir de tal reação, mas a revelação foi ainda mais inesperada.

– Eu estou grávida, senhor Schouten.

Era realmente impossível o retorno da moça. Outros três a quatro meses de viagem desde Salvador a Amsterdã através dos oceanos, numa desconfortável caravela, era algo impensável para uma mulher grávida.

– Entendo – o homem expressou sua comiseração.

Seus pensamentos introspectivos se transformaram em mais silêncio. Demorou para emitir uma resposta.

– A casa do governador me pertence agora, senhora Haringe – enfim retomou. – Minhas coisas serão trazidas até aqui. É uma casa muito grande para que eu fique sozinho, apenas com meus criados. Pode ficar aqui se quiser, onde receberá todos os cuidados necessários. Caso não deseje isso, posso providenciar um local mais privativo.

A lembrança súbita do finado marido causou outro arroubo silencioso de lágrimas.

– Ficar numa casa sozinha agora é a última coisa que eu preciso – ela então desabafou.

– Não se preocupe – Major tomou sua decisão. – Meus criados trarão suas coisas para cá.

 

***

 

Um novo dia surgiu nos horizontes costeiros da cidade baiana. Os raios solares tocaram a superfície dos edifícios. Iluminaram as faces dos transeuntes. No entanto, por mais que fosse radiante, eram incapazes de retirar os sentimentos sombrios que acometiam a todos. Era impossível iluminar as trevas de suas almas. O major Schouten era o mais pesaroso. As lembranças de como os selvagens indígenas ofenderam o corpo do coronel Van Dorth horrorosamente o acometia frequentemente.

Os capitães levaram seu caixão nos ombros com os tambores tocando destemperados. Tudo ia coberto de dó, e atrás vinham as companhias de soldados. Os mosqueteiros marchavam com os mosquetes debaixo do braço e as forquilhas arrastando, até a entrada na igreja. As armas do coronel foram então penduradas num dos pilares do templo. E, no momento do enterro, dispararam três surriadas, não se metendo, entre uma e outra, mais espaço que o tempo de recarrega.

Grande perda era a deste valoroso e experimentado chefe, particularmente pelo grande respeito à autoridade de sua pessoa, e isto numa conjuntura em que era muito necessário o seu bom juízo e domínio.

As pás começaram a se mover. As areias do Novo Mundo cobriram o caixão do coronel Van Dorth.

 

***

 

Ao fim da cerimônia, todos os capitães se encontraram na Casa do Governador. Os papéis das cartas de instruções foram lidos em voz alta, até enfim uma pergunta ressonar no silêncio do salão.

– Todos reconhecem o oficial Albert Schouten como novo coronel e governador?

Todos os capitães assentiram.

– Todos o obedecerão em tudo que lhes for mandado?

Todos assentiram outra vez.

– Ótimo. Então damos por encerrada a reunião!

Os capitães estavam tão fadigado e sem energia, que desejavam mais do que tudo sair dali. As últimas vinte quatro horas foram extenuantes. No entanto, antes que todos tomassem os caminhos para suas casas, o capitão Kijf proferiu a importante pergunta que todos desejavam que ficasse para depois.

– Quais serão suas primeiras ordens, coronel?

Os olhares se voltaram para Albert Schouten.

A resposta veio de imediato.

– Não podemos dar esperança a esses malditos espanhóis de recuperar a cidade. Vamos cercá-la e fortificá-la. Represaremos o ribeiro que corre por trás da cidade, pela banda da terra, para formarmos um fosso ao longo das muralhas. Lá faremos baluartes e fortes de artilharia assim como os que temos pela banda do mar. Colocaremos nossas forças em vigília total.

A tristeza do novo coronel se transformou em rancor, cada vez mais intenso, a cada nova palavra .

– Não mais aceitaremos desconhecidos na cidade! E pouco me importa se os moradores que estão aqui quiserem sair!

A voz atingiu o limite da fúria na sua conclusão.

– O tempo de paz acabou!

 

***

 

Todos os capitães deixaram a Casa do Governador. O capitão Kijf foi o primeiro, seguido de Ysenach, Basselvet e Dirk. Apenas o último capitão não realizou essa ação, pois a mão do novo coronel tocou o ombro de Willem Schouten. Este, que mantinha seu caminhar cambaleante em razão do álcool, interrompeu o passo. Olhou para o novo comandante.

O coronel esperou todos os outros capitães deixarem o aposento. Esperou ficar sozinho com seu problemático irmão.

Só então falou.

– Quero que seja meu segundo em comando, Willem.

As palavras atingiram o capitão de surpresa.

– Amanhã, elevarei a sua patente – o novo coronel continuou. – Será o novo Major das foças holandesas no Novo Mundo. Quero que esteja ao meu lado neste momento difícil.

– Eu não entendo.

As palavras deixaram a boca de Willem junto com um bafo de álcool insuportável, que empestou o ambiente.

– Por que faria isso por mim? – ele continuou  questionar.

O novo coronel se aproximou do irmão. Olhou-o nos olhos. E o abraçou. Os dois não se falavam há mais de dois meses, desde o papelão feito pelo irmão nos armazéns de bebida na cidade e dos constantes disparates embriagados que realizava.

Desta vez, Albert não mantinha falsas esperanças. Isso ficou evidente quando colocou a mão sobre o casaco de Willem, apertando-o contra o abdômen. Neste exato local, havia uma garrafa de cachaça que este guardava para o uso contínuo. Mesmo sabendo que se arrependeria de sua decisão, o novo coronel falou com fraternal sentimento.

– Porque ainda não desisti de ti, irmão – disse ao beijar-lhe a testa.

 

***

 

Uma semana depois, neste mesmo local, nos aposentos principais da Casa do Governador, o novo coronel Albert Schouten estava sentado na sua poltrona preferida, repassando os acontecimentos desde a morte de Van Dorth. Os espanhóis que antes aceitaram os passaportes, com temor que os holandeses se alterassem com estas contas, saíram da cidade sem retornarem mais a ela. Só ficaram dois ou três mercadores casados para conservarem sua fazenda, com outros tantos oficiais mecânicos, alguns velhos e pobres enfermos, que por sua pobreza e enfermidade não puderam sair.

O peso do cargo assumido estava maior do que nunca com a moral espanhola elevada pela morte o antigo coronel. Com as defesas implantadas por Albert Schouten para a conservação da cidade, os espanhóis decidiram que melhor seria porem cerco por terra, impedindo as saídas holandesas com assaltos, do que se aventurar num ataque único. Foram prudentes, antepondo o certo ao duvidoso. Tinham assim ordem para andar ao redor dela, pelos matos, e atacar os holandeses que saíssem fora, como costumavam fazer na busca por frutas e mantimentos pelos pomares e roças circunvizinhas.

Outra preocupação era com o vice-almirante Piet Heyn, que estava na costa pernambucana a mando de Van Dorth. O primeiro impulso era chamá-lo de volta a Salvador, mas a lógica preveniu Albert Schouten de dar tal ordem. Como mais navios serviriam de ajuda na defesa da cidade? Era melhor que tentasse descobrir algo mais do inimigo na outra capitania. Afinal, as últimas notícias eram de que Piet Heyn realizou alianças com tribos indígenas contrárias aos espanhóis nos arredores de Pernambuco.

Imerso em seus problemas, o novo coronel nem percebeu a chegada de uma pessoa às suas costas, até que uma voz feminina atravessou o salão.

– Soube o que fez pelo seu irmão.

Era a senhora Haringe que chegava de seus aposentos.

– Foi muita generosidade de sua parte – ela continuou.

Neste dia a senhora Haringe estava utilizando roupas mais confortáveis e leves. Elas transpareciam a pequena barriga que se formava. A gravidez já era bem perceptível. No entanto, não traçando comentários para evitar constrangimentos, o coronel tratou de só responder o comentário.

– Se conhecesse meu irmão, provavelmente não teria a mesma opinião.

– Soube das dificuldades dele com a bebida – ela falou. –  Um soldado francês esteve aqui mais cedo. Mandou notícias sobre seu irmão. Falou de alguns excessos nas tavernas do porto, mas ressaltou que chegou a tempo de controlar a situação.

A expiração exalava ainda mais dissentimento.

– Sinto que estou apenas criando a situação para mais uma decepção – o coronel desabafou.

A senhora Haringe caminhou alguns passos. Atravessou o salão. Olhou o semblante destruído do novo coronel.

– O senhor é um homem bom, Albert. Talvez se desaponte, talvez não, mas não conseguiria viver consigo mesmo se não tentasse. Afinal, é do seu irmão que estamos falando.

– Espero que tenha razão – o novo coronel respondeu, sem muita esperança na voz.

 

Cidade de Salvador por Arnoldus Montanus (1625-83)

 

Os Baianos e Pernambucanos

–Brasileiros–

Capítulo 2

8 de Outubro de 1624

Os três líderes do socorro pernambucano entraram no templo improvisado no centro do Arraial Vermelho. Eram os capitães Antônio Carneiro de Falcato e Antônio Moraes, com seu superior Nunes Marinho de Sá. Juntos, caminharam na direção dos aposentos do Bispo Dom Marco. Uma estranha sensação os acometeu. Os cômodos eram apertados e escuros com as frestas nas paredes de pau-a-pique cobertas por lençóis. As velas ali espalhadas mal conseguiam iluminar o ambiente. Deixavam-no ictérico e cheio de sombras tremeluzentes, com a ladainha das freiras adicionando à morbidez.

O noviço recomeçou os relatos.

– O Bispo a tudo acudiu sempre em pé e incansável. A uns, animava. Com outros, chorava. A todos, mostrava grande excesso de amor com palavras, que significavam bem os intentos santos que tinha. E como tais, foram sempre muito favorecidos de Deus. Infelizmente, tudo isso custou muito caro ao nosso pobre pastor.

O noviço abriu a porta. Ali estava um homem moribundo. Estava deitado numa rede em meio à escuridão que as velas não conseguiam sobrepujar. Se a descrição do Bispo antes era de um homem largo, de rosto redondo e grande barriga, o homem que surgiu aos olhos de Nunes Marinho de Sá era bem diferente. Estava magro, de rosto chupado, barba rala e olhos fundos.

O noviço Antônio Vieira continuou sua mórbida descrição.

– Há oito dias, o bom pastor Dom Marcos Teixeira caiu em cama, mais de cansaço e trabalho que de doença. Desde então, não se levantou mais.

A verdade era que, nesses quatro últimos meses, o bispo passou nos matos, quase sem dormir, comer e beber. Não era porque assim desejava, mas porque não tinha vontade. Apenas o fazia pela necessidade que enxergava em seu corpo cada vez mais frágil. Isso quando não era a febre ou o frio em seus ossos que o dominava. Não era a primeira vez, que seu corpo caiu pelos males que o afligia e a cada nova crise, pior ficava.

– Quem é?

O Bispo doente mal conseguiu externar a pergunta.

– Sou Nunes Marinho de Sá – o comandante pernambucano respondeu. – Vim para lhe render de tamanho peso sobre os ombros. Vim para assumir seu lugar no comando dessas terras. Sou o enviado de Matias de Albuquerque. Sou o novo capitão-mor da Bahia.

Os olhos fundos do Bispo tentaram enxergar através da escuridão.

– Eu ainda tenho tanto o que fazer – a fraqueza mal permitiu que o Bispo terminasse suas palavras.

– Vossa Reverendíssima fez mais do que era seu dever. Fez mais do que qualquer um seria capaz .

– Estou livre de minha obrigação?

O Bispo nem parecia perguntar ao seu substituto. Os olhos estavam fixos sobre os ombros do novo capitão-mor. Parecia estar falando para alguém atrás dos três líderes do socorro. Com olhos esbugalhados e voz suplicante, mais parecia estar falando com o próprio Deus.

– Sim. Está livre agora – Nunes Marinho de Sá respondeu.

– Obrigado, meu Senhor – sua cabeça caiu sobre o travesseiro, o corpo relaxou na rede, então continuou: – Agora posso descansar.

Mal terminou de proferir caiu na inconsciência.

Um mal sentimento atingiu o peito do seu secretário. O noviço Antônio Vieira sentiu algo errado com seu mestre.

– Senhor Bispo? – veio a preocupação.

– O que está acontecendo? – depois, a dúvida.

– O senhor está bem? – por fim, o medo.

A voz se desesperou à medida que não escutou uma resposta. Sentiu o corpo do seu superior queimando em febre. Percebeu sua mente totalmente inerte. Sacudiu-o algumas vezes. Tentou abrir seus olhos. Rezou como nunca antes. No entanto, seu maior temor enfim ocorreu.

Poucos dias depois, Deus castigou o povo da Bahia e premiou o Bispo, levando-o ao Reino dos Céus a gozar das mercês da glória divina.

 

***

 

O Bispo Dom Marcos faleceu, deixando a todos assaz saudosos e desconsolados com sua falta. Ele agradava a todos, sem as muitas graças sobrenaturais que Deus a esmaltou, porque era muito caridoso e liberal. Devotíssimo do Santíssimo Sacramento, o qual levava ele mesmo aos enfermos e o acompanhava com um brandão aceso. Era quem celebrava todos os dias missa, derramando muitas lágrimas de devoção. Pregava sem ser teólogo, posto que era grande canonista, melhor que muitos teólogos pelo muito zelo à salvação das almas. Deus o levou deste mundo, em tão pouca idade, que ainda não chegava a cinquenta anos, porque o mundo não era digno de tanto bem.

Se isto se pode dizer dos seus merecimentos para com Deus, não menos para com El Rey, como bem se constatou nesta ocasião em que o serviu de capitão-mor da Bahia. Afinal, sempre foi ele andando pelos matos, morrendo de fome. Ele quem fez juntar todos em um arraial. Ele quem deu ordem a que se levassem mantimentos de todas as partes a vender, sustentando os pobres à sua custa, que o não podiam comprar. Ele quem ordenou aos capitães e companhias para os assaltos, em que reprimiu a insolência dos holandeses, evitando-os de assolar as fazendas vizinhas. E, quando os capitães iam aos assaltos, os animava, exortando-os de modo que até os gentios selvagens obrigava a irem com muita vontade e esforço.

Era o primeiro a se pôr em oração, pedindo a Deus que lhe desse vitória. Quando com os soldados tornavam, lhe dava graças. Abraçava-lhes. Gratificava-lhes não só com palavras, mas com dádivas. E, entendendo que a tomada da cidade fora castigo do céu por vícios e pecados, castigava a si mesmo, fazendo tão áspera penitência, que nunca mais fez a barba, nem vestiu camisa, senão uma sotaina de burel. Dormia pouco e jejuava muito. Pregava e exortava a todos à emenda de suas culpas, para que aplacassem a divina ira, até que destes trabalhos o tirou Deus para o descanso da bem-aventurança.

– Um viva ao Bispo Dom Marcos!

Quatro meses durou o Bispo neste ofício e exercício. O fruto desse valor e zelo do serviço de Deus e de Sua Majestade, foi matarem no tempo da capitania do Bispo, 103 holandeses. Cativaram 30, incluindo o capitão do forte São Filipe no Tapagipe. Essa conta não inclui os muitos feridos dos pelouros, espadas e flechas que dentro da cidade se recolheram.

Os brados de viva! eram proferidos pelos soldados, que comemoravam as vitórias passadas nessa noite, ao redor de uma fogueira, saboreando o bom vinho trazido pelos pernambucanos e a cachaça doada pelos engenhos baianos. Lá, estavam muitos dos combatentes nessa guerra, tanto veteranos quanto recém-chegados. Entre este últimos, incluía-se André Vidal de Negreiros.

– Que o Altíssimo dê todas as glórias merecidas ao seu bom clérigo e pastor – invocou um.

– Deus mais nos castigou com a morte do seu Prelado, que com a tomada da cidade – arriscou dizer outro.

– Dedico a vitória na Fonte Nova a ele – falou um terceiro, lembrando a ação de sua companhia pela manhã.

O clima entre os soldados era de camaradagem. Faziam homenagens a cada novo gole do bom vinho e do aguardente de cana. Cantarolavam alegres canções. Cortejavam as moças do arraial, que riam e se divertiam com eles. E contavam em turnos suas histórias. Contavam quando o fizeram, como atacaram, quantos conseguiram matar, inflando os feitos e os números a medida que o álcool nublava seus pensamentos.

– A Cruz de Itaparica com certeza foi iluminada por ele! – Gritou outro, com ânimos mais exaltados.

Em seguida, contou a história de uma Cruz que sofrera muitos golpes de espada pelo furor herético dos holandeses. Dias depois, estando a companhia desse soldado a esperar o mesmo inimigo, quando o combate começou, o soldado jurava que a mesma cruz, que tinha os braços abertos na direção Leste-Oeste, se virou pela ação divina, ficando na direção Norte-Sul, para poder ver o combate, parecendo dar mostras de que ajudava a vingar suas injúrias. Ficaram quase todos os holandeses mortos nesse dia. E a cruz, considerada santa, se tornou muito venerada e celebrada dos moradores.

– Foi o Bispo quem deu forças para salvar o velho da Sapetiba! – Era a vez de outro soldado contar a sua história.

Era a história de um bom número de inimigos que saíram a roubar uma fazenda que estava no porto de Sapetiba, a uma légua e meia da cidade. E poderiam ter capturado o senhor dela por ser muito velho e quase entrevado. Mas neste perigo uma filha sua, a quem a piedade deu o ânimo, tomou-o às costas e o pôs em salvo, de forma quase milagrosa.

– Ele quem deu a vitória do sipanta, sipanta! – disse um dos homens do capitão Lourenço Brito, brincando com o negro Bastião ao lado.

Era a história de como Bastião se adiantava a todos por usar flecha, que não chegava tão longe como o pelouro dos arcabuzes. Assim, era necessário se aproximar aos inimigos para empregá-la. Uma vez, andando já com a espada, mesmo com a ordem para se retirar, respondeu: Não retira, não, sipanta, sipanta. Ninguém nunca entendeu aquelas palavras, mas o negro queria dizer nisto que não era tempo de se retirar quando andavam já à espada; porque tinha experimentado dos holandeses que não eram tão destros nesta arma como nas de fogo. Assim, vindo à espada, tinha já o pleito por vencido.

O exaltar das histórias acresceu o ânimo de André Vidal a falar de seu primeiro combate e primeiro sucesso nesta guerra.

– Pela glória do Bispo, capturamos o sargento holandês na Vila Velha e matamos outros dezessete holandeses!

Todos brindaram ao batismo dos pernambucanos recém-chegados. Não era nem o segundo dia desde a chegada de André Vidal e já contabilizava essa vitória, quando a companhia de Antônio Moraes combateu cinquenta holandeses e oitenta negros que os acompanhavam.

As histórias continuaram.

Toda a exaltação de André Vidal, no entanto, foi esquecida por uma bela visão ao longe.

– Volto já – o soldado paraibano disse para o amigo ao lado.

– Onde vai? – este perguntou.

André nada falou. Apenas abriu um sorriso. Deixou o amigo para trás. Do outro lado da rua, estava a razão da sua súbita partida.

Era a senhorita Ana Paes que ali caminhava.

 

***

 

André Vidal de Negreiros apressou o passo através das casas de palha e pau-a-pique para encontrar a moça. Ela estava com roupas bem mais simples que de costume, mas sua beleza inocente não deixava de ser mais surpreendente. No entanto, quando Ana Paes percebeu a aproximação do rapaz acelerou seu caminhar. Claramente, fugia do seu inconveniente perseguidor. Não obstante, o soldado paraibano também se pôs a correr.

Enfim, a alcançou. Tomou-lhe a frente, impedindo-a de continuar.

– Espere! – Ele a abordou. – Onde está indo?

– Isto não lhe interessa – ela continuou com o mesmo tratamento anterior.

André não desistiu.

– Por que não se junta a nós? – falou, mostrando seu mais belo sorriso, marcado por suas covinhas na bochecha. – Estão todos se divertindo. Por que não participa?

O desdém na face da moça ficou mais evidente.

– Não tenho ânimo para isso.

– Vamos lá, lhe faço companhia o tempo todo.

O desdém dos olhos atingiu seu clímax.

– E por que eu desejaria sua companhia?

A razão do mau humor de Ana Paes, maior do que de costume, era por causa do novo capitão-mor da Bahia, Nunes Marinho de Sá. Este não aceitou as informações da menina Ana Paes. Não desejava arriscar tão jovem moça no meio dos perigosos hereges. Agradeceu a Deus por nada ter acontecido com ela até este momento. A boa sorte foi atribuída ao antigo governador holandês, o finado Van Dorth, que tinha uma política da boa vizinhança com os antigos moradores da cidade, mas ninguém sabia o que esperar do novo governante.

No entanto, André retomou suas palavras indo mais a fundo nas razões dos sentimentos rancorosos da moça.

– Eu soube o que aconteceu com seu pai – ele lamentou. – Queria dizer que sinto muito.

As palavras fizeram a moça interromper o passo. Ela virou o rosto. Então, falou mais raivosamente.

– Pensa que sabe alguma coisa sobre mim?

Suas duas mãos empurraram o peito musculoso de André Vidal.

– Perdi meu pai e meu noivo. Agora, minha mãe está em tal estado deplorável que não consegue dizer uma só palavra. Apenas come, se deita e chora! Nem mesmo conversa mais comigo! Ela bem poderia estar morta que não faria diferença!

Colocou o dedo rosto dele.

– Eu e meu irmão juramos encontrar o corpo do meu pai. Agora, nem mesmo posso buscar o que desejo!

O sorriso de André já não estava mais lá, mas o sentimento pela bela garota não havia se alterado. Ele colocou ambas as mãos nos ombros dela, externando algo para ajudar no vil sentimento que a acometia.

– Estou apenas tentando ajudar, Ana.

As mãos de Ana Paes afastaram os braços do soldado.

– Então, some da minha frente!

Assim disse antes de deixá-lo para trás.

 

***

 

André Vidal passou a noite inteira pensando na bela moça de quinze anos de idade. Mal conseguiu dormir. A mente dizia para si mesmo: Posso ter qualquer garota do arraial! No entanto, não importando quantos nomes femininos enumerasse, os pensamentos terminavam apenas num único nome: Ana Paes. Afinal, também fora a única que o rejeitou com tanta firmeza. Era única que nenhum dos outros soldados havia conquistado. Era a beleza que mais se encaixava nos moldes que idealizou em toda a sua vida.

Era bem cedo pela manhã quando o capitão Antônio Moraes convocou toda sua companhia. Os raios solares já surgiam timidamente no horizonte, mas André Vidal não fechara as pálpebras por um segundo sequer. Tinha a imagem de Ana Paes o mantendo acordado. Mesmo com os olhos ardendo pela falta de descanso, pegou sua arma. Marchou sob o comando do seu capitão. O destino era o Engenho de Estevão de Brito Freire, onde os holandeses desembarcaram, avançaram e começaram a saquear o local.

Havia outras companhias no local para defender os engenhos da região de eventuais ataques. No caso deste engenho, eram os soldados do capitão Agostinho Paredes, que enfrentaram os inimigos com seus arcabuzes, mas, sendo poucos e os inimigos muitos, foram forçados a se retirarem até a casa de um lavrador fora dos pastos do engenho.

A companhia de Antônio Moraes foi convocada para revidar antes que os inimigos pilhassem tudo e levassem suas vitualhas.

– Atacar!

Os holandeses estavam comemorando a vitória do dia na praia. Mataram dois bois, colocando-os na fogueira. Tinham já embarcado em suas naus 20 caixas de açúcar, que acharam no engenho, havendo já de caminho tomado 12 de retame de um engenho de mel e alguns porcos de um chiqueiro.

Com a chegada da companhia pernambucana, correram para suas armas, mas já era tarde demais. Os primeiros tiros de arcabuzes derrubaram a primeira meia dúzia de holandeses. O resto dos inimigos estava assustado e desprevenido demais para contra-atacar. Bateram em retirada.

André Vidal avançou junto com seus companheiros na desalinhada linha de frente. Correu mais que os demais. Precedeu sua companhia. Um holandês, prevendo que não conseguiria fugir a tempo, tomou a espada e se voltou contra ele. Estava disposto a lutar por sua vida ou levar consigo quantos fosse capaz.

Não levou nem o primeiro. A espada de André Vidal foi a primeira a rasgar o ar. O inimigo não foi capaz de desferir nem o primeiro golpe. Caiu no chão, jorrando sangue do seu pescoço à grande distância. Sujou tudo ao redor, incluindo o rosto de seu algoz.

A voz de um companheiro então chegou aos seus ouvidos.

– Não há melhor forma de extravasar a raiva, não é, André?

O soldado paraibano nada respondeu.

Essas palavras de trouxeram o rapaz de volta ao tempo presente. Remetiam à sua frustração quanto a forma como Ana Paes o tratou. Mesmo no meio da batalhão, o pensamento na moça ainda o assombrava.

Quando o rosto ensanguentado de André se elevou em busca de outras presas, estavam alguns holandeses mortos ao seu redor. Os outros correram para a beira-mar. Nadaram através das fortes ondas até as chalupas que os trouxeram, o que anunciava o fim da batalha.

André se sentou ao lado da sua vítima holandesa. Observou seus últimos suspiros, afogados no próprio sangue, cada vez mais esparsos, com o peito aos poucos parando de se mover.

– Foi o primeiro homem que matou? – o amigo que voltava à sua posição questionou.

– Sim… – ele murmurou.

Seus pulmões acompanharam o resfolegar do holandês. Seus olhos penetraram as pupilas azuis do inimigo, inicialmente, agitadas em desespero, depois, perdendo força. Se aquilo que o soldado paraibano tanto desejava era esquecer o pensamento em Ana Paes, ele conseguiu.

André tinha toda atenção ao moribundo holandês, até enfim o brilho de vida se extinguir de seus olhos.

 

 

Real Alcázar por Autor Desconhecido

 

Os Relacionamentos na Corte

–Ibéricos–

Capítulo 2

8 de Outubro de 1624

O Conde-Duque estava na mansão que comprou quando chegou em Madrid há quase uma década. Era um lugar que lhe foi de muito pouca utilidade nos últimos meses. Como assessor direto de El Rey e sua esposa como primeira Dama de Companhia da Rainha, o casal recebeu uma morada no palácio de El Alcázar. A Mansão dos Olivares servia apenas à sua filha Maria e aos criados que mantinham sua educação.

A jovem Maria alcançava o esplendor áureo dos seus catorze anos de idade. Ela se tornou uma moça bem feita, cujo rosto redondo puxou o lado paterno. Estava na idade perfeita para servir às ambições do seu progenitor. E era exatamente por elas que o Conde-Duque voltava à sua casa. A menina, sentada confortavelmente em sua cama, escutava os planos paternos para o seu futuro enquanto penteava uma de suas bonecas preferidas.

– Maria, minha filha – começou o Conde-Duque. – Venho informar, com imensa alegria, que escolhi o homem certo para que possa se casar.

A menina não parou de brincar com o penteado da boneca ao escutar as palavras paternas. O conteúdo descrito não pareceu tão importante. Afinal, a mãe sempre a preparou para este fim, sempre a explicou que este dia chegaria. Era tão previsível quanto fora do seu controle, como foi sua chegada à Madrid aos sete anos de idade e sua primeira menstruação no ano passado. Era apenas mais uma fase de sua vida.

– O nome dele é Ramiro – o Conde-Duque continuou. – É Marquês de Toral. Tenho certeza que fará bem o seu gosto. Não tem mais que vinte e cinco anos de idade.

– Ele é bonito, papai? – a menina perguntou.

– Sim, é claro, filhinha. Papai o escolheu especialmente para ti.

As palavras do Conde-Duque não eram tão verdadeiras assim. Dom Ramiro não era feio, mas dizer que era bonito era um grande exagero. Em realidade, tinha certo sobrepeso, com uma barriga saliente, e, apesar da jovem idade, as calvas já lhe sulcavam a fronte. Além disso, tinha um estilo próprio na aparência. O bigode era bem longo, continuando pela face até se juntar com as costeletas, deixando o queixo partido à mostra.

– Ele é da nossa família, é um Gusmão – o pai continuou.

– Eu o conheço?

– Não, filhinha. Embora seja um primo seu, é um tanto distante. Além disso, não vive em Madrid, e sim na cidade de Leão. Está vindo para cá por sua causa, para que possam viver felizes juntos.

A verdade era que o Marquês de Toral, apesar de jovem, com apenas vinte e cinco anos de idade, já tinha dívidas importantes que herdou do pai. A razão de viver na cidade de Leão era exatamente para esconder suas dificuldades financeiras da corte castelhana. Nas poucas vezes em que veio a Madrid, sempre aparecia com bons presentes a El Rey, embora ninguém soubesse o sacrifício para conseguí-los. Era um homem que vivia de aparências.

Isso não impediu o Conde-Duque de escolhê-lo como genro e perpetuador da linhagem dos Olivares. Afinal, o Conde-Duque desejava a todo custo manter os futuros herdeiros gerados por sua filha dentro da família Gusmão. Todos esperavam que fosse casar sua filha com os herdeiros do Duque de Medina-Sidônia. No entanto, tradicionalista e orgulhoso do título de seus ancestrais, temia que seu neto, um dia, escolhesse o centenário título de Medina-Sidônia ao recentemente elevado Condado de Olivares.

– Ficará feliz se eu me casar com ele?

– Sim, filhinha, papai ficará muito feliz.

A menina deixou a boneca de lado. Aproximou-se do pai. Então, o abraçou. Desconhecendo todas as razões ocultas e ponderações políticas para a escolha de seu futuro esposo, e o fez da forma mais amorosa possível.

– Se ficar feliz, papai, eu também vou ficar – a pequena Maria falou em seu ouvido, consentindo com a escolha paterna.

E o pai a abraçou com todo o carinho em seu coração.

 

***

 

Enquanto isso, em El Alcázar, dois hóspedes desfrutavam os confortos do palácio real. Eram convidados de Sua Majestade para atender a convocação da Jornada dos Vassalos. Conversavam em um dos seus muitos ambientes bucólicos. Eram dois duques de imenso renome e influência em suas terras, o primeiro vindo de Portugal e o outro de Andaluzia. Eram também grandes amigos de infância que há anos não se encontravam. Eram Dom Teodósio, o Duque de Bragança, e Dom Manuel, o Duque de Medina-Sidônia.

Dom Teodósio, em especial, já deveria ter voltado paras suas terras em Vila Viçosa no Alentejo de Portugal há muitos dias atrás. No entanto, ele resolveu estender sua estadia em Madrid depois da conversa com a Rainha Isabel no dia do discurso de El Rey. As palavras de Sua Majestade realmente o deixaram intrigado. Gostaria que o verdadeiro assassino de Dom Juan realmente estivesse preso. Gostaria que ele não fosse o homem mais alegre neste salão!, eram palavras que se repetiam em sua mente. Não o deixavam dormir. Era como se o espírito do finado amigo Dom Juan de Tassis y Peralta estivesse clamando por justiça. Alguém tão austero quanto Dom Teodósio não poderia permitir que um de seus amigos fosse injustiçado assim.

Por esse motivo, Dom Teodósio procurou seu melhor amigo em todo o Reino de Espanha. Mais que um amigo, Dom Manuel era seu irmão de criação, pois Dom Teodósio passou muitos anos de sua vida residindo no palácio de Medina-Sidônia. Neste dia em especial, esses quase-irmãos estavam sentados numa das mesas do palácio. Tinham uma vista para a paisagem verdejante dos campos castelhanos. Tomavam um bom vinho. O assunto que discutiam era a própria Jornada dos Vassalos.

– Que loucura de Sua Majestade – Dom Teodósio lançou a exclamação. – Como ele pode estar cogitando navegar o mar Oceano para salvar a cidade de Salvador?

– Uma loucura completa! – Dom Manuel secundou. – Concordo que a jornada deva ocorrer, mas sem Sua Majestade nela, é claro. Sabe, mais do que ninguém, dos perigos que podem surgir quando um rei sem herdeiros se lança num fronte de batalha.

Essas palavras remetiam à morte do Rei Sebastião de Portugal, considerado o mais trágico evento da história portuguesa e testemunhado de primeira mão por Dom Teodósio há quarenta e sete anos atrás. O nobre português estava lá, na batalha de Alcácer-Quibir, como escudeiro do Rei Sebastião aos dez anos de idade, quando os mouros marroquinos avançaram de forma irrefreável contra o exército português. O Rei acabou morto e o jovem Teodósio capturado.

– Com certeza, a Espanha não sobreviveria a uma tragédia como a do Rei Sebastião! – O Duque de Bragança argumentava de própria experiência.

Sem herdeiros, o trono de Portugal ficou vago. O antigo El Rey Filipe, avô do atual, enxergou a oportunidade. Tomou esse trono para si através de uma jogada política. Ele quem pagou o resgate de Dom Teodósio aos marroquinos e trouxe o garoto até a Espanha. Como a mãe de Dom Teodósio também era uma das reclamantes ao trono de Portugal, este foi mantido retido na Casa de Medina-Sidônia por três anos. Só foi liberado para o retorno à Casa de Bragança quando o Rei da Espanha assumiu o trono de Portugal de forma definitiva.

– Só me preocupo com a frustação dos nobres no caso de El Rey desistir de se aventurar no Novo Mundo agora, depois de toda essa comoção – o próprio Dom Teodósio contra-argumentou suas palavras.

– Ainda assim! – Dom Manuel não mudou de opinião.

Mostrava-se inconformado, mas não deixou de lançar ao amigo a pergunta mais comum entre os nobres dessa época.

– E quanto a vossa mercê, Dom Teodósio? Atravessará o grande Oceano como fiel vassalo de El Rey?

Teodósio sorriu com a possibilidade.

– Desde os meus dez anos de idade, desde Alcácer-Quibir, que não participo de uma guerra e não pretendo recomeçar agora. Já enviei um pedido de desculpas a El Rey, dando-lhe vinte mil cruzados em pólvora e munições.

– Vinte mil cruzados? – Dom Manuel colocou um semblante de dúvida, pois o cruzado não era uma moeda muito utilizada na Espanha.

– Algo equivalente a cinquenta mil ducados de ouro – Dom Teodósio esclareceu.

– É uma alta quantia, devo dizer – respondeu o andaluz.

– É o bastante para justificar minha ausência – treplicou o português.

Dom Manuel balançou a cabeça, concordando com a decisão. Então foi a vez de Teodósio lhe fazer a mesma pergunta.

– E quanto a vossa mercê, Dom Manuel? Atravessará o grande Oceano?

– Infelizmente, não… – era notório que o duque andaluz estava desapontado em não participar da já lendária expedição, o que o fez desabafar. – Bem que eu poderia usar de sua reputação para corrigir os erros do meu pai, que levaram o nome de Medina-Sidônia à lama.

Suas palavras remetiam ao fracasso do antigo Duque de Medina-Sidônia, o finado Dom Alonzo, pai de Manuel e aquele quem manteve o jovem Teodósio em cativeiro. Na época, ele era o comandante da então famosa Armada Invencível Espanhola, que perdeu este adjetivo na vergonhosa batalha naval de Gravelines, cuja liderança de Dom Alonzo se tornou motivo de zombaria

– Olivares solicitou que eu me mantivesse em Andaluzia, para proteger a costa sul espanhola e o importante Porto de Cádiz.

– Sempre acreditei que o Conde-Duque joga contra a reputação da Casa de Medina-Sidônia – o duque português alfinetou. – Todos sabem que ele deseja colocar a Casa de Olivares acima da Casa de Medina-Sidônia dentre todas as Casas pertencentes à família Gusmão.

O duque andaluz suspirou. Não era a primeira vez que ouvia tais teorias.

– Por acaso, tem alguma justificativa para que não se confie nele? – Dom Manuel cerrou os olhos.

A mente do duque português passou a divagar sobre o encontro com a Rainha Isabel durante a convocação para a Jornada dos Vassalos.

– Desde que cheguei a Madrid, sinto um sentimento ruim que só piora quando chego próximo do Conde-Duque. Sinto que há algo errado – o duque português olhou contemplativo ao horizonte. Então, concluiu. – Sinto a necessidade de investigar o assunto, pois desconfio que ele tenha alguma ligação com o assassinato de Dom Juan de Tassis.

O semblante de Dom Manuel se transformou. Ele jogou seu corpo para trás num ato involuntário, inconscientemente revelava que era um assunto para se afastar. Não obstante, soube de imediato que era algo da qual não podia ignorar.

Ele respirou pesadamente antes de tomar a palavra.

– Dom Teodósio, meu irmão… – ele hesitou por um segundo. – Espero que não entenda da forma errada o que eu vou lhe dizer, mas me permita dar conselho: Esqueça esse assunto! E Nunca mais mencione essas palavras a mais ninguém por todo o tempo que estiver em Madrid.

Dom Manuel abriu um dos botões de sua camisa para retirar o desconforto no pescoço.

– Digo isso para o seu próprio bem!

A reação do amigo à questão deixava claro para Dom Teodósio que o assunto era delicado mesmo entre a corte.

 

***

 

Num salão de reuniões do palácio de El Alcázar, estavam sentados Sua Majestade, El Rey Filipe da Espanha, e seu braço direito, o Conde-Duque de Olivares, ao redor de uma grande mesa de carvalho. Discutiam fervorosamente a situação. Eram reuniões que ocorriam três vezes ao dia, onde discutiam todos os assuntos de guerra e de paz, desde a Holanda até o Novo Mundo.

– Tive um encontro com os bancos estrangeiros.

O Conde-Duque iniciou a reunião em tom de alívio. Em seguida, continuou.

– Os venezianos estão dispostos a realizar um novo empréstimo à fazenda real. A dívida chegará agora em 3,6 milhões de ducados de ouro, mas garantirá o soldo dos soldados na Holanda, até que a cidade de Breda se renda, o que espero que ocorra antes da Jornada dos Vassalos partir.

– Os relatórios não dizem que o governador de Breda tem um ano de suprimento em grãos estocados em seus silos para suportar um cerco – a resposta de El Rey revelava que o rapaz agora detinha mais interesse pelos assuntos reais.

Infelizmente, para o Conde-Duque, um dos efeitos contralaterais do seu engajamento nos últimos meses era começar a fazer perguntas cada vez mais difíceis ao Conde-Duque. Muitas vezes, até o deixava desconcertado. Afinal, o ministro sempre teve as respostas na ponta da língua para o rapazote monarca.

–Confio no nosso general Spinola para uma vitória rápida. No entanto, se o pior acontecer, ainda podemos fixar o preço da liga de vellón, pareando com o valor da prata, para cunharmos mais moedas.

– Pensei que isso fosse inflacionar os nossos mercados?

Realmente, as perguntas estavam cada vez mais difíceis. Cunhar moedas com a liga metálica de Vellón, dizendo ter o mesmo valor da prata, era o mesmo que emitir moeda sem lastro. Era o mesmo que colocar dinheiro falso no mercado e dizer que é verdadeiro. Era uma forma de encher os cofres rapidamente, mas a consequência disso seria uma inflação sem controle, que empobreceria ainda mais a população espanhola.

– Só tomaremos essa ação se a situação em Breda se agravar.

O Conde-Duque logo tratou de buscar assuntos menos problemáticos.

– A boa notícia, Majestade, é que a Jornada dos Vassalos está praticamente se aparelhando sozinha. Recebemos tanta ajuda dos fieis nobres da corte que os números já chegam a mais de dez mil soldados e mais de cinquenta embarcações. E isso sem custo algum a fazenda real. É magnífico!

O humor do Conde-Duque já melhorava enormemente com a notícia.

– Escolhi o general Fadrique de Toledo para liderar a missão. Depois da sua vitória na Batalha de Gilbratar, acredito que não há um melhor comandante. O que pensa, Majestade?

O rapaz assentiu. Na verdade, apesar de mais questionador, ainda não havia ganhado a confiança para o contradizer.

– Faça como acreditar ser o melhor – Sua Majestade respondeu já desejando mudar o tema da discussão. – Só desejo acabar essa reunião mais cedo, pois preciso de sua ajuda em outro assunto.

Os ares preocupados de Sua Majestade deixaram o Conde-Duque encucado.

– O que aconteceu?

– Aconteceu de novo – El Rey respondeu, fugindo seu olhar. – Talvez eu tenha engravidado outra dama da corte – por fim, completou.

– A senhorita Beatriz?

– Não – ele engoliu seco. – Foi com Cassilda Manrique, uma das Damas de Companhia de minha irmã Mariana.

O Conde-Duque nem mesmo lembrava quem era essa dama. No entanto, diferente do semblante que El Rey esperava que seu ministro fizesse, este abriu um sorriso. Ficou feliz em ver o pupilo tomar as rédeas de sua vida, ter coragem de fazer coisas que antes o apavoravam.

– Não se preocupe. Procederemos da mesma forma que com Maria de Chirel. Já sei até para qual outro convento a enviarei.

 

A Arca de Tesouro por Jacob Emmanuel Gaisser (1825-1899)

O Tesouro Chileno

–Holandeses–

Capítulo 3

 

8 de Outubro de 1624

Meses depois da morte de Van Dorth, os ataques inimigos persistiram. Os espanhóis estavam mais assanhados e mais donos do campo do que nunca. No portão do Carmo, próximo ao local onde o antigo coronel foi assassinado, os espanhóis colocaram um tal de capitão Manuel Gonçalves que, com ânimo e esforço, vigiava continuamente os que saíam por aquela parte. Numa ocasião, próximo ao mosteiro do Carmo, mataram seis. Em outra, foram três. Mesmo próximo da praia, os holandeses instalados no fortim de São Filipe, saindo a pescar numas canoas, os contrários deram sobre eles e os pescaram antes. Mataram um e cativaram mais três, incluindo o cabo do fortim.

No portão de São Bento, a situação estava ainda pior. Em certa ocasião, mais de duzentos holandeses saíram a Vila Velha. Lá, encontraram uma bandeira inimiga, defendida por uma guarnição muito inferior em número e armas. No que estas faltaram, supria o ânimo elevado que faltava aos holandeses, vencendo todas as desigualdades, ainda que com risco. Não apenas a defenderam, como, mandando aviso ao seu quartel, com toda a pressa, foram socorridos de mais três capitães. Como diligência na guerra é tudo, obrigaram os holandeses a deixar no campo quarenta e cinco soldados mortos e um sargento preso.

Vendo o coronel Schouten que por terra ganhava muito pouco, não o deixando chegar às fazendas e engenhos, determinou-se ir a elas por mar, para buscar algum refresco por seu dinheiro ou a troco de outras mercadorias. Levavam até mesmo alguns espanhóis aliados consigo, para que assegurassem aos outros da paz. Os inimigos se preveniram disso. Mandaram os capitães, que tinham engenhos e fazendas junto a praia, que se fortificassem e assistissem nelas. No engenho de Simão Nunes, em frente à ilha da Maré, o capitão de emboscada inimigo Antônio Cardoso de Barros matou alguns e aprisionou três. No engenho de Gaspar de Azevedo, na ilha de Itaparica, o capitão de índios Afonso Rodrigues, da Cachoeira, matou oito, tomou uma lancha com três roqueiras e fez embarcar os mais com a água pela barba.

Sem terem conhecimento de toda essa péssima situação dos holandeses na guerra, era exatamente para contemplar a ilha de Itaparica que dois clérigos católicos escoravam os cotovelos na madeiras do porto de Salvador.

– Nós podemos conseguir.

Essas palavras foram proferidas pelo frade mais jovem, imberbe, de quarenta anos de idade, chamado Manuel Calado. Ele mirava a grande massa de terra defronte à cidade. Tinha olhos desejosos de liberdade.

– Quem não sabe nadar, vai ao fundo do mar, frei Manuel.

A resposta veio do ancião de longa barba grisalha e cabeça totalmente calva. Era o frei Vicente Palha, que costumava ministrar as missas nos domingo para os cidadãos da cidade. Este olhou a igreja matriz da cidade logo atrás. Então, continuou.

– Não se esqueça que a cada novo dia, chegam mais moradores que, desencaminhados, aceitam voltar à cidade com passaportes holandeses. Não podemos deixá-los desamparados da fé católica, expostos aos erros de Lutero e Calvino, sem missa, confissão, nem comunhão.

– É verdade, senhor – o frei Manuel assentiu.

Os dois clérigos estavam tão compenetrados na visão da ilha que nem perceberam a aproximação de outras duas pessoas.

– Espero que não estejam pensando em fugir – questionou uma delas.

A voz era exatamente do coronel Albert Schouten. Ao lado, segurando seu braço, estava uma mulher loira de olhos azuis. Havia um tom de brincadeira no comentário. Afinal, a forma como o coronel lidava com os moradores espanhóis era bem diferente do finado coronel anterior. Embora não permitisse que entrassem e saíssem livremente, deu a escolha a todos de deixar de vez a cidade.

Aos que quiseram ir embora, entregou licença para partir definitivamente, lhes dando três navios para irem a Pernambuco e dois para o Rio de Janeiro, nos quais foram trezentas pessoas. Aos que ficaram, não mais permitiu licença para que deixassem os portões.

– Os senhores não desejam nos abandonar depois de toda a liberdade que já lhes dei? – o coronel continuou com o mesmo tom irônico.

Os padres, que estiveram na prisão do mar por quatro meses, ficaram livres para andar na cidade já que foi dada a ordem de fechar os portões, contanto que não chegassem perto dos muros e das fortificações. Foram todos alojados na casa de moradores selecionados.

– Claro que não, senhor coronel – disse o jovem frei Manuel.

– Estávamos apenas observando a paisagem – o frei mais velho e barbudo completou.

O coronel Schouten não acreditou numa só palavras dos frades, mas pouco importava. A companhia da moça grávida lhe deu o novo ânimo que precisava. Estava de excelente humor.

– E como está o bebê, senhora Haringe? – o ancião desconversou.

– Não para de chutar, frade – a mulher mostrava um orgulhoso sorriso. O simples mencionar no bebê poderia lhe fazer conversar por horas. – É incrível como a sensação é estranha e gostosa.

A barriga já estava bem evidente. Se quando chegou, a senhora Haringe tinha apenas uma pequena proeminência na barriga de quatro meses de gestação, agora a vida ali existente era bem notória no auge de seu sétimo mês. Já emanava o brilho da beleza grávida, principalmente, quando falava dos planos para o pequenino em sua barriga.

No entanto, antes que pudesse continuar, um estrondo vindo da boca da baía a silenciou. Vinha de um navio holandês cuja peça de artilharia acabara de disparar. Todos olharam na sua direção. Viram que, com outras três embarcações, juntas, todas arremessavam ganchos num navio espanhol. Logo perceberam se tratar de mais um navio desavisado que entrara pela baía.

O coronel quem primeiro comentou

– Era de se acreditar que depois de quase cinco meses os espanhóis já tivessem aprendido que esta cidade é nossa agora.

Mais dois estrondos ecoaram pela baía. Eram altos o bastante para assustar a senhora Haringe.

– Sinto falta de Piet Heyn – o coronel continuou em tom desaprovador. – Era capaz de capturar esses navios sem fazer tanto barulho.

 

***

 

O procedimento de captura dos navios desavisados que entravam na baía de Salvador não mudara nada desde as instruções criadas pelo vice-almirante Piet Heyn. Dois galeões ficavam fora da baía, em suas cercanias, para que, os que entrassem, não pudessem sair ou para perseguir os que descobrissem a armadilha antes de entrar. Além disso, duas velozes chalupas aguardavam também do lado de fora e outras duas do lado de dentro. Essas quatro embarcações de velocidade estavam munidas de ganchos e armas de fogo com o objetivo de abordar suas incautas presas.

A embarcação deste dia, desde o começo, já não se mostrou uma presa qualquer. Era um ostentoso galeão, construído com madeira nobre e esculpido nos detalhes por artesãos. Tinha muita artilharia. Era guarnecido por numerosos e bem-armados homens. E não se rendeu facilmente, o que já revelava que seus tripulantes tinham muito o que defender. Algo logo constatado pelo recém empossado e diariamente embriagado major Willem Schouten que, como segundo em comando, adentrou o convés para inventariar a presa.

– É um pandemônio mesmo!

Praguejou ao caminhar por entre os espanhóis rendidos na embarcação. Estava acompanhado de Charles de Toulon, que fora promovido ao posto de sargento da sua companhia. Este escutava as opiniões detestáveis de Willem sobre o próprio o irmão, sem nada comentar.

– A cidade está cercada. A população, apavorada. Nós, aqui, colocando nossas vidas em risco. E Albert fica por aí andando de mãos dadas com aquela interesseira da viúva do Haringe.

Deu um fungado de desaprovação.

– Que hora para brincar de marido e mulher! – por fim, completou.

Terminou de falar, chutou a porta do camarote maior da embarcação. As portas se escancararam em lascas de madeira.

– Sibranz – gritou para um de seus soldados. – Vá checar o compartimento de carga. Faça um inventário de tudo o que encontrar.

– Helmondt – proferiu ordens para outro. – Leve esses espanhóis feiosos para o porto. Cansei de ver a cara deles.

Depois, olhou para o sargento francês.

– Venha comigo, Toulon. Vamos ver o que a maré nos trouxe hoje.

Os dois entraram no inexplorado camarote, acompanhados de mais meia dúzia de soldados. Esperavam encontrar alguma resistência, mas nada houve. Dentro do camarote, estava um senhor gordo e bigodudo cuja postura e vestimentas revelavam boa ascendência. Levava consigo esposa, filhos, filhas, um genro e um neto. Todos aninhados num canto de parede do aposento.

As mulheres choravam apavoradas. As crianças gritavam assustadas. O bem-vestido senhor se manteve de pé, com os outros homens da família colocando-se atrás dele, quando este se pôs a falar.

O Major nada entendeu, por isso, perguntou ao companheiro.

– Fala espanhol, não é, Toulon?

O sargento assentiu.

– O que esse homem tanto diz?

Este se colocou a conversar com o ilustre espanhol no idioma ibérico enquanto o major caminhava através do aposento. Analisou as bem rendadas e cozidas roupas da família. Observou as mesas, cadeiras, criados-mudos e cabides da mais fina qualidade. Até mesmo os quadros, eram de grandes artistas. Também percebeu que próximo da pena, do tinteiro, ao lado de algumas pilhas de papéis, estava um carimbo de brasão para selar cartas.

– Ele diz se chamar Dom Francisco Sarmiento – por fim, Toulon traduziu sua conversa. – Ele vem de Potosi no Chile, no Rio da Prata, onde foi governador pelos últimos anos, mas tendo expirado seu tempo de serviço estava a caminho da Espanha.

O Major cerrou os olhos, surpreso.

– É uma presa bem maior do que poderíamos esperar.

– Ele pede o tratamento que seu cargo e fidalguia merecem – Toulon completou.

– Isso é com Albert. Meu irmão decidirá como agir.

Mal o major terminou de falar, um dos seus soldados adentrou o aposento com grande pressa. Era o soldado Tjarck Sibranz, encarregado de checar o compartimento de carga do navio

Era notória a urgência nos seus passos.

– Major – gritou, quase sem controle da voz. – Venha rápido! O senhor precisa ver isso!

 

***

 

O soldado levou o Major ao compartimento de carga do navio. Eles atravessaram os porões carregados com farinha de trigo, biscoito, azeite, vinho, sedas, outras ricas mercadorias e todo o necessário para realizar uma viagem através do oceano. No entanto, não era, nenhuma dessas coisas, o motivo da reação eufórica do soldado.

Uma porta estava trancada com correntes e fechaduras fortes, cuja entrada era restrita a poucos homens do navio. Essas portas conduziam ao tesouro do ex-governador chileno. Eram dezenas de quadros de famosos artistas espanhóis, joias custosas de pedras preciosas, além de muita prata em barras e em moedas, que montavam uma fortuna equivalente a 158 mil florins de ouro holandês.

– Meu Deus – o major Willem exclamou. – Já anotou esse achado no inventário, Sibranz?

– Não, senhor. Preferi chamá-lo primeiro.

O major Willem não conseguiu segurar o sorriso

– Fez muito bem, soldado, porque nada disso deverá ser anotado!

As palavras do major tomaram Charles de Toulon de surpresa. Já pressentiu o objetivo delas. Não conseguiu evitar o comentário sobre as implicações dessa mal intencionada ordem.

– Senhor – o francês engoliu seco. – Os Dezenove Diretores precisam saber dessa boa presa que capturamos.

Todas as peças de prata contidas nos baús e arcas deste aposento brilhavam intensamente. Reluziram tão fortemente que  hipnotizaram o major Willem. Este nunca sequer imaginou tanto dinheiro em suas mãos, por isso mesmo, não conseguiu esconder um brilho da ganância em seus olhos, quando falou.

– Não, Toulon. Eles não precisam!

 

 

Paisagem da Bahia por Frederico Sellow, (1789–1831)

 

Os Bloqueios Ultrapassados

–Brasileiros–

Capítulo 3

8 de Outubro de 1624

Passado o primeiro mês de combates desde a chegada do socorro pernambucano, André Vidal ponderava algumas circunstâncias mais particulares, fazendo as vitórias mais dignas de memória. Era realmente de se admirar o valor e ânimo de todos os soldados, quanto maiores foram as incomodidades no necessário à vida e à guerra. Vigiavam todas as noites sem cessar. Passavam os dias sem descansar. Tinham o céu por casa e a terra por cama, expostos ao frio e ao relento, padecendo de muitas fomes e sedes.

Muitas vezes, particularmente ao princípio, se sustentavam só de farinha de guerra, sem mais do que uma pouca água. Isto ainda, de quando em quando, lhes faltava. Menos sentiam porém esta falta, que a de arma e munições, a qual era tanta que o soldado que disparava o segundo tiro, não tinha com que atirar o terceiro. Não poucas vezes aconteceu de levarem o arcabuz sem munição ao rosto só para não mostrarem ao inimigo sua pobreza. Chegou a não haver em todo o Arraial mais que um barril pequeno de pólvora, com qual se sustentou o capitão-mor Nunes Marinho de Sá muitos dias, apregoando fingidamente que havia muita pólvora em barris que em sua casa tinha cheio de areia.

Os baianos e pernambucanos precisavam matar uns holandeses para fazer o mesmo aos outros, servindo-se da pólvora que tomavam dos primeiros para poder atirar nos segundos. Toda ajuda era necessária. Exatamente por essa razão, os soldados da companhia de Antônio Moraes balançavam os braços ao alto, chamando a atenção de uma desavisada nau da cidade de Viana.

– Por aqui! Por aqui!

– Entrem na barra!

A desavisada nau veio ancorar no porto de Salvador, sem saber que este estava tomado pelos holandeses. Embora a Casa da Torre tenha enviado avisos de fumaça e balançado bandeiras ao seu capitão, este não entendeu os sinais. Pensou ser uma cordial saudação e não um aviso por suas vidas.

Percebeu seu erro quando observou os navios inimigos fechando a boca da baía onde entrara com bandeiras holandesas flamulando neles.

Os soldados de Antônio Moares continuaram a gritar para a nau. Apontavam para a entrada de um pequeno rio. Era fundo o bastante para o porte da nau de Viana, enquanto os galeões holandeses encalhariam em seus baixios. Apenas as chalupas inimigas mantiveram a perseguição. Pelo menos até a ordem de Antônio Moraes impedi-los de continuar.

– Atirem nos malditos!

Os disparos começaram. Os holandeses estavam tão concentrados na perseguição que se esqueceram dos inimigos em terra. Tiveram que se esconder por trás dos rebordos de suas chalupas para não perderem a vida. Tentaram revidar, mas, se já era difícil acertar um alvo com os pouco acurados mosquetes deste tempo, era praticamente impossível com o balançar das ondas. Enfim, os holandeses deram meia-volta, retornando à Bahia e desistindo da perseguição.

Começaram os gritos de alegria e regozijo por colocarem a salvo a nau de Viana e seus tão necessários mantimentos.

 

***

 

Logo que chegou, Nunes Marinho de Sá avançou mais à cidade, não com o arraial que o Bispo tinha muito bem alojado, mas abreviando o caminho um terço de légua para andarem menos aos assaltos. Estes continuaram com o mesmo fervor, que não se perdeu com a mudança de governador. Na verdade, ficaram ainda mais intensos ao acrescentar mais duas trincheiras contra o inimigo, uma pela banda do Carmo e outra pela banda de São Bento.

Ordenou também que andassem dois barcos de vigia; um em Itapoã, outro no Morro, para avisar os navios que vinham de Portugal, com que se salvaram mais três ou quatro. Com estes e outros assaltos, as forças do Arraial lhes mataram tanta gente às portas da cidade que os holandeses se ocuparam com grande cuidado em roçar o mato em toda a distância a que sua artilharia pudesse alcançar.

André Vidal participou num dos assaltos mais audazes à porta da cidade, em que foram mortos treze holandeses e feridos trinta nesses roçados protegidos pela artilharia inimiga.

Logo procurou alguém para dividir a vitória.

– Bom dia. Tem alguém em casa?

Ele chegou numa das centenas de casas de palha do arraial. Em suas mãos tinha um belo buquê com pequenos botões de Manacá, cujas pétalas pentâmeras se amontoavam às dezenas com cores radiantes que variavam desde o branco ao violeta. Eram tantas flores que escondiam as mãos do soldado.

Mais cedo, André deixara no mesmo casebre parte do que recebera como recompensa pelo resgate do navio de Viana. Era algum trigo para comer e ervas para chá. Sabendo da dificuldade que todos os moradores do Arraial tinham em conseguir mantimentos, fez questão de doar esta recompensa para uma família bem conhecida. As flores vinham para complementar sua doação na busca de amolecer um endurecido coração.

Após alguma espera, não demorou para Ana Paes surgir à porta.

– André? O que pensa que faz aqui?

A recepção, como de costume, não foi nem um pouco hospitaleira.

– Vim ver como está – ele alargou mais o sorriso de covinhas na bochecha. – Não podia deixar que nossa conversa do outro dia terminasse de forma tão brusca.

Ana Paes continuou com o mesmo esboço gélido.

– Se bem me lembro, pensei ter lhe dito para sumir da minha vida.

André levantou os espadaúdos ombros, dando de braços.

– Bem, mas cá estou eu de qualquer forma – falou com seu cenho mais parvo. – Vim trazer essas flores. Encontrei no caminho desde meu último confronto com os holandeses. Tem que admitir que são lindas.

– Também não quero suas flores, André.

– Na verdade, as trouxe para sua mãe.

O semblante mais incrédulo surgiu em Ana Paes. A resposta dela foi fechar a porta na cara de André.

– Espere – ele segurou a porta antes que se fechasse.

Ela tentou puxar com mais força, esmagando a mão do soldado. Algumas caretas de dor emanaram de sua face.

– Sei que o novo capitão-mor não a deixa ajudar, mas por que não conversa comigo? – ele falou. – Conte-me o que sabe. Quero saber de tudo o que descobriu. Em troca, eu posso contar tudo que acontece fora do arraial e nos confrontos com os holandeses.

A porta não mais esmagou a mão do soldado. Ele percebeu que esta era sua chance. Respondeu antes que a moça dissesse qualquer palavra.

– Posso contar como resgatamos uma mulher capturada na Casa de Jorge Magalhães. Ou das escadas que estão construindo para escalar o Forte São Filipe. Ou de como um negro do capitão Pero Campos quase roubou uma jangada do inimigo. Sei que deseja saber informações da guerra.

Ele suspirou.

– Só quero conversar contigo, Ana.

Um silêncio hesitante persisitiu. A introspecção da moça encheu André de esperança. Parece que enfim suas palavras alcançaram os ouvidos dela. Finalmente, Ana Paes o surpreendeu com suas primeiras palavras cordiais ao jovem soldado desde que a encontrou na Bahia.

– Tudo bem. Pode entrar.

 

***

 

O abrir da porta permitiu a entrada do soldado paraibano. A casa de palha era tão humilde quanto todas as outras do arraial. Quase não havia mobília. As redes serviam de cama. Bancadas de madeira velha serviam de mesas. Na falta de armários, as roupas ficavam dobradas sobre amontoados de folhas de palmeiras para que não ficassem na areia. A cutelaria era de barro, bem diferente da prataria que a família Paes estava acostumada, incluindo um prato que ali estava servido sobre a mesa.

Olhando ao redor, uma divisória de lençóis davam vista para um dos aposentos. Lá estava a dona Isabel Paes, mãe de Ana. Estava sentada, segurando um terço. Ignorava tudo ao redor. André percebeu que ela estava num estado de choque, quase catatônico, mas nada comentou. Apenas colocou as flores em uma das bancadas.

– Deixarei as flores aqui – ele proferiu. – Diga à sua mãe que fui eu quem as enviei.

Ana Paes assentiu. O rapaz continuou.

– Sei que não gosta do novo capitão-mor, mas tem que admitir, que o inimigo tem sido mais pressionado por nós desde sua chegada.

– Pelo que sei, o novo capitão-mor se enfermou gravemente desde que chegou aqui na Bahia.

Era uma verdade. Já com certa idade, o velho Nunes Marinho de Sá foi um prato cheio para os mosquitos da região. Nem por isso enfraqueceu o ânimo ou faltou bom ponto em seu ofício. Era algo mantido em segredo pelos oficiais para não baixar a moral dos soldados, assim, todas as suas ordens e recados eram dados por um João Barbosa que o acompanhou desde a Paraíba.

– Esses matos são perigosos para todos – André respondeu. – O Bispo que o diga. Morreu de semelhante enfermidade.

– Pensei que acreditasse no tal chamado de Deus por sua bondade e bom serviço.

– Faz alguma diferença para nós que estamos vivos?

Ana Paes baixou a cabeça.

– Não, não faz.

Ao fim da sua resposta, Ana Paes começou a realizar uma limpeza rápida no pequeno casebre. Retirou algumas roupas sobre os caixotes de madeira que serviam de tamburete, indicando um para que André se sentasse.

– Fique a vontade – por fim, falou. – Tem um pão que acabei de fazer com o trigo que me enviou. Pode se servir. Eu já volto.

A moça foi então até o quarto da mãe para ver como ela estava. Fechou melhor a divisória de lençóis para lhe dar mais privacidade. André Vidal sentou na cadeira improvisada. Apoiou os braços sobre a mesa. Observou o pãozinho que Ana cozinhou mais cedo no forno à lenha, tão improvisado como tudo mais ali dentro. Também percebeu uma xícara ao lado.

– Também fez este chá com as ervas que lhe enviei?

André perguntou, já segurando a xícara e colocando um pouco do chá entre os lábios. Sentiu um gosto peculiar e uma consistência estranhamente pastosa. No entanto, as características daquele chá não foram tão estranhos quanto a reação da moça. Ela voltou imediatamente para o local onde estava o rapaz. Reagiu bem mais dura do que se poderia esperar.

– Seu maluco! – Ana gritou. – O que pensa que está fazendo?

Ela já tomava a xícara de suas mãos.

– O que foi? – ele perguntou.

– Isso não é chá! – Ela logo explicou em meio aos seus gritos. – Isso é pasta de Pinhão-Roxo.

– Pinhão-Roxo?

– Sim – ela exclamou. – Meu Deus! Quantas colheres tomou?

– Só provei. Uma colherzinha apenas. Qual o problema?

– O Pinhão-Roxo é um potente laxante, mas dizem que se exagerar a dose pode até parar seu coração – primeiro explicou, depois admoestou. – Deus! Não pode entrar na casa dos outros e mexer aonde não deve!

André se assustou com a reação.

– Não disse que eu podia me servir?

– Disse que poderia provar o pão – ela continuou nervosa.

– Desculpe, não foi minha intenção – ele se justificou.

Ana Paes se sentou noutro pedaço de madeira velha que servia de cadeira. Colocou as mãos no rosto. Decidiu resolver o problema que o insistente rapaz se tornou.

– Por que está aqui em minha casa, André? – a moça desabafou. – Foi alguma aposta que fez com seus amigos? Algum desafio para conquistar a menina mais antipática do Arraial?

O jovem soldado sentiu o peso da rejeição da moça.

– Claro que não, Ana – gaguejou, quase sem conseguir falar. – A verdade é que não consigo pensar em outra coisa que não seja seu rosto. Vejo a garotinha linda que encontrei na vila de Olinda. Sei que soa bobo, mas me apaixonei desde a primeira vez que a vi naquele dia.

Os olhos verdes da moça se elevaram, mas os lábios não se moveram. Não tinha como discutir aquelas palavras imbecis. Apaixonar? Ela pensou, incrédula, ambos nem mesmo se conheciam, continuou o pensamento. É incrível como as pessoas depositam seus desejos e idealizam o que desconhecem, divagou mais.

– Por favor, Ana, dê uma chance para me conhecer – André continuou.

O silêncio se manteve.

– O que me diz, Ana?

– Eu… – a moça tartamudeava.

– Por favor, Ana! Diga agora!

A hesitação continuou.

– Diga, Ana! – perguntou outra vez.

– Tenha calma! – a insistência tornou a irritá-la. – Não tente me apressar! Não há motivo algum para isso!

Ele respondeu com mais sinceridade que gostaria.

– Na verdade… – era sua vez de tartamudear. – Eu meio que… – embargou a voz outra vez. – Meio estou com um bom motivo para ter pressa agora. – disse com a voz descendo cada vez mais de tom.

Nesse momento, Ana percebeu um suor descendo a testa de André Vidal e suas mãos fazendo pressão na barriga.

Concluiu a razão de sua pressa.

– O laxante já está fazendo efeito, não é? – Ela perguntou.

André balançou a cabeça positivamente, mal conseguia falar.

– Então vá logo embora, pelo amor de Deus!

– Só saio daqui quando me der a resposta – ele falou com firmeza, apesar do desconforto de sua face contraída.

Ana Paes o respondeu de imediato.

– Por acaso, pensa que vai me conquistar caso venha a sujar todo aqui na minha frente.

André limpou o suor da teste. Colocou-se a divagar por um segundo. Então respondeu. A face se contraiu mais.

– Realmente, não pensei em todas as possibilidades.

A cena fez Ana Paes sorrir.

– Vá! – Ela então gritou.

André balançou a cabeça em afirmação. Correu para abrir a porta. O toucinho com mandioca que almoçou mais cedo pareceu aliar-se com o pinhão-roxo para fazê-lo se desesperar.

Ana observou a cômica cena do rapaz, antes tão seguro e conquistador. Agora, caminhava com andar contraído, como se apertasse todos os músculos do corpo. Ela não conseguiu se conter. Riu largamente.

Era sua primeira risada em quatro meses, nem se lembrava mais como era boa a sensação.

– André!

Um impulso a fez gritar o nome do rapaz.

– Venha aqui amanhã – continuou. – Terá a sua chance!

André ainda sorriu, mas os desconfortos abdominais diluíram esse sorriso rapidamente. Colocaram-no a acelerar o passo.

 

 

Mapa da Bahia de Todos os Santos por Franz Post

 

A Nova Vida Holandesa

–Holandeses–

Capítulo 4

 

10 de Novembro de 1624

O coronel Albert Schouten caminhava pelos deques do Porto de Salvador, observando as embarcações ali ancoradas. Preocupava-se com a audácia inimiga que acrescia a cada novo dia. Na semana anterior, os espanhóis atacaram uma lancha, em que os holandeses serviam de ir e vir da cidade para os fortes. Cuidavam que estava bem segura, por lhe ficar à porta da Fortaleza de Itagipe, nas bocas das bombardas. Mas isso não bastou para que um soldado espanhol, a nado, a tomasse. Levando consigo duas roqueiras e um barril de pólvora que nela havia.

No portão de São Bento, a coisa não estava nem um pouco melhor. Os malditos espanhóis estavam tão audaciosos que, capturando um negro aliado dos holandeses, cortaram-lhe a mão. Depois o mandaram à cidade com um escrito no pescoço em que desafiavam os holandeses em campo descoberto, fora de matos e emboscadas. O coronel aceitou o desafio, levando consigo um esquadrão formado de quatrocentos homens. Mas o inimigo, liderado pelo maldito capitão Padilha e pelo socorro que lhe chegara de Pernambuco, com extraordinária determinação, investiu à porfia com força impetuosa. Foram capazes de fazer os holandeses recuarem.

Do outro lado, no portão do Carmo, o capitão Manuel Gonçalves continuou a estorvar a fortaleza de São Filipe. Num assalto pelo mar que os holandeses fizeram no engenho de Manuel Rodrigues Sanches, o coronel Lourenço Cavalcanti com quarenta homens, os fizeram embarcar em fuga, matando-lhes e ferindo-lhes alguns.

Após essas derrotas, o coronel Schouten caminhava pelo porto, revisando seu pensamentos estratégicos para reverter a situação. No entanto, foi interrompidos pelo grito de um homem.

– Coronel! Rápido! Precisa vir comigo. É urgente!

Seria outro ataque espanhol? Seria algum desentendimento dos seus homens, cada vez mais comum nesses tempos de tensão? Era mais algum morador abandonando a cidade? Ou era seu irmão alcóolatra fazendo-o passar mais alguma vergonha? Eram tantas as possibilidades que o coronel nem quis tentar imaginar a resposta. Virou-se diretamente para o mensageiro.

Percebeu que era um dos negros domésticos da Casa do Governador. A constatação o deixou apreensivo.

– Precisa vir urgente, senhor – o negro continuou aos gritos.

– O que foi, homem? Por que esse desespero todo?

O coronel tentou manter a calma em sua voz, tão necessária para seu atual cargo. Mas, ver aquele negro, indicava ser um problema doméstico, restrito à Casa do Govenador.

– A água desceu pelas pernas da senhora Haringe, senhor – o negro continuou esbaforido. – O bebê está para nascer!

Os olhos do coronel se abriram largamente. Ele sabia que o nascimento da criança estava próximo. Sabia que poderia acontecer a qualquer momento. Mas não pôde deixar de se surpreender. Não pôde deixar de se preocupar com algo tão perigoso quanto um parto. Imediatamente, tomou caminho para sua casa, não sem antes emitir novas ordens ao negro.

– Vá à casa do frei Vicente agora! Só confio nele para realizar o parto!

 

***

 

Não muito longe dali, numa das melhores casas da cidade, o sargento francês Charles de Toulon entrou por uma porta. Demandava falar com um capitão holandês. Desejava falar com o capitão Kijf, que estava sentado na sua mesinha de jantar. Ele se deliciava com uma coxa de galinha numa mão enquanto a outra colocava arroz com farinha de mandioca na boca. Devorava tudo como se fossem os últimos alimentos da cidade.

– Está servido, Toulon?

O capitão empurrou o prato de galeto destrinchado na direção do suboficial francês.

– Não consigo pensar em comida nesse momento – este falou.

– É melhor aproveitar, sargento. Não sabemos até quando teremos comida nessa cidade.

Era uma possibilidade cada vez mais presente. Principalmente, após a derrota que o próprio Kijf sofrera pela manhã, quando o coronel soube que na ilha de Itaparica, defronte da cidade, havia muitos currais de vacas e boas pescarias. Ele determinou senhorear dela e para este efeito embarcou com quatrocentos soldados sob o comando deste capitão em duas naus e algumas lanchas. Indo já nos batéis para desembarcar no engenho de Sebastião Pacheco, lá estava o espanhol Paulo Coelho, capitão da ilha, com seus homens detrás de um fardo da bagaceira de cana.

Mal Kijf colocou os pés na ilha, as arcabuzadas feriram alguns de seus homens, o impedindo de desembarcar.

– Senhor – o sargento Toulon o interrompeu. – Preciso de seus conselhos, pois tenho algo para revelar ao coronel, mas não sei como proceder.

– O que está lhe perturbando tanto, Toulon?

O capitão Kijf sentiu toda preocupação externada pelo sargento, cujo motivo logo foi revelado.

– O major Willem está roubando dos diretores da Companhia! – Toulon, nem terminou o desabafo, já foi explicando. – Encontramos um valor equivalente a 158 mil moedas de ouro no navio do ex-governador chileno. O major nem declarou esse tesouro e ainda desapareceu com ele.

O capitão Kijf que mostrava um bom humor apesar da derrota da manhã, soltou a coxa de galinha que estava comendo no prato. Lambeu os dedos e os esfregou na roupa.

Com um cenho fechado, mirou seus olhos inquisitivos no francês.

– Isso não pode estar certo. É um crime gravíssimo!

– Eu estava lá – Toulon elevou a voz. – O major ainda me ofereceu dez mil moedas de ouro para que eu não falasse nada à ninguém. Eu tenho que contar ao coronel o quanto antes.

O Kijf baixou a cabeça. Manteve o olhar para o vazio. E expirou um ar introspectivo por alguns segundos.

– Não faça isso, sargento – por fim, disse com baixa voz. – Não conte nada ao coronel, nem a mais ninguém.

– Mas senhor – Toulon tentou protestar.

– Esqueça, sargento – o capitão elevou a voz.

Em seguida, ergueu a cabeça. Fitou o francês com olhar punitivo. Continuou com voz mais tutorial, como que lhe dando um importante conselho.

– Aproveite o seu dinheiro e nunca mais fale sobre isso.

Toulon ficou pasmado. Num lampejo de lucidez entendeu a situação.

– O senhor também recebeu sua parte do tesouro, capitão? – questionou com voz embargada.

O capitão Kijf manteve um cinismo na voz amigável.

– Os Dezenove Diretores já são ricos demais. Não sentirão falta deste tesouro – o capitão assim assumiu culpa.

Charles de Toulon respirou pesadamente, com todas as forças de seus pulmões. A situação era mais séria do que imaginava. Ele se perguntou quantos outros oficiais estavam envolvidos em tamanha perfídia. Percebeu que se continuasse a indagar sobre o assunto atrairia a ira de muita gente. Concluiu que poderia muito bem estar correndo risco de vida neste momento.

– Tudo bem – falou hesitante. – Não falarei nada a mais ninguém.

 

***

 

Algumas horas depois, na Casa do Governador, os gritos da senhora Haringe ressonavam desde seus aposentos íntimos onde o parto ocorria até a sala de estar onde o coronel Albert Schouten aguardava ansioso. Uma hora, duas horas, cinco horas se passaram com os dolorosos gritos da parturiente ficando cada vez mais intensos e frequentes. Era um situação angustiante para o coronel sentar ali, sem poder fazer nada.

– Tudo ficará bem, meu senhor.

Uma das escravas domésticas, que auxiliavam o parto, em certo momento abriu a porta e emitiu palavras de consolo, mas a cena de sua passagem não ajudou em nada. A negra atravessou os corredores em busca de lençóis limpos, tendo nos braços os lençóis usados, completamente sujos de sangue.

A sensação era terrível. Cada novo grito de dor da senhora Haringe deixava o coronel mais apreensivo. Deixava-o mais espremido na poltrona. Ele não parava de pensar o quanto os últimos meses foram bons, já imaginava uma vida feliz ao lado desta mulher e do seu filho. Enfim percebeu que a amizade cultivada desde sua chegada transformou-se em algo mais.

Os gritos graves de dor se transformaram no choro agudo de um recém-nascido. Um sopro de alívio atingiu o coronel. No entanto, o bom sentimento durou muito pouco. Ele se aproximou da porta do quarto esperando notícias. Ninguém apareceu. O tempo passou de forma estéril e seca. Os gritos que vinham do interior do aposento não eram mais dos esforços maternos. Eram os berros desesperados dos padres, uns para os outros. Eram tão altos que por vezes sobrepujavam o choro infantil.

A escrava doméstica abriu a porta novamente. Atravessou o corredor.

– O que está acontecendo? – o coronel a perguntou em voz desesperada.

– Não posso falar agora, senhor – a escrava estava pálida e assustada, se esquivava da pergunta. – Preciso trazer mais lençóis. Os padres estão precisando deles urgentemente.

O coronel Schouten tentou olhar de volta ao quarto. O frei Vicente Palha, percebendo os olhos curiosos penetrando o interior do aposento, correu à porta. Fechou-a de imediato. O único relance, que conseguiu vislumbrar, foi do cenho fechado do frade, já prenunciando as más notícias. Quando a porta se fechou, o coronel se encostou à parede, em silêncio.

O tempo passou lentamente. O desespero se transformou em tristeza. A tristeza, em cansaço. O cansaço, em sono. O coronel adormeceu ao lado da porta, sentado, à parede. Acordou com o abrir da porta, acompanhado de um choro de criança. O frei Vicente Palha e o frei Manuel Calado surgiram, com suas vestimentas monásticas sujas de sangue e com a fadiga os dominando.

– O que aconteceu? Por favor me digam! – O coronel gritou num misto de ordem e súplica.

– A criança nasceu – disse o frade ancião, olhando para a pequena criaturinha, embrulhada em lençóis, que trazia no braço. – É uma menina.

As palavras do frade não trouxeram nenhum alento ao espírito do coronel. Elas não vieram com o bom ânimo, nem com a exaltação feliz dos nascimentos. O coronel soube desde o princípio que algo estava errado.

O velho frade e o mais jovem se entreolharam numa cumplicidade lúgubre. A sentença foi devastadora para o coronel.

– Houve um sangramento inesperado. Tentamos de tudo para pará-lo, mas não conseguimos.

Por fim, concluiu.

– Eu sinto muito, coronel. A senhora Haringe não sobreviveu ao parto.

 

 

Cachoeira de Paulo Afonso por Franz Post (1612-1680

 

 

A Notícia Inesperada

–Brasileiros–

 Capítulo 4

3 de Dezembro de 1624

Passados sete meses desde a conquista de Salvador, Sua Majestade, El Rey Filipe, mandou com muita brevidade aprestar suas armadas para que se mandasse de Lisboa todo o socorro possível, não só à Bahia, mas às outras partes do continente. E assim evitar que os hereges tomassem pé no estado e se lançassem fora dos limites da cidade tomada. Era necessária sua chegada para não deixar em perigo as fazendas e engenhos de açúcar no recôncavo, de que tanto proveito recebiam as suas alfândegas.

Por esse motivo, antes, mandou duas caravelas em direitura a Pernambuco, para dali seguir na ordem que o governador Matias de Albuquerque lhes desse. Eram os capitães Francisco Gomes de Melo e Pero Cadena, um e outro bem vistos nesta costa do Novo Mundo. Traziam de socorro 120 homens de guerra, 50 quintais de pólvora, 1.100 pelouros de ferro, 20 quintais de chumbo, 1.300 arcabuzes de Biscaia, 14 quintais de chumbo em pelouros, 200 lanças e piquetes de campo e quatro arrobas de morrão. Chegaram a Pernambuco, onde foram recebido com extraordinário alvoroço e repiques da vila.

Todos foram unânimes em dizer que os Reinos de Portugal e Castela estavam fervendo para aparelhar um gigantesco socorro à Bahia. Nobres de todos os cantos do Reino enviavam auxílio. Logo, a maior armada já vista no novo continente estava para chegar. No entanto, nem houve tempo para Matias de Albuquerque, na sua capitania de Pernambuco, se alegrar com a notícia. Seu parente e braço-direito, o capitão Pedro de Albuquerque Melo, adentrava seus aposentos pessoais anunciando um terrível acontecimento.

– Matias, estamos com um grande problema na Paraíba!

O Governador-Geral voltou sua face na direção do seu capitão. Este continuou o relato.

– Uma rebelião indígena eclodiu na Baía da Traição. Os selvagens colocaram fogos nas igrejas e saquearam as vilas próximas. A população está em pânico.

– Quem são os responsáveis? – Matias questionou.

– São os Potiguares liderados pelo principal Tiguaraçu e seu filho Pedro Poti. Outras tribos, no entanto, têm se juntado a eles.

Matias coçou o queixo. Os olhos semicerrados contemplaram o horizonte. Já organizava uma estratégia. Não poderia deixar que ódios antigos emergissem. No entanto, antes de proferir um plano de ataque, Pedro relatou palavras que mudavam por completo a situação.

– E temos razões para acreditar que os selvagens rebeldes se aliaram ao famoso corsário Piet Heyn, que está lá com cinco galeões de guerra!

 

***

 

Sua Majestade também enviou um socorro à Bahia. Mandou um novo capitão-mor para substituir Nunes Marinho de Sá. Em seu lugar, veio Dom Francisco de Moura, fidalgo que já havia sido governador da Índia e do Cabo Verde, com três caravelas. Trazia consigo 150 homens de guerra, 300 arcabuzes aparelhados, 50 quintais de pólvora, 10 de morrão, 29 de chumbo e 150 formas de fazer pelouros.

O governador-geral Matias de Albuquerque considerou as três caravelas de Francisco de Moura um socorro ainda tímido para os problemas da Bahia. Deu-lhe mais seis caravelões e 80 mil cruzados de novos provimentos. Nesses caravelões, meteu todo o socorro, que vinha nas caravelas, o que tudo se fez dentro de oito dias. No fim dos quais, se partiram do Recife, sob o comando de Feliciano Coelho de Carvalho, filho do governador do Maranhão, que se ofereceu para os acompanharem, e desembarcaram à Casa da Torre, de onde foram por terra ao Rio Vermelho.

Enquanto isso, André Vidal e Ana Paes realizavam uma passeio especial. Conversavam sobre coisas da vida. Começavam a realmente se conhecer.

– Já questionou alguma vez as decisões de Deus, Ana?

Ambos passaram o dia caminhando pelas trilhas na mata, afastando-se do Rio Vermelho até chegar numa pequena cachoeirinha. Estavam agora deitados na areia próxima, ouvindo o barulho das águas e o farfalhar da vegetação. O sol irradiava um azul límpido. As nuvens estavam brancas como açúcar. A quietude do local dominava os seus corpos. Ninguém mais os escutava. Só os macaquinhos nas árvores e as andorinhas no céu.

– Meu pai costumava dizer que Deus não pode ser questionado – a moça respondeu. – Às vezes, tento imaginar o que ele diria da situação que nos encontramos hoje, depois de tudo o que nossa família sofreu.

– Talvez dissesse que Deus escreve certo por linhas tortas – o rapaz completou sem muita convicção.

A cabeça dela, deitada sobre um montinho de areia, se virou.

– Por que pergunta?

– Não sei – ele suspirou. – Deve ser porque minha companhia de soldados teve suas primeiras baixas ontem no pomar de Diogo Sodré. Os holandeses foram lá para pegarem umas laranjas e limões. Matamos nove e fizemos os outros fugir, mas dois dos nossos morreram na ação.

Era a vez de André se voltar para Ana.

– Eram dois amigos meus – ele continuou. – Viemos para cá juntos, lutamos lado a lado, bebemos, nos divertimos… E agora estão mortos.

Ana sentiu a tristeza no rapaz.

– Eu sinto muito – prestou os pêsames. – Mas esta é uma guerra. Não esperava que fosse vitoriosa sem perdas de ambos os lados.

– Eu sei, mas… – a profundidade dos pensamentos de André hesitava suas palavras. – Mas, desde então, não paro de pensar no motivo pela qual estamos em guerra. Não paro de questionar a razão de tantas mortes.

As pálpebras de Ana Paes se apertaram antes de o responder.

– Porque os holandeses nos atacaram, é claro!

– Eu sei – André hesitou mais um pouco. – Mas me pergunto sobre o porquê deles nos atacarem. É algo que me deixa intrigado. Sei que eles são hereges, que essa é uma Guerra Santa, que são demônios aos olhos de Deus, mas eu sinto que há algo mais.

A moça elevou o dorso. Apoiou o corpo sobre os cotovelos.

– Deus não tem nada a ver com essa guerra, André! – o tom da voz foi se elevando mais. – Os holandeses nos atacaram pela pior das razões. Eles nos atacaram por dinheiro. Eu li os livrinhos proibidos que eles nos entregam. Pregam que o dinheiro é virtude e o lucro leva ao Reino dos Céus.

– Então, isso confirma que estamos do lado do bem e os holandeses são os vilões nesta história? – André se questionou. – Confirma que Sua Majestade é o defensor da verdadeira religião, não é verdade?

O cenho da moça primeiro se desapontou. Então, ela respondeu.

– El Rey só quer enriquecer às nossas custas também – foi mais assertiva. – Como eu disse, Deus não tem nada a ver com essa guerra, é bem provável, que Ele nem sequer exista!

Os olhos negros do soldado sobressaltaram com a afirmação. Essa foi a vez de André elevar seu dorso. Apoiar seu corpo sobre os cotovelos.

– Acredita nisso, Ana?

– É o que eu sinto – ela baixou o olhar.

Depois de alguns segundos de introspecção, André retomou a palavras, com um tom mais argumentativo.

– Então me esclareça uma coisa: Se Deus não existe, quem entrega o poder aos Reis? Quem decide quem são os escravos? Quem separa os fidalgos dos plebeus? Quem define o que é certo ou errado?

Mal terminou de falar, Ana já contrargumentou com argumentos ainda mais fortes.

– Se Deus existe, então, como ele pôde deixar meu pai morrer?

André baixou olhar.

– Se Deus for uma mentira… – ele continuou num tom mais baixo. – Se o Reino dos Céus não existe, vossa mercê nunca mais reencontrará seu pai, nem mesmo no paraíso divino. É nisso que acredita?

O silêncio dominou novamente a conversa.

Apenas o som das águas e o farfalhar das árvores ressonou. Os macaquinhos faziam seus barulhos. As andorinhas cantavam. Só depois de um longo tempo, André retomou. Talvez tivesse ido longe demais.

– Desculpe, Ana. Não quis magoá-la.

– Tudo bem – ela suspirou.

André fez um esboço de sorriso para tentar melhorar os ânimos. Ana também tentou sorrir, sem muito sucesso. Ela então se levantou. Pegou suas coisas que estavam numa rocha próxima. Por fim, falou.

– Está ficando tarde. Temos que ir.

 

***

 

Ambos André Vidal e Ana Paes deixaram para trás a cachoeirinha que contemplavam. Percorreram as trilhas em retorno ao Arraial do Rio Vermelho. Chegaram à improvisada vila antes mesmo do sol poente. Caminharam pelas casas de palha até chegar à morada da jovem moça.

Na hora da despedida, o jovem soldado tomou a palavra.

– Desculpe ter me exaltado na discussão. Não quero que se aborreça.

– Não se desculpe – ela falou, cabisbaixa, olhando ao chão que esfregava com os pés. – Foi a primeira conversa que tive em muitos anos. É tudo muito confuso. Às vezes, é bom colocar tudo para fora.

André analisou a amargura na face da moça. Não quis entrar na mesma discussão. Continuou a se despedir.

– Podemos nos ver amanhã?

– Sim. Eu gostaria muito disso.

André se curvou em respeito. Virou-se de costas. Caminhou na direção de seu quartel. Desejava dormir para o dia seguinte. No entanto, antes que pudesse dar um novo passo, a voz de Ana retornou ao seus ouvidos.

– André?

O rapaz voltou seu corpo. Olhou para a tão bela garota de quinze anos de idade. A moça deu um passo à frente. Sua mão tocou André na bochecha. Acariciou a covinha na maçã do rosto.

Beijou-lhe a boca, num simples tocar de lábios.

– Obrigado pelo passeio – ela sorriu acanhada.

Embora André contabilizasse dezenas de beijos com várias mulheres ao longo de sua vida, para Ana Paes, era o primeiro. Era sua primeira intimidade com um rapaz em toda a vida. Também era a primeira vez desde a invasão que, apesar das circunstâncias, se sentia uma inexperiente adolescente no lugar da órfã vingativa que a dominou por tantos meses.

Mesmo depois de adentrar sua humilde casa de palha, seu sorriso continuou, como se os músculos de sua face não respondessem ao seu comando. No entanto, logo que se viu no interior do casebre, percebeu que não estava sozinha. Lá estava seu irmão.

– Toninho?

Toninho tinha um semblante sério e contraído. Estava sentado num dos caixotes de madeira que serviam de banquinho. Olhava para a irmã com olhos bem preocupados.

– Pensei que estivesse na cidade – ela questionou.

Teria o irmão visto o beijo em André Vidal? Estaria ele demonstrando um ciúme fraterno? Ela logo descobriria que havia uma razão diferente para o cenho fechado. Tinha um motivo bem especial, que ele logo externou.

– Descobri algo na cidade. Algo que não vai acreditar!

 

***

 

O novo dia amanheceu em meio à dezenas de salvas de tiros. Os holandeses desejavam muito saber o motivo delas. Precisavam aprisionar alguém que o dissesse. Assim, fizeram uma saída pelo portão de São Bento, onde sabiam estar sob constante vigia. Lá encontraram a companhia de Lourenço de Brito e de Antônio Moraes preparados para emboscá-los. Embora esse ato tenha lhes custado a vida de dezenove soldados, conseguiram matar o sargento de Lourenço de Brito e capturar um homem muito ferido.

Enfim, os invasores souberam que as salvas do dia anterior eram para a chegada de Dom Francisco de Moura, o novo capitão-mor, que sucedera a Nunes Marinho, e que este sucedeu o Bispo, que estava morto. Eram coisas das quais os holandeses, até então, não sabiam senão por dito dos negros, a quem não davam crédito.

Enquanto isso, André Vidal, que participara da ação, retornou ao seu quartel no arraial. Tomou um banho no rio próximo. Arrumou os cabelos. E se perfumou. Desejava reencontrar Ana Paes. Era incrível como o pensamento na moça não deixava a sua mente. E o beijo, então? A cena se repetiu dezenas de vezes em sua cabeça. Tudo parecia um sonho. Ele nem acreditava, mas enfim admitiu para si mesmo que estava apaixonado.

Quando chegou ao casebre da família Paes, teve uma grande surpresa. Ana Paes não estava lá.

Apenas o irmão Toninho estava no local.

– Onde Ana está? – O soldado perguntou, nervoso com o cenho do rapaz. – Está no mercado? No rio? Onde?

A resposta de Toninho foi tão surpreendente quanto assustadora.

– Ela está em Salvador. Ela retornou à cidade holandesa!

A exclamação não se conteve na garganta. André Vidal elevou a voz de imediato. Não entendia o que estava acontecendo.

– E o que ela está fazendo na cidade holandesa?

Um nó na garganta impediu Toninho de continuar. De início, tentou evitar os questionamentos. Não sabia se podia confiar em André Vidal. Tendo passado os últimos dois meses na cidade holandesa, não soube o que ocorrera entre ele e Ana Paes. Mas logo entendeu a situação. Revelou a razão da irmã ter retornado à cidade invadida.

– Esta semana, quando estava na cidade, eu descobri que o noivo dela sobreviveu aos ferimentos de batalha.

Então, concluiu.

– O capitão Dom Pero está vivo!

 

 

Dom Teodósio de Bragança por Autor Desconhecido

 

O Casamento dos Gusmão

–Ibéricos–

Capítulo 3

6 de Janeiro de 1625

Dom Teodósio, o Duque de Bragança, estava num dos muitos calabouços da cidade de Madrid, daqueles que prendem as mais inferiores corjas de lacaios e criminosos. Procurava por algo. Caminhava por um corredor imundo e escuro, sem janelas, iluminado apenas pelo balançar tremeluzente de tochas e lampiões. Era ali que Teodósio buscava o assassino do amigo Dom Juan de Tassis y Peralta, cuja sentença fora emitida quatro anos antes.

No entanto, já caminhara os imundos corredores por várias vezes sem encontrá-lo. Enfim perguntou a um dos carcereiros do local.

– Onde está Matteo Ignácio, o homem que assassinou o Conde de Villamediana? Ele deveria estar aqui!

– Não sei, senhor – foi a inesperada resposta do carcereiro. – Ele não ficou mais que alguns meses em sua cela, foi transferido para outro calabouço.

– Isso é impossível! Já chequei todos os outros calabouços de Madrid. Ignácio não está em nenhum deles!

– Eu não sei o que dizer.

O carcereiro pareceu tão surpreso quanto o duque português.

– Maldição! Não acredito que isso esteja acontecendo.

Vendo que nada mais poderia se aproveitar em interrogar o carcereiro, Teodósio de Bragança deixou aquele infausto lugar.

 

***

 

Dom Teodósio foi diretamente para o palácio real de El Alcázar, onde estava hospedado, mas não foi para seu quarto. Ele caminhou diretamente aos depósitos de documentos, onde estavam armazenados todos os despachos do Reino. Estava tão determinado a descobrir o misterioso paradeiro do assassino que passou horas e horas revendo as notas e ofícios carcerários.

Nada encontrou.

– Ignácio deveria estar em sua cela – por fim, exclamou já descrente de encontrar alguma pista.

Neste instante, uma ideia acendeu em sua mente. Desistiu de procurar explicações nos documentos carcerários. Decidiu vasculhar o nome do assassino na lista de pagamento de ordenados e mercês da fazenda real.

Depois de muitas horas de minuciosos olhares sobre estes papéis, enfim encontrou o que estava procurando. Ali estava o nome Matteo Ignácio entre os soldados da Guarda Real. Era um dos homens mais próximos de Sua Majestade e do Conde-Duque de Olivares. Depois, encontrou outro documento ainda mais comprometedor.

Dias antes do assassinato de Dom Juan, uma larga soma de dinheiro foi paga ao assassino pelos cofres reais. Era algo muito além do esperado para alguém na sua posição. Também estava lá, ao fim do papel, a assinatura da pessoa que autorizou o pagamento. Estava lá a assinatura do Conde-Duque de Olivares. Por fim, concluiu.

– A Rainha estava certa! – Dom Teodósio exclamou em voz alta. – Foi o Conde-Duque quem mandou matar Dom Juan!

 

***

 

No palácio real de El Alcázar, como era costume, ocorria mais uma jubilosa noite de festa em seus salões. Nesta noite em especial, era festejado o casamento da filha do Conde-Duque de Olivares. Tudo começou ao fim da tarde, quando a jovem Maria de Gusmão, a menina de quinze anos de idade, elevada por seu pai à primeira Duquesa de Medina de Las Torres, tomou bodas numa discreta cerimônia religiosa com Dom Ramiro de Gusmão, um recluso rapaz de vinte e cinco anos de idade, quase desconhecido na corte, mas detentor do título de Marquês de Toral.

A cerimônia foi discreta, para convidados selecionados. Era condizente com modo que o Conde-Duque se mantinha mais confortável nos bastidores do poder. Afinal, não assumiu o tão desejado cargo de Valido quando Baltazar de Zuñiga faleceu, muito menos quando o Triunvirato foi dissolvido. Preferia ser considerado apenas como o fiel ministro e conselheiro de Sua Majestade. Além disso, a pequena seleção de convidados evitava a entrada dos seus desafetos e inimigos políticos embora estes não deixassem de comparecer.

Era algo notoriamente perceptível com o encontro de Dom Teodósio, o Duque de Bragança, e de Sua Majestade, a Rainha Isabel.

– Vossa Majestade estava certa – disse o duque português. – O Conde-Duque de Olivares mandou matar Dom Juan.

As palavras proferidas pelo Duque de Bragança não puderam ser escutadas por mais ninguém no salão. Ocorriam após altos aplausos ao fim de uma apresentação teatral. A Rainha Isabel, que já exibia uma considerável barriga grávida, escutou essas palavras enquanto continou a bater palmas para os atores. E, ao fim dos aplausos, respondeu.

– Não diz nada que eu já não soubesse, Dom Teodósio.

Não obstante, o duque continuou sua revelação.

– Encontrei um documento com pagamentos feitos pelos cofres públicos ao assassino, poucos dias antes e depois do crime. São pagamentos que foram aprovados com a assinatura do Conde-Duque de Olivares!

Neste momento, enquanto as cortinas do palco se fecharam, muitos dos convidados já se levantavam para reabastecer seus pratos e taças. Os músicos voltaram a tocar seus instrumentos mantendo o clima festivo. Todos foram convidados a dançar no grande salão junto com os noivos, ao som dos instrumentais, enquanto os glutões se esbaldavam em seus exageros.

– Não podemos deixar que Olivares fique impune! – o Duque externou.

– Desejamos a mesma coisa, Dom Teodósio! –  a Rainha falou sem se comprometer contra o esposo, só contra seu ministro. – Olivares deve ser destruído antes que sua péssima influência possa fazer mal ao meu Filipe.

Havia um certo cuidado nas palavras de ambos. Afinal, Era um pensamento natural, originário desde a Idade Média, que o sangue real e o direito divino de um monarca lhe concedia total austeridade desde o nascimento. Se algo de errado acontecia em seu reinado, era porque o monarca estava sendo enganado ou influenciado por pessoas menores. Buscar a punição de um mau ministro era um ato de justiça, mas buscar punição a um rei era um ato de traição, não importando a situação.

– Desejo apenas o melhor para El Rey – Dom Teodósio não deixou de externar essas palavras para não se confundir com um traidor.

Estando isso claro, o Duque de Bragança continuou.

– Devo tornar públicos os documentos que encontrei?

– Não – a Rainha foi categórica. – O poder e a influência do Conde-Duque sobre meu esposo é tamanho que nada pode o atingir agora. Só nos resta esperar para quando o gordo imundo estiver vulnerável.

A Rainha olhou para os lados, certificando que Inês, sua principal dama de companhia, esposa do Conde-Duque, não estava próxima. Vendo que ela estava mais preocupada com o casamento da filha e com a organização da festa, continuou.

– Não somos os únicos que buscam justiça. Tem um grupo crescente na corte que deseja a queda do Conde-Duque tanto quanto nós dois. Infelizmente, isso só será possível se ele perder o favor de El Rey.

A Rainha reclinou, se aproximando do duque português. Então falou.

– Amanhã deixarei em seu quarto uma cópia de um dossiê que tenho preparado para destruí-lo. O Cerco de Breda mal consegue se manter em pé. O Reino da Inglaterra está prestes a declarar guerra. A Jornada dos Vassalos se tornará um fracasso quando for revelado que El Rey não participará dela. E a situação financeira dos cofres reais está um desastre.

Por fim, concluiu.

– Quando toda a péssima política de Olivares afundar, nós realizaremos nosso ataque. Ele não terá a menor chance!

 

***

 

Ainda na festa, mais a frente, próximo ao palco onde antes ocorreu a apresentação da peça teatral, El Rey conversava com uma das atrizes. Era uma bela mulher de cabelos loiros, encaracolados e longos, descendo abaixo das costas, cuja pele era branca como neve e delicada como algodão. Sua Majestade a conhecera alguns dias antes, no Corral de la Cruz, um circuito de comédias onde a moça se apresentou.

El Rey aprendera que o poder era afrodisíaco. Bastava um pedido seu para as moças abrirem as pernas. Restavam poucas dentre as Damas de Companhia de sua esposa e de sua irmã que não tivesse levado para cama. Assim, é possível imaginar então a sensação deste homem ao ter seus avanços amorosos detidos pela primeira vez.

– Que apresentação magnífica – elogios eram lançados para conquistar a jovem atriz. – Não é a toa que o nome Maria Calderón cresceu tanto em fama.

A menina entrou na brincadeira.

– Tantos elogios vindos de alguém tão poderoso como Vossa Majestade me deixam nas nuvens – ela falou com falso acanhamento, sempre lançando seu convidativo olhar.

E que olhar!, o monarca teve seus desejos mais intensos atiçados. E que boca!, ele sentia a necessidade de beijá-la urgentemente. A forma como ela se movia lhe era surpreendente. Era um talento, não apenas natural, mas lapidado ao longos dos anos, cursada na universidade da vida.

– Vossa senhoria viu o presente que a deixei mais cedo em seu camarim? – era a vez de El Rey sorrir de forma convidativa.

– Nunca vi nada tão lindo antes.

A moça também alargou o seu sorriso, com a língua entre os dentes, de forma subversiva e instigante. El Rey deixara um colar de joias, cravejado de diamantes e rubis numa armação de ouro puro. Custou tantos milhares de ducados de ouro que, nem em toda a carreira de atriz, Calderón poderia o arrematar.

El Rey colocou sua face mais cheia de falsa inocência.

– Estou louco para ver a joia em seu pescoço.

A atriz sorriu maliciosamente.

– Sei muito bem o que Vossa Majestade está querendo – falou de forma ainda mais atiçadora.

El Rey não conteve o próprio sorriso convidativo. Balançou a cabeça algumas vezes para o lado, chamando a moça para o camarim.

– Não posso, Majestade – ela se esquivava dos avanços reais.

– Por que não? – ele disse lhe tocando a face.

Ela aninhou seu rosto entre os dedos de El Rey, como uma gatinha deitando num travesseiro. Conhecedora dos desejos masculinos, se lembrou das três outras amantes de El Rey que acabaram em conventos. Assim, se esquivou do seu avanço sem fechar a porta para mais galanteios.

– Estou com muita vontade de ir para a cama com Vossa Majestade, mas não acho que isso seria prudente da minha parte.

Ela sorriu maliciosamente.

– Afinal, não tenho a menor vocação para freira.

 

***

 

Ainda na mesma festa, numa mesa de convidados, enquanto os mais jovens dançavam no meio do salão, ao som das baladas musicais, era o Conde-Duque de Olivares quem entretinha seus convidados. Conversava sobre a política e o futuro do Reino com alguns importantes membros do Conselho de Estado, incluindo o Conde de Montesclaros, antigo membro do Triunvirato, que atualmente era Presidente do Conselho da Fazenda.

– Eu digo que devemos continuar a ofensiva – este falou.

A opinião era analisada pelo velho e coxo general Fernando Girón, outro antigo membro do Triunvirato, atual voz do Conselho do Estado.

– O Conselho de Estado nunca esteve tão dividido, temos Godomar com seu espírito derrotista de um lado pregando a paz e Pedro Toledo de outro praticamente empurrando todos para a guerra. É difícil tomar uma decisão.

O Conde-Duque enfim dava seu parecer.

– Não há outra opção. Temos que atacar tanto Breda quanto Salvador! Não podemos deixar os holandeses com a vantagem sobre nós!

O presidente do Conselho da Fazenda, sempre preocupado com os custos, retomou o argumento.

– Eu sou do parecer de que poderíamos deslocar alguns recursos da Jornada dos Vassalos para Breda. Não tem cabimento tanta abundância do outro lado do Oceano e tão pouco para um teatro de guerra como a Holanda.

Contradizendo o companheiro, o Conde-Duque foi categórico.

– De jeito nenhum!

– Por que não?

– O dinheiro, os suprimentos e os soldados para a Jornada dos Vassalos não são nossos, pertencem aos fieis vassalos de El Rey! – O Conde-Duque fechou o punho. – Quero que me diga quem escolherá quais desses vassalos serão desviados para Breda? Quem os avisará que, em vez de irem na gloriosa Jornada ao Novo Mundo com Sua Majestade, irão para os sangrentos e gélidos campos de batalha na Holanda?

– Mas como continuaremos a pagar o Cerco à Breda? – o presidente da Fazenda retomou.

Este sabia que Reino esgotara todas as possibilidades financeiras. Realizou empréstimos aos bancos venezianos. Negociou uma ajuda de custo com o Império Romano-Germânico. Mandou cunhar as moedas de vellón. Eram medidas que podiam muito bem ser traduzidas pelos economistas como juros impagáveis, dependência econômica e inflação sem controle.

Não obstante, o Conde-Duque respondeu.

– A solução será a Frota da Prata!

As palavras remetiam ao carregamento anual de prata e ouro das terras do Novo Mundo. No ano de 1625, se estimava que seus provimentos seriam maior que a própria arrecadação de impostos de todo o Reino. Os financistas mais confiáveis chegavam a propalar o equivalente à 17 milhões de moedas de ouro, em ducados venezianos. Os números pareciam uma providência divina.

– Essa será nossa salvação!

O Conde-Duque já contava os dias para sua chegada.

 

 

Ao lado do berço por Pieter de Hooch (1629 – 1684)

 

A Rivalidade Fraterna

–Holandeses–

Capítulo 5

 

6 de Janeiro de 1625

Era tarde da noite. O coronel Albert Schouten caminhava cambaleante, cheio de amargura, pelos corredores da Casa do Governador. Parou defronte a um dos aposentos, onde apoiou seu corpo cansado na madeira da porta. Era o quarto onde os móveis foram afastados para a colocação de um bem decorado bercinho. Lá estava uma pequena bebezinha, que dormia tranquilamente, bem silenciosa, depois de ter sido amamentada pela escrava, sua ama-de-leite.

O coronel atravessou a sala de estar, que tinha vista para o porto da cidade. Saiu às pressas da sua casa, com as memórias recentes ardendo  em seu cérebro. Como Deus pôde permitir isso?, ele jogou enraivecidamente o copo de rum em suas mãos, monte abaixo. Este se estilhaçou próximo aos guindastes que traziam as mercadorias do porto.

– Ah! Charlotte – o coronel suspirou o nome da criança. – Queria tanto que sua mãe estivesse aqui.

Maldita seja toda essa terra selvagem!, sua revolta atingiu o ápice. No entanto, antes que pudesse praguejar, ouviu um grito lhe chamar o nome.

– Senhor coronel!

Era o sargento francês Charles de Toulon.

– Tenho algo para contar. Algo de extrema gravidade – ele continuou.

– Agora não é um bom momento! – O coronel, sem nem mesmo olhar para o sargento francês, estendeu o rijo braço com a palma da mão aberta.

O sargento deteve o passo. Percebeu a aflição do coronel, em meio aos seus próprios demônios internos. Não esperava encontrá-lo em tão atormentada situação. Ele não soubera ainda do triste destino da senhora Haringe.

– O que tiver para me contar, poderá fazê-lo amanhã – o coronel respondeu enervado.

Apesar da ordem do coronel, o sargento Toulon também tinha seus próprios demônios para se preocupar.

– Não posso esperar até amanhã!

– Não vou falar outra vez, Toulon!

– Não me importa! Não quero mais ficar com a culpa em minha mente!

Terminou de falar, o sargento francês arremessou a mochila que carregava nas costas. A mochila bateu no chão, emanando sons metálicos. Moedas de ouro e joias preciosas caíram de dentro da mochila aos pés do coronel. O espanto lhe gerou mil questões, que foram externadas por lábios consternados.

– Como conseguiu toda essa fortuna? – o coronel perguntou.

– Era parte do tesouro que o governador chileno trouxe em seu navio! – foi a resposta de Toulon.

– Que tesouro do governador chileno?

– Willem, seu irmão! – Toulon proferiu secamente. – Ele adulterou os relatórios, escondeu a existência deste tesouro e tomou-o para si. Escondeu-o em sua casa. É um total de 158 mil moedas de ouro, roubados da Companhia.

O rosto ossudo do coronel se contraiu. As veias saltaram- lhe a face.

– São acusações muito sérias, Toulon, é melhor ter certeza do que diz.

– Aqui tem o equivalente a dez mil moedas de ouro. O próprio Willem tentou comprar o meu silêncio, assim como comprou o silêncio de muitos outros oficiais do exército.

A tempestade de emoções que acometeram o coronel era impossível de descrever. Toda a tristeza pela morte da senhora Haringe pareceu se canalizar em algo novo. A surpresa foi apenas uma transição. Todo aquele desalento alimentou uma raiva nunca antes vista nele. Ele foi enganado, roubado e desrespeitado, não apenas por seu irmão alcóolatra, mas por todos os oficiais que foram corrompidos. A vermelhidão dos olhos não mais era de tristeza. Agora, era de raiva. O grito de sua garganta revelava esse sentimento.

– Chame Willem agora! Está na hora de eu lhe ensinar uma lição da qual ele nunca irá se esquecer!

 

***

 

Pela manhã, mais um belo dia alcançou as águas da Bahia de Todos os Santos. Os raios solares iluminaram os navios ancorados no porto de Salvador. Os edifícios espelharam o brilho da alvorada sobre o monte. Muitos moradores já deixavam suas casas para mais um dia de comércio. Os marinheiros já começavam a armazenar as cargas nos depósitos dos navios para que fossem levadas à Holanda. E os soldados se preparavam para mais uma sortida do outro lado dos portões. Desta vez, em busca de cal para cimentar as fortificações que o coronel mandava construir ao longo das muralhas.

O coronel entregou o comando desta expedição a Kijf e a outros capitães do seu exército. Dispensou o major Willem Schouten da missão, pois sua presença foi solicitada na Casa do Governador. Assim, este lavou a face ressacada. Checou se o lugar onde soterrou os baús cheios da prata do governador chileno, como sempre fazia pelas manhãs. Depois partiu ao encontro do irmão.

O sol já percorrera meio caminho antes de ficar a pino quando Willem chegou à Casa do Governador. Ele olhou aos céus. Percebeu algumas nuvens surgindo no horizonte. O cinzento metálico se aproximava da cidade numa cena que não parecia trazer bons presságios.

– Parece que vai chover.

O major Willem falou, assim que colocou os olhos no coronel, seu irmão, que estava já sentado o esperando no salão de entrada.

Então continuou.

– Espero que não atrapalhe a expedição de nossos homens.

O coronel se manteve calado. Nada falou. Com as janelas fechadas e os lampiões apagados, as sombras o encobriam. Ele encarava o irmão com olhar punitivo, como um carrasco prestes a executar uma sentença. O nariz retorcia num sentimento de nojo enquanto a boca se contraía raivosa.

– Está tão calado, Albert. Algum problema? – Willem perguntou, desconhecendo os pensamentos do irmão.

O coronel Albert Schouten cansou de olhar para cara de ressaca de Willem. Não aguentou mais ouvir a voz do mentiroso irmão.

– Acreditou mesmo que conseguiria me enganar, Willem? – enfim, externou seus sentimentos.

– Do que está falando, Albert?

A pergunta fez a fúria subir a cabeça do coronel. Só escutou cinismo. Sentiu seus sentimentos aflorarem. Chegou ao seu limite.

– Eu sei que roubou o tesouro do governador chileno.

O sangue desapareceu da face do mentiroso irmão.

– Acreditou mesmo que eu não descobriria? – o coronel subiu o tom. – Acreditou mesmo que poderia me fazer de idiota? – a voz indignada se elevou, já estava aos gritos ao fim da frase. – O único idiota aqui é o alcóolatra mentiroso e ladrão que está na minha frente!

Nesse momento, o coronel se levantou da mesa tão bruscamente que a cadeira onde estava sentado desabou. Não fazendo caso dela, caminhou na direção de Willem.

– Depois de tudo o que eu fiz! Depois de eu ter lhe transformado, de um bêbado imprestável, num comandante de um exército! Depois de eu ter consertado seus erros incompetentes no cargo que eu lhe dei! Não acredito que fez isso comigo!

A voz do coronel já estava tão alta e feroz que alcançou toda a casa. Acordou a pequenina Charlotte cujo choro, nos cômodos mais internos, tornou o cenário ainda mais angustiante.

– Albert, por favor…

A cada palavra, o raivoso coronel se aproximava mais. Willem nunca vira o irmão mais velho assim. O rompante apavorou o caçula. Este tentou se afastar, com o raivoso irmão continuando seus rijos passos.

As costas de Willem atingiram a parede. Ficou impedido de se afastar.

– Irmão, me perdoe – aterrorizado, tentou negociar. – Ainda podemos dividir o tesouro.

As mãos do coronel alcançaram o pescoço do caçula, impulsionado pela fúrias que as novas palavras lhe causaram.

– Por acaso, me toma por alguém da sua laia!

Os dedos começaram a apertar a traqueia. Grunhidos de sufocamento agora acompanhavam o choro de bebê, numa perversa sinfonia.

– Por que a bebida ainda não o matou, Willem? Por que ainda está vivo para me atormentar? – as fortes mãos continuaram a esganar o franzino pescoço. – Como é que Deus permite que crápulas mentirosos e ladrões sobrevivam neste mundo e permite que pessoas tão boas quanto a senhora Haringe morram? Como é possível? Me diga!

Percebendo Willem prestes a desmaiar, Albert jogou-o para lateral violentamente. O irmão caçula caiu com as costas sobre a mobília da sala, estilhaçando-a em dezenas de pedaços.

O coronel avançou como um cão raivoso. Willem tentou se defender, mantendo as pernas no peito e os braços na cabeça. Mas foi em vão.

– Ela não merecia morrer! – Albert gritou ao chutar suas costelas.

– Não merecia! – Chutou o nariz.

– Não merecia. – Chutou a boca.

– Não merecia… – Chutou a cabeça.

Chutou todo o corpo do irmão. A voz raivosa pode ter perdido força, mas os golpes ficavam cada vez mais violentos.

Não era Albert quem estava ali. Era alguém amargurado pela perda de uma pessoa amada. Era alguém que desejava descontar toda frustação num bode expiatório. Era alguém levado por toda injustiça que o ódio pode causar. O problema com as pessoas calmas é que não estão acostumadas a lidar com a raiva. Assim, quando a tem em níveis tão elevados, não têm a prática de controlá-la. São incapazes de medir suas ações.

O choro da pequena Charlotte se intensificou. A escrava, sua ama-de-leite, ainda tentou tapar os ouvidos da criança, mas era impossível evitar que os golpes de Albert e os gritos de Willem fossem escutados.

O sangue espirrou nas paredes. Os ossos rangeram ao se quebrar. O corpo inchado do major desfaleceu no chão. Willem não mais se defendia. Abandonou a posição fetal que protegia as partes mais vitais. Deixou o peito aberto, livre para os ataques de seu carrasco. Os braços caíram para os lados e a cabeça para trás. Aceitou a macabra punição.

Albert só parou quando as pernas, de tão cansadas, já não o respondiam. Para alguém com o preparo físico de um militar, isso só ocorreu depois de muitos golpes. Ele então olhou pra o corpo ensanguentado e caído. Percebeu o resultado de seu ódio. Mais parecia uma pilha de carne e sangue esparramada.

O remorso derrubou o coronel no sofá ao lado. Começou a chorar.

– Meu Deus! O que foi que eu fiz?

 

***

 

O major Willem Schouten foi levado às enfermarias num dos templos religiosos. Foi colocado num dos quartos mais reservados, na parte de trás, mais próximo da capela. Os padres realizaram os primeiros socorros. Comprimiram os sangramentos. Costuraram os cortes. Imobilizaram as fraturas. Mesmo com todos os cuidados, Willem ficou irreconhecível. Os lábios e as pálpebras saltaram-lhe a face. O rosto todo remendado dava-lhe ares monstruosos.

Os freis Vicente Palha e Manuel Calado nem conseguiram acreditar que o comedido coronel Albert Schouten fora o culpado.

O major ficou vários dias inconsciente. Aos poucos, os hematomas foram cedendo, permitindo a Willem abrir os olhos. Os lábios começaram a se movimentar. A lembrança de tamanha crueldade retornou à sua mente. Veio o dia em que acordou, tendo à sua frente o responsável por seus mais recentes pesadelos.

– Saia daqui agora, Albert – o alquebrado irmão proferiu.

A voz moribunda do major saiu bem mais firme do que o esperado para alguém em suas condições.

O coronel era a própria personificação da comiseração e do arrependimento. Ele estendeu o braço. Tocou os dedos enfaixados do irmão caçula. Tentou se desculpar.

– Eu perdi o controle, Willem. Eu sinto muito.

O irmão afastou o braço. O toque era mais doloroso que suas fraturas.

– Suma da minha vida! – este gritou raivosamente. – Não quero qualquer ajuda sua! Não suporto mais viver sob suas regras!

Willem fechou os punhos. Os dedos quebrados arderam em dor, mas o ódio lhe deu as forças para ignorá-la. Um funesto pensamento fez surgir um sorriso na face, arroxeada, inchada e remendada.

– Um dia, Albert… – o irmão continuou morbidamente. – Um dia todos acordarão com a notícia de que está morto.

A idéia lhe fez gargalhar, tossindo com a dor nas costelas.

Por fim, concluiu.

– E esse será o dia mais feliz da minha vida!

 

 

Planta da Bahia por João Teixeira Albernaz, o Velho (1500s – 1662)

A Estranha no Ninho

–Brasileiros–

Capítulo 5

 

6 de janeiro de 1625

As discussões em Pernambuco tomaram ares exaltados quando o Governador-Geral Matias de Albuquerque mandou suspender um novo socorro que enviava a Bahia em razões dos constantes avisos do capitão-mor da Paraíba, Antônio Lopes de Oliveira. Antes, juntou todos para se informar melhor da rebelião indígena na Baía da Traição. Tomou conselho sobre a justiça da guerra. Para isto, fez juntar em sua casa os prelados das religiões, teólogos e outros letrados, canonistas e legistas. Todos eram unânimes numa decisão.

– Esta é uma causa para a guerra justa!

A situação indígena nas capitanias do norte era mais delicada do que se podia imaginar. Por vinte e cinco anos, a guerra com os índios potiguares causou muitas mortes nas capitanias de Rio Grande, Paraíba e Itamaracá. A paz foi conseguida com a aliança feita junto ao líder chamado Potiguaçu, o maior daquela comarca. E, depois de outros vinte e cinco anos de paz, certamente, ninguém desejava o reinício da Guerra Luso-Potiguar.

Infelizmente, os ódios antigos se reavivaram além do controle com a chegada dos invasores holandeses. Os relatos se tornavam cada vez mais alarmantes.

– Colocaram fogo nas aldeias jesuítas, nos mesmos lugares onde receberam seus sacramentos de batismo.

– Mataram muitos homens nas vilas e engenhos próximos, para saquear seus produtos.

– Capturaram mulheres e crianças para os entregar como escravos brancos aos tapuias do sertão.

Todos os participantes davam seus pareceres indignados. E agora, com os números dos índios hostis aumentando às centenas com novas tribos se aliando aos rebelados, algo tinha de ser feito com urgência.

Matias excedeu acima dos demais demandando soluções.

– Nós já fizemos paz com esses selvagens antes! O que os holandeses estão dando a eles que nós não podemos dar?

Pedro de Albuquerque Melo foi quem primeiro o respondeu.

– Vinte e cinco anos atrás, negociamos a paz com o líder Potiguaçu, um líder prudente e sensato. Hoje, seu irmão Tiguaraçu é alguém que sempre guardou rancor contra os holandeses. Era uma questão de tempo até que retomasse a guerra.

O Governador-Geral olhou para os capitães de companhia Simão Fernandes Jácome, Gomes de Abreu Soares e Pero Vaz Pinto, que estavam a caminho da Bahia com um novo socorro. Então, olhou Gregório Lopes de Abreu que ia por comandante de todos. Finalmente, olhou para Francisco Gomes de Melo, que tomaria o cargo de capitão-mor do Rio Grande. Por fim, deu a ordem final a todos eles.

– Esqueçam a Bahia. Serão todos enviados a capitania do Rio Grande agora, de onde marcharão para a Baía da Traição.

Em seguida, suspirou. Deu a ordem tão indesejada:

– Que a guerra contra os Potiguares recomece!

 

***

 

Enquanto isso, na Bahia, a determinação dos soldados do Rio Vermelho se exaltou com a chegada do novo capitão-mor Francisco de Moura. Muitas novas vitórias eram alcançadas. A começar com o início dos combates onde antes os inimigos tinham total hegemonia: o Mar. O novo capitão-mor fez a João de Salazar cabo de dez barcas para defenderem os navios aliados, que trouxessem mantimentos ou gente do recôncavo ao Arraial.

Não menos sucesso o novo capitão-mor obteve por terra, ao mandar o arquiteto Francisco de Frias reconhecer o sítio em frente ao Portão do Carmo para construir ali uma fortificação que colocasse o inimigo em aperto ainda maior. Em seu resguardo, iam o capitão Manuel Gonçalves, Gabriel da Costa e os mais que daquela parte militavam, incluindo o soldado André Vidal. Ali, se encontraram com os holandeses, durante a qual peleja caiu uma forte chuva. E, por causa da muita água, que cessou o fogo, o negócio houve de vir à espada, ficando por cima com esta arma os soldados do Arraial. Mataram e feriram os holandeses à vontade.

Era outra grande vitória, principalmente, por ter ficado no campo grande número de armas, de que os baianos se aproveitaram e se honraram igualmente. André Vidal, no entanto, pouco pôde comemorar. Tendo a visão da cidade de Salvador ao alcance de seus olhos, ele só conseguiu proferir um desabafo, externado pelo pensamento na mulher amada. Era doloroso saber que ela estava ali em meio aos perigosos hereges.

– Por favor, Ana, Tome muito cuidado!

 

***

 

Ana Paes chegou aos portões da cidade de Salvador levando consigo o passaporte holandês que há meses não utilizava. Um dos soldados tomou o papel em suas mãos. Confirmou ser verdadeiro. Questionou a data da última saída dela, afinal, já faziam dois meses que deixara a cidade pela última vez e só agora retornava. O soldado ainda levou a questão ao seu superior, no entanto, belas jovens dispostas a se engraçar com os soldados eram sempre bem-vindas.

A jovem moça de quinze anos caminhou pelas ruas da cidade, indo direto à Prisão de Salvador, que ficava do outro lado do mercado. Se ao leste estava a Casa do Governador, algumas ruas depois do mercado, a oeste, ficava esse prédio, onde o carcereiro do local a abordou.

– Onde pensa que vai, garotinha?

As visitas aos prisioneiros não eram proibidas. Ana Paes decidiu falar a verdade.

– Preciso que me deixe entrar – colocou sua voz mais solícita. – Fiquei sabendo que meu pai pode estar nessa prisão. Desde a conquista da cidade, ele desapareceu. Por favor, deixe-me ver se ele está aí dentro.

O sentinela escutou. No entanto, não tinha a melhor das intenções.

– E o que eu ganho em a deixar entrar?

Ana Paes baixou o olhar, sabia bem as intenções do carcereiro.

– É uma garota bem formosa – este fez sua face mais maliciosa. – Quem sabe um encontro nas tavernas do porto? A senhorita poderia me mostrar os dotes e talentos das mulheres da terra.

– Faço o que o senhor quiser, mas, por favor, me deixe entrar.

O sentinela abriu um sorriso. Abriu um espaço para a moça passar.

– Está combinado então.

Ana balançou a cabeça positivamente. Rompeu pela sua lateral. Adentrou o prédio. Não sem antes o soldado lhe falar.

– Devo dizer, no entanto, que se encontrar seu pai aí, não tenho como libertá-lo. Todas as chaves da masmorra ficam com o governador Schouten. Por isso, não me venha pedir mais nada, entendeu?

A mão do carcereiro foi direto na bunda de Ana Paes, com direito ao estalar da palmada e um fungado chauvinista de sua narina.

Um sorriso de consentimento surgiu na face de Ana Paes. Este logo desapareceu quando ela virou o rosto. Teve que engolir o sentimento de repúdio.

– Porco imundo! – o insulto ao soldado deixou os lábios de Ana Paes de forma inaudível. Era apenas para a si própria.

E assim ela entrou na masmorra.

 

***

 

Não era a primeira vez que Ana Paes entrava na Prisão da cidade. Dias depois de receber o passaporte holandês, procurou seu pai e seu noivo no local. Estava bem mais cheio à época, mas não encontrou o que procurava. Teve que se conformar com a alternativa mais plausível, de que foram enterrados entre os mortos não identificados.

Essa lembrança foi logo interrompida com um visão.

– Dom Pero!

Lá estava seu noivo, ainda belo e altivo, embora mais magro, sujo e surrado após meses de confinamento.

– Ana? – ele exclamou. – O que está fazendo aqui?

– Meu Deus, eu lhe procurei em todos os lugares – ela ressaltou.

Dom Pero colocou seu braço através das grades. Ana aproximou suas mãos para que os dedos de ambos se tocassem. Ela nem esperou para seu noivo explicar que esteve na Igreja de São Francisco, onde os holandeses esperavam que morresse. Durante semanas, sofreu dor, febre e alucinações, sendo esta a razão de Ana não o encontrar antes.

A moça ouviria essa história depois, antes, lançou a pergunta que tanto fez aos grupos de busca nestes últimos oitos meses.

– E meu pai, Dom Pero? Onde está?

Para sua tristeza, o cenho frágil do antigo capitão baiano esmoreceu. Os olhos fugiram ao chão.

– Eu sinto muito, Ana.

As palavras drenaram lágrimas da jovem garota.

Nos últimos meses, cada negativa do Bispo Dom Marcos e do noviço Antônio Vieira foi uma punhalada em seu peito. Cada pista infrutífera que buscou na cidade holandesa testou sua esperança. Cada vez que tentavam a convencer da morte de seu pai lhe doíam as feridas internas.

Nenhuma delas foi mais dolorosa que a confirmação de Dom Pero.

– Ele morreu no mesmo dia do desembarque. Morreu na minha frente. Eu mesmo cavei a sua cova. Eu mesmo o enterrei.

As lágrimas escorreram por suas bochechas coradas de tristeza. Os olhos se tornaram escuros. A mente esqueceu o tempo presente com as lembranças de sua infância ao lado do pai. No entanto, essas lágrimas não duraram mais que alguns segundo. Ela tratou de enxugá-las. Caminhou para longe de Dom Pero, em direção à saída de suas prisões.

Uma fria voz então falou.

– Espere-me aqui, Dom Pero. Logo estarei de volta.

– Onde está indo?

Ela sorveu as últimas lágrimas que encharcavam sua narina.

– Vou arranjar um jeito de lhe tirar daqui.

 

***

 

Com a frase do carcereiro em mente de que as chaves da masmorra ficam com o governador Schouten, Ana Paes chegou à Casa do Governador, que ficava a alguns quarteirões da Prisão, depois do mercado. Felizmente, neste dia, ao amanhecer, os holandeses deram conta que uma embarcação sumiu dos seus portos. Era um pequeno bergatim que tinha consigo duas peças de bronze e quatro roqueiras. Depois, souberam ter sido roubado pela companhia de Francisco Padilha e Antônio Ribeiro, que entrou furtivamente à nado pela madrugada.

O momento não poderia ser mais perfeito para a entrada de Ana Paes, visto que, indo o governador e seus homens ao porto, não havia sentinelas na entrada da morada. A bela jovem entrou sem dificuldades por uma das janelas ao fundo. Logo se viu na cozinha. E, vindo da sala ao lado, escutou apenas um inesperado som.

– Isso é um choro de bebê? – perguntou para si mesma.

Era o choro estridente de uma bebezinha de alguns poucos meses de vida em busca de sua próxima mamada. Era tão pequenina que nem sequer era capaz de se sentar sozinha.

O primeiro impulso de Ana Paes foi se aproximar para ter uma visão melhor do ambiente. A bebezinha estava num bercinho, acolchoado por lençóis e travesseiros de algodão macio, colocado cuidadosamente sobre um sofá. Ao lado, estava uma mesa de jantar, onde havia apenas um único prato de comida posto à cabeceira. Era a comida do coronel Albert Schouten que fora colocada nesta manhã, mas, tendo ele deixado às pressas a Casa do Governador, para investigar o roubo do bergatim, não pôde saboreá-la.

Subitamente, vendo tão adorável bebezinha ali, sozinha, chorando, um pensamento surgiu em sua mente. Se havia uma criança ali, certamente havia alguém para cuidar dela. Era algo que logo se confirmou com uma voz feminina que ressonou pela casa até os seus ouvidos.

– Calminha, Charlotte. Já estou chegando.

A voz tinha o timbre brincalhão com que as mães carinhosas falam com os filhos. Ana Paes recuou seus passos imediatamente. Buscou se esconder. Entrou na despensa da cozinha. Em meios aos pacotes de grãos e as jarras de bebida, passou a observar tudo por trás das frestas da porta.

– Vamos pegar sua comidinha.

A voz brincalhona ficava cada vez mais próxima. Já entrava na cozinha. Era uma escrava negra. Certamente, não era a mãe da criança, cuja tez era branca como leite e os olhos azuis como o céu. Com certeza era sua ama-de-leite. E estava indo na direção da despensa, bem onde Ana estava.

O olhar rápido de Ana Paes percebeu, numa das prateleiras, alguns pequenos copinhos de leite. A ama-de-leite negra estava indo na despensa para pegá-los. A constatação a fez se jogar num dos cantos da despensa. Estava encurralada, sem ter para onde ir. Só podia esperar ser descoberta.

A porta começou a se abrir.

 

***

 

Felizmente, a sorte estava do seu lado. Uma voz masculina ressonou pelos aposentos da Casa do Governador, fazendo a negra interromper sua ação. Alguém a chamou pelo nome.

– Estou de volta, Francisca.

Era o governador holandês quem chegava. Era musculoso e pálido como todo holandês, de feições fortes e ossudas. Chegava de sua missão no porto de Salvador, sem solução para o desaparecimento do bergatim. Bem poderia ter sido os baianos que o roubaram, mas, não havendo pistas, também poderia por culpa no vento e na maré.

O holandês continuou com suas ordens.

– Pode esquentar minha refeição. Vou terminar de comê-la.

– Sim, senhor Albert. – A negra respondeu. – Deixe só eu terminar de acalentar Charlotte.

Vendo a chegada do comandante das forças holandesas, Ana Paes colocou as mãos na boca. Quase não conteve uma exclamação. A porta da despensa então se fechou. A escrava deixou a cozinha. Ainda com a criança nos braços, colocou o prato de comida do coronel sobre o forno de lenha.

– Quando a comida estiver quente, leve-a ao meu quarto. Terminarei a refeição lá – disse o coronel Schouten, tomando o caminho de seus aposentos.

– Sim, senhor – respondeu a negra, tomando o caminho dos aposentos da criança.

Ana Paes se viu sozinha novamente. Caminhou alguns passos hesitantes de volta à cozinha.

Os passos silenciosos da jovem adolescente continuaram até próximo da sala. Um sorriso surgiu em sua face ao perceber a desejada visão do casaco do governador holandês pendurado na cadeira da mesa de jantar. E bem visível, escapando pelo bolso, o molho de chaves que lhe dava acesso a todas as portas da cidade.

No entanto, não foram as chaves no casaco o objeto que mais lhe chamou a atenção. Foi o prato de comida sobre o fogão à lenha. Olhando-o ali, ao seu lado, Ana retirou um pequeno frasco que trazia em suas roupas.

Era o frasco com a pasta de Pinhão-Roxo.

Ela o trouxera exatamente com a esperança de usá-lo. Uma colherzinha faz do Pinhão-Roxo um potente laxante. Três colherzinhas fazem dele um tóxico irritante. Cinco podem até fazer parar um coração. O que vinte colherzinhas seriam capazes de fazer então? – Ana Paes perguntou para si mesma.

– Está na hora de me vingar desses malditos holandeses!

Ela falou para sim mesma, já abrindo o frasco do veneno e se aproximando do prato de comida do coronel holandês.

 

Invasão Holandesa da Bahia por Autor Desconhecido

A Pessoa Mais Inusitada

Holandeses

6

24 de janeiro de 1625

As semanas não foram nada boas. para os holandeses desde o ocorrido entre os irmãos Willem e Albert. Os negócios começaram a correr ali de forma muito descuidada e irreligiosa, com o coronel não tendo mais o mesmo respeito em prover a cidade das devidas fortificações. Da mesma forma, do lado de fora dos portões da cidade, as coisas, que já iam mal, ficaram ainda pior.

Pelo lado do Carmo, vendo que os espanhóis recebiam ajuda de umas casas próximas, os holandeses foram uma manhã com picões para derrubá-las. Os capitães inimigos Manuel Gonçalves, Jorge de Aguiar e Pero do Campo já esperavam emboscados no mato. Viram eles subindo para destelharem as casas. Saíram com os seus. Mataram dois, e seguiram os outros até a porta da fortaleza São Filipe. Sem falta, só não a entraram porque os de dentro puseram uma peça de artilharia e, disparando com muita munição miúda, os fizeram retornar.

Pelo lado de São Bento, os capitães holandeses nem mais tinham coragem de deixar os portões. Enviavam seus negros confederados pelas roças, que bem sabiam os caminhos, a buscar frutas para lhes venderem. Capturando um destes, o capitão Padilha cortou ambas as mãos e o mandou para a cidade com um novo escrito pendurado ao pescoço. Solicitava um novo desafio aos holandeses, que fez sair da cidade duzentos mosqueteiros. No entanto, quando viram a confiança com que Padilha estava os aguardando além de São Bento e sentindo um rumor no mato, que imaginaram serem índios escondidos para lhe tomarem as costas, não ousaram a cometer o inimigo, nem ainda os esperar.

Os últimos dias foram ainda piores. A situação com o irmão deixou o coronel arrasado. Avisando a todos estar indisposto, se retraiu na Casa do Governador. No entanto, uma carta dos Dezenove Diretores chegou nesta manhã. Trouxe uma notícia assustadora que deveria ser tratada de imediato.

– Senhor governador?

A negra ama-de-leite da pequena Charlotte subiu as escadas na direção dos aposentos do coronel.

– O senhor Kijf e alguns capitães estão aqui. Desejam falar com o senhor – ela elevou a voz para que este a escutasse.

Ninguém respondeu. Não obstante, a negra persistiu no seu chamado.

– O senhor já esta neste quarto há dois dias. Precisa sair, nem que seja para comer alguma coisa.

Seus chamados continuaram sem resposta.

– Senhor? – Bateu algumas vezes na porta.

Nem mesmo um murmúrio veio do interior do aposento.

O silêncio começava a se tornar preocupante.

– Senhor Schouten? Está me ouvindo?

Ela começou a bater freneticamente.

O desespero das batidas foi percebido pelo capitão Kijf, que esperava no salão de entrada. Este subiu as escadarias, caminhou pelos corredores e chegou à porta do quarto de Albert, local onde a ama-de-leite chamava o coronel.

– Algum problema? – Kijf logo a perguntou.

– O coronel não está respondendo aos meus chamados – ela explicou. – Estou começando a ficar preocupada.

O capitão cerrou os olhos. Afastou a negra com o braço. Encostou o ouvido à porta.

– Albert? – ele perguntou.

Gritou mais algumas vezes. E nada.

Então deu dois passos para trás. Solicitou à negra que se mantivesse afastada. Colocou o pé direito para trás, de forma a impulsionar sua corrida. E assim jogou o seu corpo contra a porta do quarto, utilizando seu ombro para golpeá-la. A porta se arrebentou. Jogou lascas de madeiras para todos os lados.

Quando a mulher viu a cena no interior do quarto, gritou com todo o desespero de seus pulmões.

Um fedor pútrido atingiu as narinas do capitão Kijf, que mais pareceu que abrira uma sepultura. O quarto estava imerso numa penumbra. A luz solar mal conseguir atravessar as frestas das janelas fechadas. A cama estava tão desarrumada que revelava dias sem uso.

O coronel estava ali, inerte, ainda sentado numa cadeira defronte à mesa na lateral do quarto. A cabeça estava imóvel, caída sobre seu peito, como se tivesse pendurada só pelos ossos do pescoço.

– Albert? – o capitão Kijf chamou o coronel ao se aproximar.

O prato de comida na mesa à sua frente, ainda estava pela metade, havendo moscas sobrevoando acima dele. As mesmas moscas voavam ao redor da cabeça do coronel. Pousavam sobre seus olhos e lábios, sem que houvesse qualquer reação. O capitão Kijf se aproximou mais. Percebeu as feições pálidas do coronel. Sua cor era cadavérica. O seu peito estava sem se mover.

O capitão lhe tocou o pescoço onde deveria haver pulso. Constatou a terrível verdade.

– Meu Deus! O coronel está morto!

 

***

 

Nos armazéns do porto, ao pé da colina, onde os marinheiros se reuniam para beber e jogar, o major Willem voltara a fazer parte deste cenário. Com uma garrafa do aguardente de cana numa mão, tinha na outra uma das moedas de prata que roubou do governador chileno. Brincava de passá-la entre os nós dos dedos, entre um ou outro gole da bebida. Assim, ele passava a maior parte de seu tempo quando não estava em alguma incursão nos engenhos espanhóis ou socorrendo soldados atacados nos portões da cidade.

O rosto estava bem melhor. Não havia mais inchaços. Os cortes abertos se tornaram cicatrizes, ainda esperando que o tempo as clareassem. Nesta manhã, não participara dos jogos de cartas e dados, ainda esperando que o álcool anestesiasse sua cabeça da rotineira ressaca diária, quando ouviu a voz do capitão Kijf lhe chamar.

– Major Willem, precisamos conversar.

Quando o major se virou percebeu que Kijf não estava sozinho. Ao seu lado estavam todos oficiais da mais alta patente do exército holandês, incluindo os capitães Helmondt, Basselvet, Ysenach, Mollingen e Dirck. Todos ali juntos, portando suas armas e brasões de comando, deixaram o major assustado. Deveria ser algo muito importante para que estivessem reunidos. E, pela face deles, não vieram falar nada de bom.

O mau sentimento apenas aumentou quando os capitães começaram a dar ordens aos soldados e marinheiros do recinto para que deixassem o lugar. Só o major e os próprios capitães deveriam ficar, para uma reunião particular. Até mesmo o taverneiro foi obrigado a sair. Todos os oficiais se postaram ao redor de Willem para que o capitão Kjif falasse sem mais delongas.

– O coronel Albert Schouten, seu irmão, foi encontrado morto hoje de manhã!

– Morto? Como?

– Não havia sinais de agressões físicas em seu corpo – o capitão continuou. – Acreditamos ter sido alguma estranha enfermidade desta terra, mas a possibilidade de envenenamento não foi descartada.

Os olhos do Kijf caíram mais acusatórios sobre o major. Este se mostrava genuinamente surpreso. Era difícil saber se estava dissimulando ou não. Já o Willem, percebendo a desconfiança do capitão, instintivamente colocou a mão em sua espada. Eles vieram me prender, pensou para si mesmo. Vão me acusar do assassinato do meu irmão?, enfim se questionou.

A pergunta que saiu dos seu lábios buscou esta resposta.

– E por que trouxe todos os outros capitães até aqui, Kijf?

Seus dedos apertaram o cabo de sua arma mais firmemente. Continuou seu questionamento aos capitão,

– Poderia ter vindo sozinho para me contar isso, não acha?

Algumas gotículas de suor começaram a brotar da testa. Qualquer demonstração de luto desapareceu com a preocupação de ser acusado por assassinato. A possibilidade revolveu a mente. Fez a dor nas têmporas retornar.

Kijf então respondeu.

– Estamos aqui em Conselho para tomar uma decisão.

Os olhos de Willem cerraram nos outros capitães. Os ouvidos aguçaram para ouvir as palavras seguintes. A primeira das gotículas lhe escorreu a fronte.

– Estamos aqui porque o senhor, como Major, detém agora a mais alta patente do nosso exército. Vossa mercê é o próximo na linha de sucessão para o governo holandês.

Foi a vez dos olhos do capitão se cerrarem no major. A conclusão de suas palavras foi muito mais surpreendente do que Willem poderia imaginar.

– Estamos aqui, Willem para lhe entregar o cargo de Coronel e Govenador da cidade de Salvador!

 

 

 

Parte III

 

 

 

Vista do Porto de Lisboa por Duarte Galvão (1435-1517)

 

A Jornada dos Vassalos

–Ibéricos–

Capítulo 4

14 de Janeiro de 1625

Os grandes nobres do Reino Ibérico embarcaram nos galeões como os heróis da mitologia embarcaram no navio Argo numa lendária missão em nome do seu Rei. Eram tantos nobres que duas armadas foram aparelhadas: uma de Portugal e outra de Castela. Ambas deixaram os portos europeus de Lisboa e Madrid sob uma grande festa popular.

El Rey, no fim, não embarcou. Preferiu ouvir seus conselheiros, mantendo-se seguro no seu palácio em Madrid. No entanto, não os deixou partir sem antes externar palavras de agradecimento e amor por tão honrados vassalos que lhe presentearam com tão poderosa armada, erguida com tão pouco custo à sua Fazenda Real. A carta que enviou a cada um deles era um motivo de orgulho para todos.

 

Para os fidalgos que se embarcam na Jornada da Bahia,

Estou com mui grande satisfação do que os vassalos desta Coroa e a nobreza dela fizeram, correspondendo inteiramente ao meu amor e estima. Se nela assinalaram em ocasião de tanta importância ao meu serviço, à segurança e à conservação de meus reinos, me pareceu lhes dizer por esta carta, para que todos entendam. Pois confio em Deus, que o ânimo e valor de tão bons vassalos hão de resultar desta jornada os efeitos que se desejam e pedem a nosso Senhor.

Muito lhes agradeço o que trabalharam no apresto e despacho da armada, entendendo ser de modo que foram vencidas grandes dificuldades que só o zelo, amor e cuidado com que me serviram, o poderiam conseguir; do que devem estar certos que eu hei de ter sempre lembrança particular. E aos ministros e oficiais que lhes ajudaram, agradeçam da minha parte, o que cada um fez, de maneira que saibam que todos me são muito presente.

Assinado, Sua Majestade El Rey Filipe da Espanha

 

A armada da Coroa de Portugal, aprestada e provida de todo o necessário para a Jornada, partiu primeiro, com 26 navios, aos 22 de novembro de 1624, dia de Santa Cecília, do porto de Lisboa. Assim, fez sua rota à Ilha da Madeira. Depois, passou por entre Tenerife e Palma, nas Ilhas Canárias. E daí tomou caminho às ilhas de Cabo Verde; onde levava ordem para não passar daquela paragem até a chegada da armada da Coroa de Castela, sob o comando do general Fadrique de Toledo, por ser determinação resoluta de Sua Majestade. Com isto se entreteve, ali na costa da África por cinquenta dias.

O general Dom Fadrique de Toledo partiu do porto de Cádiz com a armada da Coroa de Castela, levando 32 embarcações, aos 14 de janeiro de 1625, para encontrar a armada de Portugal, que a esperava no Cabo Verde sobre âncoras. Poucos dias depois, ambas as armadas se encontraram. Uma a outra, se saudaram com estrondo de artilharia, com mais instrumentos de guerra e com outras demonstrações de contentamento, que em semelhantes ocasiões ensina a boa cortesia e a amizade.

E, passados os cumprimentos e visitas de parte em parte, que entre si guardaram os generais e aventureiros, fizeram vela juntas, rumo à cidade de Salvador.

– Que Deus nos guarde e proteja – desabafou o Conde-Duque de Olivares, sozinho, em seus aposentos.

A armada da Coroa de Castela, sob o comando do general Fadrique de Toledo, partira poucos dias depois do casamento de Ramiro e Maria de Gusmão. Já perfazia mais de dois meses desde então e o Conde-Duque aguardava ansioso qualquer notícia. A última era de ambas as armas de Castela e Portugal  terem feito às vela juntas, do Cabo Verde aos 11 de fevereiro de 1625, tomando rumo para a Bahia, levando consigo o nome de uma só pessoa: – Sua Majestade, El Rey Filipe da Espanha.

Breda e Bahia, essas eram as duas grandes preocupações do Conde-Duque, capazes de lhe tirar o sono. Afinal, toda a confiança e empáfia que ostentava apenas escondiam seus maiores medos e preocupações. Era angustiante a ideia de falhar em sua missão, de ser incapaz de elevar o Reino à glória merecida e de alçar El Rey Filipe ao patamar dos maiores reis da história.

No entanto, tudo foi esquecido quando sua esposa Inês adentrou os aposentos esbaforida. Trazia uma notícia de importância ainda maior.

Dona Inês chegou numa alegre pressa, quase flutuante. O Conde-duque nem acreditou quando seus lábios lançaram felizes palavras de uma entusiasmada notícia.

– Nossa filhinha Maria já está grávida!

Era uma felicidade indescritível que, apenas dois meses após o casamento de sua filha, o Conde-Duque já poderia pensar no seu sucessor.

Ele poderia sonhar com um menino para herdar a Casa de Olivares.

 

***

 

Nos corredores de El Alcázar, enquanto o Conde-Duque comemorava a excelente notícia, duas pessoas conspiravam contra ele. Escondidos por entre as sombras das mais de duas mil pinturas que decoravam as paredes do palácio, Sua Majestade, a Rainha Isabel, aparentando uma barriga grávida cada dia maior, anunciava os eventos recentes a Dom Teodósio, o Duque de Bragança.

– Os rumores se confirmaram.

A Rainha Isabel iniciou seu relato.

– Os ingleses declararam guerra à Espanha. Eles enviaram suas forças à Breda sob o comando do terrível mercenário Ernst von Manfeld para auxiliar os holandeses em Breda. O cerco do general Spinola deverá se romper a qualquer momento.

– Até parece que escuto um tom de satisfação em sua voz, Majestade. – o duque português estranhou o contentamento na face da Rainha.

Para sua surpresa, ela respondeu ainda mais alegre.

– Não se engane, Dom Teodósio, essa é uma ótima notícia!

Eram palavras que assustaram o Duque de Bragança. Por mais que desejasse a queda do Conde-Duque de Olivares, nunca passou por sua cabeça utilizar o adjetivo ótima para descrever as terríveis notícias que acometiam o Reino Ibérico. A forma com a Rainha Isabel abordava o assunto deixou-o surpreendido e assustado, principalmente após suas palavras seguintes.

– Com a derrota em Breda, o Reino entrará numa crise militar, financeira e econômica nunca antes vista na história espanhola. Logo todos verão o idiota e o incompetente que é o Conde-Duque.

– Majestade – Dom Teodósio não conseguia segurar seu sentimento de protesto. – Pensei que estivéssemos contra o Conde-Duque, não contra o Reino.

A Rainha, no entanto, já tinha sua opinião formada.

– Acredito que Vossa Excelência não está entendendo a atual gravidade das coisas.

A Rainha lançou seu olhar desaprovador. Em seguida, continuou.

– Não está entendendo que o Conde-Duque se tornou a personificação do próprio Reino! Para um cair, o outro tem que ser derrubado.

A sonoridade dessas palavras exaltou os ânimos de Dom Teodósio.

– Isso é traição, Majestade!

O Duque de Bragança era famoso por ser chamado de o mais perfeito nobre da corte. Austero, honesto, fiel, uma pessoa assim não poderia desejar uma crise ao seu Reino. Nunca poderia desejar a derrota em Breda ou o fracasso na Bahia. Era seu dever, como nobre vassalo e honorável duque, sempre buscar a grandeza do mesmo.

– Eu sinto muito, Majestade, mas não posso fazer parte disso!

Dom Teodósio baixou a cabeça. Realizou uma reverência. Deixou o local. Tomou o caminho de seus aposentos. Em resposta, a Rainha Isabel bradou palavras consternadas. Externou palavras que machucavam o brio da própria Casa de Bragança.

– Para alguém com tão valoroso sangue real, com tanto direito de herança, me surpreende que seja tão acomodado. É um homem preso à sua própria servidão.

Elas atingiram em cheio a ferida da nobreza de sua Casa Ducal.

– Não me surpreende que Bragança tenha perdido o Reino de Portugal.

Eram palavras que romperam dolorosamente os tecidos do orgulho bragantino. Afrontaram a própria honra do bem afamado Dom Teodósio. Fizeram-no deter seus passos. No milésimo de segundo que se manteve parado, de costas para Rainha, hesitante em deixar o local, a sua mente vasculhou por palavras que calariam a Rainha Isabel e manteriam a grandeza de Bragança. Não encontrou nada. Deixou a Rainha, ali, sozinha.

Voltou a caminhar aos seus aposentos, em silêncio.

 

***

 

A Rainha Isabel manteve os olhos fixos no Duque de Bragança enquanto este se afastava de seu caminho e de seus planos. Mesmo quando escapou de sua visão, desaparecendo em meio aos labirínticos corredores de El Alcázar, ela se manteve ali inerte, incrédula por perder tão importante aliado. No entanto, o que ambos não poderiam acreditar era que toda essa conversa era observada por uma terceira pessoa, por alguém oculto nas sombras.

Era alguém que, desejando se encontrar com a Rainha para discutir os mesmos planos futuros, encontrou-a na discussão com o Duque de Bragança. Assim, se escondeu numa das curvas dos corredores e aguçou os ouvidos para escutá-los. Permaneceu imóvel para analisar suas reações. Agora, algum tempo depois que Dom Teodósio esvaneceu dentre os corredores, ela revelou sua presença. Proferiu palavras em alta voz.

– Espero que as palavras de Dom Teodósio não lhe façam mudar de ideia, Majestade.

– Não mudaram, embaixador – a Rainha respondeu, nem precisou virar sua cabeça, apenas continuou. – Nosso plano deve continuar, não posso dar chance para o Conde-Duque se safar!

Era o Embaixador da Inglaterra, representante do recém-coroado Rei Charles que acabara de declarar guerra ao Reino Ibérico. Com o retorno das hostilidades entre ingleses e espanhóis, este já deveria ter retornado aos seu reino de origem. Não o fez em razão de uma missão especial encomendada por seu rei.

– Conseguiu o que eu lhe pedi? – ele perguntou,

– Sim, eu consegui! – ela respondeu.

Todos sabiam o quanto os cofres reais estavam vazios. Não importava o quão gloriosas fossem as vitórias nos campos de batalha em Breda ou na Bahia. Se os gastos militares, que sangravam a economia espanhola, não fossem estancados, se iniciaria uma crise sem precedentes na história espanhola.

Mais importante do que o sucesso em Breda e na Bahia, era a chegada do equivalente a 17 milhões de moedas de ouro que a Frota da Prata estava trazendo para Madrid.

A Rainha Isabel não estava disposta a deixar o destino do Conde-Duque à própria sorte. Desejava garantir sua queda, não importando o custo. Em sua busca por vingança, esse era o melhor caminho para o futuro do Reino e do seu marido. Por essa razão, ela retirou um papel escondido em suas vestes. Estendeu a mão. E o entregou ao Embaixador Inglês.

– Essa é a rota da Frota da Prata. Tudo o que precisam para impedir que ela chegue ao Reino está aqui!

O embaixador tomou  o mapa em suas mãos com um sorriso maligno digno dos piores vilões de balada.

 

***

 

As semanas seguintes se passaram, com um único pensamento na mente do Conde-Duque: Eu serei avô, o vovô Olivares!, a ideia lhe roubou um sorriso. Ele se sentia flutuando nas nuvens. Era a chance de perpetuar sua linhagem e manter sua Casa Ducal protegida, com um futuro garantido. Era a possibilidade de um herdeiro, um sucessor, que até este momento Deus havia lhe negado. Se não veio pelo ventre da esposa, viria pelo de sua filha.

Todas essas sensações que o enchiam da mais plena esperança quase o impediram de ouvir a entrada de um mensageiro nos seus aposentos. Todo esse alegre arroubo de satisfação desapareceu de imediato com a mensagem trazida. Era Dom Fernando de Girón, principal membro do Conselho de Estado, que lhe trouxe notícias tão pavorosas.

– Olivares, algo terrível!

– Calma, Dom Fernando – o Conde-Duque falou, tentando esconder o quanto o desespero do conselheiro estava lhe assustando. – O que houve?

Seria uma derrota no Cerco a Breda? Ou uma tormenta atingindo Jornada dos Vassalos? A mente percorreu todas as piores possibilidades. Não era nada disso. Era algo ainda pior. Era o plano da Rainha Isabel sendo posto em prática, pois o manco veterano das guerras de Flandres assim anunciava.

– Cento e cinco navios ingleses! O Rei Charles enviou uma armada gigantesca para interceptar a Frota da Prata! Meu Deus, Olivares! Temos que enviar todos os nossos navios para socorrê-la ou será o nosso fim!

Um frio subiu a espinha do Conde-Duque. Um arrepio percorreu todos os pêlos do seu corpo. Um aperto súbito nas têmporas dilacerou sua cabeça. Uma ansiedade terrível dominou a sua mente. Retirou o ar de seus pulmões. Causou-lhe uma vertigem desequilibrante. Essas eram sensações que não explicariam o terror que acometeu o Conde-Duque neste momento.

– Socorrê-la? Com quais navios, Dom Fernando? Toda a Armada del Mar Oceano está a caminho da Bahia agora!

O desespero tomou conta de sua face.

 

 


Lista de Chamada para Pilhagem por Jehan Georges Vibert (1840–1902)

 

O Grande Comandante

Holandeses

7

 

27 de Março de 1625

Estão loucos!, este foi o primeiro pensamento de Willem ao ouvir as palavras do capitão Kijf. Como posso assumir o cargo de Coronel do exército e Governador da cidade?, o próprio Willem se perguntava. Nem  mesmo era capaz de discordar ser um alcoólatra, um mentiroso, um ladrão e um irresponsável. Que era a ovelha negra da família Schouten. Que até seus pais tinham vergonha de considerá-lo um filho. E agora toda a responsabilidade do exército holandês no Novo Mundo caía sobre seus ombros.

Era realmente impossível de acreditar.

– Aceita ou não o novo cargo, Willem?

A pergunta de Kijf o atingiu com toda a seriedade da situação. Era sim inacreditável para Willem escutar essas palavras, mas também era tudo o que sempre desejou ouvir. Era a chance de mostrar sua capacidade, sem a sombra, nem a interferência do seu irmão mais velho.

– Sim, eu aceito.

Kijf estendeu a mão. Segurava algum tipo de papel timbrado.

– Ótimo – continuou quando o novo coronel tomou o documento em suas mãos. – Quando encontrei seu irmão morto, eu estava o procurando para entregar esta carta trazida pelo iate Windt-Hondt hoje pela manhã. Está assinada pelos Dezenove Diretores. Acredito que é de sua responsabilidade agora.

– E o que diz?

– É melhor o senhor mesmo ler.

O conteúdo da carta era assustador. Ela avisava dos avistamentos realizados por embarcações aliadas na costa da África. Noticiava que o rei espanhol organizara uma armada de socorro para reconquistar a Bahia de Todos os Santos. Eram 53 navios de guerra e 14 mil homens de terra e mar que se preparavam para reconquistar Salvador. Todos os navios já se encontravam na Ilha de Santiago no arquipélago de Cabo Verde, o mesmo arquipélago onde os holandeses também fizeram parada antes de chegar ao Novo Mundo. Estavam tão próximos que bem poderiam chegar a qualquer momento.

De todas as más notícias escritas na carta, havia pelo menos um consolo em seu conteúdo. Os Diretores prometeram preparar uma armada de resposta. Disseram que um socorro estava sendo aparelhado e que teria números próximos aos do inimigo. Era sim reconfortante ouvir tais promessas, mas a preocupação do coronel não diminuiu nem um pouco. Afinal, a armada inimiga já estava em Cabo Verde, de forma que medidas urgentes já se faziam necessárias.

– Meu Deus! O que vamos fazer? – Willem era tomado pelo desespero.

– Esperávamos que o senhor nos dissesse – Kijf rebateu friamente.

– Eu… – o novo governador tartamudeou.

– Estamos esperando as suas ordens, senhor coronel – outro capitão intercedeu.

O beberrão Willem Schouten ficou tão desnorteado que derrubou seu copo de aguardente. O líquido escorreu pela madeira até o chão, ele se engasgou na própria saliva.

– Eu… – tentou continuar não conseguiu.

Sentiu o peso da responsabilidade. Era arrebatador.

– Eu não posso – por fim, falou se levantando do seu assento.

Correu para a parte de trás da taverna.

 

***

 

O novo coronel do exército holandês atravessou o recinto. Chegou até na área particular do taverneiro. Era local onde se guardava os caixotes de bebida. Ali, Willem se escondeu de todos. Caiu de joelhos. Vomitou no chão. Onde está agora, meu irmão? Diga-me o que fazer, por favor?, o sentimento de perda enfim o atingiu.

Uma voz surgiu atrás do recém-nomeado coronel.

– Acredito que conseguirá fazer isso, Willem.

Era o capitão Kijf, que sozinho o perseguira até ali.

– Não me importa se matou ou não o seu irmão – ele continuou. – Os laudos descreverão que foi uma enfermidade tropical desconhecida.

Em seguida, estendeu a mão para Willem.

– Não fui eu – o novo coronel respondeu.

– Não importa – o capitão Kijf retrucou.

Ele manteve a mão estendida. Então continuou.

– Precisamos de sua decisão.

O coronel limpou a boca da bile regurgitada.

– Eu não conseguirei fazer isso sozinho – duvidou de si mesmo outra vez.

– Eu estarei do seu lado – o capitão Kijf manteve as palavras de apoio. – Eu explico o que tem que dizer.

Os olhos prescreveram cumplicidade. As mãos se apertaram. O capitão ajudou o novo coronel a se levantar. Conduziu-o de volta ao salão principal, onde estavam os outros oficiais, enquanto lhe dizia as palavras certas para confrontar o problema. Juntos, se colocaram defronte aos oficiais. Houve um momento de hesitação do novo coronel. Houve uma lembrança no finado irmão. Houve um medo insurgindo. Pensou em desistir de tudo.

Felizmente, esses pensamentos foram logo sobrepujados.

– Vamos fechar a cidade! – O coronel deu sua primeira ordem. – Nenhum espanhol ou holandês entra ou sai sem minha permissão. Os padres voltarão para suas celas. Nossas tropas ficarão em alerta total e os navios sempre prontos para o combate.

Depois, colocou a mão no ombro do seu bom amigo.

– Kijf será meu braço direito. Será promovido a major.

Por fim, veio a lembrança de um trunfo que nunca poderia ser esquecido. Se Willem estava longe de ser um bom comandante, havia alguém capaz de vencer os espanhóis em qualquer situação. Lembrou-se do vice-almirante que estava em algum lugar ao norte da capitania de Pernambuco.

– E chamem Piet Heyn de volta. Quero-o o quanto antes em Salvador, liderando nossos navios quando o inimigo chegar – por fim, proferiu.

E assim, no mesmo dia, um veloz iate foi expedido com o chamado.

 

***

 

Longe da Bahia, tendo já atravessado a capitania de Pernambuco, nas fronteiras longínquas da Paraíba, o rufar de tambores numa cadência selvagem trovejava de um denso matagal. O local era a Baía da Traição, na altura de 6 graus abaixo da linha do Equador, onde a costa paraibana era envolvida por uma linha de arrecifes. Estes, que na preamar ficavam alagados, na baixa-mar se descobriam. Era onde o mar se arrebentava neles, servindo de anteparo aos navios que tentassem entrar. Não obstante, cinco navios holandeses liderados por Piet Heyn ancoraram nesta baía meses atrás.

Esses holandeses remaram seus batéis. Desceram à terra firme. Avançaram mata adentro, até uma grande lagoa onde um pequeno povoado espanhol tinha uma capela. Os holandeses seguiram para lá, mas não encontraram por seus moradores terem fugido. Eles deixaram trinta caixas de açúcar e alguns víveres para trás, mas o grande prêmio foi a chegada de selvagens indígenas ressentidos dos espanhóis por guerras passadas. Eles surgiram da mata demandando falar com o líder holandês.

Não demorou para o vice-almirante Piet Heyn começar suas incursões nas terras paraibanas com a ajuda dos próprios selvagens indígenas.

– Ó, Tiguaraçu, chefe dos Potiguaras!

No primeiro mês, Piet Heyn enviou o capitão Boshuysen, com setenta soldados e alguns marinheiros, a procura de refrescos para os doentes, sendo-lhe muito recomendado que não ofendesse os amigos indígenas. Esse capitão retornou quatro dias depois, trazendo uma mulher espanhola como prisioneira, quatro cavalos e cerca de cem laranjas. Viu também muitos animais, mas por estarem escondidos nas matas não os pôde trazer.

Na mais recente incursão, Piet Heyn enviou os capitão Swart e Jan van Dijcke, com cento e cinquenta homens cada um, numa incursão em dez batéis e esquifes. Eles foram acompanhados de cinquenta indígenas armados com arcos e flechas, e liderados pelo filho do chefe Tiguaraçu, chamado Pedro Poti. Voltaram três dias depois com alguns animais mortos e muitos cocos. Eles contaram que, junto ao rio Mamanguape, encontraram três bandeiras inimigas.

– Pedro Poti, seu filho, procedeu muito bem ao lado de nossos soldados!

O vice-almirante Piet Heyn aprazava o aliado indígena. Mostrava um sorriso bem aberto no rosto redondo.

No rio Mamanguape, contra os soldados das três bandeiras inimigas, o capitão Jan van Dijcke lançou seu ataque primeiro com grande bravura. No entanto, não se portou muito bem nesta ocasião o capitão Swart que ficou relutante em enviar um socorro. Se não fossem os índios de Pedro Poti e os outros oficiais de menor patente, que acudiram o outro capitão, as forças holandesas teriam recebido grande dano. Ainda tiveram três mortos e alguns feridos, mas levaram a melhor depois de colocarem os espanhóis em fuga.

Os holandeses tinham muito a agradecer aos indígenas por sua coragem e lealdade naquela ocasião. Ficaram particularmente impressionados com a ação do filho de Tiguaraçu ao fim do combate.

– Graças ao seu filho, vencemos os espanhóis – o vice-almirante comentou. – Muitos dos meus homens só estão vivos por causa dele. Fiquei particularmente impressionado quando tomamos a bandeira inimiga, pois Pedro Poti, junto com seus guerreiros, a fez imediatamente em pedaços.

Piet Heyn sorriu desdenhosamente.

– Esse tipo de ódio é louvável – ele mostrou os dentes mais largamente.

O chefe indígena sorriu em retorno.

– Meu filho é um dos maiores entusiastas da guerra contra nossos inimigos comuns. Nunca foi a favor da aliança firmada entre os colonizadores e meu irmão há muitos anos atrás. Tinha vergonha em dizer que o antigo líder desta tribo morreu lutando ao lado deles.

O chefe Tiguaraçu estava pronto para contar a história do irmão, aliado dos espanhóis. No entanto, um grito o interrompeu. Foi emanado por alguém que tinha especial apreço por esta história.

– Não ouse falar no nome do meu pai!

Um jovem indígena surgiu dos recantos da mata próxima. Tinha pouco mais de vinte anos de idade.

– Está cometendo um erro, tio – ele continuou o brado para todos ouvirem – Os holandeses são nossos verdadeiros inimigos!

O jovem, no entanto, não conseguiu se aproximar mais. Os guerreiros do líder Tiguaraçu já o alcançaram e, visto que estava desarmado, foi facilmente imobilizado e colocado de joelhos.

Tiguaraçu levantou a voz enervada. Deu ordem aos seus guerreiros.

– Tirem-no daqui!

E assim os guerreiros o fizeram. Carregaram o jovem indígena para longe enquanto este continuava a gritar: – É um erro!

A situação intrigou o vice-almirante Piet Heyn.

– Quem é esse rapaz?

– É filho do antigo líder Potiguaçu, meu irmão, que iniciou a paz com os espanhóis e morreu lutando por eles. O rapaz foi educado pelos padres jesuítas. Tem uma visão errada sobre as necessidades do nosso povo.

O vice-almirante cofiou a barbicha. Cerrou seus olhos pequenos ao analisar a situação. Os gritos do rapaz o deixaram um tanto inquieto, pois constatava que nem todos os potiguares possuíam mesma a opinião de Tiguaraçu contra os espanhóis.

 

***

 

Piet Heyn continuou a fazer incursões em território espanhol, junto com os índios potiguares liderados pelo violento filho de Tiguaraçu. Entre essas incursões, houve uma liderada pelo capitão Boshuysen pelo rio Mamanguape em doze batéis com cento e sessenta soldados além dos marinheiros e indígenas. Voltou três dias depois, após encontrar casas abandonadas a oito léguas rio adentro e trazer dezessete reses de bois ao quartel.

Houve outra incursão no dia seguinte que durou quatro dias, que resultou em mais sete reses capturadas. Também não viram inimigos, exceto por uma suposição de perceberem uma fuga de portugueses. Enfim, uma terceira incursão foi planejada por Pedro Poti, levando os holandeses para um engenho no Rio Grande, onde encontraram trezentas caixas de açúcar e numeroso gado, mas não pôde trazer nem este, nem aquele, por ter de fazer longo caminho por matas vastas e duas ou três horas por águas fluviais.

Esses eventos ocorreram num espaço de apenas quinze dias. Os holandeses, cada vez mais, reconheciam o terreno e confiavam nos indígenas potiguares. Só que tudo mudaria com a carta enviada pelo novo coronel holandês.

– Tem mesmo que partir?

O capitão Hendricks, um dos melhores homens do vice-almirante, era quem o questionava enquanto observava o comandante preparar o bote de retorno à sua embarcação.

– São ordens de nossos superiores da Bahia – Piet Heyn o respondeu. – Tenho que obedecer.

– Tiguaraçu conseguiu novos aliados – Hendricks intercedeu. – Disse que trará os líderes Jaguaribe dos Potiguares do norte e Cipoúna dos Tapuias do sertão. É uma desfeita a todos esses índios se partirmos depois de tudo o que conseguimos aqui.

– Por isso quero que fique aqui, Hendricks.

O vice-almirante tocou-lhe o ombro.

– Quero que mantenha nossas forças ativas e continue as incursões em território inimigo para que estejam ainda mais fortes quando eu retornar.

O capitão suspirou. Continuou a lamentar a situação.

– Se pelo menos eles estivesse enviando o senhor para um lugar mais próximo, mas logo para a África!

Estranhamente, a carta do coronel Willem Schouten não solicitava o retorno de Piet Heyn à Bahia como este havia escrito originalmente. Ela o enviava para ainda mais longe, para a Angola. Só poderia haver uma razão para a mudança do conteúdo desta mensagem: certamente, alguém no exército holandês estava agindo para sabotar os interesses da Companhia das Índias Ocidentais. Havia um espião em suas fileiras.

Desconhecendo esse fato, o mesmo cenho de dúvida no capitão também estava no vice-almirante, mas este logo revelou que o conteúdo da carta explicava a razão desta suposta decisão dos oficiais em Salvador.

– Eles estão solicitando negros para os engenhos conquistados e para o trabalho nas roças do recôncavo – Piet Heyn coçou a cabeça. – Assim, temos que pensar que essa é uma boa notícia.

Ainda assim não conteve a sensação de estranheza.

– Se tomaram tal decisão, é porque as coisas em Salvador devem estar às mil maravilhas.

 

 

Frei Vicente Palha do Salvador por Autor Desconhecido

 

 

A Esperança no Horizonte

–Brasileiros–

6

1º de Abril de 1625

Ana Paes desceu desde a janela da Casa do Governador até o beco estreito aos fundos da residência. As mãos se penduraram na beirada. O corpo se soltou ao ar. Os pés tocaram o chão. O impacto fez tilintar o molho de chaves que carregava, cujo som a impulsionou para sair dali o mais rápido possível. Começou a correr.

Ana Paes surgiu sozinha à porta das prisões holandesas. Aproximou-se do desprezível e imundo carcereiro que guardava a frente. Em seu ouvido, falou o quanto desejava aquele homem. Disse que não conseguiu parar de pensar nele um só momento. Revelou que necessitava de um corpo masculino para aparar seus solitários sentimentos. Mesmo uma inexperiente menina como Ana Paes, passou tempo o bastante com os holandeses para saber como manipulá-los. Afinal, que soldado conseguiria resistir ao chamado de uma bela e jovem moça pedindo para ser tocada?

Uma hora depois, como combinou com Ana Paes, o soldado partiu ao seu encontro numa das casas do centro da cidade, a alguns quarteirões de distância apenas. Se em quase um ano não houvera qualquer tentativa de fuga dali, o que seriam algumas horinhas longe, pensou o carcereiro. Não seria a primeira vez que abandonava seu posto. No entanto, ele nunca encontraria Ana Paes no local combinado, pois, não mais que alguns minutos depois que partiu, a moça entrou nas prisões. Atravessou seus corredores. Chegou à cela do noivo. Sabia que tinha de ser rápida. E depois de testar algumas chaves que trouxera consigo, a porta se abriu.

– Temos que sair daqui rápido, antes que o guarda volte – completou.

Ambos Ana Paes e Dom Pero atravessaram os corredores da prisão. A saída furtiva dos calabouços logo se tornou um caminhar calmo e sereno pelas ruas de Salvador, que terminou nos fundos da igreja matriz da cidade. Lá, observou dois padres, de frente ao altar, que conversavam e consolavam os fieis. Eram os frades Vicente Palha e Manuel Calado, dois conhecidos prisioneiros e críticos do governo holandês.

– Por favor, frades – disse com urgência na voz. – Preciso muito da vossa ajuda.

Um dos frades, de barba branca longa e profundas rugas, levou Ana Paes e seu noivo até as partes mais internas da igreja, já na sacristia. Era o velho frei Vicente Palha, que escutou atentamente toda a história da jovem e corajosa menina. Nem pode acreditar na audácia de seus atos nas últimas horas.

– Alguém reconheceu vossas mercês? – o velho clérigo perguntou.

– Acredito que não – Ana Paes respondeu.

– Ótimo – o frei Vicente respirou aliviado. – Entrem rápido então.

Os dois assim o fizeram.

Dom Pero olhou em volta. Analisou os vários paramentos, roupagens e livros clericais na sacristia enquanto o frei continuou a questioná-los.

– O que pretendem fazer agora?

– Temos que sair da cidade – Ana Paes respondeu. – Não é seguro para Dom Pero ficar aqui.

Frei Vicente Palha suspirou. A incredulidade e preocupação em sua face revelavam que sair da cidade não era algo fácil. Dezesseis clérigos católicos estavam presos no interior de suas muralhas há quase um ano. Tentaram de tudo para passar pelos portões, sem obterem sucesso nessa ação. Essa lembrança impulsionou as palavras seguintes de desesperança da boca do frade.

– E como pretendem fazer isso se Dom Pero não possui um passaporte?

O primeiro pensamento de Ana Paes foi forjar o documento para o noivo. Algo que todos sabiam não ser uma tarefa fácil. Seria necessário escrever um texto em holandês, falsificar um selo da Companhia Ocidental holandesa e forjar a assinatura do govenador Schouten. Isso tudo sem levantar suspeitas. Se já era arriscado antes, se tornou impossível não mais que dois dias depois, como o frei Calado explanou.

– O governador Schouten foi encontrado morto esta manhã.

– Morto? – os olhos de Ana foram tomados pela surpresa.

Ela lembrou do momento em que tinha a pasta de Pinhão na mão. Lembrou do seu desejo de envenenar a comida do governador holandês. Tinha o mais genuíno desejo de matá-lo. No entanto, não teve a coragem de realizar um assassinato. Não fui eu, ela tentou convencer a si mesmo. Alguns momentos de introspecção passaram em sua mente. Chegou a duvidar das próprias recordações.

– Desconfiam de alguma enfermidade tropical – o frei continuou. – Assim, avisaram que os portões da cidade serão fechados para investigar o que aconteceu e completaram dizendo que: os passaportes foram anulados!

Por fim, o outro completou.

– Ninguém mais entra, ninguém mais sai.

 

***

 

Longe dali, do lado de fora das muralhas, durante as semanas que se passaram, André Vidal tentou de tudo para entrar na cidade. Ele participou de todos os combates próximos aos portões. Fazia-o, não apenas na companhia de Antônio Moraes, mas também com todas as companhias que tivessem ataques programados e planos de emboscadas. Fosse com Manuel Gonçalves, nos Portões do Carmo, fosse com Francisco Padilha nos portões de São Bento, o soldado paraibano se voluntariava.

Nenhum delas era capaz de romper os portões da cidade, sempre tão bem guardados e defendidos pelos holandeses.

– Maldição – disse em meio aos indígenas no retorno ao arraial.

Os selvagens indígenas eram sua última esperança. Eram a principal parte do exército baiano e que mais horror metia aos inimigos. Quando os holandeses saíam e andavam pelos caminhos ordenados em suas companhias, estando o sol claro e o céu sereno, viam-se subitamente sobre si nuvens de flechas, que os trespassavam. Enquanto preparavam um tiro de arcabuz, os índios já haviam despedido dos arcos pelo menos duas flechas. E ainda que os flechados não morressem em campo, morriam depois, porque as flechas eram ervadas com veneno que lavrava por dentro.

Infelizmente, toda a força bruta e coragem selvagem era incapaz de ajudar André Vidal. Veio a notícia de que o inimigo fechou os portões da cidade. Estava tão oprimido e receoso, que lançou ordem de que ninguém pusesse os pés fora da cidade. Tinham os limites da cidade como estreita prisão. Nem mais saíam para ataques e pilhagem, nem sequer deixavam seus aliados entrarem. Nem mesmo os possuidores de passaportes, nem mais ninguém.

Todos assim eram do mesmo parecer.

– Eu sei que deseja entrar na cidade, André, mas não o conseguiremos pela força – o líder indígena Afonso Rodrigues, da Cachoeira, respondeu.

As forças de defesa da Bahia só conseguiam avançar sobre a cidade até onde os canhões holandeses alcançavam. E, mesmo que se aproximassem o bastante para chegar aos portões, os sentinelas acima das muralhas, em clara vantagem, massacrariam qualquer força que tentasse atravessá-los.

– Não posso perder as esperanças – André respondeu.

Nem que tivessem cem mil homens, os baianos seriam capazes de vencer defesas tão poderosas. Era o que o rapaz ouvia de seus comandantes.

Só um milagre faria os portões holandeses abrirem outra vez.

 

***

 

As semanas passaram com ambos Dom Pero e Ana Paes escondidos na sacristia da igreja. Ela ainda deixava o local de tempos em tempos para comprar alimentos e ver o que acontecia na cidade. Ele não tinha uma rotina diferente da que estava vivendo na prisão, preocupado em ser reconhecido ou ser solicitado a mostrar um passaporte. Mesmo as vestimentas monásticas eram de pouca ajuda, pois os olhos holandeses sobre os clérigos eram sempre investigativos.

Enfim, chegou a semana da páscoa. Os padres se acharam muito atarefados com o movimento de fieis aumentando em razão das festas. Assim, estava cada vez mais perigoso para Ana Paes e Dom Pero serem encontrados por alguém que buscasse falar com os frades na sacristia.

Enfim, no domingo de Páscoa, dia da ressurreição de Cristo, 1º de abril de 1625, Ana rezou pela primeira vez depois de quase um ano. Voltou a pedir a Deus por ajuda. Solicitava um milagre. Nesse dia, quando às vésperas da manhã, a hora que na igreja costumava cantar Aleluia, suas orações foram interrompidas pelos alarmes holandeses.

Esta seria uma Páscoa da qual os holandeses nunca esqueceriam.

– O que está acontecendo?

A menina de quinze anos de idade perguntou para si mesma. Correu para fora da igreja. Viu os soldados subindo as escadarias nas muralhas e nos postos de observação. Aglomeravam-se principalmente nas torres e passarelas que defendiam os Portões do Carmo, pois observavam e apontavam para algo nos horizontes marítimos.

Ana Paes correu ao interior da igreja outra vez. Subiu as escadas circulares da torre principal. Chegou ao campanário do templo, tomando apoio no sino da igreja, onde enxergou uma incrível visão.

– O que está acontecendo, Ana? – Dom Pero a perguntou, após a seguir pelas mesmas escadarias.

Eram dezenas de navios.

Surgiam no horizonte, postos em meia-lua. Navegavam em direção à entrada da Bahia. Eram tantos, quase sessenta, que, enfileirados, de largo a largo, eram capazes de acercar, desde a ponta do Forte Santo Antônio até a Ponta de Tapuípe, toda a enseada em que está a cidade. Observando tão incrível visão e reconhecendo com seus aguçados olhos as bandeiras hasteadas nos mastros, Ana Paes respondeu o noivo com um alegre semblante.

– São as armadas do Reino, tanto de Portugal quanto de Castela, que chegaram para nos salvar – ela falou, abrindo um sorriso.

 

Ataque Holandês a Bahia por Visscher Gerritsz (1650)

 

Os Preparativos de Guerra

Holandeses

8

1º de Abril de 1625

Na Baía da Traição, deliberou-se a grave decisão de deixar para trás tudo o que haviam ali conquistado. Muito embaraçado se achava o vice-almirante Piet Heyn para tentar alguma empresa contra o inimigo, por não ter ordem expressa dos Dezenove Diretores, nem do Governador da Bahia. Por outro lado, abandonar os indígenas, que já haviam praticado tantas hostilidades contra os espanhóis, era duro e estranhável.

O capitão Hendricks desejou tirar proveito da situação com os potiguares para não perder as boas disposições que encontrou. Quando os indígenas souberam que o vice-almirante estava deliberado a partir, ficaram muito perplexos. Previram qual o destino que os aguardava por ter como certíssimo que os espanhóis os haviam de castigar e tomar emenda deles.

Por essa razão, quando o vice-almirante desapareceu com sua flotilha no horizonte, deixando apenas o navio do capitão Hendricks para trás, a primeira providência deste capitão foi tranquilizar os índios.

– Reitero as palavras do vice-almirante Piet Heyn.

O capitão Hendricks abriu os braços. Chamou a atenção de todos os indígenas à sua frente. Atrás dele, estavam os homens de sua companhia. Ao seu lado estava o líder Tiguaraçu. Os outros chefes indígenas, no entanto, estavam agitados com a situação. Sentiam-se abandonados.

O filho de Tiguaraçu, Pedro Poti, tentava tomar o lado do pai em acalmar os demais, mas não escondia a forma como se sentia traído pelos holandeses. O já relutante Jaguaribe, irmão de Tiguaraçu, era o mais revoltado com a situação. Demandava uma explicação. E o recém-chegado Cipoúna dos Tapuias já desejava abandonar tudo e voltar às suas terras no sertão.

– Essa é uma situação temporária – o capitão Hendricks continuava. – Nossos navios logo voltarão para continuar o assédio aos espanhóis. Prometo que ninguém ficará à mercê dos inimigos.

As palavras do capitão, no entanto, não surtiram efeitos.

Surgindo de dentro da mata, uma lança selvagem atravessou os céus sobre a massas de guerreiros indígenas na direção do capitão holandês. Este se esquivou a tempo de não ser atingido, não sem que a lança acertasse o soldado holandês logo atrás. Este urrou de dor. Caiu ferido no chão arenoso.

Assustado, o capitão, com olhos esbugalhados, procurou o autor do disparo, que logo surgiu conclamando seus irmãos para guerra.

– Povo Potiguar!

Era a voz do revoltoso sobrinho de ambos Tiguaraçu e Jaguaribe. Ele chegava ao local com seus próprios guerreiros. Tinha colares de ossos no pescoço, ornamento de penas nos braços, gibão de couro espanhol no corpo e um grito de guerra na garganta.

– Dez anos atrás, nosso povo seguiu o grande Potiguaçu, o Camarão Grande, meu pai, na guerra contra os franceses no Maranhão. Agora convoco todos para que me sigam na guerra contra esse novo invasor que desembarcou nesta baía! É o dever com nossos antepassados que nos obriga a expulsar os holandeses destas terras!

Tendo pouco mais de vinte anos de idade, o filho do famoso Potiguaçu levantou agilmente uma espada europeia para o alto enquanto os guerreiros atrás emitiam uivos selvagens. Eram intercalados pelo bater da mãos sobre os lábios. Era um som que os invasores holandeses temiam enormemente.

Juntos, os guerreiros do jovem líder saíram de dentro da mata. Avançaram contra os invasores.

Quando o belicoso Pedro Poti, estava pronto para comandar a defesa, tomando um tacape na mão e flamejando ódio no olhar, a mão paterna lhe tocou o ombro. Tiguaraçu tomou a palavra, já com sua arma em punho.

– Leve os holandeses para um lugar seguro!

Não sem ouvir os protestos do violento filho.

– Pai, eu sou o grande guerreiro do nosso povo!

– Sim, filho – Tiguaraçu retrucou. – Mas há coisas que é o chefe da tribo quem deve fazer! Agora, vá!

O irrepreensível Pedro Poti entendeu as palavras paternas. Entendeu a vontade do próprio chefe potiguar em lutar contra os contrários de sua própria tribo. Não questionou a necessidade dele em impor o respeito que lhe era devido. Apenas balançou a cabeça afirmativamente. Chamou alguns dos seus guerreiros mais confiáveis. Partiu com os holandeses.

O velho chefe Tiguaraçu tomou o caminho oposto. Exaltou seu próprio grito de guerra aos seus guerreiros, que como os contrários, uivaram nervosamente com o bater de palmas na boca, aceitando a batalha pelo controle da tribo Potiguar. As duas turbas de guerreiros selvagens se chocaram uma contra a outra num sangrento e barulhento confronto que durou toda a manhã.

A batalha se encerrou quando um dos chefes foi morto, na presença de todos, por dezenas de cutiladas que seu adversário lhe inferiu.

 

***

 

Era domingo de páscoa, dia da ressureição de Cristo, no 1º de abril deste ano de 1625. Antecipando as aleluias e os primeiros raios da alvorada, surgiu à vista de toda a Bahia uma grande armada que flamulava as bandeiras de Portugal e Castela. Por todas, entre galeões e navios, eram sessenta velas, sob o comando do senhor Dom Fadrique de Toledo, bem afamado pelos anos que já era general e pelas vitórias que houve ainda contra o mesmo adversário.

Os holandeses, enquanto presos e encerrados na cidade, não estavam ociosos, sabendo que os espanhóis haviam de ser socorridos por uma armada, todo o seu cuidado era se fortificar o quanto mais podiam contra ela. Assim, para reforçar os muros da cidade, as obras iniciadas por Albert Schouten foram continuadas por seu irmão. Levantaram montes de terra tão altos que mais pareciam criados pelo poder da natureza. A mesma terra que tiravam abria um fosso tão profundo quanto a altura dos baluartes, onde fizeram sobressair na contra-escarpa umas pontas de pau tão agudas e unidas sobre si que dificultavam notavelmente a subida.

Pelas quebradas dos três montes que cingiam a cidade, os holandeses represaram as correntes de algumas fontes e fizeram um fosso largo e alto. Levantaram a Fortaleza Nova que estava em obras quando chegaram. Assentaram artilharia por toda a cidade, em roda, nos portos e postos mais importantes. E, para que não faltasse coisa alguma que pudesse impedir a entrada na cidade, semearam ao redor dela e nas bocas de suas ruas, uns estrepes de ferro feitos por tal arte, que de qualquer parte que caíam assentavam três pontas no chão, ficando outra para cima. Estes estrepes ficavam em tal distância uns dos outros que, caminhando em boa paz, não bastava qualquer intento para assentar o pé a salvo e errando o passo ficava um homem preso e enredado sem remédio.

Haviam 92 peças de artilharia colocadas em vários lugares fortificados e em trincheiras nas ruas da cidade. Eram três fortificações acestadas a São Bento; oito na praça principal; e vinte na praia. Fizeram sete baluartes em terra; e três traveses fortificados com canhões; também três estacadas com cortaduras de muita defesa; três cortinas, com oito a quinze pés de largura; e quatro redutos, em várias partes, dentro e fora das muralhas da cidade, cada um com sua praça de armas e as melhores peças de artilharia. Construíram até mesmo uma fornalha na Fortaleza Nova com três bocas, duas por onde dava fogo e outra por cima para respirar. Nela, esquentavam as munições para que, abrasadas, o tiro penetrasse mais e acendesse fogo onde quer que tocassem.

A cidade estava pronta para se defender das forças de Fadrique de Toledo. No entanto, era o governador dela que não estava.

– Meu Deus, o que eu vou fazer?

O coronel Willem Schouten andava em círculos pelo salão principal da Casa do Governador. Gritava para si mesmo.

– Na carta dos Diretores, estava escrito que enviariam uma armada de socorro. Sim. Ela nos salvará. Só precisamos resistir até que eles cheguem. Mas como? Será que conseguiremos? Sim, é claro! Não sei!

Ele falava em pensamentos altos. Tentava se colocar no lugar do finado irmão. Demandava perguntas não respondidas sobre a defesa da cidade. Pensava e repensava em como enfrentar os catorze mil inimigos estimados nas sessenta embarcações que surgiram nesta manhã.

No entanto, os gritos direcionados para si mesmo, alcançaram a pequena bebezinha nos aposentos mais internos de sua mansão. Assustada pelo berreiro do coronel, a criancinha começou a chorar.

– Estou tentando pensar! – Willem, já desesperado com situação, entrava no quarto da pequena Charlotte, com os gritos direcionados para sua ama-de-leite.

– Faça a criança se calar – ele continuou nervosamente. – Agora!

A ama-de-leite correu até o berço. Tentou colocar uma frutinha na boca da criança. Infelizmente, os gritos do coronel a deixaram muito irritada.

Os prantos agudos continuaram.

– Não sei por que deixei que ficassem aqui – o coronel começou a perder o controle. – Sempre odiei crianças!

O coronel não percebeu, mas transformou a bebê num bode expiratório para seus problemas. Passou caminhar em círculos também pelo interior do quartinho. Começou a perder a razão.

– Se nós perdemos esta guerra será culpa dela!

O coronel estava fora de si.

– Não grite, por favor, meu senhor – a escrava tentou admoestá-lo. –  Está apenas a deixando mais irritada!

– Se ela não calar, eu mesmo a calarei – o coronel descontrolado  desembainhou a espada. Avançou na direção da criancinha.

O simples pensamento na criancinha morta, pelas mãos daquele homem bêbado e instável, fez os olhos da negra se encharcarem. Ela tentou segurar a mão armada do coronel, mas um golpe, com o guarda-mato metálico da espada, fez uma ferida se abrir no seu lábio. Ela caiu no chão, sentindo a mandíbula latejar. O sangue escorreu pela boca.

– Pensa que pode me dizer o que fazer, sua negra idiota?

Os olhos dele flamejavam.

– Eu digo como são as coisas! – continuou a gritar.

Willem levantou a espada. Direcionou sua lâmina para a pequena Charlotte. Estava pronto para desferir um golpe mortal quando olhou as inocentes pupilas azuis da bebezinha, com a face, antes branca como açúcar, se avermelhando de tanto chorar.

Um rugido gutural deixou sua garganta.

O braço caiu ao chão junto com a espada. O coronel ficou totalmente desprovido de forças. Não conseguiu desferir o golpe.

– Saiam da minha casa! Não quero ver nenhuma das duas, nunca mais! – Ele gritou para a ama-de-leite.

A negra pegou a menina nos braços. Correu pelos corredores da residência. Saiu pela porta da frente em desespero.

O coronel fez o percurso até a cozinha. Abriu a porta da despensa, derrubando a primeira caixa de frutas que encontrou. Os abacaxis, cajus e limões caíram ao chão, revelando o que estava escondido logo atrás. Era outra caixa. E nela estavam muitas garrafas de rum, aguardente e cerveja.

O coronel então desabafou.

– Não importa o que pensem, eu realmente preciso de um gole agora! – Disse ele antes de esparramar a bebida em sua língua, enchendo as bochechas e fazendo-a descer pela garganta em seguida.

 

***

 

O vice-almirante Piet Pieterz Heyn, deixando a Baía da Traição, partiu para África com seus navios no primeiros dias de janeiro do ano de 1625. Depois, vagou pelas respeitosas correntes e ventos das costas do Congo. Amanheceu obra de quatro léguas ao norte de Loango. Não tendo encontrado refrescos para toda sua gente, ordenou que os navios andassem espalhados pela costa, com fundamento de toparem com navios espanhóis que pudessem saquear. Combinado de se encontrarem a altura de 1º40’ acima da Linha Equinocial, todos os navios se juntaram para tomar a Ilha do Ano Bom na data prevista.

O vice-almirante tomou esta ilha no mesmo mês, encontrando nela muitos refrescos, incluindo porcos, laranjas, limões e muita boa água. Além disso, tratou o seu governador com amizade, ainda que este o temesse, por saber que tomara parte da conquista da Bahia. E assim, tendo bem refrescada a sua gente, o vice-almirante determinou a fazer a travessia de volta ao Novo Mundo, avistando sua costa ao dia 9 de março de 1625 e dispersando as cinco naus de sua flotilha pela costa do Espírito Santo e Rio de Janeiro a fim de fazer mais algumas presas.

Depois de alguns confrontos nestas capitanias, fez vela de volta à Bahia após nove meses longe dela. No entanto, chegando à entrada, aos meados de abril, recebeu uma terrível surpresa.

– A cidade está sob cerco inimigo, senhor! – as palavras foram proferidas por um dos capitães dos cinco navios de sua flotilha.

Este capitão se apartou do vice-almirante enquanto estavam na costa do Espírito Santo e Rio de Janeiro. Decidiu retornar à Bahia antes dos demais, mas encontrou os navios espanhóis de vigia em frente à Vila Velha de Salvador. Entendendo o perigo em que estavam metidos, tornou a sair para encontrar o vice-almirante Piet Heyn e dar aviso do que foi avistado.

– São pelo menos 53 navios de guerra da Espanha e de Portugal, com conformação para mais de mil peças de artilharia e espaço para mais de 14 mil homens – o capitão fez a triste análise das forças inimigas.

– Meu Deus! – O vice-almirante exclamou. – Precisamos fazer alguma coisa, não podemos deixar nossos companheiros sitiados.

– O que podemos fazer contra tantos?

– Ainda não sei – o bravo Heyn suspirou sua frustração. – Mas mande chamar todas as naus que dispersamos no Espírito Santo e no Rio de Janeiro.

A cena descrita era intimidadora, mas não o bastante para alguém como Piet Heyn. As ordens saltavam de sua boca como se ele sempre tivesse um plano em mente, mesmo sabendo que à sua disposição não haviam mais que os cinco navios de sua flotilha.

– Eu pensarei em alguma coisa – por fim, ele desabafou.

Batalha naval entre holandeses e espanhois por Cornelis Bol (1589–1666)

A Cidade Sitiada

–Brasileiros–

7

3 de Abril de 1625

Às vistas das prevenções e assaltos que os baianos do Arraial Vermelho e do Recôncavo faziam para defender sua capitania, crescia muito o desejo em todos de ver o socorro do Reino. Nas aldeias onde estavam os soldados, além das orações e penitências que se acrescentavam todas as sextas-feiras e sábados, se fazia procissão com ladainhas cantadas, pedindo misericórdia a Deus. Nosso Senhor quis mostrá-la, no domingo de páscoa deste ano, dia da redenção do mundo, antecipando-lhes as aleluias com a primeira vista da tão esperada armada.

Era a armada mais poderosa que já cruzou a linha Equinocial. Estando a seis léguas da Bahia, o recém-chegado comandante supremo de toda ela, o general Fadrique de Toledo, veio reconhecer a terrar e tomar língua. Entregou o cuidado desta diligência ao capitão José Furtado e ao piloto Sebastião Loureiro, que o fizeram com singular pontualidade.

Nem esta faltou da torre de Francisco Dias D’Ávila, de onde se mandou aviso aos generais sobre como se achava o inimigo. Este contou como os holandeses estavam fechado na cidade há muitos dias, sob pena de morte, não saindo pessoa alguma, para não sofrerem da mão dos baianos. Contou também que estavam tão bem fortificados, artilhados e entrincheirados, que poderia custar muito sangue e vidas a quem do sítio se lançasse.

Com todas as informações, a ordem para o desembarque foi lançada. Da mesma forma que onze meses atrás os holandeses desembarcaram no pontal do Forte Santo Antônio, os exércitos ibéricos trazidos nas armadas determinaram a mesma estratégia de ataque. Seguiam a máxima militar ao qual as boas decisões de batalha se repetem quando as condições são semelhantes.

– Seja bem vindo à Bahia, Dom Fadrique de Toledo

– É muito bom te ver, Dom Francisco de Moura.

Os dois comandantes de terra e mar se saudaram. Juntos, coordenaram o desembarque.

– Levantemos o sítio! – o general da armada continuou as ordens

A notícia da chegada das Armadas de Portugal e Castela se espalhou pelo Arraial, pelo recôncavo, pelas fazendas e engenhos. Os moradores não faltaram com tudo o que puderam para o serviço de campo, incluindo o morador chamado Estevão Brito Freire, a quem nem a velhice, nem a enfermidade, o impediram de ajudar com carroças, barcos e duzentos escravos.

Houve bastante serviço para colocar as baterias e os quartéis ao redor da cidade. Os moradores vieram para ver o fervor militar e a confiança dos fidalgos portugueses, que a nenhum deles isentou idade, nem qualidade, nem título, nem senhorio, para deixar de puxar carros de artilharia.

Grandes nomes desembarcaram em solo baiano, ouvidos apenas nas histórias dos mercadores, navegantes, militares e outros que já haviam estado no Reino. Nem em sonhos, aqueles moradores poderiam imaginar tão próximas de tamanha quantidade de sangue nobre. Desde a descoberta do Novo Mundo, nunca houve mais que alguns punhados de fidalgos nele por vez. Agora, chegavam às centenas. Não só fidalgos, mas Senhores, Condes e Marqueses.

Para André Vidal de Negreiros em especial, um nome lhe chamou a atenção mais do que aos demais.

– Dom Duarte de Albuquerque?

– Sim, garoto, sou eu mesmo – o nobre fidalgo com pouco mais de trinta anos de idade, detentor de uma barba negra e uma proeminente barriga, confirmou.

Sem acreditar, o rapaz repetiu a pergunta.

– O Senhor de Pernambuco?

– Desde os meus oito anos de idade – o nobre fidalgo respondeu com um sorriso no rosto. – Essa é a minha primeira vez no Novo Mundo e espero enfim conhecer estas terras que herdei de meu pai e que nomeiam meu título.

– É uma grande honra conhecê-lo, senhor – André se curvou em respeito. – Servi como soldado ao seu irmão Dom Matias nas guarnições da vila de Olinda.

– Se serviu ao meu irmão, serviu a mim também.

O nobre conduziu o rapaz na direção dos trinte e sete criados que trouxe consigo do Reino. A estes, se juntariam o total de trezentos soldados pernambucanos enviados por Matias de Albuquerque, incluindo André Vidal de Negreiros, para ficarem sob o comando do Senhor de Pernambuco.

– Venha comigo, garoto. O general Fadrique já assinalou os nossos quartéis para o cerco a cidade.

O general Fadrique de Toledo dividiu suas forças em três estâncias principais. Uma para o Portão do Carmo. Outra para o Portão de São Bento. E uma terceira para as costas da cidade, próximo ao colégio jesuíta, onde não havia portão. Neste trecho das muralhas, os holandeses tinham forte artilharia que fazia muito dano. Esta terceira estância recebeu o nome de Rio Vermelho, porque neste local ficaram os 700 soldados baianos do capitão-mor Dom Francisco de Moura, os 300 soldados pernambucanos do senhor Dom Duarte de Albuquerque e outros 400 selvagens indígenas aliados.

– Vamos tomar nossa parte na conquista à Salvador! – O Senhor de Pernambuco completou.

 

***

 

Não trabalharam menos os que militaram na bateria do Portão do Carmo, que ficou a cargo do mestre-de-campo português Antônio Muniz Barreto e do mestre de campo espanhol Juan Orellana. Assim como os do Portão de São Bento, que ficou a cargo do general português Manuel de Menezes e do general napolitano Marquês de Coprani. Da mesma forma, por mar, desde o primeiro dia, a armada amanheceu toda dentro na baía, posta em ala, para que as velas inimigas que no porto estavam não pudessem sair, nem escapar.

Todos foram picados do assalto aos holandeses. Não houve rédea que os detivessem de avançar. Os bombardeios começaram. Não foi pouco o dano fizeram na cidade, perfurando-lhe a muralha e a porta e derrubando muitas casas. Obrigou o coronel holandês a comprometer todos os seus soldados, que de noite trabalhassem no reparo dos muros e trincheiras. Assim era contínuo o trabalho. E, sobre este fazer e desfazer, romper e reparar, era também contínua a bateria de canhões e mosquetes, se matando de parte a parte muita gente.

Tamanho foi este dano que, no interior da cidade, uma voz feminina assustada externou todo seu medo.

– O que está acontecendo?

Ana Paes exclamou em meio a cena de destruição ao seu redor. No oitavo dia de cerco, meteram a pique o galeão Samsom, o maior que estava ancorado no Porto e que tinha dois andares de artilharia. Era tão grande que ainda ficou com grande parte sobre a água, mas perderam muitos mantimentos e outras coisas que estavam em seu porão. Morreram quatro marinheiros e feriram doze de sua tripulação.

Se o porto já sofria dano, a cidade tomava maior parte dele para si. De um lado Ana Paes observava as enfermarias dos soldados em ruínas. Uma bala de canhão varou o local. Rompeu sua parede. Matou dois cirurgiões e feriu de novo a um dos feridos. Dias depois, foi a vez da bateria de São Bento atingir em cheio a igreja da Sé. A bala passou pela parede da capela, desviando os portugueses e acertando um banco onde quatro holandeses estavam sentados. Levou as pernas de todos quatro, dos quais dois morreram.

No entanto, não era a destruição que fez Ana Paes exclamar. Era para a visão dos dezesseis clérigos, incluindo os freis Vicente Palha e Manuel Calado, sendo escoltados pelos soldados holandeses. Todos estavam com cordas no pescoço, como condenados a caminho do cadafalso.

– Para onde estão os levando?

A moça perguntou ao soldado mais próximo. A resposta foi o silêncio.

– Qual a razão deste tratamento? – ela persistiu.

Em seguida, olhou para frei Manuel Calado e para o velho frei Vicente. Eles retornaram o olhar, cabisbaixos e tristes.

Tinham realmente olhos de condenados.

– Soltem eles agora! – ela disse colocando-se na frente dos soldados

Os soldados holandeses nem se dignaram a responder seus brados. Empurrada, Ana caiu de costas no chão enlameado, sujando o seu já bem surrado vestido. Neste momento, alguém segurou seu braço. Era Dom Pero, que a ajudou a se levantar.

– Onde estava, Ana?

– Fui buscar mais alguns alimentos.

– Temos que sair daqui rápido – Dom Pero continuou. – Os holandeses tomaram a Sé para servir de ponto de observação. Todos os civis portugueses foram levados para o convento dos minoritas.

O noivo já conduzia a jovem garota para onde todos refugiados estavam indo. Não sem que antes esta perguntasse.

– E os padres? Para onde estão os levando?

– Não sei, mas também não podemos fazer nada por eles.

Ao longe, Ana observou pela última vez os padres desaparecendo de sua visão pelas ruas da cidade. A corda em seus pescoços era assustadora. Poderiam os hereges matá-los só para repreender os sitiadores?, ela não quis nem pensar nisso. Só aceitou o chamado de seu noivo para tomarem refúgio.

Partiram juntos para o convento dos minoritas.

 

***

 

Um lugar seguro certamente não era algo possível na situação da cidade. O convento dos minoritas era bem pequeno em tamanho. Construído com pedras cinza-escuras em estilo medieval, o local já tinha um aspecto tenebroso. Ficou ainda mais assustador e claustrofóbico com as janelas todas fechadas por tábuas de madeiras apregoadas. Algumas dezenas de pessoas já estavam ali. Foram as únicas que restaram antes da cidade toda se fechar três meses atrás. Com certeza, o arrependimento por aceitar os passaportes holandeses e ficar na cidade era unânime.

A angústia estava na face de todos que se sentavam pelo chão, entre as colunas acinzentadas de sustentação. O som de explosões de mosquetes e canhões pareciam ressonar ainda mais alto pelos acústicos corredores do lugar. O terror dominava a cada explosão. Algumas pareciam atingir as próprias estruturas do lugar, fazendo poeira e debris caírem sob a cabeça dos refugiados.

Ana Paes e Dom Pero encontraram um lugar para se sentarem, próximo de uma coluna de sustentação. Uma família, que ali se apertava, se afastou para o casal. Nesse momento, um dos velhos grisalhos e enrugados, sentado alguns metros mais à frente, pareceu estar iluminado quando começou uma oração.

– Pai nosso que estais no céu, santificado seja o Vosso nome…

Dom Pero passou o braço por trás de Ana Paes. Envolveu seus ombros de forma acalentadora. Começou a proferir a oração em voz alta, acompanhando as palavras do velho ancião. A cabeça da bela jovem de quinze anos de idade se deitou sobre o peito do noivo. Relaxou os músculos. Fechou os olhos. Uma senhora também começou a acompanhar a reza. Depois, uma mãe. Em seguida, alguns jovens. As mulheres. Enfim, as crianças.

Ao fim da oração, até Ana Paes, depois de todas as suas contendas com as vontades divinas, também participou do coro, que finalizou:

– E livrai-nos de todo o mal. Amém.

 

 

Embarque de Tropas Espanholas por Andries van Eertvelt (1590–1652)

Uma Chance de Redenção

Holandeses

9

3 de Abril de 1625

Durante os três dias desde a chegada da armada espanhola, Willem não teve a coragem de deixar a Casa do Governador para acompanhar os primeiros passos do inimigo recém-chegado. Deixou o major Kijf cuidando de tudo enquanto ficou recluso, emborcando garrafas de aguardente, uma atrás da outra. Mantinha as janelas tão fechadas que nem mesmo os primeiros raios da alvorada, conseguiram penetrar as sombras que dominavam sua residência. Só sabia que era um novo dia porque a longa noite de sono deixou-o sóbrio, sendo assim acordado por seu tremulante desejo de beber.

Nesta nova manhã, antes mesmo do segundo gole da bebida, o coronel escutou um barulho. Era o rangido da porta principal. Alguns dias antes, este mesmo som chegou aos seus ouvidos quando a ama-de-leite e a pequena Charlotte deixaram a Casa do Governador, despejadas à própria sorte, numa cidade cercada por inimigos e em completo racionamento de comida.

O seu único pensamento ao ouvir o som da porta era: Espero que não seja aquela criança chorona de novo.

Antes, fosse, pois quem chegava era o major Kijf.

– Pelo amor de Deus, Willem! O que está fazendo ainda aqui?

O ressacado coronel primeiro tocou a garrafa sobre a mesa.

– Não estava suportando toda a situação – desabafou. – É muita pressão sobre minhas costas!

– Há uma guerra lá fora! – O novo major exprimiu sua censura, apontando para a mesma porta por onde entrou. – Metemos a pique três naus mercantis para entupir a entrada ao porto. Abandonamos os fortes de São Filipe e Mon Serrat para trazer todos à cidade. Colocamos a artilharia no colégio Jesuíta.

Ele tocou os ombros do seu embriagado superior. Então, perguntou.

– Não foi isso que combinamos, Willem?

– Sim… – o coronel respondeu, quase sem força na voz.

– O general espanhol, o Fadrique de Toledo, desembarcou seus exércitos em Vila Velha, na vizinhança do Forte de Santo Antônio, no mesmo lugar onde nós desembarcamos no ano passado. Não era isso que nós esperávamos que os espanhóis fizessem?

– Sim – respondeu com um pouco mais de força na voz.

– Então, Willem? Não precisa se desesperar. Nós só precisamos nos manter com o que foi planejado.

O coronel balançou a cabeça afirmativamente. O major Kijf continuou.

– A qualquer momento agora, Fadrique chegará ao mosteiro de São Bento, quase de frente aos portões da cidade. Eles contam com quatro mil soldados inimigos desembarcados, mais oito a dez mil ainda nas naus. O que combinamos?

– Atacar no momento certo… – o coronel respondeu, recitando palavras decoradas. – Nem cedo demais que ainda estejam em formação de batalha, nem tarde demais que já tenham se fortificado.

– Exatamente!

A mão amiga de Kijf se estendeu.

–  Preparei quatrocentos dos nossos melhores homens. E espero que venha comigo, Willem.

– Eu só preciso de alguns goles para retomar a coragem – o coronel falou sem nenhuma firmeza na voz. – Vá na frente, Kijf. Eu chego depois.

O major Kijf não mais se controlou diante de tamanha covardia e incompetência. Agarrou a garrafa de aguardente. Jogou-a no chão com toda a força. Estilhaços de vidro e respingos de álcool se espalharam pela cozinha. Os gritos indignados do major começaram.

– Nosso exército está desmoronando, Willem! E é tudo culpa sua! – o sentimento se elevou à raiva. – Desde que nós fechamos a cidade, não tivemos mais pilhagem para pagar o soldo dos soldados. E agora que os inimigos chegaram, seu comandante prefere ficar aqui, se embriagando em seu palácio, a liderá-los.

Kijf segurou o coronel pelo colarinho. Levantou-o de sua cadeira. Empurrou contra a parede. A fúria atingiu seu ápice.

– Há planos de um motim lá fora para lhe destituir do cargo! Sabia Disso? Deus! Os franceses já começaram a se revoltar!

– Os franceses?

– Sim! Estão sendo liderados por Charles de Toulon! Ele tem propagado que o tesouro do governador chileno está em sua posse. Que todo o exército bem poderiam ter seus soldos pagos se não fosse sua ganância! Além disso, o general espanhol Fadrique de Toledo garantiu o perdão a todos os soldados de nação não-holandesa que desejassem depor as armas.

– Eu… –  coronel tartamudeou.

– Eu estou indo lá fora agora – o major interrompeu seu balbucio, soltando o colarinho do coronel e jogando-o de volta à cadeira. – Vou enfrentar o inimigo no mosteiro São Bento. Por isso, tome seu maldito gole!

Kijf percorreu o salão principal, caminhando à porta de saída.

– Quando eu voltar, quero que esteja pronto para o combate! – retomou – Quero-o pronto para liderar nossas forças!

Antes de abandonar o coronel ali em suas próprias ponderações covardes, o major indignado percebeu um estranho silêncio na casa depois de tantos gritos e exaltações de sua parte.

– Onde está Charlotte? Por que não a ouço chorar? – ele questionou.

A resposta de Willem continuou igualmente desapontadora.

– Eu… – o tartamudeio começou novamente, com medo da reação contrária. – Eu a expulsei daqui, junto com sua ama-de-leite – por fim, proferiu. – Ela estava chorando demais!

Não havia mais lugar para fúria no major Kijf. Nem quis lembrar ao incompetente coronel que aquela era a filha do respeitado capitão Haringe. Nem quis pensar na revolta que causaria nos soldados se soubessem disso. Nem era capaz de pensar na imoralidade de ato tão desumano. Era demais. Nem comentou o assunto. Só olhou de volta para o coronel, proferindo uma ameaça implícita em meio à palavras de amizade.

– Não sou seu irmão, Willem. Mas, como amigo, devo avisar que essa é sua última chance de redenção.

Suspirou mais uma vez, antes de continuar.

– Por favor, não estrague tudo.

 

***

 

Às dez horas da manhã deste mesmo dia, o plano do major Kijf funcionou às mil maravilhas. A facilidade e segurança em desembarcar foram causa da desgraça dos exércitos do general Fadrique, pois, vendo que eram tantos quanto quatro mil desembarcados contra tão poucos holandeses, fizeram pouco caso. Começaram a se alojar nas casas do mosteiro São Bento, desarmados, como quem estava em sua casa descansando quando sofreram o ataque liderado pelo major Kijf.

Os espanhóis saíram logo, cada um com as armas, que a pressa lhe ofereceu. O major holandês, disparando os arcabuzes, rapidamente ordenou a retirada para a porta da cidade. Era uma armadilha. Os espanhóis foram lhe seguindo desordenadamente, encontrando a artilharia holandesa nos portões da cidade. Quando se deu fogo às peças, um chuveiro de balas, pregos e ferro miúdo, causou-lhes um grande estrago nas duas horas que durou este assalto. Oitenta inimigos mortos. Quase nenhuma baixa holandesa.

O major entrou triunfante nos portões da cidade após tamanha matança. Seus homens trouxeram por troféu um gibão de correames e cordões de ouro de um capitão castelhano, cujo corpo, trouxeram por cobiça arrastando até o pé da ladeira, próximo ao muro. O ouro desse troféu seria um agrado àqueles quatrocentos soldados, injustamente mal pagos. Afinal, para o major, a visão dos inimigos fugindo de volta ao mosteiro de São Bento, era a única recompensa que necessitava neste dia.

No entanto, antes de procurar o coronel para contar as boas novas, o soldado Toulon chegou até ele.

– Está louco, Kijf!

O francês falou com descaso.

– Pode ter conseguido essa vitória hoje, mas foram só oitenta soldados mortos. Ainda tem quatorze mil deles lá fora. A vitória é impossível!

O major nem se voltou ao francês. Respondeu ainda com o olhar sobre o inimigo em fuga.

– Quem sabe, se todos os meus soldados estivessem no combate em vez de se rebelarem, nós poderíamos ter uma chance.

– Quem sabe, se nosso coronel não fosse um alcoólatra, ladrão e assassino, tão indiferente com os subordinados, talvez seus soldados não se rebelassem contra ele.

– Temos que dar uma chance a Willem.

– Não há perdão para ele, não depois que matou seu próprio irmão.

Um silêncio embaraçoso seguiu as palavras do francês, evidenciando que o major não tinha argumentos contra a afirmação.

Ainda assim não deixou de responder.

– Qualquer culpa que Willem tenha é irrelevante agora! Nosso dever é manter a cidade até a chegada da Armada de Socorro que os Dezenove Diretores nos prometeram!

O francês soltou um riso desafiador.

– Está realmente louco, Kijf! – O francês exprimiu sua descrença. – A chance desta armada chegar aqui é tão grande quanto a de Willem tomar jeito e se tornar um líder de verdade.

Por fim, concluiu.

– E eu não acredito em milagres.

 

***

 

Inesperadamente, um alegre sorriso se abriu na face do major Kijf. Essa reação pegou Toulon de surpresa, pois o major apontou para um homem que se aproximava por entre as ruas da cidade. Era o coronel Willem, com sua espada na mão, pronto para retomar a liderança de suas forças.

–  Também não acredito em milagres, Toulon.

O sorriso do major se alargou ainda mais. Suas palavras se encheram de esperança. Continuou a aprazar o amigo.

– Eu acredito em redenção – por fim, falou.

Nem terminou a frase, o coronel Willem tropeçou nos próprios pés. Caiu com o rosto na rua de terra batida. A espada escorregou de sua mão, caindo alguns metros à frente. Percebendo sua vergonha, Willem ainda tentou se levantar, mas um força invisível pareceu derrubá-lo no chão outra vez. Caiu de costas, incapaz de se manter equilibrado.

Para a infelicidade de Kijf, contrariando suas esperanças, o coronel estava bêbado feito um gambá.

 

 

Las Lanzas – A Rendição de Breda por Diego Velásquez

Sorte no Jogo, Azar no Amor

–Ibéricos–

5

5 de junho de 1625

Era uma tenebrosa noite em El Alcázar. Uma tempestade caía sobre Madrid. Relampejava e trovejava inferindo pavor em toda população. A Rainha Isabel, já grávida de alguns meses, sentiu o mesmo mau sentimento lhe subindo a espinha. Ela caminhava, sozinha, pelos corredores do palácio. Tinha uma péssima sensação dentro de si.

Algo estava muito errado naquela noite. As sombras se mostravam mais escuras e perversas, escondendo as pinturas da parede. Uma névoa trágica pairava de forma sufocante. Um vazio apertava seu peito. Não havia mais ninguém ali naqueles sombrios corredores.

– Onde está todo mundo?

Ela perguntou a si mesmo num tom assustador.

Um vulto se esgueirou atrás dela, a fazendo virar de imediato. Ela procurou o autor da movimentação, mas nada viu além de sombras. A sensação de estar sendo observada acresceu. Era angustiante seu desejo de fugir dali.

Não deu mais que alguns passos, uma voz rompeu o silêncio da noite. Era mais poderosa que a cadência de trovões ao seu redor.

– Ah, Isabel! Acreditou mesmo que esconderia seus planos de mim?

Era a voz do Conde-Duque de Olivares.

O obeso ministro empunhava um punhal negro e retorcido. Era uma lâmina sem brilho que parecia vinda de algum ritual satânico. Ela nem pensou duas vezes. A cena macabra a fez correr desesperada pelos corredores sombrios do palácios.

– Pensou mesmo que conseguiria me destruir? – a voz do Conde-Duque ficava cada vez mais próxima. – Pensou mesmo que poderia escapar de mim?

A Rainha correu como nunca antes em sua vida. Infelizmente, algo a impediu de continuar. Duas pessoas surgiram, bloqueando os corredores. Era seu esposo, El Rey Filipe da Espanha, acompanhado de sua mais recente amante, a atriz Maria Calderón.

Isabel tentou deter o passo. Escorregou. Caiu no chão aos pés do marido e da amante. Ambos começaram a rir. Apontavam para ela de forma humilhante em meios a perversas gargalhadas.

Isabel olhou para trás. Percebeu a lâmina retorcida do Conde-Duque descendo num arco em sua direção. Sentiu a primeira punhalada. Atingiu-lhe na barriga grávida, rasgando-lhe a carne. Acertou no exato local onde ela sentia estar a cabecinha do seu bebê em seu ventre. Outros golpes se seguiram. Estriparam-lhe o abdômen e fizeram o sangue rojar fortemente para todos os lados.

Os olhos de Isabel se abriram largamente. Ela se levantou de forma desesperada. Percebeu estar em seu quarto. Estava sob o aconchego de seus luxuosos lençóis e da sua macia cama. Estava sob a segurança dos guardas palacianos que a protegiam do lado de fora do aposento.

– Foi um sonho!

O corpo ofegava pelo desespero. As mãos procuraram ferimentos por baixo de sua camisola.

– Foi só um sonho… – ela repetiu aliviada.

No entanto, o sentimento de pavor voltou quando ela sentiu as mãos ficarem ensopadas. Levantou-as, só para constatar que estavam empapadas de sangue. Ela jogou os lençóis para lateral. Constatou que o sangue vinha do meio de suas pernas.

Isabel concluiu que estava perdendo seu bebê.

– Meu Deus! De novo, não! – gritou enquanto os olhos se encharcavam de lágrimas.

Mais tarde, ela teria a confirmação da morte de mais um criança em sua barriga.

 

***

 

O parto de uma nova criança natimorta foi outra vez devastador à Rainha Isabel. Lamentações foram ouvidas por todo o Reino. Preces foram proferidas em todas as igrejas. Pedidos de melhora foram entregues. Todos os súditos e fidalgos estiveram de luto.

A atmosfera de tristeza persistiu por semanas, mas a preocupação do Conde-Duque de Olivares era outra. Ele perdia os sono a noite com o pensamento na Frota de Prata. Era preocupante a notícia de que havia uma armada inglesa enviada para capturá-la. Era aterrorizante a possibilidade de perdê-la.

– Diga-me que tem boas notícias, Olivares.

El Rey, que continuava a se reunir com o Conde-Duque três vezes por dia, indagou o seu principal ministro.

– Conseguimos mudar a rota da Frota de Prata a tempo? Conseguimos evitar a armada inglesa? – o rei compartilhava da preocupação.

Os espiões infiltrados na corte inglesa avisaram ao Conde-Duque já tarde demais, pois o Rei Charles teve o cuidado de dar a ordem para que sua armada de ataque estivesse toda pronta em apenas três semanas. O Valido do rei inglês, o Duque de Buckingham, foi ainda mais cuidadoso ordenando que zarpassem em apenas uma semana, mesmo sem tudo pronto. O fator surpresa era o mais importante.

O próprio general da armada inglesa, sir Edward Cecil, falou: Atrevo-me a dizer que nenhuma armada, ainda que em tempos mais turbulentos, estavam tão cheias de necessidades e defeitos. Mas nem esta nem outra poderia se desalentar. Isso apenas resultou de fazermos mais resolutos e dispostos ao sacrifício. E assim a armada do Rei Charles partiu aos quinze dias de outubro deste ano de 1625. Foram direto para as ilhas de Cabo Verde, onde a Frota da Prata faria rota. Foram esperá-la lá.

O Conde-Duque não descuidou de sua função. Enviou um barco para dar aviso ao seu almirante dos planos ingleses de interceptação.

– Graças a Deus, Majestade, o aviso chegou à Frota da Prata a tempo – o Conde-Duque falou ainda com ares de preocupação. – Mas o estado de alerta ainda é no máximo. Embora tenhamos nos livrado do inimigo em Cabo Verde, este continua a perseguir a Frota da Prata pela costa da África.

– Maldita hora que convoquei essa Jornada dos Vassalos – El Rey praguejou. – Como se a Bahia fosse fazer alguma falta ao meu Reino! Agora que mais precisamos de navios de guerra, eles não estão aqui!

Os olhos do Conde-Duque caíram ao chão.

– Peço perdão a Vossa Majestade. A ideia da Jornada foi minha. Eu assumo toda a culpa.

– Não, Olivares – El Rey tocou-lhe o ombro. – A ideia foi nossa. Decidimos por ela juntos, aqui mesmo, nesta sala.

As palavras de El Rey foram animadoras para o Conde-Duque de Olivares, mas uma pergunta ainda atormentava o Conde-Duque. Em caso de perda da Frota da Prata e de uma consequente crise econômica, ambos realmente enfrentariam juntos o problema ou El Rey o descartaria de imediato, lhe imputando toda a culpa? Infelizmente, o Conde-Duque sabia bem a resposta. Um soberano deve ser resguardado das crises e culpas, de forma que o Conde-Duque não aceitaria outra decisão. O destino da Frota de Prata selaria o destino não só do Reino, mas o dele também. Ele sempre soube disso.

Antes que pudesse divagar sobre o assunto, as novas palavras de El Rey romperam seus pensamentos.

– O que mais podemos fazer?

A pergunta fez a mente do Conde-Duque voltar ao modo estratégico. Era alguém que sempre esperou o melhor, mas também sempre estava preparado para o pior. Assim, falou.

– A Frota da Prata deverá chegar ao Porto de Cádiz, Majestade, mas não conseguirá desembarcar todo o ouro e toda a prata de seus navios a tempo. Só temos a opção de defender aquele porto!

El Rey cofiou a barbicha que estava deixando crescer a pedido de Maria Calderón. Ouviu o Conde-Duque expor os problemas das ações necessárias.

– Caberá ao Duque de Medina-Sidônia, o Defensor de Andaluzia, defendê-la com seus homens. Ele é nossa única esperança.

– Dom Juan Manuel de Gusmão?

– Ele mesmo, Majestade.

El Rey fez cenho desgostoso. A razão de tamanha falta de confiança foi explicitada pelo monarca.

– O filho de Alonzo de Gusmão?

– Ele mesmo, Majestade.

Alonzo de Gusmão liderou 130 navios de guerra, dos mais bem equipados de seu tempo. Perdeu 66 deles e mais vinte mil homens na batalha de Gravelines. Esse foi o fim da Armada Invencível da Espanha. Difamadores do antigo Duque de Medina-Sidônia o reputaram como covarde e idiota. Diziam que se escondia no camarote do seu navio para fugir dos perigos da batalha.

El Rey suspirou num descrente desabafo. O destino do Reino estava agora nas mãos da mesma Casa Ducal que ficou afamada pela incompetência . De acordo com o pensamento da época sobre linhagem e valorização de sangue, o atual Duque certamente herdou a má reputação paterna.

– Que Deus nos proteja, então! – por fim, falou.

 

***

 

O Conde-Duque estava prestes a lançar alguma palavra de esperança à Sua Majestade, mas alguém chegou no escritório, o impedindo. Era um dos criados da casa do ministro que chegava ao seu escritório. Este trouxe uma urgente mensagem de sua esposa Inês.  Fez o Conde-Duque esquecer todos os seus problemas por um momento, o fez esquecer até da Frota de Prata.

– Tem que vir rápido, senhor Olivares! As dores de dona Maria começaram! Sua filha entrou em trabalho de parto!

O Conde-Duque deixou a reunião com Sua Majestade às pressas. Percorreu os labirínticos corredores de El Alcázar. Entrou no coche, cujos cavalos o levaram pelas estradas de Madrid.

Durante o percurso, milhões de pensamentos percorreram sua mente. Desde o nome da criancinha que não fora escolhido ainda. Quem sabe Enrique, como o seu pai, ou Pedro, como seu seu avô? Talvez Baltazar? Sim. Baltazar era um excelente homenagem ao grande aliado Baltazar de Zuñiga. Com uma filha tão obediente e um genro tão dependente, com certeza deixariam que ele nomeasse a criança.

Depois, pensou no futuro da Casa de Olivares. Lembrou de quando chegou a Madrid, dez anos antes. Era filho do embaixador espanhol em Roma. Era o herdeiro de uma Casa secundária da família Gusmão, um simples Conde. A elevação de seu título à Duque ocorreu por ocasião da coroação de El Rey Filipe. O recém-coroado monarca entregou, ao seu então camareiro-mor, o título de Duque de Sanlúcar La Mayor. Mas, quando este implorou para El Rey preservar o título Olivares, original de sua linhagem, este criou a alcunha Conde-Duque. Era um título único na história espanhola. Era esse o legado que o Conde-Duque deixaria para seu neto. Era esse o futuro da sua linhagem.

– Inês?

O Conde-duque chegou à residência, procurando sua esposa. Desejava saber da filhinha querida. Ele subiu a escada principal até os andares superiores, onde ficava o quarto de Maria, onde as parteiras já deveriam estar a auxiliando o nascimento do netinho Baltazar.

Com um sorriso no rosto, continuou os seus chamados.

– Como está Maria?

Quando chegou à porta do quarto da filha, para sua surpresa, havia algo muito estranho. Um silêncio sepulcral tomava conta do ambiente e dos seus criados. Ramiro evitava o olhar para o sogro. Mantinha um cenho arredio e fúnebre. Os olhos de Inês transbordavam lágrimas de tanto chorar. Eram lágrimas que transbordavam a mais terrível melancolia.

– Oh, Olivares… – Inês caiu aos prantos sobre o peito do esposo.

Era um abraço cheio de tristeza e dor.

– O que aconteceu?

O rosto do Conde-Duque perdeu a cor. O desespero tomou conta de sua alma. Inês nem mesmo conseguiu o responder. Os prantos desesperados lhe tomaram a voz. A resposta veio de uma das parteiras.

– Eu sinto muito, senhor – a voz se perdeu nela também.

– O que aconteceu? Diga-me! – o Conde-Duque gritou raivosamente. Empurrou Inês do aconchego do seu ombro. Caminhou em direção à porta dos aposentos da filha. Afastou todos ao redor.

– Não entre, Excelência – uma das parteiras tentou o impedir.

Em seu desespero, o Conde-Duque adentrou o quarto violentamente. Antes, não o tivesse feito, pois a cena lhe causaria pesadelos pelo resto da vida. Sua filhinha tinha a fúnebre palidez dos mortos. A camisola estava suja de sangue escuro coagulado. O olhar era fixo, inerte e sem brilho.

– Infelizmente, Maria não resistiu – a parteira respondeu

Olivares caiu de joelhos. A voz perdeu a força.

– E a criança? – as palavras saíram com o desespero.

– Não conseguimos tirá-la a tempo. Eu realmente sinto muito, Excelência. Ambas, a mãe e a criança, estão mortas.

O Conde-Duque observou a filha morta, também o berço vazio. Ele fechou os olhos, pedindo a Deus que tudo aquilo fosse um pesadelo.

Uma única frase se repetia sem fim.

Ambas, a mãe e a criança, estão mortas, assim como todos os planos que o Conde-Duque tinha para o futuro também.

 

Bahia de Todos os Santos

 

O Fim de uma Invasão

Holandeses

10

26 de Maio de 1625

Nos mares baianos, muitas léguas de distância da costa, nas águas do grande Oceano, cinco embarcações se reuniam com as velas amainadas e as âncoras submersas. O vice-almirante Piet Heyn realizava conselho com seus capitães sobre como proceder no socorro aos companheiros sitiados. Era o sexto dia desde que descobrira a terrível situação em que a cidade de Salvador se encontrava. Era o vigésimo primeiro dia desde o início do cerco espanhol.

No entanto, após horas de reunião, depois de planos e mais planos, discutidos e refutados, os oficiais chegavam numa única conclusão.

– É impossível!

Um dos capitães bateu o punho na mesa, com todos ao redor se calando. Ninguém era capaz de refutar a lógica de seu pensamento.

– Somos cinco embarcações, mas estamos falando de mais de cinquenta do lado contrário – um dos capitães desabafou.

– E mesmo que arriscássemos alguma ajuda, não temos como entrar em contato com os que estão na cidade – outro complementou.

O vice-almirante Heyn se sentava calado. Os olhos percorreram os mapas baianos pela enésima vez. Tentavam procurar alguma forma de socorrer seus companheiros sitiados. Mas toda tentativa de buscar um plano era em vão. Para alguém como Piet Heyn, que já participara de batalhas em todos os sete mares, em todos os cinco continentes, em todos os quatro cantos do mundos, desde Ásia à América, desde Terra Nova ao Estreito de Magalhães, desde às Moluscas ao Cabo da Boa Esperança, esta era uma situação frustrante.

– Não há solução – ele chegou à mesma conclusão. – Só um milagre poderá nos salvar agora.

As palavras de Piet Heyn nem deixaram sua boca, inesperadamente, um dos marinheiros adentrou a sala de reunião. Estava tão esbaforido, que nem conseguiu externar o aviso que trazia. Estava tão jubiloso em alegria, que as palavras pareciam se atropelar. Enfim, depois de inspirar profundamente, para organizar seus pensamentos então falou.

– É um milagre! – todos cerraram olhos espantados sobre o marinheiro. – Os senhores precisam ver com os próprios olhos! – ele continuou.

O marinheiro subiu as escadarias do camarote, correu através do convés e apontou para os mares longínquos. Um estranho borrão negro surgia no horizonte. O vice-almirante e os capitães tomaram suas lunetas. Analisaram a imagem. Eles contaram quarenta e uma velas. Eram quarenta e uma bandeiras flamulantes, fulgurando a luz do pôr do sol, em suas cores laranja, branca e azul. Eram quarenta e uma bandeiras holandesas. Era a tão esperada armada de socorro, anunciada pelos Dezenove Diretores.

Um sorriso surgiu na face redonda de Piet Heyn. Seus olhos pequenos brilharam a esperança de uma vitória, mas a mente, sempre estratégica, não parou de pensar em todas as possibilidades. Proferiu para si mesmo, a maior ressalva da atual situação.

– Só espero que não seja tarde demais!

 

***

 

Se a condição embriada de Willem já era desanimadora. A forma como conduziu suas forças era revoltante. Antes ficasse enclausurado na sua casa, o major Kijf por fim concluiu. A aversão dos soldados contra o coronel se tornou intolerável. Provinha principalmente de que, nas raras vezes que montava seu cavalo para visitar os postos de defesa, não acudia com as necessárias medidas. E, quando acertava o fazer, não animava os soldados. Antes, os ofendia com injúrias e doestos, ainda que eles andassem sobrecarregados de contínuo trabalho.

Sempre depois dessas irritantes cavalgadas, o coronel voltava para seu palácio onde se deixava alambazar-se e embriagar-se. Os espanhóis, por outro lado, não se descuidaram no contra-ataque. No dia seguinte à vitória do major Kijf, assentaram logo sua artilharia que somava 29 peças, e mandaram desembarcar mais 1.500 soldados. No outro dia, que foi quinta-feira, 3 de abril de 1625, começaram a bater a cidade. Na muralha defronte ao mosteiro São Bento, abriram grandes buracos, que os holandeses tornavam a tapar de noite com sacos de terra.

Alguns dias depois, Willem resolveu fazer uma de suas odiadas cavalgadas pelos postos de defesa da cidade.

– Imbecis! Klootzak! Filhos da p… – Ele gritava aos subordinados.

Dois soldados rasos eram alvo de seu descontrole.

– Amarrem os padres na muralha agora – os berros continuavam de forma ensandecida. – Isto é uma ordem!

A cena era tão sem explicação quanto perversa. Todos os outros dezesseis clérigos católicos que sofriam o cárcere holandês há quase um ano estavam em pé sobre as muralhas observando a incendiária cena na entrada da baía. O coronel fez questão de dar a esses frades um adereço extra, nada convencional. Colocou cordas, amarradas ao redor do pescoço de todos, deixando-os encoleirados em amarras sobre a própria muralha.

– Não faça isso, Willem, tenha misericórdia! – a voz do velho frei Vicente Palha desviou o olhar do coronel descontrolado.

O plano de Willem era postar os padres à vista do general espanhol para que este pensasse duas vezes antes de lançar sua artilharia contra os muros da cidade. Desejava usá-los como escudos para inibir o ataque espanhol.

– Essa é uma atitude de bárbaros e selvagens! – o frei Calado gritou.

– Esse hereges não passam de monstros – o padre provincial insultou.

A reação enervou o coronel. Gritou sobrepujando as vozes contrárias.

– Calem a boca, todos!

Ele colocou a arma na cabeça do provincial.

– Façam o que digo e poderão sobreviver – então puxou a corda da forca, sufocando-o ameaçadoramente. – As muralhas não ficarão mais bonitas com seus corpos pendurados nelas, mas juro que lhes jogarei daqui se derem mais um pio.

Todos se calaram. Os olhos raivosos do coronel prescreviam que ele estava falando sério. No entanto, uma voz de protesto surgiu às suas costas.

– Levem os padres de volta!

Era a voz do major Kijf, emitindo suas ordens aos dois soldados.

 

***

 

Os olhos de Willem se avermelharam terrivelmente. Uma baforada de álcool atingiu Kijf no rosto de forma tão enfastiante quanto decepcionante. O major expirou fortemente pelas narinas ainda tentando manter certa compostura pela patente do coronel, muito embora, assim como os soldados rasos, ele também já estivesse farto da sua atitude.

– O que pensa que está fazendo?

O coronel gritou ainda mais alto.

– Estou acabando com essa loucura! – o major retrucou.

– Precisamos usar todos os meios para atrasar o avanço espanhol – o coronel treplicou. – Temos que ganhar tempo até que a armada de socorro chegue para nos salvar.

O major continuou a responder em tom de enfado.

– Ninguém mais acredita nessa armada, Willem! – então desabafou, balançando a cabeça aos lados.

– Estou dizendo ela virá! – O coronel continuou. – Um dos marinheiros ingleses é também um feiticeiro. Ele me certificou que a armada já está a caminho. Já ordenei que pusessem uma grande bandeira no pináculo da torre da Sé, no mais alto lugar da cidade para quando chegarem, saibam que ainda estamos resistindo.

O queixo do major caiu.

– Um feiticeiro? – Kijf ficou pasmado com a constatação. – Está querendo que arrisquemos nossas vidas com base em magia e adivinhação?

O major levou a mão a face, massageou seus olhos, por fim, desabafou.

– Eu sinto muito, Willem. Eu não aguento mais!

Nem houve o tempo do coronel responder ao major. Um tinido na lateral das têmporas de Willem antecedeu uma dor aguda e excruciante. Soube no mesmo instante que fora atingido por uma arma.

As luzes do mundo foram tomadas pela escuridão. No entanto, antes de tudo se apagar, viu o major Kijf, em pé sobre seu corpo caído, segurando uma albarda com seu sangue escorrendo pela lâmina.

– Acabou! – por fim, este proferiu.

 

***

 

O coronel Willem Schouten sentiu um raio de luz lhe atingir a face. Ofuscou-o de tal maneira que apenas conseguiu abrir um dos olhos. Tentou analisar o ambiente ao seu redor. Essa, com certeza, não era a primeira vez que acordava com uma dor lancinante na cabeça e sem saber onde estava. Verdade seja dita, acordar em tal situação era algo corriqueiro na sua rotina desregrada. Nesse dia, no entanto, havia algo bem diferente.

Nem a dor, nem a desorientação, eram frutos dos excessos do álcool. O profundo corte em sua cabeça e a constatação de estar num calabouço deixaram isso bem claro. Ele percebeu que haviam outros homens ao seu redor. Era o capitão Racket e alguns soldados, caídos e inconscientes. Logo, concluiu que estavam todos ali pela mesma razão. Soube que houvera um motim dentro do exército holandês. E seus partidários perderam.

Uma brilhante luz penetrou a cela onde estava aprisionado. Fez seus olhos, acostumados com a escuridão, fugirem para a lateral. As pupilas digladiaram com o brilho solar, até enfim reconhecerem a silhueta que adentrava pela porta de suas prisões.

– Kijf?

A visão de um rosto amigo lhe trouxe um alívio momentâneo, mas a lembrança dos seus últimos segundos de consciência surgiu apagando qualquer bom sentimento.

– O que fez? – coronel questionou, embora a segunda questão fosse mais pertinente. – Por quê?

– Não tive escolha, Willem – o major respondeu. – Suas ações estavam fora de controle. Eu não podia deixar que matasse a todos nós.

– Temos comida para pelo menos outras três semanas – o coronel aprisionado tentou argumentar. – Ainda podemos resistir.

– Os soldados me fizeram seu novo coronel – o seu captor respondeu secamente. – Eu mesmo negociei nossa rendição com o general Fadrique de Toledo. A guerra acabou!

– Seu idiota! – Willem gritou indignado. – Se tivesse acreditado em mim nós teríamos vencido! Nós seríamos heróis!

Kijf suspirou.

– Eu realmente poderia ter acreditado em ti, Willem – falou com voz de decepção. – Se ao menos conseguisse se manter sóbrio por um único dia.

Antes da traição, foi incrível a vigilância e cuidado, com que o então major Kijf trabalhou de dia e de noite. Recolheu-se com as trincheiras para dentro, para acestar nela a artilharia. Traçou novos ardis e invenções de guerra, com que pudessem ganhar tempo até lhes vir o socorro da sua armada. Ele realmente tentou acreditar no amigo, até não conseguir mais.

Após o motim, o novo coronel e outros oficiais com assento no conselho foram avisados que o inimigo mandara um corneta requerer a entrega da cidade. Neste mesmo dia, despacharam uma carta assinada pelo próprio Kijf abrindo assim as negociações.

No dia seguinte, os holandeses abandonaram a cidade de Salvador para a entrada das forças de Fadrique de Toledo.

 

***

 

Os Dezenove Diretores da Companhia aparelharam duas armadas, que haviam de partir à Bahia para o efeito de defender e segurar a cidade de Salvador. Infelizmente, por não lhe terçarem os ventos, estiveram retidas nos portos da República, sem poderem ir ao mar. Esse atraso foi a desgraça para os sitiados que tanto esperavam sua chegada. E assim, depois de muitas calmarias, de marcha lenta e de haver adoecido muita gente, a 23 de maio, houveram vista da costa do Novo Mundo.

Indo na frente, em seus navios, o general da armada Boudweijn endireitou-se resoluto para a barra da Bahia. Assim, navegando defronte nesta rota, a 26 de maio, tomaram um negro chamado João Guteres que andava pescando em uma jangada. Ao perguntarem da situação da Bahia, este respondeu que fora recuperada pelos espanhóis há apenas três dias. Descrentes da palavra do negro, por volta da primeira hora da tarde, ao montar ponta da curva onde está a cidade, viram todos, com muito pesar, o tremular da bandeira espanhola no baluarte da cidade de São Salvador.

– Só precisávamos de mais alguns dias!

Era Piet Heyn que praguejava raivosamente sobre o seu navio.

– Se os malditos soldados tivessem resistido só mais alguns dias, nós teríamos chegado a tempo de socorrê-los!

Logo que as forças espanholas perceberam as naus inimigas chegando às costas da Bahia, em resposta, os mais galeões lhe saíram à vista para os confronto. A armada holandesa, estando agora descoberta, não tendo forças o bastante para buscar inimigo tão poderoso e já fortificado na cidade, teve por aviso não permanecer ali, estando entregue a tão grande perigo e sem proveito algum.

A vitória espanhola estava selada. Não havia mais necessidade de pelejas ao mar. Os espanhóis nem sequer continuaram a dar perseguição aos holandeses. Deram um tiro de canhão como o sinal para se recolherem e voltar aos portos da cidade. Enquanto isso, o inconformado Piet Heyn já anunciava aos seus marinheiros.

– Façamos rota para a Paraíba, até a Baía da Traição. Espero que possamos salvar algum coisa ali.

E assim se encerrou toda a aventura holandesa na Bahia de Todos os Santos.

 

Recuperação da Bahia de Todos os Santos por Juan Bautista Maino

 

A Bahia Retomada

–Brasileiros–

8

1º de Maio de 1625

Durante os primeiros dezesseis dias de cerco, as peças de artilharia que o general Fadrique de Toledo acestou junto ao convento do Carmo, colocaram a pique o principal navio holandês: o Samsom. Da mesma forma, a bateria de São Bento meteu a fundo mais cinco navios e danificaram os outros de tal modo que não podiam se fazer ao mar. Os mais estavam incapazes de mover pelo avanço da armada. E, como estavam agora desassombrados no que diz respeito à baía, Fadrique voltou todos os canhões contra a cidade, varejando-as de três lugares: do convento do Carmo com 23 peças, do convento de São Bento com 8, e das palmas do Rio Vermelho com 6.

Estas três estâncias não pararam os estrondos de bombardas, esmerilhões e mosquetes de parte a parte, nem um quarto de hora, nem de dia, nem de noite, até o cerco atingir o seu vigésimo terceiro dia. Eram tantos os pelouros pelo ar que milagrosamente escapavam as pessoas assim nas casas, como nas ruas e caminhos. Não faltou curioso que contasse esses disparos, dizendo que foram 2.510 as balas grossas que os holandeses atiraram e 4.168 as que os ibéricos revidaram.

Enfim, após estes vinte e três dias de cerco, um dos soldados chegou ao general Fadrique de Toledo com uma importante notícia.

– Senhor, os holandeses enviaram um mensageiro!

O general Fadrique sorriu contente. Mais cedo, ele mesmo enviara um trombeta com o pedido de rendição.

Enfim, chegou a resposta.

– E que mensagem ele nos traz? – Fadrique perguntou.

O soldado trazia consigo uma carta, que general das armadas ibéricas tomou a carta em suas mãos. Rompeu o lacre. E a desfraldou.

 

Ao general Fadrique de Toledo,

Eu, o coronel Kijf, e os mais oficiais do conselho desta cidade de São Salvador, tomando conhecimento que Vossa Excelência requerera um dos nossos tambores para propor negociação, mandamos o portador desta para o fim de saber quais são as intenções de Vossa Excelência e fiamos de Vossa Excelência segundo os usos da carta que nos lhe restituirá. Assinado, o coronel Hans Ernest Kijf.

 

A assinatura da carta confirmava uma informação que Fadrique tivera de alguns desertores franceses que abandonaram seus postos na cidade para se entregarem aos sitiadores. Feitas as inteligências e interrogatórios, descobriram que, três dias antes, o então governador Schouten fora deposto do cargo e feito prisioneiro. Em seu lugar, um tal de Kijf assumiu as forças holandeses. Era este novo coronel que assinava a carta.

Este novo coronel, vendo que já não podiam reparar o dano feito pelas baterias ibéricas, enfim veio a entender que lhes convinha fazer o acordo, que o outro coronel havia recusado. Ainda fizeram esse acordo paleado com uma capa de honra, dizendo que ouviram o trombeta de Fadrique convidando-os a paz, a qual também eles queriam.

O general ibérico tomou a pena e o papel em suas mãos, chamou um novo trombeta mensageiro e anunciou sua resposta.

 

Ao coronel Hans Ernest Kijf,

Vossas Excelências não fizeram intimação alguma, mas que, conforme a prática dos sítios, se tinham os sitiados que fazer alguma proposta, eu as ouvirei cortesmente e as tomarei em consideração caso se ponham ao serviço de Deus e de El Rey. Assinado o general Fadrique de Toledo

 

Pelo que, depois de várias propostas e réplicas, de parte a parte, se assentou:

 

Ao general Fadrique de Toledo

Entregaremos a cidade com todo seu recheio e seus rebeldes, mas que em nossas pessoas e no que sobre nós temos de pertences, não se bulirá. E, para nós retornarmos às nossas terras nos dê embarcações, algumas armas e mantimentos, que nós pagaremos tudo por seu preço justo. Assinado, o coronel Hans Ernest Kijf

 

Assim, depois de expostos e assinados nove termos de capitulação que garantiriam os direitos dos conquistados e dos conquistadores, no dia 1º de maio de 1625, dia dos bem-aventurados Apóstolos São Filipe e Santiago, se abriram as portas da cidade. Entrando por elas, os exércitos ibéricos bem ordenados se puseram logo a postos nas partes que eram necessários para seu controle. E os holandeses, que eram 1.919 pessoas, entre soldados, marinheiros e políticos, se recolheram nas casas da praia com boa guarda de soldados espanhóis.

Também foram presos os portugueses que aceitaram seus passaportes, fazendo inventário da suas fazendas, como também se fez de todas as riquezas que foram achadas em poder dos holandeses e das mais pessoas que eles entregaram, que foram 600 negros. Uns fugidos de seus senhores para o inimigo com amor da liberdade. Outros, de presas que tomaram em navios, que vinham de Angola. Entregaram também mais seis navios e duas lanchas, porque, ainda que tivessem 21 delas quando as armadas ibéricas entraram na Bahia, já as outras foram queimadas ou metidas no fundo do mar.

Enfim, sobre os mastros do porto, das muralhas e da torre da Sé, as bandeiras holandesas foram abatidas

E se arvorou as bandeiras de Portugal e Castela.

 

***

 

Aos holandeses, Fadrique de Toledo permitiu que levassem tudo o que podiam numa mochila. No fim, os derrotados entregaram 16 bandeiras de companhias e o estandarte, que estava na torre da Sé; 316 peças de artilharia, sendo 40 de bronze, e as mais de ferro; 35 pedreiros; 500 quintais de pólvora em barris; balas, bombas, granadas e outros artifícios de fogo em abundância; 1.578 mosquetes, 133 escopetas e arcabuzes; grande quantidade de cobre em pasta; 870 morrões; 84 peitorais metálicos, grande número de espaldares com outras peças de armadura; 21 quintais de morrão; e todas as fazendas que haviam sido tomadas, tanto das lojas dos mercadores e casas da cidade, como de navios, além de muitas que trouxeram de sua terra.

Gratificou-se a Deus Nosso Senhor o bom sucesso descerrando-se o Santíssimo Sacramento na Igreja da Sé e no Colégio Jesuíta com pregações em ambas as igrejas e procissão solene, a que se acharam presentes todos os generais, capitães, senhores, fidalgos e mais gente da armada. Na Igreja dos Jesuítas se concertou logo o Sacrário e nele se pôs o Santíssimo Sacramento primeiro que nas outras igrejas, um ano depois de serem retirados do mesmo lugar, quando saindo da cidade o Bispo Dom Marcos e o noviço Antônio Vieira o levaram consigo.

Frei Vicente Palha estava em júbilo em ver que, nos púlpitos onde os holandeses pregaram heresias, se tornava a pregar a verdade da sua fé católica, e onde nos altares que se haviam retirado as imagens dos santos, estas foram colocadas de volta. No entanto, se havia apenas felicidade nos padres, soldados e moradores refugiados da cidade, o mesmo não poderia ser dito de um soldado em particular. As sombras da tristeza pareciam encobrir a face de André Vidal de Negreiros quando sua visão encontrou a jovem menina de quinze anos que o beijou três meses atrás.

Seu semblante esmoreceu ao perceber que Ana Paes caminhava para fora do convento dos minoritas abraçada pelo seu noivo Dom Pero.

– Ana?

A imagem do soldado paraibano surgiu aos olhos da bela moça. A resposta dela foi bem diferente da que ele esperou depois de tantos meses apartados. Ana Paes virou o rosto para o lado oposto. Ignorou o rapaz. Aninhou-se mais nos braços do noivo reencontrado.

Fingiu que nem mesmo o viu, deixando-o ali murmurando seu nome.

 

***

 

O jovem André percorreu o caminho oposto, se afastando do casal de noivos. Entrou na cidade reconquistada. Tentou se animar com a vitória que tanto desejava. Quis esquecer o que foi perdido. Esquecer Ana Paes. Esquecer tudo o que viveram naqueles meses juntos. Felizmente, apesar dos seus pensamentos mais fatalistas, o jovem soldado paraibano superou as mágoas mais rápido do que imaginava. Nesta mesma tarde, enquanto caminhava pela cidade reconquistada, algo mágico aconteceu. Ele encontrou algo que mudou por completo a sua vida.

André escutou um estranho som que ecoava num dos becos estreitos da cidade, entre os edifícios das Casas de El Rey.

Era o choro de uma criança.

Ele perseguiu o pranto estridente. Fez percurso até uma parede destruída por alguma bala de canhão. Encontrou uma manta de algodão que um dia fora branca, mas que a sujeira a deixou amarronzada. Estava amarrada num pedaço de pau escorado no que restou da parede para formar uma tenda improvisada. A proximidade foi tornando o choro mais intenso. Lentamente, sua mão tocou a manta encardida, a afastando para a lateral.

– Meu Deus – ele exclamou.

Lá estava uma bebezinha com cabelinhos loiros e olhos azuis. De tanto chorar, as bochechinhas se arroseavam na pele branca. As lágrimas encharcavam sua face. Estava nos braços de uma negra que tentava colocá-la no peito para mamar. No entanto, a negra estava tão magra, com a carne tão corroída pela fome, que provavelmente pouco tivesse se alimentado desde a chegada das armadas, o que já perfazia trinta dias: três de desembarque, vinte e três de cerco, e quatro de negociações.

– Por favor, senhor, nos Ajude… – a negra suplicou.

O soldado retirou o cantil e algumas frutas que trazia em sua mochila. Em seguida, a ofereceu.

A negra partiu a frutinha em suas mãos, oferecendo o primeiro pedaço à menininha. André observou a fragilidade daquela coisinha linda, cujo choro faminto foi acalentado pelo pedacinho de comida. Era tão pequena, que mal conseguia se sentar sozinha.

– De quem é a criança? – André perguntou, observando a notória diferença entre sua raça e a da cuidadora.

– Ela é holandesa – a negra respondeu.

A resposta assustou André.

– Os holandeses transportaram uma criança tão pequena através do Oceano? Estavam loucos?

– A mãe dela chegou grávida a esta terra – a negra explicou. – Infelizmente, morreu no parto. O pai morreu antes, ainda no mar. A criança é órfã desde o nascimento. O nome dela é Charlotte.

André percebeu a bebezinha o olhar de forma curiosa e confusa. Ele sorriu. Tomou-a nos braços. Depois, estendeu a mão para a negra cuidadora, para que ela se levantasse. Só então falou.

– Se ela nasceu nesta cidade, então não é holandesa – disse enquanto tocava carinhosamente sua rosada bochecha. – Ela é filha desta terra, assim como eu. Ela nasceu do Brasil!

A menininha soltou uma gargalhadinha gostosa.

A mente de André entrou em ebulição. As suas últimas frases acenderam uma fagulha de um pensamento grandioso. Mesmo os homens brancos nascidos nas terras deste continente recém-descoberto gostavam de chamar a si mesmo de portugueses e espanhóis. A nomenclatura Brasiliano era usada para denominar os nativos indígenas.

– E, se nasceu no Brasil, não podemos chamá-la de Charlotte – ele continuou. – É um nome horrível. Ela deverá se chamar Carlota agora.

A garotinha, por seus antecedentes holandeses, nunca poderia ser chamada de portuguesa, nem espanhola, muito menos indígena. A mente de André se perguntava: Será que Brasiliano poderia significar algo mais? Seria necessária outra nomenclatura?

Era uma pergunta realmente grandiosa. Mudava totalmente a forma com a qual André estava acostumado a pensar sobre si mesmo. No entanto, embora fosse uma questão que revolveria sua mente pelos anos vindouros, neste momento ele tinha uma preocupação maior.

– Venha comigo – ele falou à negra. – Eu cuidarei da pequena Carlota agora. Levarei ela à minha casa.

 

 

Defensa de Cádiz por Francisco Zurbarán (1598-1664)

 

O Annus Mirabilis

–Ibéricos–

6

1º de Novembro de 1625

Os ingleses desembarcaram mais de dez mil homens na baía de Cádiz para capturar a Frota da Prata. O porto fora construído num dos extremos de um pontal que adentrava o mar. Era como um dedo indicador apontando para o Oceano, na qual a mão era a terra-firme do continente europeu e os navios ancoravam na unha. O líder inglês, Edward Cecil, ordenou o desembarque entre os dois pontos, no meio do istmo que ligava o porto ao continente. Eles interceptariam assim todo ouro e toda prata que fosse levado para a terra firme.

O veterano de guerra espanhol, o velho e manco Dom Fernando Girón, foi enviado às pressas para ajudar o Duque de Medina-Sidônia. Eles dividiram seus quatro mil homens nos principais postos de defesa. Enviou ataques contra as forças de Edward Cecil tanto por terra com sua infantaria, quanto por mar com navios incendiários.

O confronto ocorreu ao terceiro dia, cujo resultado foi anunciado por um mensageiro que logo chegou a Madrid.

– A Frota da Prata está salva!

Foi um massacre. As forças de Edward Cecil deixaram a Inglaterras às pressas para alcançar a Frota de Prata em seu percurso. Os navios foram mal abastecidos, numa situação agravada pelas tempestades no caminho. Não havia comida o bastante para todos e muitos dos mosquetes trazidos não funcionaram. Culpou-se fortemente a inapropriada checagem antes do embarque.

Edward Cecil era um bom soldado, mas não tinha o necessário para ser um general. Nem conseguiu impedir os amotinados, nem controlar seus homens quando estes encontraram dezenas de barris de vinho nos armazéns do porto. Grande parte já estava embriagada no confronto contra os espanhóis. Os ingleses perderam sete mil homens na batalha.

No quinto dia de combate, o comandante inglês ordenou a retirada. Todos embarcaram de volta aos seus navios. Partiram de Cádiz ao sétimo.

– Nós vencemos! Os ingleses bateram em retirada! – O mensageiro gritou jubilosamente, emanando excitação e felicidade.

– Que bom… – Olivares respondeu desanimado e cabisbaixo. – Obrigado, por trazer a notícia com tanta presteza.

A reação do Conde-Duque foi bem diferente do que se esperava. O mensageiro ficou parado, vendo sua total inação e tristeza. Talvez não tivesse entendido bem a mensagem, sua mente procurava uma explicação, mas este foi logo dispensado.

– Pode ir agora, apenas me deixe sozinho – o Conde-Duque falou mantendo o mesmo semblante anêmico e a mesma lânguida voz.

 

***

 

O Reino Ibérico ficou em festa. As celebrações ocorriam em todas as cidades, com uma população em júbilo, bebendo e comendo em banquetes. Logo, chegou também, de sua vitória no Novo Mundo, o grande general Fadrique de Toledo e todos vassalos de El Rey pelos portões cidade de Madrid. Seu desembarque foi festejado com todas as pompas de um herói. Em meios aos gritos extasiados da população, abriu-se caminho para sua passagem até a praça da cidade, onde a comemoração continuaria ainda mais efusiva.

Os vassalos que desembarcaram no porto de Cádiz vieram acompanhados do Duque de Medina-Sidônia e de Dom Fernando Girón. Estes também receberam as mesmas heroicas aclamações. O Duque de Medina-Sidônia, em especial, entrou glorioso numa vitória contra os mesmos inimigos que arruinaram o nome de seu pai e de sua família. As imagens do general Spinola também não deixaram de ser homenageadas. Todos aguardavam sua chegada de Breda, anunciada pelos mensageiros reais.

Pinturas comemorativas foram encomendadas aos mais talentosos artistas do Reino para retratar as vitórias da Bahia, Breda e Cádiz. Orações e sermões de agradecimento foram proferidos em todas as igrejas com louvor por tantas vitórias contra os hereges. O ano de 1625 recebeu uma augusta denominação, pois ficou conhecido como o Annus Mirabilis. O ano maravilhoso. O ano em que a Espanha recuperou a reputação perdida e se firmou outra vez como a maior potência econômica e militar da Europa.

No entanto, enquanto o povo comemorava, o Conde-Duque caminhou apressadamente pelos corredores de El Alcázar até os aposentos de El Rey.

– Bom dia, Majestade.

Logo chegou frente aos aposento de El Rey. Abriu a porta com a mesma pressa que caminhava. Atravessou-a, já convocando Sua Majestade.

– Senti sua falta na reunião desta manhã – ele falou.

O entrar abrupto do volumoso ministro fez duas pessoas sob as cobertas reais se movimentarem agitadamente para esconder seus corpos nus.

– Desculpe, Majestade, não percebi que estava acompanhado.

Com os luxuosos lençóis de seda e linho agora escondendo seus corpos, as cabeças de El Rey e de Maria Calderón surgiram.

– Deixarei o aviso aos guardas para não acontecer outra vez – Sua Majestade respondeu. – Mas o que lhe traz aqui tão cedo?

– Temos que nos preparar para a reunião da tarde, meu senhor.

O jovem monarca manteve um olhar preguiçoso ao Conde-Duque. Ele jogou os lençóis para o lado, deixando apenas sua amante escondida sob eles. Caminhou nu, despido das suas majestosas roupas até tocar no ombro do ministro.

– É tempo de comemoração, Olivares – ele falou. – Aproveite!

– Mas, senhor – o Conde-Duque se manteve irredutível. – Os holandeses ainda dominam as Sete Províncias e estamos tendo problemas com ataques constantes das tropas francesas em nossas fronteiras italianas.

– Pare um pouco, Olivares – El Rey o interrompeu. – Esses são problemas para outro dia. É toda uma nova história.

– Mas, Majestade… – o Conde-Duque tentou voltar ao assunto.

Não obstante, o franzino monarca continuou.

– Pelo amor de Deus, Olivares, tire alguns dias de folga. Sua filha morreu há pouco tempo. Fique com sua esposa. Tente colocar sua cabeça no lugar.

O dedo indicador tocou o peito gorduroso do ministro, no local onde estaria o seu coração.

– Sei que as coisas não estão boas aí dentro – por fim, proferiu.

Um peso pareceu cair sobre os ombros do Conde-Duque.

– Não posso parar, Majestade – o ministro desabafou. – Não sei o que será de mim se eu parar. Não sei se conseguirei retornar de tão grande abismo se me deixar cair. Preciso continuar meu trabalho.

– Tem certeza disso? – o Filipe perguntou.

O Conde-Duque só assentiu com um balançar da cabeça. O jovem rapaz conviveu tempo o bastante com seu ministro para reconhecer o peso nas entrelinhas de seu semblante. Era quase um pedido de ajuda.

– Entendo – o monarca disse, sendo incapaz de mensurar a tristeza do ministro. – Desta vez, não participarei das nossas reuniões diárias – ele continuou. – Pode tomar toda e qualquer decisão em meu nome. Aceite a função de Valido, eu lhe peço.

A palavra Valido cabia bem na relação entre o Conde-Duque e El Rey. Significava O Homem de Maior Valor para Sua Majestade, seu braço-direito, seu representante.

– Vossa Majestade é o grande El Rey Filipe da Espanha – o Conde-Duque argumentou. – Já discutimos isso, o senhor não precisa de um Valido.

– Talvez realmente não precise, mas imploro que assuma a função. Não entregaria este cargo a mais ninguém.

O Conde-Duque se curvou em reverência ao menino franzino na sua frente, cuja personalidade moldou em dez anos de convivência. El Rey tomou os passos de volta a sua cama, onde Maria Calderón ainda o esperava debaixo das cobertas. Estava comovida pelo que o rei e o valido representavam um para o outro, quase pai e filho, certamente mestre e discípulo.

Antes que El Rey se entregasse aos prazeres luxuriosos de sua deliciosa amante, falou com cenho honesto.

– Vá, Olivares. Tome as rédeas do Reino, só confio em ti para guiá-lo!

 

***

 

Dias depois, o Conde-Duque estava sentado nos seus novos aposentos. Ele recebeu o escritório destinado aos Validos anteriores e ao Triunvirato que fora dissolvido. Localizava-se na bela Torre Dourada, decorando-o a seu gosto. Era tão largo que couberam tabuleiros de jogos, cristaleiras com taças, adegas de vinho e uma acolchoada poltrona, confortável e larga o bastante para caber seu volumoso corpo. Atrás desta poltrona, estava uma pintura de Sua Majestade, El Rey Filipe da Espanha, emoldurada em madeira nobre e folheada a ouro.

Na antessala e nos corredores próximos, pinturas de loucos e bufões foram colocadas nos corredores. O Conde-Duque viu a queda de muitos poderosos nesta última década em que esteve em Madrid. Foi responsável pela desgraça de muitos deles. Sabia bem como a vaidade e o orgulho transformava homens em piadas sem graça de si mesmos.

No entanto, antes de assumir o cargo, ainda tinha um último problema a resolver. Era o Duque de Bragança, que atravessou essas pinturas, até chegar ao escritório do mais novo Valido de El Rey.

– Eu sei que é o culpado pela morte o Dom Juan de Tassis y Peralta!

O duque português bradou.

– Encontrei os papéis que revelam os ilícitos pagamentos feitos pela Fazenda Real aos assassinos do Conde de Villamediana.

Dom Teodósio estava exaltado. O Conde-Duque, por outro lado, nem mesmo se deu o respeito de erguer a cabeça, continuou examinando os mapas das fronteiras entre a França e a Itália.

Apenas soltou um suspiro de tédio.

– Ah, meu caro Teodósio – ele respondeu com voz calma e cheia de desdém. – Então Vossa Excelência pensa que uns papeizinhos que encontrou nos arquivos da Fazenda Real vão me abalar?

– A justiça sempre prevalecerá, assassino! – Dom Teodósio gritou mais alto, tentando encobrir a voz contrária.

O balançar de cabeça do Valido continuou com ares de desprezo.

– Pensa mesmo que cairei tão facilmente – Olivares se levantou, fitando os olhos do seu acusador. – E pelas mão de um Bragança? – ele sorriu desdenhosamente. – Logo de um Bragança?

Uma ferida do passado se abriu no duque português quando ouviu o nome de sua família ser proferido em tom de tamanho desprezo.

– Venci as forças do stadthoulder holandês. Humilhei o monarca inglês. Todos os que ousaram me derrubar caíram diante de meu poder. Pensa que devo lhe pedir perdão? Creio que esteja me tomando por senhor da Casa errada. São os Bragança que tem o costume de se ajoelhar e abdicar de seus direitos.

A voz do Conde-Duque continuou monocórdica. Este nem se dignou a olhar o duque português.

– Eu sempre soube que Vossa Excelência tinha posse desses documentos da Fazenda Real para me derrubar desde muitos meses. Eu sempre soube dos seus conluios com a Rainha para trazer desgraça ao nosso Reino.

O Conde Duque continuava a analisar os mapas como se este fosse o único assunto merecedor de sua atenção nesse momento, mas o conhecimento sobre tudo que ocorria no palácio e fora dele fizeram o Duque de Bragança recuar.

– Eu sempre soube de tudo!

Um simples bater de palmas ecoou o aviso para o lado de fora do escritório. Os guardas palacianos abriram a porta do escritório, adentrando o local. O Conde-Duque manteve seu olhar fixo em Dom Teodósio.

– Eu ergui este Reino à grandeza que ele sempre mereceu! – O Conde-Duque só levantou as pálpebras para lançar um olhar cansado ao duque português. – Entenda, Dom Teodósio! Eu sou o Conde-Duque de Olivares! O homem mais poderoso do mundo! E nunca, nada, nem ninguém, me derrubará!

O Duque de Bragança lançou um passo atrás. Esbarrou suas costas nos guardas palacianos. Sentiu-se encurralado. Percebeu que o Conde-Duque era agora poderoso o bastante para mandar prendê-lo por calúnia, inferir alguma multa impagável ou até mesmo condená-lo a morte. Mas não. Viver em humilhação era um castigo mais adequado ao Dom Teodósio.

O Conde-Duque olhou-o sardonicamente.

– Guardas! Levem esse lixo para fora do palácio! – por fim, proferiu enquanto apontava para o duque português.

Dom Teodósio sentiu o peso de sua insignificância perante o novo Valido de El Rey.

 

***

 

O Duque de Bragança deixou o escritório, por completo humilhado e derrotado. Só quando este sumiu de sua visão, foi que o Conde-Duque deixou seu pesado corpo cair sobre o acolchoado de couro. Por fim, suspirou. Enfim o ano estava prestes a terminar. Tudo aconteceu conforme o planejado. A economia estava sobre controle. O Reino restaurou sua reputação. O monarca espanhol se tornou grandioso.

– Tudo aconteceu conforme o planejado.

O Conde-Duque proferiu essas palavras para si mesmo. Faltavam nelas a esperada convicção. Contrariando seu conteúdo, a larga mão tocou o pingente em seu pescoço. Ele quase esquecera que estava ali. Removeu-o, puxando o cordão que o prendia. Acariciou a peça de ouro maciço, cuja dobradiça na lateral revelava haver algo em seu interior. O Conde-Duque abriu-a ao meio, fazendo surgir um pequeno desenho de sua filhinha Maria, de quando esta tinha pouco mais de doze anos de idade.

Seus dedos tocaram a imagem dela. Vieram os arrependimentos de não ter participado mais de sua vida. Vieram as conversas que partilharam juntos, que agora pareciam tão poucas. Vieram as lembranças de seu nascimento, crescimento e casamento. Lembrou da cena da menininha linda penteando sua boneca. Esta seria a primeira e a única vez em sua vida que lágrimas de tristeza cairiam  de sua a face.

Afinal, Olivares era sim o homem mais poderoso do mundo, mas nem todo o poder do mundo seria capaz de trazer sua filha de volta.

 

Navio Espanhol por Claes Claesz. Wou (1592–1665)

O Tempo das Despedidas

–Brasileiros–

9

 

4 de Agosto de 1625

As Armadas de Castela e Portugal despediram-se dos conventos, dando a cada um 200 cruzados de esmola para ajudar a reparação das paredes, que como serviram de baluartes e trincheiras, ficaram muito danificadas. Com isto, pedindo que lhe encomendassem a Deus a viagem, o general Fadrique de Toledo embarcou a 25 de julho de 1625, dia do bem-aventurado Apóstolo Santiago, patrão de Espanha, embora não pôde sair da barra senão a 4 de agosto por razão de ventos contrários.

Infelizmente, uma tormenta impediu as Armadas de Portugal e de Castela de alcançar Pernambuco, onde Matias de Albuquerque estava os esperando com muito alvoroço. Lamentou especialmente por Dom Duarte de Albuquerque, Senhor de Pernambuco, não poder ver suas terras. Assim, os navios começaram a se apartar, cada um para onde força da tempestade os levava. Algumas as embarcações retornaram a Salvador, outras alcançaram o Caribe, poucas fizeram escala na África e uma naufragou à altura da ilha de São Jorge que era a nau almirantada portuguesa.

Só o Conde de Bagnuolo, Dom Giovani Vincenzo, escapou do mau tempo por ter se adiantado das armadas. Chegou à Olinda com suas forças de Nápoles para auxiliar contra os índios rebelados da Baía da Traição.

– Estamos a apenas três jornadas do local.

Matias de Albuquerque anunciou o seu destino. O Conde de Bagnuolo escutou com alívio a constatação, principalmente, depois de marcharem pelo sertão, onde padeceram grandes fomes e sedes. Aconteceu até de andarem três dias sem acharem água para beber.

Desesperados de todo o remédio humano e esperando só na intervenção do bem-aventurado Santo Antônio, cuja imagem levavam consigo, começaram a invocá-lo uma tarde e cavar na terra seca pedindo que lhes desse água. Foi uma coisa maravilhosa, que a poucas enxadadas saiu em tanta quantidade, que todos os do alojamento muito se abastaram àquela noite e ao dia seguinte, enchendo suas vasilhas para caminharem. Por esta razão, mal esperavam chegar ao local da revolta. Todos desejavam resolver logo o problema indígena.

– Mais algumas milhas e estaremos lá – Matias completou

O conde italiano olhou para trás. Observou as forças que os seguiam. Matias de Albuquerque preveniu cem juntas de bois com carros para tirar a artilharia, mil guerreiros tabajaras da Paraíba e mil soldados brancos de Pernambuco; que, com os mais da armada de Fadrique, eram o bastante para conseguir seu intento.

– Estou impressionado com as forças aqui reunidas, Dom Matias.

– Estou com essas forças preparadas há meses – o capitão-mor respondeu. – Se El Rey tivesse me permitido ir à Bahia, eu mesmo a teria reconquistada. Não entendo por que Sua Majestade não me deixou tentar.

O napolitano tocou o ombro do companheiro. Então, revelou.

– Tenho certeza que a Jornada dos Vassalos era mais necessária a El Rey que à própria Bahia!

A explicação do Conde de Bagnuolo trazia mais verdades do que Matias, por tanto tempo tão distante do Reino, era capaz de compreender. No entanto, antes do capitão-mor proferir uma resposta, uma visão surgiu no horizonte. Eram centenas e mais centenas de guerreiros indígenas que se contrapunham no monte à sua frente.

O elevar da mão de Matias interrompeu o passo de suas forças.

– São os Potiguares!

Ambos estavam diante das forças rebeldes da Baía da Traição. A ordem de preparar as armas foi proferida. No entanto, antes que pudessem manifestar algum ataque, uma trombeta tocou. Daquelas centenas de índios do outro lado do pequeno vale que os separava, um grupamento com pouco mais de uma dezena de guerreiros, montados em suas cavalarias, se destacou do exército principal.

Quando próximo o bastante, um jovem indígena, nos meados de seus vinte anos de idade, desceu de sua montaria. Carregava um saco de couro negro nas mãos.

– Matias de Albuquerque!

O líder Potiguar convocou o capitão-mor de Pernambuco, falando em perfeito idioma ibérico.

– Sou o filho do Camarão Grande, maior de sua comarca, que exatos vinte e cinco anos atrás firmou a paz com portugueses e espanhóis e depois expulsou os franceses no Maranhão.

Por fim, concluiu.

– Meu nome é Felipe Camarão!

O principal da tribo Potiguar arremessou o saco de couro em suas mãos. Este caiu poucos metros a frente do capitão-mor de Pernambuco, liberando seu conteúdo. Uma cabeça decepada rolou pelo chão arenoso do local.

– Esta é a cabeça de Tiguaraçu, irmão do meu pai, que maldosamente faltou à fidelidade e ao serviço de El Rey. Tendo ele se rebelado com alguns da minha nação, fui pelejar contra eles com minha pessoa e gente. Eu o rompi, o desbaratei e o matei por minha própria mão.

O capitão-mor observou a cabeça.

– El Rey ficará grato pela fidelidade e pelo bom serviço do novo líder Potiguar –  então respondeu.

Mal terminou de falar, os guerreiros potiguares que o acompanharam, já desmontados de suas montarias e postados atrás dele, começaram a empurrar dois outros indígenas que tinham os pulsos amarrados às costas.

– Só lamento informar que o filho de Tiguaraçu, meu primo Pedro Poti, o líder guerreiro que mais dano causou aos portugueses, conseguiu escapar. Embarcou nos navios holandeses para fugir de nós. Desapareceu no horizonte oceânico.

Um gesto de mão do líder Potiguar fez seus guerreiros arremessarem os dois prisioneiros aos pés do capitão-mor Matias de Albuquerque, bem de frente à cabeça decepada do rebelde Tiguaraçu.

– Esses são Jaguaribe, meu outro tio, e Cipoúna, principal dos Tapuia. Ambos são líderes de suas tribos que auxiliaram os rebeldes na contenda. Considere-os presentes meus para vossa mercê.

– Outra vez, agradeço em nome de El Rey –Matias de Albuquerque disse, estendendo seu braço à frente.

As mãos dos líderes se apertaram com firmeza.

– Que a paz entre portugueses e potiguares continue para sempre – eles disseram um para o outro.

Enfim, o líder Potiguar voltou-se à sua montaria. Montou-o novamente. Retornou para sua gente.

Quando enfim as forças potiguares desapareceram no horizonte, Matias pôde tranquilamente dar às ordens aos seus homens.

– Voltemos a Pernambuco agora. Este problema já está resolvido!

E assim todos partiram.

 

***

 

Os padres da Armada e do Arraial ficaram horrorizados ao descobrir que, durante o governo holandês, o Colégio dos Jesuítas foi entregue aos mercadores. E, se o Colégio lhe servia de loja de mercancias, a Igreja lhes servia de adega, só para depois que os vinhos se acabassem servirem de enfermaria. Da mesma maneira estavam profanadas todas as outras igrejas da cidade, porque a igreja do nosso seráfico padre e ermida de Nossa Senhora da Ajuda serviam aos holandeses de armazém de pólvora e armas, e no dormitório morava um capitão com sua companhia de soldados. Os mesmos clérigos disseram que como estavam estes prédios infeccionados dos hereges, os padres e irmãos adoeceram quase todos depois que retornaram a eles.

Apenas na Sé os holandeses pregavam e enterravam os capitães mortos, enquanto os mais eram enterrados no cemitério do Rocio, que fica defronte dos padres da Companhia de Jesus. Os clérigos portugueses e espanhóis sentiram a necessidade de violar suas sepulturas por não aceitar que corpos hereges fossem enterrados em solo católico. Isso foi algo que todos os holandeses sentiram muito, por ver desenterrarem dois de seus coronéis e outros capitães, que ali estavam sepultados. Também foram enforcados quatro portugueses considerados traidores e seis negros que se confederaram com os holandeses depois que uns e outros foram ouvidos e julgados pelo auditor-geral.

Depois da partida das armadas de Portugal e Castela, foi a vez do soldado André Vidal de Negreiros voltar à sua terra-natal. Ele tinha ao seu lado a bebezinha de origens holandesas que adotou e sua negra cuidadora. Os três embarcavam na caravela de Jerônimo Cavalcanti quando a voz de Ana Paes surgiu em suas costas.

O soldado voltou o olhar. Observou a moça se aproximar. Quando bem próximos, a respondeu em gélidos tons vocais.

– O que está fazendo aqui, Ana? – ele falou mordendo o lábio. – Pensei que tivesse tomado sua decisão!

– Não posso deixar que parta sem nos despedirmos.

Ele olhou para um lado vendo muitas pessoas entrando na caravela. Olhou para o outro vendo a escrava negra com a bebezinha. Hesitou por um segundo. Pensou. Então falou à negra.

– Vá à frente. Embarcarei logo depois.

A negra balançou a cabeça em afirmação. Ajeitou a menininha no seu colo. Atravessou a ponte que conecta o deque do porto ao convés da embarcação. Quando longe o bastante, Ana Paes retomou.

– Queria agradecer tudo o que fez por mim. Eu não sei o que seria de mim sem sua companhia neste tempo difícil.

A moça tentou continuar, mas foi logo repreendida.

– Por quê, Ana? – André elevou o tom de voz. A moça baixou a cabeça sem resposta. Não obstante do silêncio, a voz do soldado acresceu. – Por acaso, ama Dom Pero? – continuou mais indignado.

Ana manteve a calma na voz quando proferiu sua resposta.

– Dom Pero foi o noivo que meu pai escolheu para mim. É um bom homem. É a melhor opção para o futuro de minha família, para a herança de meus filhos.

– E o que nós sentimos um pelo outro, Ana? Será esquecido?

– Pelo amor de Deus, André – ela o admoestou. – O que é que nós sentimos um pelo outro?

– Por que não me diz, então? – Não satisfeito, André rebateu pergunta.

A bela jovem de quinze anos de idade baixou a cabeça. Os olhos caíram ao chão. Ela ficou emudecida por um tempo, hesitante em suas palavras, perdidas nas recordações que juntos tiveram na casa de palha, na cachoeirinha e nas praias do rio vermelho. Enfim, respondeu à pergunta do soldado.

– Eu gosto de ti, André – ela suspirou. – Ao teu lado, consigo conversar, consigo me abrir, posso ser honesta. Ao teu lado, consigo rir. Era tudo o que eu precisava quando estava no pior momento de minha vida. E, por tudo isso, eu te agradeço.

Uma lágrima caiu dos olhos da moça.

– Infelizmente, chegou o momento de tomarmos caminhos diferentes. Chegou a hora de eu tomar o meu próprio caminho.

Os dedos de André tocaram o queixo de Ana Paes, primeiro, lhe enxugando a lágrima derramada. Depois, fitou seus olhos verdes.

– E aquele beijo não significou nada? – Seu tom de voz decaiu.

– Significou mais do que imagina – ela sorveu suas lágrimas. – Sempre será meu primeiro amor.

Os olhos dela escaparam à lateral.

– Tenha uma boa viagem de volta, André – por fim, falou bem decidida.

Ela o beijou na bochecha, bem próximo dos lábios, mais próximo do que seu desejo e seu coração eram capazes de suportar, antes de enfim se apartarem. O soldado ainda se manteve imóvel e solitário, por um longo tempo, vendo a moça desaparecer na multidão. Então, tomou o caminho de volta à caravela, atravessou a ponte e se postou ao lado da negra e da bebezinha.

– Adeus – ele moveu seus lábios, proferindo palavras inaudíveis, ao observar a moça pela última vez.

E assim a caravela partiu levando-o embora da Bahia.

 

 

Continua em…

Guerra de Pernambuco

 

Vista de Olinda e Recife

 

 

Epílogo

–Brasileiros–

18 de julho de 1627

Dois anos se passaram desde que os holandeses entregaram a rendição da cidade de Salvador e André Vidal de Negreiros já estava novamente apaixonado. Este novo amor no entanto era bem diferente de todos os anteriores. Estava no sorriso de uma inocente garotinha de quase três anos de idade, cuja tez era branca como açúcar e os cabelos loiros como o ouro. Ele compartilhava com ela esse belo dia ensolarado, sem nuvens, brincando nos campos verdejantes, cheios de flores, de um engenho nos arredores de Olinda.

– Onde está minha Carlota? – dizia em tom de brincadeira.

Detrás de uns pés de cana de açúcar, uma risada safadinha e infantil revelava onde a menininha se escondia.

– Onde está?

As novas palavras, entoadas de maneira divertida, fez as risadinhas se exaltarem. Ficaram ainda mais notórias quando André passou do lado daquela plantação, de costas, fingindo não saber onde estava a menininha.

De repente, se virou, dizendo:

– Achei!

Falou já lhe fazendo cócegas. As risadas foram ainda mais alegres.

– De novo, papai – a menininha risonha lhe requisitou.

– Tá bom, vou contar até dez?

O soldado, veterano das guerras da Bahia, nunca esteve tão feliz em todos os seus vinte e dois anos de vida. Estava tão entretido naquelas lúdicas brincadeiras que nem percebeu a chegada de um homem.

– Bom dia, André.

Era o capitão-mor de Pernambuco, Matias de Albuquerque, cujo semblante era sereno embora uma pontinha de preocupação ainda era percebida naqueles olhos pungentes e semicerrados.

– Bom dia, capitão-mor – o soldado fez a mesma reverência.

– Sabe o porquê de eu estar aqui, não sabe?

– Eu sei, senhor.

O semblante de André Vidal, antes tão feliz, subitamente esmoreceu. Olhou sua pequena filhinha adotiva, que pressentindo algo ruim, também fechou o cenho.

O capitão-mor continuou.

– Eu o vejo tão bem aqui, André. Tem certeza quanto sua decisão?

– Tenho sim, senhor. Eu irei com o senhor para o Reino.

Houveram muitas razões para a decisão de André Vidal em deixar Pernambuco. Era sua chance de seguir os altos níveis de uma carreira militar. Havia a possibilidade de assumir o cargo de capitão, sob a mercê de El Rey. Liderar seus próprios homens. Buscar louvores e glórias próximas daquelas obtidas pelos seus heróis, como Matias de Albuquerque e Francisco de Moura. No entanto, ainda houveram outras razões, algumas de fundo mais pessoal.

Dias atrás, chegou a notícia da vinda de Ana Paes e Dom Pero à Pernambuco para viver no engenho de sua família: o Casa-Forte. Também veio o anúncio das núpcias do casal. Rumores percorreram a capitania. Disseram que o fidalgo estava tão apaixonado que, a pedido da futura esposa, rejeitara a proposta de ser capitão da vila de Olinda. Almejava apenas a vida de Senhor de Engenho.

Diferente de André Vidal, tudo o que Ana Paes desejava era a paz.

– E quanto a Carlota? – o capitão-mor questionou.

– Ela ficará aqui em Pernambuco com seus padrinhos – André respondeu. – Com dona Joana de Albuquerque e seu esposo Berenguer de Andrada.

Matias de Albuquerque era capaz de sentir a tristeza no rosto do soldado. Era tão forte que quase buscou palavras para demovê-lo da ideia, mas no fim continuou.

– Partiremos em algumas semanas.

Com olhos úmidos, abraçando amorosamente a filhinha, André Vidal de Negreiros assentiu ao capitão-mor.

– O que foi, papai? Por que triste? – a menininha perguntou.

– Papai vai viajar. Passará muito tempo longe.

A tristeza na voz de André Vidal quase o impediu de continuar. Ele abraçou a pequena Carlota fortemente. Tomou o choro de saudade, mas foi logo  acometido por palavras de esperança quando a colocou no braço.

– Mas papai promete que vai voltar!

 

 

Epílogo

Holandeses

 

8 de Setembro de 1628

Depois da rendição da cidade de Salvador e de encontrar tudo desmantelado na baía da Traição, o almirante Piet Heyn retornou à Holanda, onde foi promovido pelos Dezenove Diretores a General. Logo soube da malsucedida expedição dos ingleses para tomar a Frota da Prata. Decidiu realizar sua própria tentativa. Embarcou no dia 20 de maio de 1628 com 23 navios, tendo já partido duas fragatas antes para fazer reconhecimento da região e aguardando outros seis chegarem depois, perfazendo uma armada com o total de 31 navios.

No mês seguinte, chegou ao Caribe em busca de seu alvo, primeiro na ilha de São Vicente, depois por Ilha Branca, Corrientes e Santo Antônio, onde encontraram o Roode e o Pinas, os dois navios que primeiro partiram em reconhecimento. Estes tinham apenas para contar as desventuras que tiveram com os selvagens nativos na Ilha de Granada. Nenhum sinal da Frota da Prata fora encontrado. Estando já há um mês embarcados no caribe, decidiram descansar por dez dias nas Tortugas.

Navegando mais alguns dias pelo mar de Cuba, capturaram uma vela, enviada pelo governador de Havana aos capitães da Frota da Prata para avisar exatamente sobre a presença de Piet Heyn em seus mares. Era a confirmação de que a própria Frota da Prata estava próxima. E não demorou para o general holandês encontrá-la. Por alguns dias, soprou um vento sul que não apenas carregou a armada holandesa, afastando-a de Havana, como também carregou, ao mesmo lugar, os outros seis navios vindos da Holanda que ainda faltavam chegar, enfim completando a armada.

Causou-lhes uma maior admiração quando a Frota da Prata foi carregada pelos mesmos ventos ao mesmo local, caindo bem em suas garras.

– O Altíssimo, em sua determinação divina está nos beneficiando.

Em 8 de setembro de 1628, o general ouviu tiros. Uma barca trouxe a notícia de que o galeão holandês de sua armada, o Witte Leeuw, capturara um navio. Era um navio da Frota da Prata disperso do resto de sua armada. Enfim, ao nascer do sol, foram vistas outras dez velas sobre as quais o general imediatamente aproou.

Nove delas, que estavam a sotavento, foram tomadas pelos botes de abordagem enviadas por Piet Heyn, sem muito custo de seus homens. No entanto, o grande prêmio ainda estava por chegar. Ao meio-dia, estando o vento sul quarta de sudeste, com brisa forte, viram a três léguas distância outros nove navios grandes a barlavento. Eram os galeões cargueiros da Frota de Prata.

– Que a caça tenha início – disse o general Heyn aos seus homens.

Os espanhóis ainda tentaram fugir, voltando para a costa, mantendo seguramente seguidos pela esquadra holandesa. O general Heyn navegou com o vento em popa, mantendo o rastro em seis desses navios que estavam mais a barlavento, pelo que seguiram o rumo da costa molhando a vela. Eles ainda conseguiram entrar na Baía de Matanza, mas acabaram causando sua própria armadilha. O general Heyn, vendo a ação, cessou a caça. Fechou a entrada da baía com sua armada. Tornou impossível a fuga dos espanhóis, fazendo a captura de sua carga como certa.

– Parabéns, Heyn.

Era o almirante Hendrick Lonke, segundo em comando da armada, quem primeiro proferiu as congratulações.

– É agora o primeiro homem a conquistar a Frota da Prata. Acredito que isto lhe fará o pirata mais famoso do mundo.

Criada em 1560, essa era a 68º expedição da Frota da Prata. Até este dia, considerada a mais bem-sucedida expedição regular da história.

– Pouco fiz nesta vitória. Em muitos combates que já pelejei, realizei feitos maiores do que este e deles não fizeram o menor caso.

– Devo dizer que o tamanho do saque é mais louvável que o trabalho para conquistá-lo – Lonck comentou.

O general Piet Heyn sorriu.

Era uma verdades incontestável. Principalmente, depois que chegou a Amsterdã, descobrindo que a avaliação de seu saque se elevou à soma total de 11.509.524 florins de ouro.

– Para mim, o mais importante é o que se fará com todo esse ouro.

O almirante Lonke lançou um olhar curioso sobre a afirmação.

– Pois farei de tudo para convencer os Dezenove Diretores a uma revanche no Novo Mundo contra os malditos espanhóis!

 

 

Epílogo

–Ibéricos–

18 de junho de 1629

O Conde-Duque caminhava pelos corredores labirínticos de El Alcázar, pensando na atual situação do Reino. A mente percorreu Maria Calderón que acabou engravidando de El Rey e foi enviada para outro convento. Depois, os pensamentos passaram para o Duque de Bragança que ainda tentou casar seu filho primogênito com outras grandes Casas italianas como Parma, Modena e Florença, mas as tentativas acabaram convenientemente frustradas. Enfim, se lembrou da Rainha Isabel que já estava grávida novamente apesar da relutância de El Rey em cumprir suas obrigações matrimoniais.

No âmbito militar, as coisas estavam ainda melhores. Fadrique de Toledo, Juan Manuel de Gusmão e Ambrogio Spinola tornaram-se os grandes heróis do Reino com as vitórias em Salvador, Cádiz e Breda. A Inglaterra entrou numa crise financeira tão profunda que o Rei Charles teve que penhorar as joias da coroa e o Duque de Buckingham foi condenado à decapitação pelo seu fracasso em Cádiz.

Para encerrar o Annus Mirabilis, faltava ainda homenagear o mais secreto dos heróis na conquista da Bahia. Era exatamente este espião quem o Conde-Duque esperava na Torre Dourada. Um homem que, embora se mantido nas entrelinhas da história, teve uma atuação fundamental nesta guerra.

– Envenenou o coronel Albert Schouten. Enviou o almirante Piet Heyn para a África. E iniciou um motim para apressar a capitulação holandesa. Além disso, o governador chileno agradeceu muito por ter localizado seus 158 mil escondidos pelo degenerado Willem Schouten.

O Conde-Duque não só aprazou seu fiel espião como também proferiu seu nome ao fim da frase.

– Devo dizer que vossa mercê fez muito mais ao serviço de El Rey do que esperado: Charles de Toulon.

O espião de origem francesa se curvou em agradecimento e respeito.

– Desejo fazer muito mais, Excelência – ele respondeu. – Descobri que os holandeses farão um novo ataque ao Novo Mundo com o tesouro que Piet Heyn saqueou da Frota de Prata desse ano. Quanto ao pirata não se preocupe mais, pois ele não nos causará mais dano. Ele cometeu o descuido de planejar uma viagem sem escolta e eu já contratei mercenários ingleses de Dunquerque para interceptar sua embarcação e livrar a Espanha desse mal.

O soldado francês se aproximou do Conde-Duque para revelar que não se descuidava em sua função. Já tinha todo um plano muito bem estabelecido para sabotar o novo ataque holandês.

– Quanto ao ataque no Novo Mundo, chamam o alvo de Zuikerland, a Terra do Açúcar. Não sei o local exato, mas fui promovido a capitão nesse ataque e meu próprio filho me acompanhará nessa jornada.

Ele abriu um sorriso.

– E faremos de tudo para frustrar os planos holandeses outra vez!